Viver não é para amadores

Ricardo Gondim

Todos vivem em constante tensão. A vida é complexa, paradoxal e plena de riscos – jamais passeio despretensioso. Sem parar, todos marcham responsáveis e, ao mesmo tempo, vítimas das circunstâncias. As estradas escolhidas bifurcam. Uma simples decisão gera desdobramentos mil. Poetas, místicos e filósofos já perceberam: o siso necessário para enfrentar a aventura de viver se ramifica infinitamente. Todo instante, inédito, exige a precisão de um relojoeiro.

Viver não é para amadores. Tudo o que se faz produz ondas.  Semelhantes à pedra jogada no meio da lagoa, escolhas também se propagam em círculos concêntricos. Espalham-se. No caso da pedra, as marolas morrem na margem do lago. Com os humanos, as consequências se alastram para sempre. Ninguém tem o controle dos efeitos de suas escolhas, que se repercutirão eternamente.

Viver não é para amadores. Os pais influenciam os filhos. Tanto bondade como maldade se reproduz nas gerações. Crianças sofrem sequelas de famílias disfuncionais. Muitas, oprimidas e castradas emocionalmente, não conseguem quebrar o ciclo da disfuncionalidade.

Viver não é para amadores. Sem saber organizar desejos, a vida pode se perder em projetos irrelevantes. Sem dar sentido ao cotidiano, a existência pode patinar no tédio. Porém, quais princípios, verdades e valores servem para direcionar o cotidiano? As pressões do dia a dia têm a capacidade de destruir quem não escolhe; contudo, escolher sem cessar, cansa.

Viver não é para amadores. Os indivíduos precisam uns dos outros enquanto se magoam. O próximo pode se tornar fonte de alegria ou de frustração. Os que se isolam, empobrecem. Chega a hora de dizer basta para as decepções. Mas, não é possível resguardar-se do amigo sem perder o viço. Só vive quem não considera o outro a razão do seu inferno. O céu não é fácil, já que se torna necessário relevar as inadequações alheias. Só o longânimo tem chance de ser feliz em um mundo lotado de intolerância.

Viver não é para amadores. A existência se mostra imprevisível. Não há como controlar a história ou situar eventos futuros dentro de qualquer lógica. Por mais que religiosos prometam, filósofos pretendam e sociólogos estudem, a história não se restringe aos trilhos do destino. De repente, sempre de repente, o improvável desaloja os mais criteriosos; nessa hora, teimosia. Não vou desistir!  A viagem rumo ao porvir requer brios até dos tímidos.

Viver não é para amadores. Nunca é fácil equilibrar o lazer com o dever, o ócio com o trabalho. Muito lazer, sinônimo de tédio e muito dever, de estresse. A preguiça acompanha o ócio, e a fadiga, o trabalho. O Eclesiastes avisa sobre o tempo de todas as coisas: “tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou, tempo de cozer e tempo de rasgar, tempo de juntar e tempo de espalhar o que se juntou” – que peso viver entre acontecimentos tão contraditórios.

Viver não é para amadores. Depressão e riso, alegria e tristeza formam a história de cada um. Quem foge da tristeza acaba neurótico, em negação, à procura de um mundo ilusório. Por outro lado, quem não sabe rir termina inclemente, à caça de gente para povoar o seu purgatório.

Viver não é para amadores. O sofrimento do mundo dói muito. Crianças vasculhando monturo de lixo, bombas mutilando, epidemias arrastando milhares para um fim triste. Como achar alegria para celebrar aniversários, casamentos e formaturas? Os que se blindam para não sentir a dor universal sucumbem, cínicos. Já os inconformados com o sofrimento universal são tentados a destilar rancor quando falam e escrevem.

Viver não é para amadores. O tempo passa velozmente carregando tudo e todos. A pior angústia? Ver a areia da ampulheta e o pêndulo do relógio avisando  que o calendário escasseia. Vaidade e megalomania, ladras, espreitam em cada esquina. Alguns não se dão conta que jogam a vida fora. Valorizar o instante parece o segredo onde mora a felicidade, mas ele foge.

Viver, definitivamente, não é para amadores.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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O peso da noção de pecado nas culturas islâmicas

Rui Luis Rodrigues, no Facebook

Entre as muitas reflexões que o belo filme A Separação (foto), dirigido pelo iraniano Asghar Farhadi (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012), despertou em mim, uma tem a ver com a maneira pela qual as culturas islâmicas foram permeadas pela noção de “pecado”. Já se falou e escreveu muito sobre o que representou, para essas sociedades, não terem se beneficiado do fermento crítico da Ilustração (São Voltaire, rogai por todos nós!). Opinião muito eurocêntrica, de fato, e ainda ancorada na ideia antiga e errônea de que os desenvolvimentos da civilização ocidental teriam sido “padrão” e que todas as demais culturas deveriam experimentar seus desdobramentos. Obviamente, não concordo com essa ênfase; mas, como ocidental que sou, não posso deixar de respirar aliviado por ver que, em nossa civilização, os encaminhamentos da história nos conduziram a uma profunda (e benéfica) relativização desse conceito religioso.

O elemento religioso é apresentado no filme com extrema sutileza, como convém a um diretor que trabalha sob as condições específicas de um país onde a voz dos aiatolás é decisiva; não há, portanto, nenhuma crítica direta – mas o expectador atento pode, sem dúvida, lê-la “nas entrelinhas”. No Irã, a religião exerce um peso asfixiante sobre o tecido social.

Boa parte do drama gira em torno do temor que uma das personagens tem de ser “castigada” por fazer algo “pecaminoso”. Para questões cotidianas, ela chega a telefonar a um tipo de aconselhamento especializado em dizer se tal coisa é ou não pecado; a presença dessa casuística mostra como a noção é, naquele contexto, uma construção socialmente densa. (Situação análoga, aliás, à vivida pelo Ocidente a partir da segunda metade do século XVI, quando a ênfase no confessionário – e o trabalho dos jesuítas – geraram toda uma casuística quanto ao “pecado” e um pastoralismo bastante policialesco.)

“Eu tenho medo de que algo aconteça com nossa filha, se eu fizer isso ou aquilo” – é como a personagem do filme expressa, em dado momento, o seu temor. O que não é afirmado, mas se subentende, é o mais grave e triste: o temor dessa fiel que não sai à rua sem seu xador é que Alá mate sua filha (com uma dessas doenças graves que roubam a infância, por exemplo) como represália pelo pecado da mãe.

Como cristão que sou, não posso negar que muitos irmãos de fé relacionam-se com Deus dentro da mesma lógica sombria. Muitos anos atrás li um relato onde um seminarista norte-americano, desesperado, atribuía o tumor cerebral de seu filho de cinco anos ao fato de que ele, pai, era viciado em pornografia. “Deus me puniu”, dizia o pai.

Minha perplexidade talvez seja também a sua: como pode alguém crer que Deus, o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo; o Deus que aparece representado, numa das mais conhecidas parábolas de Jesus, como um pai sempre à espera do retorno de seu filho perdido; como pode alguém crer que esse Deus seja capaz de semelhantes atos? Como pode alguém ter tão distorcida em si a imagem de Deus a ponto de enxergá-lo dessa forma?

Ontem perdi a paciência no Facebook. Alguém postou um desenho infeliz (um “dedo divino” tocando a proa do navio Titanic para fazê-lo afundar) cuja legenda dizia mais ou menos: “É o que acontece com quem zomba de Deus”. Já se falou demais sobre a tal frase, presumidamente dita por ocasião da viagem inaugural do Titanic (“Nem Deus afunda este navio!”). Não sei se essa frase é autêntica; mas sei que tem gente que realmente acredita que o desastre do Titanic, onde centenas de vidas inocentes se perderam, teria sido represália divina por sua “honra” maculada.

Como pode um cristão crer num “deus” orgulhoso, violento e cruel, capaz de tais ações? Como podem as pessoas deixar de perceber que um “deus” que agisse assim agiria contra a própria essência da mensagem do evangelho?

Na fé cristã, felizmente, o peso da noção de “pecado” já foi bem relativizado. Sei que ainda há muitos que, infelizmente, ainda vivem e sentem essa noção na mesma lógica da fiel iraniana do filme. Ainda precisamos crescer muito na compreensão de que o evangelho é libertação, não escravidão; e que Deus, o verdadeiro Deus que se revelou em Jesus Cristo, não coloca tumores na cabeça de crianças para punir as escorregadelas de seus pais.

Conheço pouco a teologia islâmica. Mas creio que, se ainda não começou a experimentar, essa fé irá provar algo como a redescoberta de que “Alá é misericordioso!”; um movimento que, brotando de dentro dessa religião milenar, ajude seus fiéis a perceberem Deus de forma mais humana. Não acredito que o Islã deva ser esticado no leito de Procusto da Ilustração, mas desejo, de todo o coração, que movimentos dessa natureza tornem-no mais afável e acolhedor. Foi o que aconteceu, e ainda está acontecendo, com nossa própria fé cristã; pelo que fico profundamente grato.

dica do Moyses Negrão Monteiro

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