A banda Catedral e o juízo gospel (3)

Há alguns dias reproduzi aqui no Pavablog um capítulo de “Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar“, livro do Ricardo Alexandre. Inadvertidamente esqueci de falar um pouco da trajetória do jornalista.

Ele dirigiu revistas como Bizz, Trip e Época São Paulo e escreveu Dias de luta: rock e o Brasil dos anos 80 (Arquipélago) e Nem vem que não tem: A vida e o veneno de Wilson Simonal (Globo Livros).

Em resposta ao texto, a banda gravou um vídeo,  postado de imediato com o mesmo destaque. Ricardo enviou o texto abaixo e este post encerra a série.

Agradeço ao Ricardo e à banda a oportunidade de lançar luz sobre um episódio emblemático do preconceito e da truculência que regem o comportamento do rebanho em certos assuntos. Esses creio serem grandes (e comuns) inimigos que devem ser combatidos. (SP)

12 considerações sobre o vídeo do Catedral 

Sobre o vídeo “Banda Catedral Conta Toda Verdade”, na posição de “pseudo-jornalista” “mau caráter” ali citado, gostaria de encerrar minha participação na polêmica com 12 pontos de uma tréplica que preparei para o Pavablog:

1. No jornalismo, não existe o nível de objetividade que o público mais ingênuo acredita existir. Quando você está decidindo que um determinado assunto vai ganhar quatro páginas em vez de duas, que o título vai ficar na página esquerda e não na direita, que a foto vai ser um close em vez de uma panorâmica, se vai ter chamada de capa ou não, você já está “editorializando”, está interferindo. O papel de um editor é justamente interferir. Isso não é um crime, isso não é desvio de caráter. Entretanto, como em toda profissão, às vezes ele acerta, às vezes ele erra. A diferença é que o erro do jornalista é divulgado para centenas de milhares de pessoas. Curiosamente, artistas só reclamam da falta de objetividade quando sentem-se diminuídos, jamais quando são destacados entre os demais.

2. O texto “A banda Catedral e o juízo gospel” é o capítulo 31 de um livro de causos, confissões e memórias dos 15 primeiros anos da minha carreira como jornalista musical, entre 1993 e 2008. Os 50 capítulos do livro estão sendo publicados prioritariamente no blog com meu nome no MSN desde abril [http://musica.br.msn.com/blog]. É ridícula a acusação de que eu esteja querendo me promover ou promover livros que já estão na terceira ou quarta reimpressão, uma vez que o espaço é meu, em meu nome, falando sobre mim em primeira pessoa.

3. É patético quando eles tentam desqualificar meu trabalho como jornalista, inclusive recorrendo à técnica infantil do “como é o nome dele mesmo?” e do “alguém me mandou, se não nem teria visto”. Afinal, se eles querem justiça, como dizem, é preciso admitir que ela só foi restabelecida por causa do meu texto. A menos que sua noção de “justiça” se confunda com vingança. Aliás, pensando bem, quem quiser buscar a famosa entrevista do grupo à rádio Melodia FM vai reparar que o repórter Ricardo Pieralini se propôs, já na época, a participar ao vivo, dizendo que o tom do seu texto, cheio de alusões ao inferno e aos clichês do mundo do rock, foi uma tentativa bem-humorada de apresentar a banda ao público secular, e que não imaginava que o público cristão fosse interpretá-lo do jeito que estava fazendo.

4. Coloco a mão no fogo pelo repórter que voltou com a entrevista. Como editor, eu pouco retoquei do texto. Lembro que no final do ano 2000, Pieralini havia se envolvido em polêmica semelhante, com a banda Capital Inicial. O repórter “pescou” numa conversa informal que o grupo de Brasília havia confirmado sua participação no Rock in Rio. Quando a notícia (para a qual ninguém havia pedido off) foi publicada no site, Dinho Ouro Preto veio à público negar, com os mesmos argumentos do Catedral: o de que estávamos mentindo, o de que éramos levianos, de que não tínhamos provas etc. Claro que o festival não queria furar sua estratégia de marketing, e o grupo subiu ao palco do festival carioca, como todos se lembram, meses depois.

5. Artistas falam coisas no calor do momento, se entusiasmam. Integrantes de uma banda falam coisas uns por cima dos outros, tentam parecer simpáticos a repórteres, querem se mostrar bem-humorados e sagazes. E se arrependem depois, e são mal interpretados, e são incompreendidos. Não só artistas, aliás, mas estes parecem ter maior dificuldade em admitir.

6. Em 2001, não era o Catedral que estava no auge. O que estava no auge era o mercado fonográfico brasileiro e a cultura do jabaculê. O que tocava muito no rádio, o que estava “em primeiro lugar no Brasil inteiro” era o que a gravadora negociava para que assim fosse. Quem tem algum interesse nessa história, pode buscar nos capítulos anteriores do mesmo livro, atualmente disponíveis no blog do MSN.

7. O vídeo divulgado no dia 18 de setembro, de intermináveis 40 minutos, mostra o quão confusos e mal articulados eles são. Se desde aquela época tivessem admitido ter dito o que disseram, mas num contexto totalmente diferente e para um público totalmente diferente do público gospel, e que sua declaração foi editorializada e amplificada e usada para o exercício do farisaísmo evangélico, talvez o monstro tivesse sido morto no ninho.

8. A banda tem todo direito de nos achar maldosos. Eu mesmo acho isso, olhando em retrospecto. Não uso os mesmos recursos de edição que usava em 2001, não sou a mesma pessoa que eu era em 2001 e espero olhar do futuro para 2013 e notar que mudei em igual medida. É assustador que uma pessoa vir à público admitir um erro cause tamanho estranhamento entre os cristãos evangélicos brasileiros, quando a confissão, o arrependimento e o perdão são a base do ensino cristão.

9. O Catedral tinha, e tem, todo o direito de se sentir prejudicado. Mas não foi nossa intenção, em nenhum momento, e falo em nome de toda a velha equipe Usina do Som. A intenção foi simplesmente chamar a atenção de um público que não era o da banda, para uma entrevista que julgamos desinteressante e banal. É óbvio, ao menos para mim, que toda a confusão e todo o prejuízo foi causado quando esse conteúdo foi usado pelos doutores da lei com o objetivo de julgar e excomungar.

10. Os integrantes do Catedral compartilham de uma visão distorcida do papel da imprensa, uma visão muito comum entre os artistas brasileiros: o de que os jornalistas musicais, os críticos de música e a imprensa em geral deve “apoiá-los” ou “dar uma força” como se as redações fossem extensões dos departamentos de marketing de suas gravadoras. Atribuo esse pensamento à insegurança típica dos artistas, mas também à pouca intimidade dos brasileiros com a palavra escrita – já que isso não acontece no exterior. Mas essa nunca foi, nem nunca será a função da imprensa cultural. Nosso compromisso é com o leitor, em ajudá-lo a separar o ruim do bom, o bom do ótimo, os impostores dos verdadeiros criadores. Se o tom com o qual fazemos isso é o do rigor acadêmico ou o da sátira, isso é uma decisão absolutamente editorial que o leitor, e não o artista ou seus assessores, vai avalizar ou não.

11. Em seu vídeo, a banda é leviana e igualmente maldosa em diversos momentos. Em especial quando tenta desqualificar a importância do maior site de música da América Latina dizendo que “se tivesse sucesso estava de pé até hoje”. A verdade é exatamente o oposto: o sucesso de público revertia-se em “peso” de banda, em sinal, em custo junto a provedores. Um site com um milhão de assinantes, como era o caso, era uma fortuna que nem a editora Abril conseguia manter. Ou seja, foi justamente o sucesso que o penalizou. Outra leviandade é dizer que o conteúdo foi retirado do ar por medo. Na verdade, o conteúdo foi tirado do ar porque a Usina do Som se esgueirava numa legislação ainda incipiente no Brasil para distribuição de música online legalizada, e precisava da simpatia de todas as gravadoras para funcionar. Mas eu fui consultado sobre o assunto e autorizei a retirada – porque, entre outros motivos, havia entendido que, com todo o erro de expressão e interpretação que o Catedral desencadeou, a cadeia de aproveitadores em cima dele havia ultrapassado todos os limites aceitáveis. E comecei a preparar uma grande reportagem sobre o gospel brasileiro, que infelizmente nunca foi publicada.

12. Eu tentei de todo jeito não entrar nos méritos artísticos do grupo Catedral, e acho que consegui até aqui. Mas é óbvio que a história mostra o caso de inúmeras bandas de fato perseguidas e espezinhadas pela imprensa – o caso dos Engenheiros do Hawaii, Jota Quest ou Cidade Negra no Brasil, o Kiss no exterior, por exemplo – que construíram sua base de fãs dialogando sem o “aval” da imprensa e sendo, muito mais feroz e sistematicamente, perseguidos por ela. O trio tem todo o direito de se achar tão talentoso quanto a Legião Urbana, e talvez seja reconfortante imaginar que todos os seus descaminhos foram de responsabilidade de terceiros, mas é só olhar para as últimas eleições para presidente para entender que a imprensa não tem todo o poder destrutivo (ou construtivo) que eles gostariam que tivessem.

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Um minuto de barulho: 22 músicas dos Beatles

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Postado no Catraca Livre

Todos os dias centenas de vídeos em homenagem aos The Beatles caem na rede e se espalham pela internet. Uma apresentação em particular de covers da banda inglesa merece destaque porque reproduzem 22 canções que marcaram época em apenas um minuto.

Confira a setlist do vídeo e depois dê play:

1. Can’t Buy Me Love
2. Help!
3. Eight Days a Week
4. Come Together
5. Hey Jude
6. Let It Be
7. Eleanor Rigby
8. Yellow Submarine
9. Day Tripper
10. Ticket To Ride
11. Get Back
12. Lady Madonna
13. A Hard Day’s Night
14. Something
15. Lucy In The Sky With Diamonds
16. Penny Lane
17. Hello Goodbye
18. We Can Work It Out
19. I Feel Fine
20. Blackbird
21. Yesterday
22. Ob-La-Di-Ob-La-Da Life Goes On

 

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ONG resgata mais de cem cães caçados em ilha de Marajó, no PA

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Publicado na Folha de S. Paulo

Depois de serem caçados, abandonados e enfrentarem quase duas semanas de fome no arquipélago do Marajó, no Pará, um grupo de 104 cães foi resgatado há cerca de 15 dias e levado às pressas a um abrigo de animais em Belém.

Os cães sobreviveram a uma caçada patrocinada pela Prefeitura de Santa Cruz do Arari, segundo investigação do Ministério Público. O objetivo da medida seria contribuir com a limpeza da cidade.

A prefeitura daria uma recompensa de R$ 5 a cada cachorro que “sumisse”. O prêmio por cadelas era R$ 10.

Imagens de dezenas de animais capturados, amarrados e levados à zona rural da cidade ganharam destaque na imprensa local e nacional. O prefeito foi afastado do cargo, a pedido dos promotores.

Dezenas de cães, segundo os moradores, morreram afogados ou de fome. Os 104 sobreviventes, porém, conseguiram refúgio numa área de população ribeirinha e mata cerrada, a 6 km da área urbana.

O resgate chegou duas semanas depois. Com a ajuda de um barco alugado, integrantes de uma ONG encontraram um cenário desolador de cães magricelos e com sinais de maus-tratos.

Na ilha, os animais ganharam um punhado emergencial de ração antes da viagem de 15 horas até a capital, onde foram vacinados, examinados e medicados.

“Os ribeirinhos são pobres e não tinham como alimentá-los. Eles iam todos morrer de fome”, diz Raquel Viana, dona do abrigo em Belém.

Dos cães resgatados, um morreu e outros quatro seguem internados em clínicas veterinárias.

Entre os acolhidos, “Vovô” é quem mais precisa de cuidados. Quase cego e sem os dentes, precisa ser alimentado com líquidos diretamente na boca.

“Ele é um vovô, mas, quando pego ele pra dar comida, é o meu bebê”, diz a engenheira civil Marilete Sampaio, que há seis anos largou a profissão para dedicar-se ao trabalho com animais.

Antes mantido exclusivamente com recursos próprios, o abrigo tem recebido doações após a repercussão do caso. Uma fabricante doou duas toneladas de ração.

O abrigo também recebeu medicamentos, produtos de limpeza e até jornais velhos, para forrar o local em que os animais estão abrigados.

PORQUINHO

Além dos cães a ONG também resgatou um porco, apelidado de “Ozzy” –referência ao roqueiro Ozzy Osbourne. O suíno também trazia ferimentos nas patas.

“Eu nunca imaginei como seria criar um porquinho, mas ele é tão fofo. É carinhoso, gosta de carinho na barriga. Não tem como não se apaixonar por ele”, afirma Raquel, a dona do abrigo.

Ela ainda não sabe se “Ozzy” é macho ou fêmea nem como ele se juntou aos cães resgatados e embarcou.

A Prefeitura de Santa Cruz do Arari confirmou ter estimulado a população a levar os cachorros da zona urbana para a zona rural, mas informou que não pediu para que os animais fossem agredidos ou exterminados.

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Articulação da bancada evangélica na Câmara é praticamente nula

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Fabiano Maisonnave, na Folha de S.Paulo

A bancada evangélica da Câmara dos Deputados ampliou recentemente a visibilidade ao assumir o controle da Comissão de Direitos Humanos. Mas a aparente demonstração de força esconde um bloco de 66 deputados disperso entre 16 partidos e 24 igrejas, com articulação quase nula em votações.

Contrariando a percepção de que os evangélicos tem uma representação exagerada, o percentual da bancada sobre o total da Câmara (15%), é menor do que a população que se declarou evangélica no mais recente Censo do IBGE, 22,2% -embora tenha mais do que duplicado com relação à legislatura anterior, quando contava com 36 deputados.

Com raras exceções, a atuação da bancada evangélica está longe de ser suprapartidária. Há alguns dias, por exemplo, deputados do bloco estiveram no centro do embate entre governo e oposição por causa da Medida Provisória dos Portos.

O deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG) apresentou uma emenda ao texto original tachada de “Tio Patinhas” pelo também evangélico Anthony Garotinho (PR-RJ). O detalhe é que ambos são da Igreja Presbiteriana.

Garotinho, aliás, já foi processado por Benedita da Silva (PT-RJ), também evangélica, por danos morais. E é rival declarado de Eduardo Cunha (PMDB), ligado à igreja Sara Nossa Terra.

A deputada petista, por sua vez, é historicamente ligada aos movimentos negros, ferozes críticos de Marco Feliciano (PSC-SP), processado por racismo ao dizer que os africanos sofrem de uma maldição bíblica.

Entre as bancadas por denominação, a única coesa é a da Igreja Universal do Reino de Deus: todos os seis deputados federias estão filiados ao Partido da República.

DESTAQUE

O bloco evangélico também tem pouca influência individual. Somente quatro deles aparecem na lista dos cem parlamentares mais influentes do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), órgão de interlocução entre Congresso e entidades sindicais.

Por outro lado, muitos têm problemas com a Justiça: 32 são réus em processos no Supremo Tribunal Federal.

Falando sob a condição de anonimato, um deputado disse que vê três grandes grupos na chamada bancada: o núcleo duro, formado por pastores, como Feliciano; os que costumam aparecer quando convocados, caso de Garotinho; e os que praticamente não participam, incluindo Benedita.

AÇÃO FOCADA

“A Frente Parlamentar Evangélica defende a vida e a família”, diz o deputado e pastor Roberto de Lucena (PV-SP), sobre o escopo da atuação do bloco.

Ele é um dos quatro vice-presidentes da bancada liderada por Paulo Freire (PR-SP), pastor e filho de José Wellington, presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, principal entidade da maior denominação evangélica do país.

Lucena disse que só se lembra de duas votações em que a bancada se articulou.

O endurecimento da lei contra motoristas alcoolizados e o apoio a uma emenda que mantinha a proibição da venda de bebidas alcoólicas em estádios durante a Copa, ambas no ano passado.

No caso dessa emenda, 40 evangélicos apoiaram a proposta, incluindo três peemedebistas, contrariando a orientação partidária.

Lucena é o relator do controvertido projeto que permite psicólogos promoverem tratamento para “curar” a homossexualidade.

Nas comissões, a bancada evangélica é hegemônica só na de Direitos Humanos, presidida por Feliciano: são 7 dos 11 titulares, incluindo os três vice-presidentes.

Colaborou Paulo Gama, de São Paulo

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Ilhas Salomão: o país onde os negros são naturalmente loiros

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publicado na Revista Afro

Nas Ilhas Salomão, cerca de 10% da população nativa, de pele negra, tem cabelo notavelmente loiro. Alguns insulares acreditam que a cor seria resultado da exposição excessiva ao sol, ou de uma dieta rica em peixe. Outra explicação seria a herança genética de ancestrais distantes — mercadores europeus que passaram pelos arquipélagos.

Essas hipóteses, no entanto, foram derrubadas por pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos. A variante genética responsável pelo cabelo louro dos insulares é diferente da que causa a mesma característica nos europeus.

— Este caso acaba com qualquer noção simplória que podemos ter sobre raça — revela o geneticista Carlos Bustamante. — Nós, humanos, somos lindamente diferentes, e esta é apenas a ponta do iceberg.

Bustamante e sua equipe publicaram as descobertas na edição desta semana da “Science”. Eles analisaram amostras da saliva de mais de mil insulares, com atenção especial para um subconjunto, formado por 43 louros e 42 pessoas de cabelos escuros.

Os pesquisadores conseguiram rapidamente identificar um gene responsável pela variação da cor do cabelo. Chamado de TYRP1, ele é conhecido por influenciar a pigmentação nos humanos. Sua variante encontrada nos cabelos louros dos habitantes das Ilhas Salomão não é encontrada no genoma dos europeus.

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