Jesus é um homem; Cristo, uma ideia

Fernanda Torres, na Folha de S.Paulo

Os primeiros capítulos de “Zelota” -do escritor e estudioso de religiões americano-iraniano Reza Aslan- descrevem a Palestina no período em que Jesus veio ao mundo. A multiplicação de seitas entre a população carente, a aceitação dos valores romanos pela elite judaica, a presença ostensiva das legiões no território ocupado e o terror do apocalipse lembram, em tudo, os dias de hoje no Oriente Médio.

Com o avanço das tropas israelenses sobre Gaza, e a Síria embrenhada numa guerra civil sem solução, o paralelo entre a rejeição dos profetas do século 1º à civilização romana e a negação do Islã a se render ao capitalismo global é quase inevitável.

Mas a leitura de “Zelota” fala tanto do conflito entre Ocidente e Oriente naquela estreita faixa do planeta, como também elucida uma outra contenda, em curso aqui, neste sítio que permaneceu Paraíso até 1500 d.C.: a dos direitos sobre a imagem do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro.

Sem revelar nada que não seja conhecido, o autor parte da morte na cruz -punição prevista aos que cometessem crimes contra o Estado- para separar o Jesus histórico da figura de Cristo. O revolucionário, do pacifista.

Contrário à romanização dos hebreus, Jesus ambicionava estabelecer o Reino de Deus sobre a Terra, prometido a Davi por Javé. Para tanto, seria preciso expurgar abastados e sacerdotes subservientes a Roma e bani-la do solo sagrado. Jesus pregava uma revolução.

Ela viria, três décadas depois da crucificação e com trágicas consequências. Em 66 d.C., grupos radicais conquistaram Jerusalém e queimaram os arquivos contendo a dívida do povo. Farta, Roma enviou o general Tito -mais tarde imperador- à antiga Canaã e a varreu do mapa.

Do Templo de Jerusalém, só sobrou o Muro das Lamentações.

As imagens dos bombardeios a Gaza, estampadas nos jornais de hoje, bem ilustrariam a passagem histórica.

O massacre, comparável à invasão babilônica, tornou os sobreviventes avessos aos que defendiam o confronto direto com os Césares. Nesse cenário, surgiu Paulo de Tarso. Paulo afasta Jesus da causa judaica, elimina o caráter territorial do Reino de Deus e converte os gentios. Cristo é criação do letrado Paulo.

Jesus é um homem; Cristo, uma ideia. A quem pertence uma ideia? À humanidade, provaria Paulo. Em três séculos, o Império Romano se renderia ao Nazareno.

Em 2010, as famílias dos engenheiros responsáveis pela construção do Cristo Redentor perderam para a Arquidiocese do Rio de Janeiro, na Justiça, o direito sobre a imagem da estátua. O precedente deu à Cúria poderes para coibir o uso indevido, segundo a Igreja, do monumento. Os distribuidores do blockbuster “2012” sofreram processo e os italianos foram impedidos de vesti-lo com a camisa azul da seleção.

Essa semana, a Arquidiocese liberou o episódio dirigido por José Padilha para a película “Rio, Eu te Amo”, onde o personagem de Wagner Moura, num sobrevoo de asa-delta, acusa o Senhor cara a cara de virar as costas para os problemas mundanos.

A Mona Lisa resistiu aos bigodes de Duchamp; Rodin, se vivo, teria orgulho da multiplicação de charges do Pensador e os punks se apropriaram da cruz. O veto inibe o ícone. Bem fez a Cúria em liberar.

Tratar o Redentor como posse é medir o Reino de Deus em metros quadrados. O convertido Saulo ensina que a mensagem deve circular livre de dogmas e de acordo com seu tempo.

O poder do Templo de Jerusalém era baseado no fato de ali, e somente ali, no Santo dos Santos, ser possível a comunicação com o Altíssimo. Sua arquitetura era voltada para dentro, com muros altos que separavam os milhares de visitantes em pátios internos, um labirinto que se afunilava até a presença divina.

A exclusividade transformou o santuário num lucrativo mercado de oferendas e corrompeu o clero. É o que denuncia Jesus, pouco antes de promover o quebra-quebra que o levaria à prisão.

A natureza do Cristo da Guanabara é oposta. Plantado do cume do Corcovado, basta olhar para o alto para se dirigir a Ele.

Entendo que a Cúria zele pelo Nosso Senhor. Os engenheiros também têm razões para reivindicar seu quinhão, respeitando, é claro, os 60 anos do falecimento dos autores, todos mortais, não sujeitos à ressuscitação.

Mas o imaginário a Deus pertence.

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Bíblia fracassa em dar respostas, diz ex-pastor

EhrmanPublicado por Livraria da Folha

Bart D. Ehrman, ex-pastor e chefe do departamento de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, considera que a Bíblia fracassa em dar respostas para uma questão fundamental: o sofrimento.

A existência do sofrimento no mundo passou a ser um pensamento obsessivo enquanto ele ainda era pastor e comprometido com o cristianismo e com o seu rebanho. Essa obsessão o fez vasculhar a Bíblia.

“Para mim, o problema do sofrimento se tornou o problema da fé”, escreve Ehrman em “O Problema com Deus”. “Algumas pessoas acham que conhecem as respostas. Ou não se incomodam com as perguntas”.

Ehrman aprendeu nas mensagens bíblicas que Deus, por amor, interfere para socorrer seus fiéis em momentos difíceis. Assim, Ele ajudou o povo escolhido a escapar da escravidão no Egito, curou os doentes e alimentou os famintos.

“Onde está esse Deus agora?”, questiona. “Se Deus interferiu para livrar os exércitos de Israel de seus inimigos, por que não interfere agora quando exércitos de tiranos sádicos atacam de forma selvagem e destroem aldeias, cidades e mesmo países inteiros?”

“Por que uma criança –uma simples criança!– morre de fome a cada cinco segundos? A cada cinco segundos.”

No livro, ele analisa as Escrituras e apresenta uma série ensinamentos conflitantes, principalmente na questão do sofrimento, algo que o autor considera uma dos temas mais fascinantes da humanidade e o que o levou a perder a fé.

Abandonar o cristianismo não foi uma tarefa fácil para Ehrman. “Eu fui embora esperneando, querendo desesperadamente me aferrar à fé que conhecia desde a infância e da qual me tornara íntimo a partir da adolescência. Mas eu tinha chegado a um ponto em que não podia mais acreditar”, conta.

“Eu finalmente reconheci a derrota, me dei conta de que já não podia acreditar no Deus da minha tradição e reconheci que era um agnóstico: eu não ‘sei’ se existe um Deus; mas acho que se houver um, ele certamente não é aquele proclamado pela tradição judaico-cristã”.

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Deus e a Copa

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Por Gregório Duvivier, na Folha de S. Paulo

Caros atletas da seleção brasileira, aqui quem fala é Deus. Em primeiro lugar, gostaria de pedir que parassem de me mencionar nas entrevistas. Não tive nada a ver com a derrota de vocês.

Não sei se vocês repararam, mas a seleção alemã fez sete gols -e não dedicou nenhum deles a mim. Era de se esperar. Nunca frequentei um treino. Eu não tive nada a ver com aquilo. Os caras estão treinando há 10 anos. Não mereço crédito -e nem estou interessado nisso.

Esse negócio de agradecer a mim pega supermal pro meu lado. As pessoas veem as cagadas que estão acontecendo pelo mundo e acham que eu estava num jogo de futebol ao invés de estar resolvendo cagadas. No jogo contra a Croácia, soube que o juiz marcou um pênalti inexistente e vocês agradeceram a mim. Pessoal, eu tenho mais o que fazer do que ficar subornando juiz. Meu nome é Deus, não é Eurico Miranda.

Nunca uma seleção brasileira foi tão temente a mim. E nunca um seleção tomou um sacode tão grande. Perceberam o quão pouco eu me importo com a Copa do Mundo?

Pra vocês terem uma ideia, no momento estou num planeta paradisíaco, torrando royalties. Não adianta me chamar que eu não volto. Mesmo que eu me importasse com futebol: vocês acham que eu ia ajudar um time só porque acredita mais em mim? Vocês acham que eu ia prejudicar outro time só porque o pessoal não acredita tanto em mim? Vocês acham mesmo que eu sou carente nesse nível?

Fiz mil anos de análise, pessoal. Vocês não vão me comprar com um pouco de afeto e 10% do salário. A propósito: esse povo pra quem vocês doam o dízimo não está me repassando o valor. Ninguém até hoje sequer me pediu minha conta pessoal.

Se eu fosse vocês, não me preocuparia tanto com essa goleada. Me preocuparia com outros sacodes: no prêmio Nobel, a Alemanha está ganhando de vocês de 102 a zero (tampouco tive nada a ver com isso).

Também não me preocuparia tanto em não transar antes do casamento, David Luiz. Não quer transar, não transa. Mas não diga que sou eu que não quero que você transe. Eu quero mais é que todo o mundo transe, com quem quiser, da maneira que quiser, na posição que bem entender. Transa pra mim.

Despeço-me com uma dica: eu não valho nada, mas o diabo vale muito menos. Não adianta apelar pra Deus enquanto o demônio for presidente da CBF. Vocês têm José Maria Marin, Marco Polo Del Nero, Aldo Rebelo e acham que a culpa é minha?

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Mulher de Felipe Melo comemora por volante não participar de “humilhação”

felipemelo2-1024x612Publicado no UOL Esporte

Roberta Melo, mulher do volante Felipe Melo, usou seu perfil no Instagram para desabafar após derrota do Brasil para a Alemanha nesta terça-feira. Ela chegou a agradecer Deus por seu marido não ter participado deste vexame.

“Durante 4 anos eu não consegui entender o porque do meu marido não estar jogando na seleção brasileira… Jogador de raça, paixão, técnica, força… Tão criticado na última Copa, mas um dos únicos que dá a cara a bater e não se rende em momento algum… Esteve em grande destaque nesses anos e isso não foi suficiente para atrair os olhos do treinador! Clamei a Deus, jejuei por algo que meu coração queria, mas mesmo não tendo alcançado este meu desejo, jamais deixei de agradecer e glorificar o meu Deus maravilhoso!!! Hoje tive a resposta que precisava….Deus não permitiu que ele estivesse passando por essa humilhação!!! E eu quero agradecer ao meu Senhor por essa resposta, por esse cuidado!!! O senhor é fiel…esse é meu testemunho!!!”, escreveu.

Felipe Melo foi titular na Copa de 2010 e chegou a ser expulso no duelo contra a Holanda, pelas quartas de final do Mundial. O volante recebeu o vermelho após entrada dura em Robben.

Nesta terça-feira, o Brasil perdeu a vaga na decisão da Copa do Mundo após sofrer uma goleada por 7 a 1 para a Alemanha. O time de Felipão volta à campo no sábado na disputa de terceiro e quarto.

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“No céu, todo mundo trabalha”, diz menino que inspirou “O Céu É de Verdade”

ceu1Publicado por Roberto Sadovski

Colton Burpo atende ao telefone com voz grave. Aos 15 anos, ele não é mais o garotinho que fica na memória após uma sessão de O Céu É de Verdade, drama de inspiração cristã baseado em uma experiência que ele teve aos 4 anos de idade. Em 2003, um apêndice perfurado o levou a uma cirurgia de emergência arriscada. Quando estava na mesa de operação, Colton diz que deixou seu corpo, viu seus pais em outros pontos do hospital e foi levado ao Céu, ao paraíso cristão, por Jesus. Conheceu sua irmã que morreu antes de nascer, conversou com seu bisavô, teve um vislumbre da vida do outro lado… e voltou para contar a história. “O Céu é como a Terra, todo mundo trabalha, todo mundo tem uma função”, explica, ao telefone. “Só que tudo lá é mais bonito.”

A história de Colton, narrada em fragmentos para seus pais, o pastor Todd e sua mulher, Sonja, causou problemas em sua comunidade, a pequena Imperial, no estado de Nebraska. Muitos tomaram por alucinações na mesa de cirurgia. Outros, pela vívida imaginação de uma criança de 4 anos. “Eu mesmo duvidei de minha própria fé”, confessa Todd. “Mas ele contou coisas que ninguém sabia, descreveu pessoas e situações com uma riqueza de detalhes que ele não poderia inventar.” A história se tornou um livro, publicado em 2010. Hollywood não ignorou as vendas e o enorme público-alvo em potencial, e O Céu É de Verdade, com Greg Kinnear no papel de Todd Burpo, materializou-se pelo diretor Randall Wallace (Fomos Heróis). O resultado foi um arraso: o filme faturou 90 milhões de dólares, um sucesso absoluto.

A verdadeira família Burpo, à época da publicação de O Céu É de Verdade
A verdadeira família Burpo, à época da publicação de O Céu É de Verdade

“É bizarro e assustador ver sua história ser interpretada por outras pessoas em um filme”, conta Todd, sempre bem humorado. “O livro é nossa visão do que aconteceu, já o filme conta sua própria história.” Em outras palavras, Hollywood dramatizou um recorte da vida da família Burpo e a experiência de Colton. Apesar de estar descrito em várias obras literárias, inclusive a própria Bíblia, o Paraíso cristão é, para muitos, uma metáfora, uma demonstração poderosa da força do simbolismo religioso. Não para Colton. “Eu ainda lembro de tudo claramente”, conta, tímido. “Sentei no colo de Jesus, conheci meu bisavô. Eu sei o que vi e o que vivi”. E como a descrição de Hollywood se compara com o que ele testemunhou? “Ah, eles fizeram um trabalho bacana.” Todd acrescenta: “A primeira vez que eu vi Connor Corum, que interpreta Colton aos 4 anos, foi como se estivesse vendo meu filho. Eles recriaram alguns dos momentos mais difíceis de minha vida.”

Difíceis. Igualmente fantásticos. Para quem não compartilha a fé dos Burpo, uma fantasia elaborada. Quando eu pergunto como eles acham que alguém que segue o Islamismo ou o Budismo veria o Céu, caso tivesse uma experiência como a de Colton, a resposta é supersônica. “Não sei, não posso nem imaginar”, dispara Colton. “Acho que, ver o que eu vi, é para quem acredita em Jesus e em seu amor.” Religião é, de fato, assunto complexo. Mas Todd se apressa em fugir da pregação. “Muitas pessoas tiveram experiências como a de Colton”, continua. “Muitos adultos, porém, tem medo de relatar o que viveram, justamente pelo temor em serem chamados de malucos.” O pastor conta que, após a publicação do livro, muitos o procuraram, mesmo ser compartilhar sua fé cristã, para dizer que acreditam em Colton.

Colton foi ao Céu, voltou e nem trouxe uma camiseta…
Colton foi ao Céu, voltou e nem trouxe uma camiseta…

Se, como filme, a história pode ser encarada como uma fantasia cristã, do lado de cá a família Burpo enfrentou críticas pesadas. Vários líderes religiosos atacaram a descrição nada bíblica do Paraíso feita por Colton, com Jesus montado em um cavalo colorido como um arco-íris, Maria ajoelhada ante o trono de Deus e uma vida no pós-vida não muito diferente do que temos por aqui. Já personalidades não religiosas apontam que tudo não passou de uma fantasia infantil, já que a mente de um menino de 4 anos ainda seria incapaz de discernir realidade e fantasia.

“Já ouvi todo tipo de agressão, mas também ouvi muitos testemunhos de fé”, conclui Todd. “Não posso dizer a ninguém no que acreditar. Eu mesmo demorei para fazer as pazes com minhas crenças! Mas acredito em meu filho, e acredito no que ele experimentou.” Mais de uma década depois, Colton Burpo segue a vida, um adolescente normal, nenhuma sequela nem de sua operação, nem de sua experiência fora de seu corpo. “Você então está OK, Colton?”, pergunto, no que logo sou interrompido por Todd Burpo, que brinca: “Fisicamente ele está ótimo, mas seus irmãos nunca vão dizer que ele é OK”.


dica do Tércio Ribas Torres

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