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Intuições precárias sobre Deus

shutterstock_688792181Ricardo Gondim

Eu não saberia explicar as razões da minha fé. Não consigo expressar os porquês da minha devoção. Minha espiritualidade não serve para convencer uma pessoa indiferente. Eu falharia em gerar apetite pelo que transcende. O mistério que tempera o meu viver talvez não sirva em pratos alheios. Minhas convicções não são transferíveis. Minha sede do eterno não é matemática, inamovível. Eu balanço em terremotos. Não sou um Gibraltar. Decididamente, as certezas que comovem  a minha alma são vagas. O pouco que sei sobre o divino é provisório. As réstias de percepção que me chegam do eterno esbarram na mortalidade. Sob o peso da imperfeição, não alcanço o zênite a respeito do perfeito.

Sei tão somente que Deus se mistura dentro de mim como impulso, norte, nostalgia, horizonte, atracadouro. Empenhei o meu futuro em seguir seus passos invisíveis. No dia em que o chamei de Senhor, a extensão do meridiano da minha esperança se alongou. Nele, os fragmentos de meu mapa existencial não precisaram mais se encaixar. Aprendi a conviver com pedaços desconexos. Não me encabulo ao seu lado. Estradas bloqueadas por tapumes ou por neblinas não me intimidam. Deus imanta o ponteiro da minha bússola.

Sei tão somente que Deus se fez residente no campus onde elaboro pensamentos. Presente nos voos da minha imaginação, ele se transforma no mais doce ideal. Minha seta e meta, o entusiasta das interrogações que me levam adiante. Deus me quer curioso. Ele sempre incentiva a perguntar mais. Causa de toda inquietação, Deus se esconde na fonte da minha angústia.

Sei tão somente que Deus se desfraldou como flâmula sobre a minha vida e fez do lugar onde moro, seu palácio. Por me amar tanto e tão formidavelmente, penitência, purgações,  sacrifícios e tudo o que a religião exige para aplacar fúria, foi substituído por serenidade. No porão da tortura religiosa, nos suplícios culposos do moralismo, achei um lugar de descanso: o seu regaço. Ele é agora minha referência de desassombro.

Encontrei paz desde que comecei a me desvencilhar do Deus guardador de livros contábeis. Encaro a existência com a leve sensação de que qualquer sentença formalizada contra mim está suspensa. Já não fujo dele como os antigos evitavam Átila. A fúria de Júpiter e a volubilidade de Zeus, comuns nas descrições de Javé, não me aterrorizam. Agora prefiro chamá-lo de Clemente. No seu bolso estão guardados todos os acertos e erros que me tornaram quem eu sou.

Sei tão somente que Deus fez arder algum filamento em minha alma e meu olhos se acenderam. Ele é mourão – estaca – que demarca o jardim fechado da minha interioridade. Só Deus dobra o sino do meu coração em lutos e dias solenes.

Sei tão somente que Deus me fascina como aurora que se quebra em vários matizes. Deus é sol que tinge a minha face de um vermelho suave, também é lua que prateia a minha existência. Noto traços azuis de sua realeza em meu sangue raro. Seu branco me deixa com a improvável sensação de que alguma pureza me tocou. Um nanquim se projeta desde o céu e me vejo absorvendo tudo o que é peculiar aos humanos. Ele se faz arco-íris em mim.

O que dizer de Deus?
Pouco.
Melhor o silêncio.
Que as poucas palavras, então, sejam esforço  - precário – de expressar reverência.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Admirar a natureza faz as pessoas acreditarem em Deus?

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Publicado no Hype Science

Observar belas paisagens naturais como o Grand Canyon, nos Estados Unidos, ou ver uma aurora boreal, pode aumentar as chances das pessoas acreditarem em Deus e no sobrenatural, de acordo com um novo estudo.

O cientista psicológico Piercarlo Valdesolo, da Universidade Claremont McKenna, desenvolveu uma pesquisa a partir das filmagens de Planet Earth (“Planeta Terra”), um documentário produzido pela BBC sobre a natureza.  

De acordo com Valdesolo, as pessoas que assistiram trechos com as imagens inspiradoras do vídeo mostraram maior disposição em relatar o aumento da fé em Deus.

“A ironia disso tudo é que contemplar coisas que sabemos que são formadas por causas naturais, como as extensões das impressionantes crateras do vale do Grand Canyon, nos leva a explicá-las como um produto de causas sobrenaturais”, conta Valdesolo.

Uma descoberta interessante do estudo foi como os ateus reagiram às cenas: com desconforto. Os pesquisadores acreditam que essa reação pode ser o que leva algumas pessoas a procurar explicações para o desconhecido através de meios científicos.

David Ellefson: eu estou devolvendo o dom que Deus me deu

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Publicado no Whiplash

O baixista do MEGADETH, David Ellefson, falou recentemente com a Yahoo! Music sobre como a música o ajudou a se reconectar com a religião.

“A igreja começou a me chamar: ‘Ei, nós precisamos de um baixista, esta semana. Você pode vir e tocar?’”, disse Ellefson. “É como se Deus soubesse que se ele me convidasse para ir com meu instrumento, eu provavelmente iria. Então é assim que eu comecei a me envolver em qualquer tipo de trabalho da igreja. Isso não era como aquelas coisas banais espirituais ou algo assim. Eu sou apenas um cara que toca baixo no Megadeth e um dia na igreja. Eu realmente gosto disso. E eu percebi que esses caras, com quem eu toco nos finais de semana, são como guerreiros que provavelmente tinha outras bandas quando eles eram jovens, então, eventualmente, precisaram crescer, cortar os cabelos e ter empregos de verdade. Mas agora eles têm dinheiro, porque eles conseguiram empregos de verdade e eles podem pagar bons equipamentos, e eles gostam de tocar. Isso me faz apreciar pessoas que não são músicos profissionais também, porque existe uma grande quantidade de pessoas que tocam muito bem por aí, e por qualquer motivo, a vez deles não chegou e eles não tiveram uma carreira como a minha. Mas isso não significa que eles não são músicos, artistas e cantores talentosos. Então, essas são as pessoas que eu conheci na igreja.

“Assim, a música através da igreja é o que realmente me inspira a me envolver com isso. Eu me sinto muito bem. Eu saio do palco e (eu fico tipo), ‘Cara, eu estou flutuando agora. Isso é o mais alto que eu já pude chegar. Eu estou mais alto do que várias coisas, eu estou bem alto no momento. Isso é ótimo’. É aquele momento quando seu espírito é movido e era tão legal. Eu só queria mais.

“É bom saber que eu usei um dom que Deus me deu para entregá-lo de volta. E não foi apenas sexo, drogas e rock and roll, eu, eu, eu, eu, eu, como eu posso querer mais? Porque quando eu levava minha vida assim, eu vivia me dando mal. Mas quando eu comecei a usar a música para alguma utilidade, para ajudar as pessoas, para levantá-las e inspirá-las, e eu comecei a usar o que é conhecido por G.O.D – good orderly direction – quando eu comecei a ser adepto disso, as bênçãos vieram em minha vida e eu nunca imaginei isso. Para mim, essa é a direção certa”.

Da religião que proíbe à graça que liberta

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Ricardo Gondim

Não nasci quebrado, com defeito de criação. Não herdei o pecado de Adão – ele não me representa. Não aprendi a dar os primeiros passos, a engatinhar, sob o olhar zangado de Deus. Em meus primeiros tropeços infantis não tinha o mau cheiro do perverso. Minha infância foi leve, moleca, solta. Na mesa, meus pais repartiram um pão singelo conosco, seis irmãos.  Vovô e eu escutávamos o rádio madrugada a dentro. A gente queria notícias vindas da BBC de Londres e da Agência de Notícias de Moscou. Exilados brasileiros podiam nos comunicar sobre os acontecimentos que a ditadura boicotava. Com papai preso, ouvir o noticiário vindo de fora furava o cerco da censura.

Toda essa realidade caiu por terra quando entrei para uma igreja. Na puberdade, me ensinaram que eu era ruim. Aprendi que era mau e que a mão de Deus estava prestes a pesar sobre mim. Eu devia acordar para a necessidade de me arrepender. Aqueles anos gostosos da minha meninice me condenavam. A qualquer instante podia morrer. E se morresse sem me converter, queimaria eternamente no inferno.

Reconheço tardiamente: a religião forjou em mim uma espiritualidade calcada no terror. Passados tantos anos, mesmo fazendo terapia, ainda não consigo avaliar o impacto das fobias que a religião impõe a um garoto; como se alguém colocasse um espelho na minha frente e me ensinasse a ver iniquidade, torpeza, impiedade, em meus olhos tristes. Converter-me significaria aceitar que eu havia nascido debaixo da ira de Deus. E realmente acreditar que eu nunca prestei para nada. Desde o dia em que fiz profissão de fé, toda a espiritualidade se resumia a orar pedindo que Deus perdoasse uma multidão de pecados. Ingênuo e obediente, fui iniciado nesse caminho e nele permaneci. Eu, Ricardo Gondim, internalizei todos os medos da religião e adiei a vida.

Minha espiritualidade se construiu no negativo. Eu me contentava em cultuar a Deus como meio de celebrar apenas a sua misericórdia; sem jamais esquecer a etimologia latina, miserere e cordis – misericórida significa “voltar o coração para o miserável”. Em minha prática, eu implorava que Deus voltasse o coração para mim, eterno miserável. A função do culto se resumia a pedir perdão, quitar dívidas com uma lei perfeita e prometer: daquele dia em diante tudo vai ser diferente. Na semana seguinte obviamente tendo tropeçado nos cadarços da condição humana, voltava à estaca zero. E assim, de multidão de pecados em multidão de pecados, esperava que Deus não se zangasse comigo além da conta.

Internalizei  a mensagem do medo com radicalidade. Passei a me considerar irremediavelmente torpe. Contaminado e culpado pela desobediência de Adão, eu jamais conseguia sentir perdão. Quantos sermões repetiram: torto, pecador, porco lavado. Tratava as minhas poucas virtudes como trapos de imundice. Meu corpo, propenso à lascívia, só me levava a fazer o que eu não queria. Só poderia me considerar justo se me projetasse na justiça de Cristo. Em mim mesmo não passava de ímpio (perdoado, mas ímpio) –  e sempre a um passo de voltar à lama.

Alegria? Só comedida. Para não dar lugar à carne. Satisfação? Se cantar satisfação é ter a Cristo, prazer maior já visto. Prazer? Poucos: comer e dormir. Prazer sexual?  Depois que casar. O medo de infringir tantos mandamentos estreitou a minha vida. Deixei de ouvir boa música já que um crente verdadeiro não pode ouvir música do mundo. Não me permiti ler romances já que eram escritos por ímpios. Passei longe da poesia: como um filho de Deus pode se nutrir de sentimentos devassos? Catalogaram uma lista lotada de práticas abomináveis; tão vasta que eu me desesperava para cumpri-la. Além de não desejar magoar o coração de Deus, temia condenar a alma ao inferno.

Fui a um show da saudosa Mercedes Sosa. Um espetáculo monumental. Escrevi sobre o meu arrebatamento diante de tanta sensibilidade. Os fiscais da religião foram rápidos em franzir a testa. Disseram que agi como criança; um deslumbrado em um evento profano e vulgar. A crítica, todavia, veio tarde. Eu já não me indignava com os comentários de crentes alienados. Hoje, prefiro a ingenuidade do menino à sisudez do fariseu. Não tenho vergonha, nem medo, de gaguejar diante da beleza. Se alucino, devo aos anos em que a alegria me foi proibida. O belo ressuscita em mim sentimentos ilhados, mortos e amordaçados.

Na longa estrada da existência, a vida é breve. Quero viver. Confesso a minha incompetência de boxear com teólogos ilustrados –  principalmente os que sabem usar versículos para validar seus argumentos. Na verdade, nem quero estar perto deles. Porque tenho outras sedes no coração, almejo mudar de faixa. Anelo aprender a joeirar os cascalhos que uma falsa religiosidade me deu. Quero encontrar pepitas de uma beleza comum – que não respeita credo religioso. Pretendo alongar a minha vista por cima da cerca do preconceito religioso. Quero ir além do regionalismo que a subcultura produz – quero ir para arredores e exilar-me dos certinhos. Anseio desmontar intolerâncias. Procuro voltar atrás no relógio e ler autores que antigamente suspeitei.

Fazer as pazes com Deus significa mais do que rever pecados; saio do proibitivo e me arrependo de ter acalentado noções negativas sobre ele. Revejo conceitos para re-aprender que Deus se alegra quando celebro a vida. Só agora percebo: minha inadequação humana não me indispõe com a divindade. Meus tropeços não me condenam. Minhas tolices não me amaldiçoam. Mesmo imperfeito, sou apreciado. Não regurgito remorso. Não me chafurdo em falsas culpas. Celebro a minha humanidade sem a ameaça do fogo do inferno. Assim esboço algumas nuanças da graça.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim