Heróis morrem, mas covardes sobrevivem

Nelson Mandela e Martin Luther King
Nelson Mandela e Martin Luther King

Ricardo Gondim

Paulo queria apresentar-se à multidão, mas os discípulos não o permitiram. Alguns amigos de Paulo dentre as autoridades da província chegaram a mandar-lhe um recado, pedindo-lhe que não se arriscasse a ir ao teatro”.
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Pânico. A multidão se mostrava pronta para linchar, com demandas religiosas intolerantes e violentas. Paulo tinha acabado de pregar em Éfeso e a mensagem foi bem aceita. Um grande número, simpático às novas ideias sobre Deus, mostrou sinais de mudança. Em praça pública, chegaram a queimar objetos de idolatria e destruir manuais de ocultismo. Calculou-se a perda em cerca de cinquenta mil moedas de prata.

Demétrio, que negociava artigos religiosos, incitou a cidade. Sempre que os cofres religiosos são atacados, a virulência virá proporcional ao prejuízo. Caso Paulo continuasse, o comércio de quinquilharias corria o risco de inviabilizar-se. Demétrio conseguiu mobilizar aproximadamente vinte e cinco mil pessoas. Na praça principal, gritavam sem parar que Diana, a deusa da cidade, era formidável. O ódio religioso incendiou os corações com mais força do que a fogueira.

Quando Paulo notou a multidão ávida, não cogitou salvar a própria vida. Seu impulso imediato foi falar. Ele não viu um grupo ensandecido, mas um povo necessitado de luz. O fanatismo cega, o conhecimento da verdade liberta. Amigos e alguns cidadãos de Éfeso pediram que Paulo não se expusesse. Era importante preservar a vida. Paulo recusou.

O extraordinário filme de Lina Wertemüller, Pasqualino Sete Belezas, denuncia que não vale a pena sobreviver sem dignidade. O personagem, Pasqualino, medíocre anti-herói, se safa em meio ao fascismo. Sua esperteza custa a vida de amigos, mas ele não se importa. Subserviente aos guardas, Pasqualino se prostitui com uma soldada, chefe do campo de concentração. Depois das relações sexuais, a mulher se volta para ele e diz: A sua sede de viver me enoja. Você encontra forças para uma ereção. Por isso vai sobreviver. O filme não chega a um desfecho. Pasqualino realmente sobrevive, mas nos deixa cara a cara com um homem vil e detestável – que vendeu a alma para preservar-se. Sua existência crua, reduzida à vida biológica, é menos que humana.

Esta geração carece de homens e mulheres com o calibre de Paulo. Heróis não lendários, não míticos, apenas íntegros no mínimo. Heróis, por não se contentarem em permanecer vivos a qualquer preço. Enquanto impera o oportunismo no jogo bruto do capitalismo selvagem, na demagogia religiosa e no cinismo político, vale não perder a alma. Conformismo e comodismo azeitam o moinho de carne da correria por status. Dominados pelo hedonismo, homens e mulheres não cessam de construir altares para Deus no próprio ventre. Falta gente com ideais. Por onde andam os sonhadores – John Lennon, Martin Luther King, Mandela – que não se acovardam diante da insistência de que tudo continuará a ser como sempre foi?

Leio sobre a obstinação de Paulo de não recuar diante de uma turba e decido: quem me avisa sobre a inutilidade das utopias quer me acomodar. O tímido do Apocalipse afirma: melhor covarde vivo que herói morto – ele, todavia, não é cidadão do reino. Peço a Deus um coração desapegado dos pusilânimes.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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Balbúrdia teológica

801-2Hélio Schwartsman, na Folha de S.Paulo

A bioética é a mais depressiva das especialidades filosóficas. Seus manuais são uma coleção de situações médicas trágicas que geram dilemas sem solução feliz. Se existe um princípio heurístico nessa triste disciplina, é o de que o respeito à autonomia do paciente e seus familiares é quase sempre a resposta menos ruim.

Faço essa introdução a propósito da decisão do Superior Tribunal de Justiça que livrou de ir a júri popular, isto é, de responder por homicídio doloso, o casal de pais que, por serem testemunhas de Jeová, não autorizou uma transfusão de sangue em sua filha menor, que morreu.

Penso que o STJ agiu bem. O que define primariamente o dolo no homicídio é a intenção de matar, o que, obviamente, não se era o desejo dos pais. De uns anos para cá, porém, o Ministério Público, provavelmente para obter condenações mais duras, vem abusando da figura do dolo eventual, que ocorre quando o acusado faz pouco caso do perigo a que submete a vítima. Esse, contudo, deveria ser um enquadramento excepcional, para dar conta de casos em que o autor não só age com negligência ou imprudência, mas o faz com real desprezo pela vítima. É bom que a Justiça comece a frear essa moda.

Não estou, é claro, afirmando que os pais agiram bem. Considero a ideia de que Deus não quer que transfundamos sangue uma tolice. Vou um pouco mais longe e afirmo que crer num papai do céu se encontra na mesma categoria. Mas, uma vez que nosso ordenamento jurídico permite e até incentiva a prática religiosa, é difícil sustentar que seguir um dogma equivalha a assassinato.

E, depois que se aceita o vale-tudo dos discursos religiosos, não dá para dizer que a crença num Deus com pavor de transfusões seja objetivamente mais errada do que numa divindade que veta a contracepção ou que coleciona prepúcios. Só a autonomia confere alguma coerência a essa balbúrdia sanitário-teológica.

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Marlon Teixeira: “Deus faz muito por mim, preciso agradecer”

Marlon Teixeira: contratos com a Avon, H&M e Carolina Herrera (foto: Lucas Lima)
Marlon Teixeira: contratos com a Avon, H&M e Carolina Herrera (foto: Lucas Lima)

título original: Marlon Teixeira no topo do mundo da moda

João Batista Jr., na Veja SP

Marlon Teixeira superou um câncer no mediastino, região central da caixa torácica, aos 3 anos de idade, e perdeu o pai um ano antes. Na adolescência, sonhou ser árbitro de futebol, influenciado pela família ligada ao universo da bola — seu avô paterno, Delfin Peixoto, venceu na chapa de Marco Polo Del Nero e assumirá a vice-presidência da CBF em 2015. “Mas virei modelo e comecei a trabalhar feito louco”, diz.

Aos 22 anos, ele é o top brasileiro mais bem cotado. Atualmente, figura em campanhas de grifes como Tommy Hilfiger, Avon, H&M e Carolina Herrera. “Passei por cada uma na vida, não tenho por que ser deslumbrado”, ponderou ele na semana passada em São Paulo, onde esteve a trabalho.

Quando vem de férias ao Brasil, gosta de surfar e frequentar a igreja evangélica Bola de Neve. “Deus faz muito por mim, preciso agradecer.”

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Cantora gospel americana revela que é gay e diz que Deus a ama do mesmo jeito

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Publicado em O Globo

Fãs evangélicos da cantora gospel Vicky Beeching, de 35 anos, podem levar ao susto ao ler os jornais nesta semana. Em entrevista ao periódico inglês “The Independent”, Beeching declarou que é gay, e que mesmo assim, Deus a ama do jeito que ela é.

A artista é um dos maiores ícones dentro da Igreja Anglicana. Formada em Teologia em Oxford, na Inglaterra, Beeching também se popularizou ao comentar aspectos religiosos do dia a dia, conquistando hordas de fieis. Escrevendo canções gospel desde os 11 anos, a cantora já fechou contrato com duas gravadoras internacionais e vendeu milhões de discos no chamado “Cinturão da Bíblia” dos Estados Unidos.

Na entrevista, Beeching diz que foi criada por pais evangélicos conservadores. Na escola, livros diziam que a homossexualidade era pecado, “coisa do demônio”. Mas isso não foi o suficiente para que ela não começasse a se sentir atraída por outras meninas, ainda aos 12 anos:

– Perceber que eu estava atraída por elas foi uma sensação horrível. Eu estava tão envergonhada! Era uma luta, porque eu não podia contar a ninguém – confessou.

Ao se dar conta de sua homossexualidade, Beeching entrou em depressão, acreditando que estava pecando e que não poderia ser “curada”. Aos 13, ela chegou a pedir a Deus que ou tirasse a vida dela, ou a atração por outras meninas. Com 16, durante uma colônia de férias cristã no interior da Inglaterra, a cantora chegou a se submeter a uma sessão de exorcismo, em vão.

– Lembro de muitas pessoas colocando as mãos nos meus ombros, orando muito alto e, em seguida, gritando coisas tipo: ‘Nós ordenamos que Satanás saia! Saia fora, corja de demônios! Nós falamos a vocês, demônios da homossexualidade: deixem a menina em paz!’.

Isso foi a gota d`água para Beeching, que se sentiu humilhada com a situação. Na entrevista, a cantora contou que o episódio serviu para que ela se tornasse mais introspectiva, buscando outras soluções por conta própria. Dedicou-se aos estudos, formando-se em Teologia em Oxford e seguindo logo depois para Nashville, no Tennessee, atraída pela carreira de compositora. Por lá, imersa no centro do conservadorismo evangélico americano, gravou discos e percorreu grandes igrejas do país para mostrar suas canções.

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Mas amores frustrados por amigas e outras mulheres a perseguiam como uma sombra. Nesse meio tempo, Beeching teria tentado até começar relacionamentos com homens, todos sem sucesso.

Em 2008, aos 29 anos, ela decidiu se mudar para a Califórnia, esperando que San Diego fornecesse um ambiente mais liberal. Mas este foi o ano em que a Proposição 8, lei estadual que proíbe o casamento homossexual, estava para ser votada. Em paralelo, Beeching cumpria sua série de shows agendados em igrejas do estado.

No início de 2014, a artista descobriu ter uma doença rara de pele, que deixava a epiderme com marcas de cicatriz, podendo levar até a morte. Durante uma sessão de quimioterapia, a cantora pensou consigo mesmo que deveria resolver sua situação pessoal. Ela já tinha 35 anos:

– Olhei para o meu braço com a agulha da quimioterapia, olhei para a minha vida, e pensei: ‘tenho que entrar em acordo com quem eu sou’ – afirmou Beeching na entrevista. – Trinta e cinco é metade de uma vida, e eu não posso perder a outra metade. Perdi tanta vida como uma sombra de uma pessoa.

Até então, Beeching nunca tinha mantido um relacionamento homossexual. O tratamento da doença a fez refletir e aceitar gradualmente sua homossexualidade. Na Páscoa, ela revelou aos seus pais a situação, que acabaram se desculpando por fazerem ela passar pelos constrangimentos. Beeching e eles concordaram em discordar sobre a teologia.

Ao final da entrevista, a cantora afirmou que espera agora que a Igreja Anglicana siga o exemplo acolha fieis homossexuais.

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Com canal de TV e movimento civil, ateus tentam ‘sair do armário’ nos EUA

Homem faz protesto por liberdade religiosa. Credito: AFP
Homem pede separação entre Estado e igreja em protesto em frente à Casa Branca

Aleem Maqbool.  na BBC Brasil
“Às vezes, as coisas precisam ser ditas, e as lutas precisam ser lutadas, mesmo que sejam impopulares. Aos ateus enrustidos: você não está sozinho, você merece igualdade.”

Assim terminou o inflamado discurso do presidente do grupo Ateus Americanos, David Silverman, no lançamento da primeira emissora de televisão dos EUA dedicado àqueles que não acreditam em Deus, a TV Ateu.

Depois, foram exibidos testemunhos de ateus proeminentes.

“É uma das melhores decisões que já tomei na minha vida e eu defendo completamente que as pessoas ‘saiam do armário'”, diz Mark Hatcher, do grupo Ateus Negros da América.

“Sair do armário” é como muitos ateus americanos descrevem o que ainda é, para muitos, algo muito difícil de ser admitido publicamente.

Uma recente pesquisa realizada pelo Pew Research Center mostra que americanos preferem, a um ateu, ter um presidente com cerca de 70 anos ou abertamente gay ou que nunca tenham tido qualquer cargo público.

Surpreendentemente, uma pesquisa anterior da Pew sugeriu que os entrevistados nos Estados Unidos consideravam ateus menos confiáveis que estupradores. Um dos novos programas da TV Ateu já sentiu o “gostinho” de como muitos americanos percebem “os não crentes”.

“Então você estava estudando para ser um padre e agora não acredita em Deus? Você é o diabo”, um interlocutor disse ao apresentador. “Você é um marxista, você é um ateu e você é da Rússia”, diz outro.
‘Saindo do armário’

Em um dos maiores encontros de estudantes ateus no país, em Columbus, no estado de Ohio, Jamila Bey, da Aliança Secular de Estudantes, disse que muitos participantes estavam receosos sobre dar entrevistas, o que podia ser visto em seus pescoços.

A student atheism convention took place in Ohio.
Em Ohio, ocorre uma das maiores convenções de ateus do país

“Cordões vermelhos significam ‘Você não pode falar comigo'”, diz Bey. “Muitos alunos não são ‘assumidos’. Seus pais podem não saber que eles são ateus ou que questionam sua religião.”

Ela disse que muitos estavam preocupados com ostracismo ou temiam sofrer violência se revelassem que não acreditavam em Deus.

Lasan Dancay-Bangura, de 22 anos, é o chefe do grupo de estudante ateus de sua universidade. Ele já contou para a mãe sobre seu ateísmo – experiência que relembra com um suspiro profundo -, mas ainda não “saiu do armário” para o pai.

“Fala-se o tempo todo sobre pessoas que estão sendo expulsas e enviadas para campos de Bíblia onde são forçadas a ser religiosas. Eu não quero perder o meu pai para isso.”

Já Katelyn Campbell, de 19 anos, de West Virginia, tem tido problemas com a comunidade. “No colégio, era um silêncio total quando eu andava pelo corredor. Ou alguém cuspia em mim”, diz Katelyn.

Há dois anos, ela protestou contra a inclusão da religião e da abstinência em suas aulas de educação sexual escolar. “As pessoas agora costumam trazer essa discussão, que é de valores que são muito pessoais e muito particulares”, diz ela.
Campanha

No evento de estudantes ateus em Ohio, eles estão tentando mudar as coisas.

Camisetas a venda no evento trazem os dizeres “Godless Goddess (Deusa sem deus)” ou “Um ateu é assim”.

A student atheism convention took place in Ohio
Adesivos distribuídos em convenção defendem ateísmo e liberdade religiosa

Ao lado da tenda está Andrew Seidel, um advogado da Fundação Liberdade da Religião. “Muitos americanos pensam que nunca conheceram um ateu, mas isso é porque muitos têm medo de reconhecer isso publicamente”, diz Andrew.

“A forma como vamos vencer essa luta é pela demografia. Assim como sair do armário foi importante para o movimento LGBT, é importante para nós dizer em alto e bom som e com orgulho: ‘Eu sou um ateu!'”

E os dados demográficos estão realmente mudando, especialmente entre os jovens, onde a proporção daqueles que se identificam como “religiosamente não afiliados” está aumentando.

Mas os Estados Unidos têm uma proporção muito maior de pessoas que dizem que a religião é muito importante para eles em comparação com países europeus.

“A América é uma anomalia, em primeiro lugar, porque foi fundada por puritanos”, diz Bey, da Aliança Secular de Estudantes.

Mais recentemente, em especial para a comunidade afro-americano na luta pelos direitos civis, mas também para muitas outras comunidades minoritárias, a religião tornou-se uma forma de ganhar aceitação, segundo Bey.

“Foi uma maneira de dizer: Eu sou um bom cristão, você deve deixar o meu filho ir para a escola com as criancinhas brancas, Jesus ama a todos nós'”, diz ela.

O novo canal de TV faz parte do movimento dos direitos civis dos grupos ateus.

Mas a aceitação real, particularmente para aqueles que exercem cargos públicos, em um país onde nenhum deputado é abertamente ateu, pode estar ainda um pouco distante.

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