Imaginando outro “crente”

quaresma2013

Júlio Zabatiero, no Novos Diálogos

Ser igreja do Messias Jesus é viver em permanente inconformismo. Ser igreja é uma existência que jamais se completa, é um experimentar o infinito no tempo-espaço finitos, sem jamais alcançar a infinitude que não nos é própria. Ser igreja é enfrentar constantemente novos e velhos desafios no caminho que dia a dia trilhamos rumo ao reino de Deus.

Dentre os muitos desafios que temos de enfrentar, hoje em dia um dos mais importantes é o da imaginação de outro tipo de crente. Imaginar, criar imagens de, figurar, penar, desenhar, sonhar, formar. O modelo denominacional de ser igreja formou um tipo específico de crente — pessoas capazes de frequentar templos, ocupar cargos, desempenhar funções específicas, financiar o funcionamento da igreja, sentar-se ordenadamente para ouvir, ouvir, repetidamente ouvir os mesmos sermões, as mesmas aulas, as mesmas canções. Diplomar-se: aluno da escola dominical, membro da igreja, dizimista. Se conseguir algo mais, tornar-se dirigente da igreja. Se transcender os limites da formação, tornar-se missionária, missionário, pastora, pastor, quem sabe, bispo, apóstolo, patriarca.

Crentes assim (de)formados não fazem nenhuma diferença — seja na igreja, seja no mundo (como se estas duas realidades não fossem coexistentes); é o crente da identidade, sempre equivalente, a mesma valência, o mesmo valor, o mesmo, a mesmice domingo após domingo, quarta após quarta, mês após mês, ano após ano. Mudanças? Só mudam mesmo os inimigos do crente. Ora a mentira, ora o adultério, ora o mundanismo, ora a homoafetividade, ora a política. Ora, oras. Um mundo sempre identicamente figurado, sempre o mesmo — jazigo do pecado, inerte em suas permanentes mudanças, sempre novamente igual; apenas novas faces do velho pecado: não ser crente.

O crente denominacionalizado não faz diferença porque insiste em ocupar o papel de juiz, de mestre, de senhor da realidade. Este tipo de crente sabe — que o mundo jaz no maligno, que pecadores não prestam, que não há pecado mortal, a não ser aquele no qual morrem os que não se tornam crentes na mesma cadência dos crentes equivalentes ao mundo que desprezam, mas ao qual se acomodam imperceptivelmente, até não conseguirem mais enxergar diferença, diferença de fato inexistente, exceto em um ponto: crentes confessam seus pecados, reconhecem sua indignidade, sua não-valência, rendem-se ao sacrifício irrepetível do salvador.

Deste tipo de crente, na Quaresma e fora dela, somos chamados ao arrependimento. Convidados a sepultá-lo à sombra das cruzes dos esquecidos, dos abandonados, das pessoas que ficaram à míngua, esperando aquela palavra, aquele gesto, aquele convite, aquele toque, aquele abraço. Ressurgir na força do Espírito do Messias só é possível como excesso, exceder. Excesso, saída de um modo de ser, para outro modo, sem saber bem como é esse outro modo. No Espírito, novidades são o modo de ser e novidades são o verdadeiro excesso, jamais contido, jamais previsto, jamais controlado. Excesso, não sucesso. O sucesso sempre supõe um estar debaixo de — um jugo, uma subserviência. O sucesso de hoje é subserviência ao mundo não mais percebido como mundo. Números e suas equivalências, equidistâncias, equações, projeções, cálculos.

Imaginar, formar um novo tipo de crente. Excesso, excedente, excelência. Formar, sem possuir o molde, a forma, o design. Formar excessivamente, sair, transcender, exceder. Abandono das equivalências, acolhida das diferenças, das peculiaridades, das exceções, dos excessos, do excesso. Acolhida do incalculável, surpresa surpreendente que está sempre próxima, sempre chegando, sempre fora do alcance, excedendo as medidas costumeiras. Acolhida da excelência, desistência da mediocridade. Mediocridade que caracteriza a equação, o cálculo, a permanência, a mesmidade. Imaginar novidade.

Formar em excesso, em exceção, em excedente, em excelência. Não mais medíocre, conforme a média, fazendo o mínimo necessário, fazendo o que todo mundo faz, do jeito que sempre se fez, sem questionar, sem inovar. Fazer o mesmo, viver na média, apenas reclamando, murmurando, confessando. Exceder: doutrinas, formas, estruturas, identidades, compromissos, confissões (de crenças e de pecados, ou de crenças-pecados?). Exceder: paredes, bancos, horários, boletins, revistas, datashows, sermões, aulas, reuniões. Exceder: fronteiras, limites. Aventurar-se: desconhecido, incalculável, imprevisível, implanejável.

Imaginar novos lugares de culto, escola, reunião. Talvez sem púlpitos, sem altares, sem mesas litúrgicas, sem tablados, sem privilégios, sem sacerdotes, sem bancos nem bancadas. Talvez deslocando púlpitos, altares, mesas, batistérios, corais. Talvez poltronas, mesas redondas, círculos, ar-livre, casas, ruas. Novidade não se pode planejar, apenas se pode tentar, experimentar, venturar. Novidade é sempre exceção, excesso, excedente. Ir além de. Mas para ir além de é preciso, antes, sair de. É preciso libertação, abandonar as panelas do Egito, dar boas-vindas ao deserto, sair em direção à terra prometida, abraamicamente, sem mapas.

Retroceder para exceder. Retrocessos, retrô. Um excesso dos tempos antigos: “nele não há grego nem judeu, bárbaro ou cita, homem ou mulher, escravo ou livre”. Exceder é romper as equivalências. Não nos enganemos: grego versus judeu; bárbaro versus civilizado; homem versus mulher — são o regime da equivalência, da igualdade hierarquizada, da falta (o oposto do excesso). Crente versus incrédulo; salvo versus perdido; ortodoxo versus herético; nós versus eles. Sempre o mesmo regime, da equivalência, da identidade afirmada na negação do outro. Crentes formados no regime da equivalência nunca excedem, apenas cedem — um pouco aqui, outro pouco acolá; uma regra aqui, outra acolá; uma nova lei hoje, outra amanhã. Excesso de retrocesso. Tentando alcançar a utópica Igreja Primitiva regressamos ao tópico mundo da identidade: todos iguais sob o mesmo Império — todos súditos, exceto um.

Formar no excesso, no excedente, na excelência. Imaginar uma nova subjetividade messiânica — retroceder apenas o suficiente para exceder, transcender, proceder. Seguir o rumo do Espírito, no compasso daquele que faz todas as coisas novas. Regime de excesso (não de exceção). Exceto um, todos e todas são iguais. Exceto um, a quem não se pode suceder. Todos procedem desse mesmo um, mas todos novos, novas, diferentes, excepcionais. Um que, excedendo a si mesmo, não é idêntico a si mesmo em si mesmo. Outrora se dizia: o mistério da Santíssima Trindade. Por que não dizer, hoje em dia, apenas, mistério do excesso? Apenas exceção à regra, à medida, ao cálculo, ao planejado, ao administrado.

Viver sob o regime do excedente: fora do regime do cálculo de fins e meios, fora da previsibilidade, fora do planejado estrategicamente, fora do caminho traçado cuidadosamente pelos mesmos que jamais abdicam do poder de fazer equivaler ao seu jeito de ser o jeito de todos serem. Excedendo a linguagem abstrata: trata-se de reinventar relações de poder; trata-se de deslocar os corpos dos lugares-comuns; trata-se de aprender democracia, de recuperar o irrecuperável espírito da equidade: “nele não há…”. Trata-se de, para retroceder mais uma vez: sacerdócio universal. Quimera, excedente, excelência, excepcionalidade. Novidade excessivamente desejada, jamais sucedida.

Viver sob o regime do excesso: fora das medidas, longe das fronteiras, abdicando das classificações, desprezo das funções, cargos e suas equivalências injustas, seus diferentes pesos e medidas. Excedendo novamente a linguagem da abstração: reinventar os ministérios. Sacerdócio universal excede as distinções ministeriais denominacionais, institucionais, milenares. Trata-se de deslocar os corpos das cadeiras, bancos e bancadas; púlpitos e arquibancadas. Para retroceder mais uma vez: exercitar dons, carismas, serviços — trocas mútuas, inequivalentes, excedentes, doações. Exceder o regime do ministério ordenado, do sacramento, da ordenança. Aceder ao regime da ek-klesÍa: ex-ceder.

Viver sob o regime do excepcional: aquém das convenções, dos estereótipos, aquém das restrições, dos saberes idênticos. Aquém de, indo além: democracia intelectual, democracia do sentido, da direção: novos sentidos, novos sentimentos, novas direções. Excedendo mais uma vez a linguagem da abstração: forjar novos sujeitos cognoscentes, retirar das mãos da minoria o domínio da palavra, da doutrina, da ortodoxia. Retrocedendo outra vez: o Espírito não fala através de um. É plural, fala apenas através de muitos, de todos, de todas. É espírito de comunhão, equidade, excesso de unidade, como um — metáfora: um que não é uno, mas plural, diverso, pluriforme, multiforme. Excesso de saberes.

Poder. Agir. Pensar. Três regimes, três regimentos desafiados. Três combatentes, três combates. O inimigo? Nós mesmos. Nós, que procedemos rumo ao sucesso, jamais retrocedendo. Combater o bom combate? Exceder. Ou, como diziam os antigos: transcender.

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Luis Fernando Verissimo: Deus hipotético

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Luis Fernando Verissimo, em O Globo

Um religioso dirá que não faltam provas da existência de Deus e da sua influência em nossas vidas. Quem não tem a mesma convicção não pode deixar de se admirar com o poder do que é, afinal, apenas uma suposição.

A hipótese de que haja um Deus que criou o mundo e ouve as nossas preces tem sobrevivido a todos os desafios da razão, independentemente de provas.

Agora mesmo assistimos ao espetáculo de uma empresa multinacional às voltas com a sucessão no comando do seu vasto e rico império, e o admirável é que tudo — o império, a riqueza e o fascínio dos rituais e das intrigas da Igreja de Roma — seja baseado, há 2000 anos, em nada mais do que uma suposição.

Todas as religiões monoteístas compartilham da mesma hipótese, só divergindo em detalhes como o nome do seu deus. E todas têm causado o mesmo dano, em nome da hipótese.

Não é preciso nem falar no fundamentalismo islâmico, que aterroriza o próprio islã. Há o fundamentalismo judaico, com sua receita teocrática e intolerante para a sobrevivência de Israel.

O fundamentalismo cristão, que representa o que há de mais retrógrado e assustador no reacionarismo americano, e as religiões neopentecostais que se multiplicam no Brasil, quase todas atuando no limite entre o curandeirismo e a exploração da crendice.

A Igreja Católica pelo menos dá espetáculos mais bonitos, mas luta para escapar do obscurantismo que caracterizou sua história nestes 2000 anos, contra um conservadorismo ainda dominante. A hipótese de Deus não tem inspirado as religiões a serem muito religiosas.

Há aquela parábola do Dostoievski sobre o encontro do Grande Inquisidor com Jesus Cristo, que volta à Terra — o filho da hipótese tornado homem — para salvar a humanidade outra vez, já que da primeira vez não deu certo.

Os dois conversam na cela onde Cristo foi metido por estar perturbando a ordem pública, e o Grande Inquisidor não demora a perceber que a pregação do homem ameaçará, antes de mais nada, a própria Igreja, a religião institucionalizada e os privilégios do poder.

Não me lembro como termina a parábola. Desconfio que, se fosse hoje, deixariam o Cristo trancado na cela e jogariam a chave fora.

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Rasguemos a bíblia!

imagem: Google
imagem: Google

Publicado por Ana Clara Cabral

Se Jesus estivesse entre nós, acho que ele escolheria andar com os gays ao invés de andar com os “santos” que julgam a homossexualidade ser pecado.

“RASGUEMOS A BÍBLIA! Vamos moldar nossa crença no achismo e nos interesses pessoais! Os héteros passaram a ter mau caráter por crerem na palavra de Deus!”

Se quiser, rasgue sua bíblia. Acho até melhor, se isso for preciso para que se possa viver com tolerância e amor. Você pode também continuar a ler a bíblia literalmente e acreditar que uma serpente convenceu uma mulher de comer o fruto de uma árvore supostamente proibida e depois oferecer ao seu marido. Acredita que Deus, como com massinha de modelar, formou os primeiros indivíduos do planeta, cada detalhe, cada um com sua individualidade e perfeição. Mate seu filho se Deus pedir, pra assim provar sua obediência a Ele. Se vir uma prostituta na rua, não hesite, apedreje-a! Apedreja também as mulheres que perderam a virgindade antes do casamento.

Quanta intolerância e ódio. Acho absurdo condenar uma pessoa pela orientação sexual. Pecado é uma escolha. Uma criança não escolhe pecar. Um menino não escolhe ser humilhado diante de seus colegas da escola por gostar e querer brincar de boneca ao invés de brincar de carrinho ou lutinha, não escolhe querer vestir as roupas da mãe ao invés de se espelhar no pai, não escolhe ser o excluído da turma na adolescência, não escolhe quando adulto ouvir brincadeiras de mau gosto e ser ridicularizado pelo resto de sua vida por buscar prazer de forma incomum, ser olhado com discriminação e censura, não escolhe se sentir atraído pelo sexo oposto. A homossexualidade não é uma escolha, é uma condição. Absurdo insistir numa cura para gays.

Não defendo os gays e nem qualquer tipo de promiscuidade, hétero ou homoafetiva (não entendo porque associam tanto  homossexualidade com promiscuidade). Defendo o direito de qualquer pessoa ser o que é. Defendo o direito de um ser humano conseguir viver em paz sem precisar negar a si mesmo. Defendo a busca pela felicidade.

Respeito quem acredita na “palavra de Deus”, mas prefiro continuar não acreditando num deus que condena quem quer que seja ao inferno, ao sofrimento eterno por qualquer que seja o motivo. Meu deus é o deus de todos. O meu deus é o amor. Deus pode o que o amor pode.

No meu “achismo”, continuo com a oração de muitos: “Deus, livrai-me da intolerância dos que têm certezas.”

Amém.

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O que me espanta

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Caio Fábio

O que mais me espanta a cada dia […] são duas percepções.

A primeira é a incomunicável realidade de Deus. Pois, mesmo quando se fala de Jesus com simplicidade e clareza, se não houver a Luz do Espírito iluminando o nosso espírito, não há meios de uma mente humana chegar a Deus. Ele é inalcançável por nós. Não existe para nós sem Sua própria revelação; embora as coisas criadas gritem aos nossos sentidos acerca da divina complexidade dos universos criados, a maioria já nem sabe o que é exposição e imersão no significado da vida como um ente natural.

Sim, isso de um lado do meu aturdimento. Pois, de outro lado, ponho-me crescentemente perplexo com a minha e a nossa ignorância. A nossa estupidez é assombrosa. Nossas limitações de intuição e nossa crescente morte interior, por mais tecnológico que alguém se imagine, são de incomparável perda humana.

Assim, do ponto de vista de minha mera observação humana [e, portanto, mais que limitada], digo que quanto mais assim […] for ficando o ser humano […] mais profunda tem que ser a ação divina que penetre essa crosta grossa […] que blinda a condição humana até em sentimentos e exposições que a humanidade tinha […] no que concernia a nutrir uma existência interior [...] hoje morrente entre nós.

Para quase todos os humanos a Natureza morreu como possibilidade de imersão nela; e, para dentro do ser [...] o que se percebe é um estado de devastação da natureza humana nas bases de sua sobrevivência mais significante: as da alma e do espírito.

Sinto, todavia, que a devastação de dentro é muito mais profunda!

A primeira percepção me quebranta. A segunda me angustia.

Entretanto… “assim gememos em nossos corpos… aguardando a adoção de filhos”.

fonte: site do Caio Fábio

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