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Baby do Brasil transforma palco da Virada em grande pista de dança

A cantora Baby do Brasil durante show no palco Júlio Prestes durante a Virada Cultural 2014 (foto: Danilo Verpa/Folhapress)

A cantora Baby do Brasil durante show no palco Júlio Prestes durante a Virada Cultural 2014 (foto: Danilo Verpa/Folhapress)

Giuliana Vallone, Gislaine Gutierre e Tatiana Harada, na Folha de S.Paulo

O show de Baby do Brasil, o segundo do palco Júlio Prestes, começou pontualmente às 21h. Muito animada, a cantora subiu ao palco cantando “Seus Olhos”, de “Cósmica”, lançado em 1982 e transformou o local numa grande pista de dança.

Com público bem menor que a banda anterior, o Ira!, os fãs de Baby aproveitaram os espaços vazios para dançar, a exemplo da cantora. “Telúrica”, a segunda do show, animou e a plateia cantou junto.

“É um momento muito especial da minha vida, mais ainda com esse povo. Somos como uma ponte, unindo as gerações, sabendo que tem que ir de ‘sim’, porque quem vai de ‘não’, não chega”, disse ao cumprimentar o público.

Vestindo roupa furta-cor —”de papel”, disse—, Baby segurou o show com uma banda afiada e cheia de swing e repertório dançante.

“Menino do Rio”, de Caetano Veloso, foi saudada com muita animação pelo público, que sabia a letra de cor. “Dia de Índio” e “A Menina Dança” vieram depois. Não havia ninguém parado.

A química Maria José do Nascimento, 65, elogiou a edição da Virada neste ano. “Estou adorando, está muito melhor do que no ano passado. Você pode curtir sem ficar apavorada.”

“PAPAI”

Depois do showmício do Ira! —que aproveitou o palco para pedir tratamento humanitário para os usuários de crack do centro e defender a criação do Parque Augusta, foi a hora do público na praça Júlio Prestes receber as bênçãos de Baby do Brasil.

A cantora, que virou evangélica há mais de uma década, fez várias menções religiosas ao longo do show e afirmou que estava em uma fase de “popstora”. “Louvado seja o nome daquele que está acima de todos nós, Papai.”

“Depois que o conheci, não tem mais como voltar atrás. Porque não vai ter bunda mole no céu. Só gente casca grossa!”

Em “Cósmica”, o público mostrou sua “sintonia espiritual” com Baby. Ao final da música, os fãs lançaram as mãos ao alto, espalmadas e tremulantes, como em shows religiosos.

“Ela canta o que ela é”, disse Cristina Laranjeira, 54, em apoio ao discurso evangélico. A publicitária acompanha a cantora desde os “Novos Baianos” e classificou o show como “maravilhoso”.

Ela aproveitou a presença do filho Pedro, guitarrista da sua banda, para homenageá-lo por seu aniversário, cantando “Parabéns a você” acompanhada do público.

Enquanto a cantora demorava para voltar para o “bis”, Pedro cantou “Mistério do Planeta”, dos “Novos Baianos”, com ótima recepção do público.

Que país? É este

bandeira-do-brasilPaulo Brabo

Em 2010, querendo me desiludir da Itália, um amigo italiano me mandou o link de um vídeo, feito dois anos antes, num comício na cidade de Treviso. O vídeo mostrava um discurso de Giancarlo Gentilini, naquela ocasião prefeito da cidade, em que o sujeito escarra opiniões de um ódio racial assombroso e recebe o aplauso unânime da multidão.

Lembro de ter pensado: isso nunca aconteceria no Brasil.

– Quero a revolução contra os acampamentos dos nômades e dos ciganos! – exige Gentilini no vídeo do comício. – Dois desses acampamentos aqui em Treviso foram destruídos por mim, e agora não resta nenhum. Quero eliminar os filhos dos ciganos, que vêm roubar os nossos anciãos.

Aquele quero eliminar os filhos dos ciganos, seguido da sua onda de aplausos, cortou-me verdadeiramente metade das ilusões, não só a respeito da Itália, mas do ser humano.

E o discurso corria inteiro por essa linha.

A respeito dos imigrantes ilegais, Gentilini disse: “seria o caso de vesti-los de lebre, para fazer pim pim pim com o fuzil”. Famosamente, o político escolheu ainda a expressão “limpeza étnica” para fomentar a expulsão dos homossexuais da sua cidade. Sobre os que se aproveitam de tumultos para depredar a propriedade alheia, sentenciou: “nenhuma piedade; deveriam vir fuzilados como no tempo da guerra.”

Enquanto eu via Gentilini dizer esse tipo de coisas em seu discurso, lembro de ter pensado (e dito): isso nunca aconteceria no Brasil. Mesmo se um político pensasse desse modo, não seria estúpido de dizer num comício, em praça pública. Não com gente filmando.

É claro, isso foi em outra vida, em 2010. É raro que eu me engane, mas quando acontece é da forma espetacular que você está vendo. Passados quatro anos, o Brasil tratou de eliminar a metade restante das minhas ilusões.

Ruralistas, linchadores de rua, matadores de índios, expulsadores de sem-terra, comentaristas de tv, articulistas da Veja, deputados, fan pages do Facebook – o Brasil de 2014 ecoa com o tom de voz e o discurso fascista do Giancarlo Gentilini: aquele mesmo discurso que eu cria que o público brasileiro, obcecado que somos com a cordialidade e o bom-mocismo, não estaria jamais disposto a engolir. “Bandido bom é bandido morto” é coisa que se dizia entre um comício e outro. Em 2014, leigos e políticos brasileiros abandonaram esse recato.

Não é que o Brasil tenha em poucos anos mergulhado em trevas; aconteceu apenas que a nossa face fascista veio para a luz.

* * *

Lembro que depois de assistir ao vídeo do comício em Treviso perguntei ao meu amigo italiano como era possível existir gente caindo no discurso fascista em pleno século vinte e um. Como não ver a semelhança entre as exaltações de Gentilini e as de Mussolini? Entre as suas soluções e as soluções de Hitler?

Na Itália a crise econômica e o desemprego tem acentuado as tensões raciais ao longo da última década. Os imigrantes (especialmente africanos, chineses e muçulmanos) são muitas vezes vistos como os caras que vem de fora para roubar os empregos dos nacionais, comprar propriedades que sempre pertenceram a boa gente italiana, manchar a cultura com a sua desreligião e mamar nas tetas do Estado.

Não são nem de longe todos os italianos que veem as coisas desse modo, mas os fascistas nunca foram conhecidos por falar pouco, com pouco entusiasmo ou em voz baixa. Giancarlo Gentilini é um dos líderes do movimento separatista Lega Nord/Liga Norte, que propõe a independência do norte da Itália: uma versão mais organizada daquele ideal reacionário brasileiro que sonha com a independência do sul produtivo porque está convicto de que um nordeste de aproveitadores puxa o país continuamente para baixo.

A verdade é que os admiradores de Giancarlo Gentilini não ignoram a semelhança entre o seu discurso e o de Mussolini. Eles na verdade o admiram precisamente por causa disso: exatamente como os brasileiros que falam com nostalgia dos anos da ditadura porque “naquele tempo pelo menos havia ordem nas ruas”.

Foi essencialmente a crise econômica que fez o fascismo mostrar a sua cara de verme, como se fosse coisa aceitável, na Itália contemporânea. Se o neofascismo brasileiro encontrou ocasião para fazer a mesma coisa, provavelmente foi devido ao efeito acumulado de três mandatos presidenciais do PT.

O governo do PT, apesar de inúmeras falhas de projeto e de execução, acabou trazendo para o centro da discussão nacional tensões que existiram por séculos à margem das discussões oficiais: a desigualdade na distribuição de renda e de terras, os direitos dos índios, o desequilíbrio racial, a tendência do livre-mercado a produzir a oligarquia, o direito de propriedade a recursos universais, o círculo vicioso da pobreza e da exclusão.

Como todos os governos com viés de esquerda, o PT tomou por missão criar ferramentas que lembrassem a todos que ninguém é melhor do que ninguém. Uma missão quixotesca, não há como negar, tornada ainda mais embaraçosa quando assumida por uma instituição ou um governo, mas por outro lado todas as causas bem-intencionadas parecem utópicas e ridículas até produzirem alguma transformação.

Porém treze anos da ênfase ninguém é melhor do que ninguém o fascista que há nos brasileiros não foi capaz suportar em silêncio. O discurso fascista – seja o de Hitler, o de Mussolini, o de Giancarlo Gentilini ou o dos ruralistas brasileiros – insiste no oposto. Alguns são melhores do que os outros! Há uma tremenda diferença entre nós e eles! – berram os fascistas de todas as eras. Nós somos gente de bem; eles são uma ameaça aos nossos valores e devem por isso ser eliminados.

“Nós” somos sempre nós, os fascistas/gente de bem que estamos falando. Os “eles” a serem eliminados são escolhidos de acordo com a demanda local. Para Hitler eram os judeus. Para Giancarlo Gentilini são imigrantes, ciganos, africanos e muçulmanos. Para os neofascistas brasileiros são os índios, negros, homossexuais, nordestinos, sem-terra. A letra muda, a música é fúnebre e é a mesma.

* * *

Se você admira um canalha como Gentilini ou como seus correligionários brasileiros, meu amigo, que posso te dizer.

Há um certo fascínio em ver alguém reconhecer publicamente a sua mesquinheza e seu desprezo pelo próximo, e assinar o seu testemunho com a notícia de que não está disposto a mudar e não vai. O canalha deliberado e esclarecido é uma visão infernal mas justamente por isso irresistível; não é inconcebível que sua feiura responda pelos seus convertidos. O que o fascista acha necessário dizer continuamente é: “e daí? Eu sou uma caricatura e assumo; nego a minha humanidade e a do próximo, o que você tem com isso”.

Não tenho nada com isso, além do inferno que você quer fazer vazar da sua vida para a minha e para a dos outros. Um lado mesquinho todos temos, mas o inferno é como o lixo: cada um deveria conter o avanço do seu.

“Se as vacas não são gays, como os homens podem ser?”, indaga a primeira-dama da Uganda

Em evento religioso, Janet Museveni parabenizou os pastores que trabalharam pela aprovação da lei antigay e afirmou que “Deus está grato” por conta disso

“Se as vacas não são gays, como os homens podem ser?”, indaga a primeira-dama da Uganda

Publicado no Portal Forum

Em evento religioso realizado neste fim de semana, a primeira-dama da Uganda, Janet Museveni, parabenizou os bispos pela campanha a favor da lei antigay. Janet, que também é ministra para assuntos da região Karamoja, declarou ainda que a lei aprovada é para “proteger Uganda”.

“Se as vacas não são gays, como pode o homem ser?”, questionou em discurso. Janet Museveni também afirmou que a aprovação da lei foi “um trabalho de Deus” e que se a lei não tivesse sido aprovada “Uganda iria ruir”.

As declarações foram feitas durante um evento em homenagem aos bispos da Igreja de Uganda. A primeira-dama também declarou que não existe a possibilidade da lei ser revogada e que “Deus está grato” por conta da nova legislação. Janet também dirigiu o seu discurso para os jovens e pediu a eles que “rejeitem a homossexualidade e qualquer influência cultural do Ocidente”.

A legislação antigay de Uganda prevê 15 anos de regime fechado para réus primários e prisão perpétua para reincidentes. Neste momento, ativistas dos Direitos Humanos de Uganda entraram com uma ação no Tribunal Constitucional do país, alegando que a referida lei é inconstitucional.

dica da Morgana Boostel

Papa Francisco já enfrenta resistência no Vaticano

Ala tradicionalista da Igreja condena abertamente mudanças promovidas pelo Pontífice

O Papa Francisco acena para a multidão durante cerimônia do Angelus na Praça de São Pedro: Pontífice demonstrou uma maior abertura às transformações das sociedades modernas, o que está lhe rendendo ataques de conservadores STEFANO RELLANDINI / Reuters/STEFANO RELLANDINI

O Papa Francisco acena para a multidão durante cerimônia do Angelus na Praça de São Pedro: Pontífice demonstrou uma maior abertura às transformações das sociedades modernas, o que está lhe rendendo ataques de conservadores STEFANO RELLANDINI / Reuters/STEFANO RELLANDINI

Publicado no O Globo

Não é raro o Papa Francisco deixar sua sala de trabalho na Residência de Santa Marta, na Cidade do Vaticano, tirar uma moeda do bolso e se servir de um café expresso na máquina instalada no corredor. Em mais de seis meses de pontificado, o sucessor de Bento XVI manteve seus austeros hábitos de cardeal franciscano, renunciou aos aposentos papais no Palácio Apostólico e a tradicionais símbolos do vestuário do cargo, como os sapatos vermelhos ou a cruz de ouro (ele usa uma de prata).

No discurso, o novo Pontífice demonstrou uma maior abertura às transformações das sociedades modernas, na rejeição de uma ingerência espiritual na vida pessoal, e criticou a “obsessão” da Igreja por temas como o casamento homossexual, o aborto ou os contraceptivos. A Igreja “dos pobres e para os pobres” do Papa Francisco tem suscitado entusiasmo entre fiéis, mas também desaprovação e severas críticas por parte de setores católicos conservadores.

Para o italiano Marco Politi, um dos mais respeitados vaticanistas, está em curso “uma verdadeira revolução”, num processo gradual de “desmontagem de uma Igreja imperial” em que o Papa era o monarca absoluto e a Cúria romana, o centro de dominação. O analista aponta uma firme intenção de Francisco em impor o “princípio de colegialidade” pela implementação de um mecanismo de consulta com os bispos para decidir sobre as mudanças necessárias à Igreja.

— Por isso que já ocorre uma resistência das forças conservadoras, não somente na Cúria, mas na Igreja. Mas até este momento, no escalão superior, os cardeais e bispos conservadores não falam abertamente contra o Papa, deixam as críticas mais furiosas aos sites na internet. Vemos em diferentes partes do mundo sites muito agressivos contra o Papa, acusando-o de populista, demagógico, pauperista, de não querer exercer o primado absoluto de Pontífice romano — nota Politi.

‘Enganador em turnês demagógicas’

O blog “Messainlatino.it”, que prega a renovação da Igreja “na esteira da tradição”, denunciou uma “real e verdadeira crise de identidade” do Pontífice por causa de uma de suas notórias declarações no voo de retorno à Itália da viagem ao Rio de Janeiro, onde participou da Jornada Mundial da Juventude (JMJ): “Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, disse Francisco. O site tradicionalista diagnosticou como “um sinal tangível de um extravio existencial que faz literalmente tremer os nervos e o corações dos fiéis”, e indagou de forma irônica: “Perdoe o atrevimento, vós não sois, talvez, o ‘Papa’? Não tendes, talvez, as chaves para abrir e fechar o Reino dos Céus?”.

Conservadores americanos reunidos no “Tradition in Action”, site baseado em Los Angeles que defende as “tradições católicas”, acusaram Francisco de ser um “enganador” que organiza “turnês demagógicas” em “estilo miserabilista”. Para o “Tradition in Action”, o Pontífice procura “dessacralizar os símbolos do papado a fim de aboli-los”. O site criticou seu gesto de retirar o solidéu para colocá-lo sobre a cabeça de uma menina: “Deste modo, quer parecer como um velho vovô que brinca com a sua netinha e, ao mesmo tempo, demonstrar que os símbolos do papado são inúteis”.

Bertone fora do caminho

Para o “Corrispondenza Romana”, setores da Igreja estão sendo controlados por “uma minoria de frades rebeldes de orientação progressista”. O site “Una Fides” censurou missas celebradas no Brasil em que sacerdotes distribuíram a eucaristia em copos de plástico: “O Senhor, um dia, pedirá contas pelos inumeráveis sacrilégios cometidos por milhões de crentes, milhares de sacerdotes, centenas de bispos, dezenas de cardeais e talvez até por alguns Papas.” Já a publicação americana “National Catholic Register” definiu a eleição de Jorge Mario Bergoglio como Papa como “mais um acréscimo à pilha das recentes novidades e mediocridades católicas”.

Para Marco Politi, haverá mais oposição entre bispos e cardeais no mundo do que dentro da Cúria, onde grande parte de seus integrantes estava decepcionada com a ineficácia administrativa de Bento XVI e com o autoritarismo do cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano.

— Não podemos saber como tudo vai evoluir, mas é certo que à medida que o Papa avançar em suas reformas, o movimento de resistência por parte dos conservadores será cada vez mais forte — avalia.

Para o posto de Bertone, o segundo na hierarquia da Santa Sé, foi nomeado o arcebispo Pietro Parolin, “um homem de grande experiência, que não tem uma atitude ideológica, mas de atenção para a realidade contemporânea”, diz Politi. O vaticanista lista, ainda, algumas mudanças importantes já feitas ou sinalizadas pelo Papa: o saneamento do Banco do Vaticano, com tolerância zero para as contas opacas; a criação do grupo de trabalho constituído de oito cardeais para refletir e elaborar propostas de reformas na Cúria, a comunhão para os divorciados recasados ou a ascensão de mulheres a postos de decisão na hierarquia da Igreja.

— Uma de suas decisões que provocaram bastante ruído em Roma foi a demissão do prefeito da Congregação do Clero, o cardeal Mauro Piacenza (substituído por Beniamo Stella), responsável pelas centenas de milhares de padres no mundo — acrescenta Politi. — Era muito conservador, e contra qualquer mudança na lei do celibato. Esta troca é um sinal claro de que o Papa não quer um conservador num posto-chave como este.

‘A instituição irá se defender’

Para o sociólogo francês Olivier Bobineau, especialista em religiões no Instituto de Ciências Políticas de Paris (Sciences-Po) e autor de “O império dos Papas — uma sociologia do poder na Igreja”, haverá um limite para as reformas de Francisco. Na sua opinião, o Pontífice já deu sinais de abertura, simplificou o protocolo hierárquico e poderá alterar o “clima e o ambiente” na Igreja, mas terá enormes dificuldades se desejar promover transformações mais profundas.

— A primeira coisa que ele teria de fazer é mexer no edifício hierárquico. Mas nem João XXIII conseguiu fazê-lo. A instituição irá se defender. Há padres e bispos que amam este poder hierárquico, e vão tentar conservá-lo por todos os meios. Não se pode sair de uma estrutura católica que remonta ao século V. Há 1.500 anos é assim. Um só homem não pode mudar isto.

Bobineau acredita que o Papa centrará seu Pontificado nas mensagens de amor e pelos pobres e em mudanças de estilo:

— Em sua recente entrevista à revista dos jesuítas, ele disse que as reformas estruturais e organizacionais são secundárias. Ele sabe. Seria necessário explodir tudo. Ele está no topo de uma estrutura hierárquica que em algum momento vai lhe impor limites. Quanto mais ele empurrar no sentido de mudanças, mais sofrerá resistências dos conservadores — prevê.

Entre 1º e 3 de outubro, o Conselho de oito cardeais se reunirá com o Papa para preparar um documento de trabalho com propostas de reformas na Cúria. No dia 4, Francisco visitará, pela primeira vez como Papa, Assis, a cidade do santo que inspirou o nome de seu pontificado.

— A expectativa é de que fará um discurso bastante forte sobre a pobreza na Igreja — arrisca Politi.

A força das pastoras

As mulheres ganham espaço nos altares evangélicos do Brasil, conquistando cada vez mais fiéis para essas denominações. Em algumas igrejas, quase metade do corpo pastoral é feminino

Rodrigo Cardoso, na IstoÉ

O papa Francisco voltou a surpreender o mundo na quinta-feira 19, quando, durante longa entrevista, de 29 páginas, publicada no jornal jesuíta italiano “La Civiltà Cattolica”, não se furtou a falar sobre assuntos indigestos para a Igreja Católica, como aborto, gays e o papel das mulheres. “É necessário ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja. O gênio feminino é necessário nos locais onde se tomam decisões importantes”, afirmou, num discurso que, à primeira vista, pode soar progressista, mas continua tão engessado quanto as colunas da Praça de São Pedro. Em seu comentário, o pontífice enaltece o gênero, mas o coloca como apêndice dos homens na estrutura da Santa Madre Igreja. Ou seja, nada mudou desde sua visita ao Rio de Janeiro, para a Jornada Mundial da Juventude, há dois meses, quando, na volta para o Vaticano, foi questionado por um jornalista durante o voo, sobre o direito das religiosas. Francisco, assim como fizeram seus antecessores, deixou claro que as mulheres são semelhantes aos homens – mas não iguais; são importantes para o crescimento do catolicismo – mas jamais irão atingir o status de sacerdotes. “Sobre a ordenação das mulheres, a Igreja falou e disse: não! Esta porta está fechada”, sentenciou. Enquanto a Igreja Católica segue acorrentada a essa tradição milenar, o grupo dos evangélicos, aquele que mais cresce e faz frente aos católicos no País, anda em sintonia com as mudanças em relação ao lugar das mulheres na sociedade. Transformações essas que vêm fazendo com que elas ocupem cada vez mais postos de liderança e atraiam milhares de fiéis para os templos cristãos.

sarah5O mais novo e fulgurante exemplo de liderança feminina religiosa é Cristiane Cardoso, filha de Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus. A jovem acaba de superar a marca de um milhão de cópias vendidas de seu livro “Casamento Blindado” e faz sucesso na tevê à frente do programa “Escola do Amor”, na Record, que apresenta junto com o marido, Renato. “Entendemos que a liderança da mulher é uma necessidade da igreja e vai muito além do título ou cargo que ela exerce”, afirma Cristiane. “Temos pastoras consagradas no Brasil e ao redor do mundo.” Quem abriu caminho para Cristiane e tantas outras foi Sônia Hernandes, da Igreja Renascer em Cristo. Apesar de Estevam Hernandes, seu marido, ter o título de apóstolo, é atribuído à bispa Sônia o papel de protagonista. É ela quem arrebata multidões na Marcha para Jesus e reúne milhares de evangélicos nas ruas de São Paulo todos os anos. “Sem o viés feminino que Sônia trouxe à igreja, por certo a denominação não teria tido tanto avanço como houve no Brasil, sobretudo em São Paulo”, afirma Rogério Rodrigues da Silva, pesquisador da Universidade de Brasília.

LIDERANÇA Apresentadora da Rede Record, Cristiane Cardoso, filha de Edir Macedo, da Universal do Reino de Deus, vendeu mais de um milhão de exemplares de seu último livro

LIDERANÇA
Apresentadora da Rede Record, Cristiane Cardoso, filha de Edir Macedo,
da Universal do Reino de Deus, vendeu mais de um milhão de exemplares de seu último livro

Para a professora Sandra Duarte de Souza, de ciências sociais e religião da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), em muitas instituições religiosas as mulheres conseguem criar uma empatia muito mais sólida com a comunidade do que os homens. Na Igreja Batista da Lagoinha, fundada em Belo Horizonte (MG), 44,6% do corpo pastoral é do sexo feminino – a cultuada cantora gospel Ana Paula Valadão é uma delas. Entre os metodistas, as mulheres representam aproximadamente 30% dos pastores – a mesma porcentagem é verificada entre os presbíteros da Igreja Anglicana. Até mesmo uma das mais conservadoras denominações pentecostais brasileiras, a Assembleia de Deus, tem aberto caminhos para as fiéis ocuparem altos postos na sua hierarquia. No mês passado, a denominação permitiu pela primeira vez em sua história que mulheres assumissem o cargo de evangelistas. Para essa posição, que permite, por exemplo, que a eleita dirija um templo, duas jovens foram consagradas no ministério do Brás, em São Paulo. “Já não dá mais para negar a importância da mulher dentro das nossas igrejas”, diz Samuel Ferreira, pastor da Assembleia. “Eu não tenho o direito de negar a elas a prerrogativa de exercerem essa liderança.” Especialistas no tema ouvidos por ISTOÉ têm notado um aumento no número de ordenações de mulheres, principalmente daquelas que estudam para atingir um alto posto na instituição. Ainda é bem maior o contingente de religiosas escaladas para tarefas como limpar e ornamentar a igreja, cozinhar e assessorar pastores em visitas externas. Mas vê-las pregando em púlpitos, batizando, realizando casamentos e celebrando a ceia são cenas vistas já com normalidade e frequência em muitos templos.

PROTAGONISTA O carisma, na Renascer em Cristo, está em poder da bispa Sônia Hernandes: referência para as fiéis

PROTAGONISTA
O carisma, na Renascer em Cristo, está em poder
da bispa Sônia Hernandes: referência para as fiéis

Aos 48 anos, a gaúcha Margarida Ribeiro é reverenda da Igreja Metodista, que possui uma bispa entre as oito pessoas que ocupam esse posto no Brasil. Para tanto, ela encarou seis anos de preparação por meio de estudos teológicos e experiências em comunidades. Hoje, em 27 anos de pastorado, já foi titular em 20 igrejas. Mas o início não foi fácil. Quando pisava em alguma comunidade para pregar a palavra, Margarida ouvia o seguinte questionamento: “Você quem vai fazer o culto? Onde está o seu pai ou marido?” Hoje, no entanto, conta com orgulho que, ao ser convidada a dirigir cultos em igrejas pentecostais que possuem dois púlpitos, é frequentemente instada a pregar no principal, local costumeiramente ocupado por um homem. A reverenda, hoje, cuida da criação da primeira comunidade em Santa Isabel, interior de São Paulo. No Rio Grande do Sul, já esteve à frente de templos em zonas rurais, atuou na pastoral do agricultor, desenvolveu atividades sociais, ecumênicas e com mulheres, além de ter supervisionado trabalhos de outros pastores.

“Uma liderança feminina dá credibilidade à igreja evangélica.
Mulher não é vista como exploradora da fé”

Bispo Hermes C. Fernandes, da Igreja Reina

Para Margarida e outras lideranças femininas de origem protestante histórica, a ascensão dentro da hierarquia está muito atrelada à formação teológica, o que facilita o acesso delas a posições de destaque. É o que aponta a professora Sandra, da Umesp. No universo pentecostal e neopentecostal, no entanto, fazer parte do corpo sacerdotal depende em muitos casos do apadrinhamento de personalidades da instituição. Recentemente, só para citar um exemplo, um ministério da Assembleia de Deus consagrou compulsoriamente todas as mulheres de pastores presidentes no Brasil. “Ordenar ou não mulheres não classifica uma igreja como mais ou menos patriarcal. Ter mais mulheres na hierarquia pode significar apenas um dado”, alerta a professora Sandra.

BELAS DA FÉ Em Vila Velha, no Espírito Santo, três amigas fundaram e administram uma igreja desde 2011: únicas pastoras de um templo

BELAS DA FÉ
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