Minha borboleta

Helena Beatriz Pacitti

Antes que eu completasse um ano de vida … ela chegou! Foi meu primeiro presente de Páscoa, já que nasceu exatamente no domingo da ressurreição, e meu primeiro presente de aniversário – comemorado uma semana depois.

Não houve crises nem reino a dividir: na prática, éramos dois bebês para serem cuidados, alimentados e criados.

Sabe-se lá em que dia, num lampejo de consciência, percebi que era mais velha e ela passou a ser o meu bebê, a minha princesinha, a minha boneca, a minha rainha. Logo eu a chamei de Bel – apelido que valeria para sempre.

Nunca conseguimos contabilizar o número de aventuras e travessuras em que nos metemos. Duas irmãs com diferença de idade tão pequena praticamente aprendem tudo juntas. Às vezes nos chamavam de gêmeas. Outras vezes, por pura conveniência, preferíamos ser a mais velha e a mais nova.

Na escola a defendi muitas vezes. Eu era da turma seguinte, mas no recreio ficava de olho, com quem ela andava, se algum coleguinha lhe tomava o lanche, ela sempre boazinha demais. Eu partia para cima sem nenhuma cerimônia: com licença, ela lhe deu mesmo o lanche? Acho que foi engano.

É verdade, em casa a gente aprontava mesmo. Teve a caixa de chocolates Chokito que sumiu em cinco minutos entre mordidas e cuspidas debaixo da cama. Teve o teste de sobrevivência do peixinho dourado fora do aquário. Teve o episódio do pacote de sabão em pó aberto na janela do supermercado para simular neve tropical na época de final de ano.

Sozinha (ou seja, sem minha ajuda), uma vez ela caiu da bicicleta e cortou o braço em uma cerca com arame farpado. Todo mundo foi para o pronto socorro. De outra, queimou-se com borra de café quente. Todo mundo no pronto socorro. Cortou o pé direito em uma lasca de porcelana que havia quebrado. Todo mundo, de novo, no pronto socorro. É. Devemos muito know how a Bel; e meu pai, minha mãe e eu, respectivamente: a ausência de cabelos, alguns cabelos brancos e um destemor diante de qualquer tipo de ferimento ou sangue – vai que por isso fui parar na Medicina?

Maiorzinhas, me encantava por talentos extraordinários que ela possuía. Ela era a mais criativa, a mais palhaça dos irmãos. Inventava roteiros engraçadissimos para as nossas gravações da Radio Minigente. Desenhava, pintava e escrevia maravilhosamente bem.

As memórias são infinitas. Tornamo-nos adolescentes. A gente teve, claro, aquelas briguinhas de irmãs: você pegou minha roupa! e você usou meus sapatos … mas essa fase não durou muito. Vi, maravilhada, ela terminar a faculdade antes de mim, trabalhar antes, comprar seu primeiro carro. Que orgulho imenso eu tinha dela, sempre destemida, empresária, dona do próprio negócio. Ela também sempre teve mais namorados ( e candidatos!). Era mais bonita e mais habilidosa em falar em público. Não havia competição, só prazer e reconhecimento recíprocos.

Nossos filhos chegaram em tempos diferentes: casei e fui mãe primeiro; ela, a super tia. Aprendemos uma com a outra, já morando em cidades distintas. Por telefone nossas conversas eram cheias de causos, risadas, palpites, combinações e muitas interrupções. Nossas casas eram barulhentas e sempre havia panela no fogo e alguma criança chamando para cortarmos a ligação.

Nos altos e baixos que surgiam, chorávamos, ralhávamos, brigavámos e criticávamos. E como nos abraçamos, nos amamos e nos aceitamos!

Minha irmã – cuja risada me é tão clara na memória – traz lembranças muito mais vívidas e marcantes do que as palavras que ela escreveu em seus últimos dias de vida. Vou lhe explicar melhor o que sinto. Ela viveu 44 anos e 11 meses plenos de vida, alegria, sorrisos, conselhos, surpresas e descobertas. A doença apareceu somente quando ela estava para completar 45 anos. Minha Bebel não foi uma pessoa doente e somente preocupada em acalmar as pessoas assustadas com sua doença. (Como fico feliz em saber que a Bel nunca precisou me dizer que não tivesse medo da sua morte, pois sabíamos que isso não era problema para ela, tampouco para mim). Obviamente ela cresceu com o sofrimento, lapidador de caráter e de prioridades. Mas sua essência nunca mudou: plena, feliz, artística e engraçada. Alguém que amou a Deus criativa e profundamente, e que amou cada momento de vida que lhe era concedido.

Nesses últimos meses tentei dar o melhor de mim. Fui chata com a equipe médica e hospitalar, vigiei os procedimentos e decisões técnicas, discordei quando assim o entendi, busquei vários outros especialistas e opiniões, defendi minha irmã na fila da radioterapia, fiz curativos, fiz sopa e inventei gemadas doidas para que ela pudesse ficar mais forte.

Nas temporadas hospitalares reeditamos nossa brincadeira de infância ’escrava e rainha’ (em resumo: ela mandava, eu obedecia). Molhamos muitos lenços e blusas com lágrimas, nos abraçávamos quando as notícias não eram boas. Censurei-a quando se preocupava em arrumar o armário de roupas das meninas e se esquecia de tomar os remédios; passei maquiagem a seu contragosto só para que ficasse mais bonita quando as filhas chegassem da escola ou o marido do trabalho. Mesmo assim eu sentia que sempre ficava devendo mais amor. Aliás, era o que eu lhe dizia, mãos dadas, quando ela suspirou tranquilamente e partiu.

Meu memorial hoje é o das alegrias leves. A Bel não foi um ser humano perfeito, mas foi a irmã perfeita para mim. Minha princesinha, minha boneca, minha lagartinha saiu daquele casulo apertado e desconfortável, abriu as asas e se libertou, sem mistérios, como uma linda borboleta. A minha borboleta.

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Ser mandona compromete a vida sexual, diz pesquisa

Michelle Achkar, no Portal Terra

Assumir a liderança e tomar todas as decisões a respeito da casa e da vida familiar não tem nada de errado, mas pode comprometer a vida amorosa. Uma pesquisa aponta que as “mandonas” no lar ficam até 100 vezes mais tempo sem fazer sexo do que as que costumam dividir as decisões com os companheiros. As informações são do site do jornal inglês Daily Mail.

O levantamento foi feito com mulheres em seis países da África, divididas em dois grupos: as que conduziam tudo sozinhas e as que discutiam e tinham a participação dos homens no planejamento e execução de tarefas, que incluem a definição do orçamento familiar semanal ou mensal, compras, visitas a amigos, consultas médicas, entre outros itens.

“Quanto mais decisões a mulher tomou sozinha, maior foi o tempo sem sexo, que aumentou de três a 100 vezes”, disse Michelle Hindin, professora da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, em Baltimore, Estados Unidos.

No entanto, os pesquisadores alertaram que a diminuição na frequência sexual também pode ser uma decisão das mulheres. Eles consideram que pode ser uma consequência do estilo mandão das parceiras, que poderia intimidar os homens, mas também uma atitude delas, que nem no quarto querem perder o controle e por isso não cedem à paixão.

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