Balbúrdia teológica

801-2Hélio Schwartsman, na Folha de S.Paulo

A bioética é a mais depressiva das especialidades filosóficas. Seus manuais são uma coleção de situações médicas trágicas que geram dilemas sem solução feliz. Se existe um princípio heurístico nessa triste disciplina, é o de que o respeito à autonomia do paciente e seus familiares é quase sempre a resposta menos ruim.

Faço essa introdução a propósito da decisão do Superior Tribunal de Justiça que livrou de ir a júri popular, isto é, de responder por homicídio doloso, o casal de pais que, por serem testemunhas de Jeová, não autorizou uma transfusão de sangue em sua filha menor, que morreu.

Penso que o STJ agiu bem. O que define primariamente o dolo no homicídio é a intenção de matar, o que, obviamente, não se era o desejo dos pais. De uns anos para cá, porém, o Ministério Público, provavelmente para obter condenações mais duras, vem abusando da figura do dolo eventual, que ocorre quando o acusado faz pouco caso do perigo a que submete a vítima. Esse, contudo, deveria ser um enquadramento excepcional, para dar conta de casos em que o autor não só age com negligência ou imprudência, mas o faz com real desprezo pela vítima. É bom que a Justiça comece a frear essa moda.

Não estou, é claro, afirmando que os pais agiram bem. Considero a ideia de que Deus não quer que transfundamos sangue uma tolice. Vou um pouco mais longe e afirmo que crer num papai do céu se encontra na mesma categoria. Mas, uma vez que nosso ordenamento jurídico permite e até incentiva a prática religiosa, é difícil sustentar que seguir um dogma equivalha a assassinato.

E, depois que se aceita o vale-tudo dos discursos religiosos, não dá para dizer que a crença num Deus com pavor de transfusões seja objetivamente mais errada do que numa divindade que veta a contracepção ou que coleciona prepúcios. Só a autonomia confere alguma coerência a essa balbúrdia sanitário-teológica.

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10 bandas mais perigosas do rock segundo pastor americano

Publicado originalmente no Combate Rock

O texto abaixo é um dos mais hilários que nós, do Combate Rock, lemos ultimamente. É a indigência intelectual, bizarrice e simples imbecilidade levada a extremos – como é comum na maior parte dos seres execráveis que se orgulham de serem religiosos fanáticos – seja qual for a religião, seita ou dogma. O autor é Fábio Pitombeira, e o texto foi publicado n site Full Rock.

Constante perseguidor do Rock, o pastor norte-americano Jeff Godwin lançou, em 1985, o livro Devil’s Disciples. Nele, cita as dez bandas que considera mais perigosas aos jovens. As citadas – com direito a comentários do autor – são:

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O pastor Jeff Godwin.

1. AC/DC: “Essa banda causou mais danos que qualquer outra por aí”.

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AC / DC

2. Rolling Stones: “Esses drogados hedonistas e miseráveis inventaram o Rock diabólico”.

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Rolling Stones

3. Led Zeppelin: “Um grupo de caçadores de emoções ocultas, com um catálogo de negativismo, melancolia e óperas sexuais e sensacionalistas de Heavy Metal”.

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Led Zeppelin

4. Mötley Crüe: “Uma quadrilha de bocas sujas e fornicadores que espalham abertamente seu estilo de vida detestável”.

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Mötley Crüe

5. KISS: “Não contentes com os milhões de dólares já roubados de seus fãs, que são basicamente garotas de treze anos, o KISS parece longe de desaparecer na lata de lixo do Rock”.

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KISS

6. Twisted Sister: “Atitude animalesca, machista, combinada com preferências sexuais estranhas e doentias. Uma das bandas mais prejudiciais da atualidade”.

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Twisted Sister

7. Judas Priest: “Ocultismo, postura de motoqueiros nazistas, violência, violência e violência. O mundo fica ainda mais insano com esse nojento grupo de fascistas do Rock”.

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Judas Priest

8. Black Sabbath: “Um detestável grupo de necrófilos, adeptos da bruxaria”.

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Black Sabbath

9. Ozzy Osbourne: “Repetidos e nojentos atos inconsequentes de depravação e vulgaridade”.

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Ozzy Osbourne

10. W.A.S.P.: “Uma junção dos mais perversos elementos do Rock atual. O nome da banda significa ‘We Are Sexual Perverts’ (Nós somos pervertidos sexuais). E a música que fazem prova isso”.

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W.A.S.P.

dica do Rogério Moreira

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Só se cura um cristão curando o Cristianismo

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Osvaldo Luiz Ribeiro, no Peroratio

1. Não se pode curar um cristão.

2. A doença de que ele é tomado impede a cura – ela não apenas adoece o sujeito: ela o adoece e impede toda e qualquer possibilidade de cura.

3. Logo, por que há cristãos curados?

4. Simples, porque eles cortaram um pedaço do Cristianismo, mutilaram-no. Apenas um Cristianismo mutilado pode permitir certo grau de saúde para o cristão.

5. Como se faz?

6. Você tem que ir até aquela região do Cristianismo – da doutrina, do dogma, da tradição – que gera aquela doença e arrancá-la do mapa: tacar fogo, soterrar, lavar com água sanitária, não importa: tem que dar um jeito de arrancar aquilo de lá…

7. Por exemplo: os batistas eram escravagistas: tinham grandes fazendas no sul dos Estados Unidos, muitos escravos, escravas, Deus gostava bastante.

8. Um dia, uns médicos do Norte foram lá e arrancaram aquele pedaço do mapa. Alguns ainda vieram para o Brasil, tentar reproduzir aqui a pornografia escravagista de lá, mas, cá como lá, a foice comeu o matagal – e, então, os batistas se curaram.

9. Não sei se por dentro…

10. Mas, na prática, a febre cedeu e o catarro que escorria da alma, parou de escorrer…

11. Assim tem de ser feito: Deus gostava de pretos escravos – agora, não gosta mais. Deus, agora, gosta de pretos livres…

12. Você tem que ir lá e desmontar a cidadela – porque, sem isso, o crente, que só sabe dizer sim, senhor, não, senhor, vai continuar doente…

13. Enquanto cristão, enquanto crente, o sujeito só vai se curar se ele entender que Deus não quer que ele seja essa pessoa horrível que ele é…

14. Coitado: ele nem se dá conta!

15. Ele não vê que ele é igual ao escravagista, igual ao misógino: ele acha que ele é um campeão da fé, um santo de Deus – e é um doente!

16. Como é um salto grande demais para pernas tão fracas libertar-se de injunções doutrinárias e assumir-se enquanto agente de sua moral e ética, a única forma de parem-lhe os tremores, os suores, a febre, o catarro, a tosse, as eczemas e a queda de pelos é alguém ajudá-lo a desmontar o mapa.

17. Se ele acreditar que Deus gosta – até o próprio filho ele mata…

dica do Marcos Florentino

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Entre crentes que não conhecem a Deus e ateus que também não conhecem a Deus

Caio Fábio

O QUE FOI QUE JESUS DISSE: bem-aventurados os que não viram e creram; ou: bem-aventurado os nunca me conheceram, mas que apesar disso me representaram de modo fanaticamente canino?

Um homem não conhece a Deus, mas diz crer Nele; o outro não conhece a Deus, e, por isto, diz que Ele não existe.

Qual a diferença entre eles considerando que o Conhecimento de Deus é uma revelação, uma Graça?

O primeiro não O conhece e não O viu — pois Ninguém, exceto o Filho, jamais o viu — mas crê porque é um dogma intrínseco da saúde humana, ou da cultura, ou da perplexidade ante a Sublimidade da criação, confessa-Lo entre os homens.

Ora, o diabo crê e treme. E se um dia conheceu a Deus, hoje somente o conhece como Realidade/Verdade/Amor/Contraste.

O Diabo crê, treme, e continua indesdiabrável.

Mas o homem que crê sem conhecer […] crê-na-fé; visto que não conhece a Deus, por isto tem fé no poder da fé em Deus. Isto é religião.

Ora, o que não conhece e por isto diz que Ele não existe, será visto sempre pelos “de-mais” como um ateu, que é ouvido/interpretado por ouvidos religiosos como alguém/algo semelhante a um anti-Deus, ou ainda como um “algo/alguém que ofende a Deus”; ainda porque também provoca insegurança nos que dizem crer sem conhecer. E, por isto, são dogmáticos e fazem do homem que não conhecendo a Deus [que na carne só se conhece por revelação] um ateu anti-theo, um inimigo de Deus, que odiaria a Deus até se Deus a ele se revelasse, sendo, portanto, um diabo.

De modo contrário, quem conhece a Deus tem um único Dógma: o amor. Por isto são seguros e nada temem.

Os ateus não conhecem a Deus, não porque se dizem a ateus, mas sim, porque não O conheceram ainda [pois dizem não crer em Deus, pelo menos não como a religião constrói “Deus”]. Afinal, sendo Deus invisível, disseram que Ele não existia. Embora, a maior parte dos ateus sejam apenas traumatizados pela religião, ou por sua história sem Deus, ou e por decepções amarguradas ou sofrimentos atrozes ante os quais “o Deus prometido não apareceu nem por ´dever moral´– e, por isto, se dizem sem Deus, ou que Ele não existe.

A bem da verdade um ateu não é um anti-Deus, mas um a-Deus, a-theos.

Deus só é conhecido se Ele próprio se revelar; e Ele se manifesta de muitos modos e formas, incluindo também a criação, mas somente se revela como iluminação do coração para percepções que transcendem as logicas e intelecções por um ato misterioso no coração, pelo menos agora, nos limites da carne.

Ora, um homem não conhece a Deus, mas diz crer Nele; o outro não conhece a Deus, e, por isto, diz que Ele não existe.

Qual a diferença entre eles considerando que o Conhecimento de Deus é uma revelação, uma Graça?

E se a vida do homem que não conhece a Deus for mais abundante de fruto de amor, paz, bondade, honestidade, misericórdia e humildade do que a vida do homem que não conhece a Deus, mas diz crer Nele, embora não carregue os traços divinos do amor, da paz, da bondade, da honestidade, da misericórdia e da humildade?

Pense nisto!

fonte: site do Caio Fábio

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Natal: a atualidade do PUER AETERNUS, da Eterna Criança

Leonardo Boffmother3-2

O Natal representa sempre oportunidade de voltarmos ao cristianismo originário. Em primeiro lugar, existe a mensagem de Jesus: a experiência de Deus como Pai com características de mãe, o amor incondicional, a misericórdia e a entrega radical a um sonho: o do Reino de Deus. Em segundo lugar, existe o movimento de Jesus: daqueles que, sem aderir a alguma confissão ou dogma, se deixam fascinar por sua saga generosa e radicalmente humana e o tem como uma referência de valor. Em terceiro lugar, há as teologias sobre Jesus, já contidas nos evangelhos, escritos 40-50 anos após sua execução na cruz.

As comunidades subjacentes a cada um dos evangelhos, elaboraram suas interpretações sobre a vida de Jesus, sua prática, seu conflito com os as autoridades, sua experiência de Deus e sobre o significado de sua morte e ressurreição. No entanto, cobrem sua figura com tantas doutrinas que se torna difícil saber quem foi realmente o Jesus histórico que viveu entre nós. Por fim, existem as Igrejas que tentam levar avante o legado de Jesus, uma delas, a católica, com a reivindicação de ser a única verdadeira guardiã de sua mensagem e a exclusiva intérprete de seu significado. Tal pretensão torna praticamente impossível o diálogo ecumênico e a unidade das igrejas a não ser mediante à conversão.

Hoje tendemos a dizer que Jesus não pode ser apropriado por nenhuma Igreja. Ele pertence à humanidade e representa um dom que Deus ofereceu a todos, de todos os quadrantes.

Tomando como referencia a Igreja Católica, notamos que em sua milenar história, duas tendências, entre outras menores, ganharam grande curso. A primeira se funda muito na culpa, no pecado e na penitência. Sobre tais realidades paira o espectro do inferno, do purgatório e do medo.

Efetivamente, podemos dizer, que o medo foi um dos fatores fundamentais na penetração do cristianismo, como o mostrou J. Delumeau em seu clássico “O medo no Ocidente” (1978). O método no tempo de Carlos Magno era: converta-te ou serás passado ao fio da espada. Lendo os primeiros catecismos feitos na América Latina como o primeiro de Frei Pedro de Córdoba “Doctrina Cristiana” (1510 e 1544), vê-se claramente esta tendência com apelo explícito ao medo. Começa-se com a descrição idílica do céu e depois a terrificante do inferno “onde estão todos os vossos antepassados, pais, mães, avós e parentes…e para onde vós todos ireis se não vos converterdes”. Podemos imaginar a confusão que isso criava na cabeça dos aztecas e outros ao ouvir que seus pais, mãe, parentes e todas as pessoas que amavam, estavam sofrendo no inferno.Setores da atual Igreja manejam ainda hoje as categorias do medo e do inferno.

Outra tendência, mais contemporânea, e penso, mais próxima de Jesus, põe a ênfase na compaixão e no amor, na justiça original e no fim bom da criação. Entende que a história da salvação se dá dentro da história humana e não como uma alternativa a ela. Daí surge um perfil de cristianismo mais jovial, em diálogo com as culturas e com os valores modernos pois neles vê também a presença do Espírito Santo que chega sempre antes do missionário.

A festa do Natal se liga a esta última tendência do Cristianismo. O que se celebra é um Deus-menino, que choraminga entre a vaca e burrinho, que não mete medo nem julga ninguém. É bom que os cristãos voltem a esta figura. Arquetipicamente ele representa o “puer aeternus” a eterna criança que, no fundo, nunca deixamos de ser.

Uma das melhores discípulas de C. G. Jung, Marie-Louise von Franz, analisou em detalhe este arquétipo em seu livro “Puer Aeternus” (Paulinas 1992). Essa figura possui certa ambiguidade. Se colocamos a criança atrás de nós, ela deslancha energias regressivas de nostalgia de um mundo que passou e que não foi totalmente superado e integrado. Continuamos, de certa forma, infantis.

Mas se colocamos a criança eterna à nossa frente então ela suscita em nós renovação de vida, inocência, novas possibilidades de ação que correm em direção do futuro.

Pois estes são os sentimentos que queremos alimentar neste Natal no meio de uma situação sombria da Terra e da Humanidade. Sentimentos de que ainda teremos futuro e que podemos nos salvar porque a Estrela é magnânima e o “puer” é eterno e porque ele se encarnou neste mundo e não permitirá que afunde totalmente. Nele se manifestou a humanidade e a jovialidade do Deus de todos os povos. Tudo o mais é vaidade.

fonte: site do Leonardo Boff

dica do Sidnei Carvalho de Souza

imagem: Internet

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