Adolescente chinês é preso por ser retuitado

Estudante teve postagens compartilhadas e foi enquadrado em lei contra disseminação do rumores

adolescente-preso-china-retuitadoPublicado no O Globo

Na terça-feira, dia 17 de setembro, Yang Hui foi chamado da sua aula de matemática pelo vice-diretor da escola, segundo o jovem estudante do Ensino Médio relatou a um jornal estatal chinês. O rapaz de 16 anos rapidamente descobriu que tinha um grande problema. Três policiais à paisana e um uniformizado esperavam por ele no gabinete do diretor. Eles perguntaram pelo celular de Yang, depois o interrogaram e levaram para a delegacia para esclarecer outros pontos e, então, trancaram-no em um centro de detenção local. O crime? Ele foi retuitado.

Há duas semanas, o governo anunciou novas regras destinadas a conter o suposto aumento da disseminação de rumores que, de acordo com as autoridades, atrapalham o desenvolvimento harmonioso da internet no país.

Poucos chineses acreditam que as novas normas sejam muito diferentes da tentativa anterior – e mais pesada – de checar dissidências on-line e reassegurar o controle sobre o que a China pensa, fala e tuíta sobre seus líderes. Os termos estipulam que qualquer um cuja mensagem seja retuitada mais de 500 vezes em perfis chineses ou vista por mais de 5 mil usuários pode ser condenado a até três anos de prisão se a postagem original for falsa. Esta é uma das poderosas ferramentas da repressão governamental.

A aventura de Yang começou em 12 de setembro, em Zhangjiachuan, um condado remoto na província de Gansu. Naquela semana, o corpo de um homem foi encontrado perto de um clube de karaokê. Na China, esses locais são fortemente associados à prostituição e ao crime organizado. As autoridades disseram que o homem cometeu suicídio pulando do último andar da construção (versão suspeita, já que o prédio tinha apenas dois níveis, segundo o jornal “Los Angeles Times”). Em uma entrevista à imprensa chinesa, Yang contou ter ouvido de testemunhas que a vítima morreu depois de ter sido agredida por policiais.

Há cinco anos, Yang provavelmente teria guardado esta história. Mas ele faz parte da geração conectada às redes sociais e, dois dias depois da morte em frente ao karaokê, ele publicou o primeiro de seus posts, agora apagados, em dois serviços chineses de microblogs similares ao Twitter, o “China’s QQ” e o “Sina Weibo”. As mensagens questionavam a versão do governo, afirmavam que o dono do clube era um oficial de justiça (aparentemente, a informação não era verdadeira, e o karaokê pertencia à esposa de outro oficial) e convocava protestos (houve realmente um encontro, mas não ficou claro se ele foi gerado pelos apelos do jovem).

“Passaram-se três dias e duas noites desde o assassinato de Zhangjiachuan em 12 de setembro, e a polícia ainda não age, a mídia não reporta, e as pessoas não sabem a verdade”, denunciava uma das mensagens no QQ, de acordo com o jornal “Southern Metropolis Daily” que, embora estatal, é bastante independente do governo. “Ele, que morreu, pode descansar em paz, nós vamos buscar justiça por vocês!”

Até o dia 20 de setembro, a postagem havia sido compartilhada 962 vezes, conforme dados obtidos pelo “Southern Metropolis Daily”.

Em algumas ocasiões durante esta sequência de eventos – um pouco confusa pelas interpretações conflitantes e atividades on-line apagadas – a conduta de Yang descumpriu a lei contra a disseminação de rumores, pelo menos do ponto de vista do governo de Zhongjiachuan. Assim começaram a jornada ao gabinete do diretor e o que parecia ser uma passagem só de ida para a detenção administrativa, sistema que permite à polícia prender criminosos que cometeram ofensas leves por até 15 dias sem uma análise judicial.

Após protestos, jovem é libertado

A prisão do jovem acabou chamando a atenção: as notícias se espalharam na internet praticamente desde o momento da detenção. Boa parte da raiva das pessoas foi canalizada para a lei a respeito da disseminação de rumores e para o bullying feito contra Yang. A reação tomou proporções tão grandes que alguns termos associados ao caso – como “detenção administrativa” – foram bloqueados das buscas do “Sina Weibo”.

Uma das postagens de protesto dizia que o chefe de polícia local havia comprado o cargo e teve mais de 14.900 compartilhamentos e 5.600 comentários. Ainda assim, não foi deletado nem gerou qualquer forma de processo para o autor. Na verdade, eles surtiram efeitos, e Yang foi liberado da detenção na manhã do último domingo. No mesmo dia, o governo de Zhangjiachuan anunciou a suspensão do chefe de polícia denunciado pelos internautas e a prisão do superior dele.

Este é um pequeno progresso para a luta por liberdade de expressão na internet, afinal, trata-se de uma pequena localidade afastada de Pequim. As punições por lá aplicadas significam quase nada para os líderes nacionais que passaram os últimos dois meses aumentando o controle sobre a internet. A liberdade de Yang pode até ser usada como bandeira pelo partido, sob a alegação de que as regras serão usadas com critérios, diferente do que se teme.

Questionado sobre como a experiência o modificou, Yang respondeu à mídia chinesa:

- Eu vou continuar a seguir microblogs, mas minhas postagens serão mais prudentes, baseadas em evidências verificáveis e sem linguagem chula.

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Inteligência e indigência

Drauzio Varella, na Folha de S.Paulo

Mil vezes ser filho de intelectuais ricos do que ter pais pobres e ignorantes. Nutrição inadequada, infecções de repetição e indigência cultural comprometem o desenvolvimento do cérebro da criança.

Vamos à pobreza.

O cérebro é o órgão que mais consome energia. No recém-nascido, 87% das calorias ingeridas são consumidas por ele. Esse número cai para 44% aos cinco anos; 34% aos dez; 23% nos homens e 27% nas mulheres adultas.

As infecções parasitárias interferem no equilíbrio energético, porque prejudicam a absorção de nutrientes e obrigam o organismo a investir energia na reparação dos tecidos lesados e na mobilização do sistema imunológico, para localizar e atacar os germes invasores.

As diarreias na infância têm custo energético especialmente elevado. Antes de tudo, por causa da alta prevalência: estão entre as duas principais causas de óbitos em menores de cinco anos; depois, porque dificultam a absorção de nutrientes.

Quadros diarreicos de repetição durante os primeiros cinco anos de vida podem privar o cérebro das calorias necessárias para o desenvolvimento pleno e comprometer para sempre o quociente intelectual (QI).

Diversos estudos demonstraram que infecções parasitárias e quociente intelectual trilham caminhos opostos. Um deles, realizado no Brasil pelo grupo de Jardim-Botelho, mostrou que crianças em idade escolar com ascaridíase apresentam performance mais medíocre nos testes de capacidade cognitiva. Naquelas parasitadas por mais de um verme intestinal os resultados são piores ainda.

A hipótese de que infecções parasitárias prejudicariam as faculdades intelectuais explica por que a média do QI aumenta rapidamente quando um país se desenvolve (efeito Flynn), por que o QI é mais alto nas regiões em que o inverno é mais frio (menos parasitoses) e por que nos países pobres os valores médios do QI são mais baixos.

Agora, à ignorância.

Aos três anos de idade, o cérebro da criança atingiu 80% das dimensões do adulto. Nessa fase, já existem 1.000 trilhões de conexões entre os neurônios (sinapses), aparato essencial para que o desenvolvimento intelectual aconteça em sua plenitude.

Dos 18 meses aos quatro anos de idade, a maturação do córtex pré-frontal acontece com velocidade máxima. Essa área, que coordena linguagem, resolução de problemas, comunicação, interações sociais e autocontrole, funções de altíssima complexidade, depende de estímulos cognitivos múltiplos e variados, para formar novas sinapses e reforçar a arquitetura das já existentes.

Enquanto conversam, brincam, contam e leem histórias para os filhos, os pais os ajudam a construir as conexões necessárias para o pensamento bem articulado.

O estresse causado por ambientes domésticos conturbados interfere com a construção de novas sinapses, deixando falhas duradouras no cérebro infantil.

Estudos com ressonância magnética funcional mostram que existem diferenças marcantes entre as crianças mais pobres e as mais ricas, não apenas no córtex pré-frontal, mas também no hipocampo, área essencial para a memória e o aprendizado.

Estrutura cuja característica fundamental é a plasticidade, isto é, a capacidade de formar novas conexões neuronais para suprir as que se perderam ou nem chegaram a se formar, o cérebro adulto poderá se recuperar mais tarde.

A reconstrução, no entanto, será um processo trabalhoso, lento e imperfeito. Alfabetizar pessoas de idade, ensinar-lhes um novo idioma e a linguagem dos computadores é possível, mas não é tarefa simples.

Sem minimizar o impacto da escolaridade e sua influência na formação do cérebro adulto, o papel da família é crucial. Vivam juntos ou separados, mães e pais que conversam, contam histórias, leem e criam um ambiente acolhedor promovem no cérebro dos filhos respostas hormonais e neuronais decisivas para o desenvolvimento pleno.

No Brasil, existem 38% de residências sem saneamento básico. Quase metade dos bebês nascidos anualmente pertencem à classe E, que sobrevive com renda familiar abaixo de dois salários mínimos. Mais de 20% dos partos do SUS são realizados em meninas de dez a 19 anos.

A esse caldo de cultura acrescentamos um sistema educacional de baixa qualidade.

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Papa Francisco pode nomear uma mulher cardeal

foto: Alberto Pizzoli/AFP
foto: Alberto Pizzoli/AFP

Publicado no El País [via UOL]

Não se trata de uma brincadeira. É algo que passou pela cabeça do papa Francisco: nomear uma mulher cardeal. Quem o conhece, dentro e fora da Companhia, antes de chegar à cátedra de Pedro, afirma que o primeiro papa jesuíta da igreja está destinado a surpreender a cada dia, não só com suas palavras mas também, e sobretudo, com seus gestos. E ele o está fazendo nos primeiros seis meses de pontificado.

Os que pensam que Francisco, com sua simplicidade de pároco de interior, sua linguagem plana e seu sorriso sempre nos lábios, seja um simples ou um ingênuo se equivocam. Este papa, que não parece papa, chegou a Roma da periferia da igreja com um programa bem concreto: mudar não só o aparelho enferrujado da máquina eclesiástica como também ressuscitar o cristianismo das origens.

O simbolismo de seus gestos começou desde que apareceu na sacada central da Basílica de São Pedro, vestido de branco e dizendo-se “bispo”, pedindo que as pessoas na praça o abençoassem. Não perdeu desde então um minuto para semear de gestos inesperados seus primeiros meses de pontificado, para espanto de muitos, dentro e fora da igreja.

E o continuará fazendo. Por exemplo, com esse plano de tornar cardeal uma mulher. Ele sabe que o tema feminino dentro da igreja não está resolvido e não pode esperar. Ele o deixou claro com duas frases lapidares em sua última entrevista a “Civiltá Católica”: “A igreja não pode ser ela mesma sem a mulher”. Não é só uma afirmação. É uma acusação. A frase também pode ser lida assim: “A igreja ainda não está completa porque nela falta a mulher”.

Como introduzir na igreja essa peça essencial, sem a qual a igreja “não pode ser ela mesma”? Foi o que disse na mesma entrevista: “Precisamos de uma teologia profunda da mulher”.
E essa teologia, o papa dá a entender, não pode ser construída no laboratório do Vaticano, apadrinhada pelo poder. Está sendo construída pelas mulheres dentro da igreja: “A mulher está formulando construções profundas que devemos enfrentar”, diz.

Francisco quer resolver esse problema durante seu pontificado porque está convencido de que a igreja hoje está manca e coxa sem a mulher no lugar que lhe corresponderia, que seria nem mais nem menos o que já teve no início do cristianismo, onde exerceu um enorme protagonismo. Pelo menos até que Paulo cunhou sua teologia da cruz e hierarquizou e masculinizou a igreja.

O papa sabe que para levar a cabo a revolução que tem em mente precisa “escutar” a igreja, não só a de cima, mas também a de baixo, onde estão se realizando, por parte da mulher, “construções profundas”.

Poderia, entretanto, abrir caminho ele mesmo com alguns gestos que obrigariam a colocar com urgência o tema da mulher sobre o tapete, ou, se se preferir, sobre “o altar”. E um desses gestos seria nomear uma mulher cardeal. É impossível? Não. Hoje, segundo o direito canônico, pode haver cardeais que não sejam sacerdotes, basta que sejam diáconos.

Mas, alguém poderia dizer, hoje a mulher ainda não pode ser diaconisa, como o foi há 800 anos e sobretudo nas primeiras comunidades cristãs. Pois essa é também uma das reformas que Francisco tem na cabeça. Não se trata de um dogma. A mulher poderia ser admitida ao diaconato amanhã mesmo.

Como escreveu Phyllis Zagano, da Universidade de Loyola em Chicago, a maior especialista da igreja nesse tema, “o diaconato feminino não é uma ideia para o futuro. É um tema do presente, para hoje”. E conta que teria abordado o tema com o cardeal Ratzinger, antes de ser papa, que lhe respondeu: “É algo em estudo”. Para Bento 16 ficou na ideia, mas o papa Francisco poderia acelerar o processo. Hoje, as igrejas Apostólica Armênia e Ortodoxa Grega, ambas unidas a Roma, já contam com diaconisas.

Chegada a mulher ao diaconato, o papa já pode, sem mudar o atual direito canônico, tornar uma mulher cardeal com o título de diaconisa. Mais ainda, bastaria mudar a atual norma para permitir que um laico, e portanto uma mulher, possa ser eleita cardeal, já que houve pelo menos dois casos na igreja em que foram nomeados cardeais dois laicos: o duque de Lerma em 1618 e Teodolfo Mertel em 1858.

O cardinalato não pressupõe a consagração presbiterial nem episcopal. Os cardeais são conselheiros do papa, e sua função principal é eleger o novo sucessor de Pedro. Há algum inconveniente em que uma mulher possa dar seu voto no silêncio do conclave? Seu voto valeria menos que o de um homem?

Um jesuíta me dizia: “Conhecendo este papa, não lhe tremeria a mão tornando cardeal uma mulher, e até lhe encantaria ser o primeiro papa que permitisse que a mulher pudesse participar da eleição de um novo papa”.

Quando Francisco, em sua longa entrevista, insiste em que não quer fazer as mudanças precipitadamente e que prefere “escutar” a igreja, é porque essas mudanças, algumas surpreendentes, já estão em sua mente, talvez bem enumeradas. Quer apenas apresentá-las com o aval não só da hierarquia, como do povo de Deus.

Com este papa, como dizia Federico Fellini, “la nave va”. Com Francisco, os pilares da igreja começam a se mover. E muitos começam a tremer. De medo. Dentro, e não fora da igreja. Fora começam a ressoar as notas do estupor e até da incredulidade. “Com este papa quase está me dando vontade de me tornar católica”, escreveu ontem uma leitora neste jornal.

Algo se move, e talvez irreversivelmente na igreja, justamente no momento em que no mundo laico e político, no campo da modernidade, os relógios parecem ter parado, todos ao mesmo tempo.

tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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Documentário revela que grupo feminista Femen era controlado por um homem

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Publicado na Folha de S. Paulo

O grupo feminista Femen ficou conhecido nos últimos anos pela forma incomum de chamar a atenção para os direitos das mulheres: mostrando os seios.

Não houve topless na sessão de “Ukraine Is Not a Brothel” (“A Ucrânia não é um bordel”), documentário da australiana Kitty Green apresentado nesta quarta-feira (4), fora de competição no Festival de Veneza. Mas o barulho foi grande mesmo assim.

O primeiro longa a mostrar os bastidores do grupo formado na Ucrânia revelou que Viktor Svyatsky, tido como um simples consultor do Femen, na verdade é um dos criadores do movimento e o liderava até um ano trás.

“Eu não sabia o papel de Viktor”, conta a cineasta de 28 anos que passou 17 semanas viajando com o grupo, filmou mais de 100 protestos pela Europa e exibiu o longa pela primeira vez em Veneza acompanhada de Sasha e Inna Shevchenko, duas das mais conhecidas integrantes do Femen.

“Essa é a verdade por trás do movimento e nós queríamos contar a verdade, por isso estamos aqui”, conta Inna. “Viktor nos deu a compreensão completa do que o movimento poderia ser, mas ele não faz mais parte do grupo. Ele foi o detonador de tudo, mas agora o Femen tem mães.”

O documentário mostra o fundador do Femen como um homem agressivo e manipulador, que se recusou inicialmente a aparecer no filme de Green. “Foi bom tê-lo em nossas vidas para sabermos como os homens podem ser grandes canalhas. Mantemos Viktor em nossas memórias para ficarmos mais fortes”, diz Sasha.

GAROTAS FRACAS

Em uma das partes mais paradoxais do longa, Svyatsky explica a razão de ter sido responsável pela organização do grupo: “Essas garotas são fracas”. “Sim, é um paradoxo quando existe um homem liderando um movimento feminino”, admite Inna. “Mas o Femen não foi baseado em teorias. As mulheres começaram a se reunir e havia vários homens no nosso círculo. O problema é que ele sentiu que precisava de mais espaço, porque é um homem. E homens precisam ter o poder.”

O filme sugere que a ideia de escolher garotas bonitas para protestar de topless veio também de Svyatsky, mas as suas integrantes negam.

“Infelizmente não posso dizer que Viktor não seja real, mas o modo de protestar foi uma decisão coletiva. Éramos nós na rua gritando, não vamos esquecer isso”, rebate Sasha, sempre lembrando que o Femen agora se espalhou para 10 filiais na Europa, com sede em Paris.

“Não aguentávamos ficar mais sob seu controle. Agora temos várias líderes”, finaliza Sasha.

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1 em cada 4 padres deixa batina para casar

Segundo movimento das famílias dos sacerdotes casados, 7 mil já pediram dispensa

Edison Veiga e José Maria Mayrink, em O Estado de S.Paulo

Abel Abati e sua mulher, Neide: 'Não ia ficar solteirão' (foto: Clayton de Souza/Estadão)
Abel Abati e sua mulher, Neide: ‘Não ia ficar solteirão’ (foto: Clayton de Souza/Estadão)

A cada quatro padres brasileiros, um larga a batina para se casar. O dado é do Movimento Nacional das Famílias dos Padres Casados, que estima serem mais de 7 mil os religiosos que solicitaram no País a dispensa do sacramento da ordem em troca do matrimônio. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil não divulga números sobre a questão.

São quase 900 anos (desde 1139, no Concílio de Latrão) de história em que padres não podem se casar. O tema é tabu. Nas últimas duas semanas, o Estado entrou em contato com 12 ex-sacerdotes, todos casados. A maior parte deles não quis falar. Outros contribuíram com informações, mas preferiram o anonimato, “para preservar a mulher e os filhos”.

As histórias e opiniões deles, porém, são parecidas. Quase todos declaram que não saíram da Igreja para se casar – mas que divergiam de muita coisa e o casamento era consequência. Defendem o celibato opcional. Muitos desempenham papéis pastorais em suas paróquias e acompanham com interesse o papa Francisco. “Estamos contentes com o espírito, as palavras e as atitudes cristãs dele. Mas não dá para saber se e como ele vai enfrentar a realidade dos cerca de 150 mil padres casados no mundo”, diz João Tavares, porta-voz do movimento.

O professor Eduardo Hoornaert, que tem 82 anos e mora em Lauro de Freitas (BA), foi padre por 28 anos. Deixou o sacerdócio em 1982, ano em que se casou. Historiador especializado em história da Igreja no Brasil e na América Latina, continuou escrevendo artigos e livros. Afirma que, embora tenha abandonado os ritos, não se desligou do ministério, “pois o ministério é o Evangelho”.

Hoornaert acredita que uma eventual readmissão de padres casados não é prioridade para o papa, que tem outros problemas a resolver. “Formar missionários com boa formação evangélica, sem essa carga de 2 mil anos de dogmas e leis, é a prioridade”, observa. “É preciso reformular o ministério, e o papa Bergoglio sabe muito bem disso.”

Para o historiador, que já participou de encontros de padres casados, esse segmento não parece ser um celeiro de recursos para a alegada falta de sacerdotes no Brasil, porque é heterogêneo. “Alguns padres que se casaram são movidos pelo saudosismo e gostariam de voltar, enquanto outros se adaptaram. A Igreja tem leis e uma delas é a do celibato”, diz Hoornaert. É bom lembrar, acrescentou, que a maioria dos padres casados da associação tem mais de 50 anos. Os mais jovens que deixaram o sacerdócio e se casaram têm outra cabeça.

Otto Euphrásio de Santana trabalhava na pastoral da Arquidiocese de Natal quando deixou o ministério e se casou, após dez anos de batina. Foi uma decisão difícil, sobretudo por causa da família. Seus dois irmãos bispos – o cardeal d. Eugenio de Araújo Sales, arcebispo do Rio; e d. Heitor de Araújo Sales, bispo de Caicó (RN) e depois arcebispo de Natal – fizeram de tudo para que ele não deixasse o sacerdócio. Optou pelo casamento e não se arrependeu. É ligado à Igreja e está entusiasmado com o pontificado de Francisco (mais informações nesta página).

Adaptação social. Morador da Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, e mineiro de Resende Costa, Francisco de Assis Resende, de 72 anos, foi padre por dois anos: atuou em uma paróquia da Vila Pompeia e foi capelão no Hospital das Clínicas. Abandonou a batina, casou-se com uma então estudante de Pedagogia, teve duas filhas e quatro netos. Ficou viúvo em 2010.

Ele conta que o mais difícil é a adaptação à vida social. “Entrei no seminário com 12 anos. Foram outros 12 até ser ordenado.” Cursou Serviço Social e fez carreira na Volkswagen em São Bernardo do Campo, onde conviveu com o então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, e se aposentou. “No começo, me afastei totalmente da Igreja. Tornei-me um agnóstico. Com o passar dos anos, atuei na Pastoral Social. Hoje em dia, só vou à missa aos domingos.”

Nascido em Videira (SC), Abel Abati tem 73 anos e foi padre por quatro – também atuou no Hospital das Clínicas. Em 1970, abandonou a batina. No mesmo ano, se casou com uma enfermeira do hospital, Neide de Fátima, com quem vive até hoje. “Não ia ficar solteirão”, diz. A união resultou em quatro filhos e quatro netas.

Formou-se em Administração e trabalhou em multinacionais farmacêuticas. Nos anos 1980, numa curta carreira política, foi administrador regional – o equivalente a subprefeito – de Campo Limpo, na zona sul de São Paulo. Desde então, parou de frequentar a Igreja. “Não quero ter o carimbo de beato.”

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