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Pessoas inteligentes comem mais chocolate

Estudo suíço apontou relação entre consumo da guloseima e número de premiações científicas

foto: Yuri Arcurs/Shutterstock

foto: Yuri Arcurs/Shutterstock

Publicado no Mente Cérebro

Quanto mais chocolate um país consome, mais prêmios Nobel recebe. É a curiosa relação apontada pelo cardiologista Franz Messerli, da Universidade Columbia, em artigo publicado no New England Journal of Medicine. Segundo Messerli, quanto maior o consumo por habitante em uma nação, maior o número de ganhadores do prêmio que reconhece as pesquisas e contribuições sociais e científicas mais pioneiras do mundo.

A associação se aplica particularmente à Suíça, país que mais recebeu o Nobel até hoje – que, aliás, é a terra natal do próprio autor do estudo. Ele, porém, faz ressalvas: a associação obviamente não significa que ”mentes brilhantes” são resultado de quantos chocolates se comem ao longo da vida, embora o maior consumo desse alimento possa indicar maior poder socioeconômico e, portanto, melhores oportunidades de estudo para toda a população – ou seja, reflete um contexto mais propício ao desenvolvimento de potenciais cientistas. Além disso, outros estudos associam substâncias presentes no cacau a benefícios cognitivos.

Estudo garante que dinheiro traz felicidade

Ilustração: Studio Instant Press

Ilustração: Studio Instant Press

Publicado por AFP [via UOL]

O dinheiro traz felicidade e ter mais dinheiro deixa as pessoas mais felizes, independentemente de já terem o suficiente para se manter, garantem cientistas especializados em economia.

Embora o vínculo entre dinheiro e bem-estar não surpreenda, o novo estudo contradiz pesquisas anteriores que sugeriram que este efeito diminuía acima de um certo nível de renda, que permite às pessoas atenderem às suas necessidades básicas.

Os economistas da Universidade de Michigan Betsey Stevenson e Justin Wolfers afirmam em seu artigo, pulicado na edição de maio do periódico ‘American Economic Review, Papers and Proceedings’, que não há evidências de um ponto “de satisfação” na equação dinheiro-felicidade.

“Não encontramos evidências de um ponto de satisfação”, escreveram.

“O vínculo entre renda e bem-estar que encontramos quando examinamos apenas os pobres é semelhante àquele encontrado quando examinamos apenas os ricos”, destacaram.

Eles descobriram que o vínculo é válido “ao se fazer comparações cruzadas entre países ricos e pobres assim como ao se fazer comparações entre pessoas ricas e pobres de um país”.

O estudo é o mais recente de um campo que rende muita discussão e parece contradizer uma teoria denominada “Paradoxo de Easterlin”, desenvolvida em 1974 por Richard Easterlin, que está na Universidade do Sul da Califórnia.

A pesquisa de Easterlin, baseada em consultas feitas no Japão, sugeria um pequeno ou nenhum aumento na felicidade nacional apesar do milagre econômico que o país viveu após a Segunda Guerra Mundial.

Estudos posteriores apontaram para uma renda anual nos Estados Unidos de US$ 75.000 e em países pobres numa faixa entre US$ 8.000 e US$ 25.000, além da qual o dinheiro não impactaria mais o bem-estar.

Mas Stevenson e Wolfers afirmaram que a pesquisa demonstrou que o Paradoxo de Easterlin e teorias similares simplesmente estão equivocadas.

“Se houver um ponto de satisfação, ainda não o alcançamos”, afirmaram.

“Nós não encontramos evidências de uma quebra significativa, tanto na relação felicidade-renda, quanto na relação satisfação-renda, mesmo com rendas anuais acima do meio milhão de dólares”, acrescentaram.

Stevenson e Wolfers usaram dados de três diferentes estudos cruzados entre países, incluindo a consulta Pew Global Attitudes, a pesquisa Gallup World Poll e o International Social Survey Program.

“Eles demonstram uma clara relação entre o nível médio de bem estar em um país com sua renda média”, escreveram.

“Enquanto os ganhos com a renda ficam mais lentos à medida que os países enriquecem, eles nunca desaparecem. Dobrar a renda de um país tem o mesmo impacto no bem estar de seus cidadãos, independente do ponto inicial”, emendaram.

Stevenson e Wolfers, que também é um membro não residente da Brookings Institution, têm feito estudos nesta área há anos e a última pesquisa sustenta suas conclusões de um estudo de 2008.

“Enquanto à ideia de que há algum nível crítico de renda além do qual a renda não impacta mais o bem-estar (…) trata-se de algo em desacordo com os dados”, concluíram.

Homens bons, religiosos maus

Religião-

Ricardo Gondim

No judaísmo contemporâneo de Jesus, o fariseu representava uma facção austera, conservadora, dogmática. Embora tenham sido execrados como ícones da demagogia religiosa, é preciso todo cuidado para não discriminá-los. Não devemos generalizar, nem quando se trata de uma seita rotulada a priori como falsa. Sim, é verdade, Jesus denunciou que eles estavam fermentados pela hipocrisia. Contudo, torna-se necessário também reconhecer que mesmo em uma instituição religiosa adoecida, joio e trigo convivem juntos.

Hipocrisia, no contexto dos fariseus, significa falsidade, dissimulação, mera representação, incoerência. Um hipócrita religioso, então, seria alguém que prega, mas não vive – um santarrão público, pecador de bastidores.

Existe, todavia, outra possibilidade de entender a hipocrisia, percebendo a incoerência dos fariseus em sentido inverso. Eles se mostravam bons quando se distanciavam dos espaços religiosos, mas se comportavam como gente horrorosa, quando investidos nas funções sacerdotais. O farisaísmo tipificou um clero perverso nos conclaves e dóceis na vida privada.

Jesus lidou com os fariseus em ambientes distintos. Nas refeições, nas conversas em “off”, eram afáveis, curiosos e abertos para o diálogo. Contudo, no instante em que se reuniam para deliberar sobre seus interesses religiosos se transformavam em pessoas temíveis. Jesus nunca evitou encontrar-se com qualquer fariseu fora do templo. E não há registro de ele comparecer a qualquer assembleia oficial da seita.

O sumo sacerdote Caifás não devia ser tão ruim quando brincava com os netos, mas na hora em que assumia as funções de chefe do templo revelava-se um facínora. Caifás foi capaz de conspirar na morte de um homem bom.

Conheço líderes religiosos cordatos e amigáveis, mas só se rodeados de filhos e netos. Desfrutei da intimidade de alguns e testemunho que foram companhias agradabilíssimas, desde que em ambientes não-religiosos. Os mesmos, vestidos em hábitos clericais, assustam. Reencontrei “companheiros” presidindo reuniões plenárias em suas instituições, e tremi. Um título tem força de desfigurar. Paletó e colarinho clerical ajudam na empáfia. Cargos têm força de suscitar pessoas implacáveis, legalistas e maquiavélicas. Um religioso não deve ser bom apenas no particular, ele tem de se mostrar coerente nos corredores eclesiásticos.

A religião pode adoecer porque convive com três forças avassaladoras: poder, dinheiro e fama. O perigo aumenta exponencialmente quando se reivindica o nome de Deus. Facilmente um sacerdote pode se valer da Bíblia para escudar comportamentos nefastos. Quando influenciado por falsa onipotência, o religioso não hesita derrubar quem se coloca no meio do caminho. Consciente de que sua verdade é a revelação divina, elimina quem julgar nocivo. Imbuído de uma cruzada de conquistar o mundo, arrasa possíveis inimigos. Nessa trilha, o líder religioso vai se desfigurando, desfigurando, até encarnar o Iníquo.

Paulo advertiu a Timóteo que os “últimos dias” seriam difíceis (2Tm 3.1); previu sacerdotes vivendo uma “forma de piedade, mas negando-lhe o poder”. Que seriam inescrupulosos a ponto de entrarem “sorrateiramente nas casas para seduzir mulheres incautas”. Donos de um perfil pernicioso se pareceriam com bandidos comuns.

“Sabe, porém, isto: Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis; pois líderes religiosos serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, antes amigos dos prazeres que amigos de Deus”.

O maior desafio de um líder não é só viver o que prega, mas tornar a sua religiosidade pública parecida como a que vive na vida particular. Para ser verdadeiro, basta que deixe a humanidade particular transbordar para os espaços religiososos. Se os santos engravatados continuarem tão humanos quanto as pessoas que vestem bermuda, está de bom tamanho.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Sétima arte na roça

Família do norte paranaense transformou um antigo paiol de milho em um cinema rural que exibe, além de clássicos, filmes caseiros produzidos por eles mesmos

Ruth Steidle (à dir.), ao lado do filho Daniel (à esq.) e dos netos Erê e Endí: o clã da “Rolandia-wood”

Ruth Steidle (à dir.), ao lado do filho Daniel (à esq.) e dos netos Erê e Endí: o clã da “Rolandia-wood”

Bruna Komarchesqui, na Gazeta do Povo

Um cinema montado em um antigo paiol de milho tem levado dezenas de pessoas todos os domingos à Fazenda Bimini, na zona rural de Rolândia (22 quilômetros de Londrina). Montado há cerca de dois meses, além de produções consagradas, o “Cine Paiolzão” exibe curtas produzidos pela família alemã Steidle, proprietária do local. Com uma câmera fotográfica simples, Daniel Steidle, o “papai”, Ruth Steidle, a “vovó”, e os pequenos Erê e Endí, de 8 e 11 anos, são responsáveis pelos filmes da “Rolandiawood”. “Não tem roteiro, muitas vezes, a tomada é única”, explica Daniel, 44 anos, que tem mestrado na área de meio ambiente. Além de figurantes nas produções, a matriarca Ruth e os filhos de Daniel também atuam atrás das câmeras. “O Endí fotografa melhor que eu. Esses dias, as imagens dele ficaram melhores e eu fiquei levemente deprimida”, brinca Ruth, nascida na fazenda há 75 anos.

SLIDESHOW: Confira algumas fotos do Cine Paiolzão

A ideia do cinema surgiu quase por acaso, quando Daniel foi à cidade e comprou dois bancos de uma igreja em demolição, para que a família pudesse se acomodar durante as tardes, enquanto observa um casal de quatis criados na fazenda. “Acabou que o banco não coube ali e em nenhuma outra parte. Foi quando tivemos a ideia de colocar no paiol, que era usado como galeria de arte. E ficou tão bom que ele voltou à cidade e comprou mais três”, conta Ruth. “Aí pensamos que ficaria bom colocar o telão e o projetor, que estavam na biblioteca, e nasceu o Cine Paiolzão.”

Embora as exibições dominicais sejam recentes, os filmes começaram a ser produzidos há bem mais tempo. “Não sei quantos são, são muitos”, diz Ruth.

Comunidade

“Ao se ver na tela, um senhor de 85 anos chorou”

Em uma antiga fábrica de carroças em ruínas, a voz infantil indaga: “Por que abandonaram esse lugar?” A câmera sobe lentamente e mostra, no topo, uma figueira abraçando a construção. Uma imagem que vale mais que mil palavras, na opinião de Daniel Steidle. A tomada abre a produção mais recente da família: um documentário de 18 minutos, com depoimentos de produtores rurais vizinhos da fazenda (personagens, aliás de outras produções), moradores de Rolândia e especialistas, para tentar barrar a instalação de uma indústria de chumbo na cidade. Exibido na Câmara de Vereadores, no final de março, o curta envolveu a população. “Ao se ver na tela, um senhor de 85 anos chorou. Depois da exibição, muita gente quis falar no microfone. Um funcionário que trabalha lá há 20 anos, disse que isso nunca tinha acontecido”, conta Daniel.

Com o sotaque alemão carregado – Daniel nasceu na Alemanha e veio ao Brasil com 11 anos –, durante a conversa, ele deixa escapar algumas referências para suas produções: do filme Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio De Sica, vem a ideia de “cada segmento ser uma história em si”; de Vermelho como o Céu (2006), de Cristiano Bortone, ideias para a sonoplastia e sonorização. “Estou lendo sobre Fellini, e o cinema perdeu a função social. Defendo o poder do vídeo amador na construção do desenvolvimento sustentável.” A ideia é levar a produção de vídeo às escolas, para tornar “a aula menos chata”. “O interessante é dar a câmera na mão da criança, para que ela faça os filmes, porque ela tem um olhar próprio sobre a realidade”, defende Daniel.

O antigo terreirão de café está vazio. Ao lado, o grande barracão equipado com biblioteca e materiais educativos, recebe crianças de escolas municipais e particulares de toda a região. A concordância da família, segundo Daniel, é fundamental para que o projeto exista, já que tudo é oferecido gratuitamente à população. “Se todos quisessem ir para a Disney, não daria para fazer isso.” A renda, explica Ruth, vem do arrendamento da propriedade. “O que recebemos investimos aqui. Dessa forma, podemos nos dedicar ao que gostamos. Nem sabemos se vai dar certo no futuro, mas estamos fazendo”, resume Ruth.

Arte

Há 15 anos, a Fazenda Bimini recebe caravanas escolares para passeios educativos, inclusive, com exibição dos filmes. Mas a história da família com a arte e a educação ambiental começou por volta de 1968, quando o avô de Daniel fundou uma escola em Rolândia. “A ideia era usar a arte como uma maneira de união. A imagem pode ser compreendida por uma criança, um universitário, um sem-terra, um com-terra. O cinema pode ser usado nessa promoção das pessoas. Uma pessoa da roça falando, com poucas palavras, pode promover mais o desenvolvimento sustentável do que as grandes conferências, como Rio +20, onde um público apático mal se entende.”

A ausência de salas de cinema na Rolândia de 58 mil habitantes e colonização alemã torna o Cine Paiolzão ainda mais atrativo à população. As exibições são gratuitas e abertas, às 15h30 dos domingos. Na porta, em tinta branca, a única exigência ao público: “Entre, sinta com seus pés descalços as tábuas de peroba rosa”. “Não é crime entrar de sapato. Só tiramos para não sujar, porque tem poucos bancos, e muitas pessoas acabam se acomodando no chão, com travesseiros”, explica Ruth Steidle.

Em uma das sessões recentes, conta Daniel, o francês O Urso (1988), de Jean-Jacques Annaud, foi exibido antes de uma produção própria sobre um vizinho da fazenda que era caçador de cobras e, hoje, trabalha pela preservação delas. “Precisa de um mais consagrado da mesma temática para chamar a atenção. Até porque acho que ninguém viria se fossem só os nossos”, brinca Daniel. Após a sessão, o público se reúne no barracão ao lado, para comer pipoca e discutir o filme. “Já chegamos a receber 55 pessoas, mas tem dias que vêm bem menos. Independente do número, sempre tem filme.”

Família do norte paranaense transformou um antigo paiol de milho em um cinema rural Roberto Custódio/Gazeta do Povo

Família do norte paranaense transformou um antigo paiol de milho em um cinema rural Roberto Custódio/Gazeta do Povo

Família de Rolândia que transformou um antigo paiol de milho em um cinema rural Roberto Custódio/Gazeta do Povo

Família de Rolândia que transformou um antigo paiol de milho em um cinema rural Roberto Custódio/Gazeta do Povo

Todos os domingos, dezenas de pessoas vão à Fazenda Bimini, na zona rural de Rolândia, para assistir a filmesRoberto Custódio/Gazeta do Povo

Todos os domingos, dezenas de pessoas vão à Fazenda Bimini, na zona rural de Rolândia, para assistir a filmesRoberto Custódio/Gazeta do Povo

Erê e Endí, de 8 e 11 anos, também são responsáveis pelos filmes da Rolandiawood Roberto Custódio/Gazeta do Povo

Erê e Endí, de 8 e 11 anos, também são responsáveis pelos filmes da Rolandiawood Roberto Custódio/Gazeta do Povo

Há 15 anos, a Fazenda Bimini recebe caravanas escolares para passeios educativos, inclusive, com exibição dos filmesRoberto Custódio/Gazeta do Povo

Há 15 anos, a Fazenda Bimini recebe caravanas escolares para passeios educativos, inclusive, com exibição dos filmesRoberto Custódio/Gazeta do Povo

A ausência de salas de cinema na Rolândia de 58 mil habitantes e colonização alemã torna o Cine Paiolzão ainda mais atrativo à populaçãoRoberto Custódio/Gazeta do Povo

A ausência de salas de cinema na Rolândia de 58 mil habitantes e colonização alemã torna o Cine Paiolzão ainda mais atrativo à populaçãoRoberto Custódio/Gazeta do Povo

Infelicianeidade

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Frei Betto, na Folha de S.Paulo

Vocábulos nascem de expressões populares. Assim como nomes próprios trazem significados que deitam raízes em suas respectivas etimologias. Feliciano é nome de origem latina, derivado de felix, feliz. Nem sempre, contudo, uma pessoa chamada Modesto deixa de ser arrogante e conheço uma Anabela que é de uma feiura de fazer dó.

Estamos todos nós, defensores dos direitos humanos, às voltas com um pepino federal. Nossos servidores na Câmara dos Deputados, aqueles cujos altos salários são pagos pelo nosso bolso, cometeram o equívoco de eleger o deputado e pastor Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias.

O pastor deputado, filiado ao PSC-SP, escreveu em seu Twitter: “Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato”. Em outra mensagem, postou: “Entre meus inimigos na net (sic) estão satanistas, homoafetivos, macumbeiros…”.

Em processo aberto no Supremo Tribunal Federal, Feliciano é acusado de induzir ou incitar discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião –crime sujeito à prisão de um a três anos, além de multa. Em sua defesa, Feliciano afirma: “Citando a Bíblia (…) africanos descendem de Cão (sic) (ou Cam), filho de Noé. E, como cristãos, cremos em bênçãos e, portanto, não podemos ignorar as maldições”.

Que deus é esse que amaldiçoa seus próprios filhos? Essa suposta teologia vigorou no Brasil colonial para justificar a escravidão. O Deus de Jesus ama incondicionalmente a todos. Ainda que O rejeitemos, Ele não deixa de nos amar, conforme atestam a relação do profeta Oseias e sua mulher, Gomer, e a parábola do Filho Pródigo.

Todo fundamentalismo cristão é ancorado na interpretação literal da Bíblia, que deriva da ignorância exegética e teológica. Os criacionistas, por exemplo, acreditam que existiram um senhor chamado Adão e uma senhora chamada Eva, dos quais somos descendentes (embora não expliquem como, pois tiveram dois filhos homens, Caim e Abel…). Ora, Adão em hebraico é terra, e Eva, vida. O autor bíblico quis acentuar que a vida, dom maior de Deus, brota da terra.

Ter Feliciano como presidente de uma comissão tão importante –por culpa de legendas como PMDB, PSDB e PT– é uma infelicidade. Não condiz com o nome do deputado que, na roda do samba que está obrigado a dançar, insiste no refrão: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”.

O deputado é um pastor evangélico. Sua conduta deveria, no mínimo, coincidir com os valores pregados por Jesus, que jamais discriminou alguém.

Jesus condenou o preconceito dos discípulos à mulher sírio-fenícia; atendeu solícito o apelo do centurião romano (um pagão!) interessado na cura de seu servo; deixou que uma mulher de má reputação lhe lavasse os pés com os próprios cabelos, e ainda recriminou os que se escandalizaram ao presenciar a cena; e não emitiu uma única frase moralista à samaritana adepta da rotatividade conjugal, pois estava no sexto homem! Ao contrário, a ela Jesus se revelou como o Messias.

É direito intrínseco de todo ser humano, e também da democracia, cada um pensar pela própria cabeça. Nada contra o pastor Feliciano, na contramão do Evangelho, abominar negros e odiar homossexuais e adeptos da macumba. Desde que não transforme seu preconceito em atitude discriminatória, e seu mandato em retrocesso às conquistas que a sociedade brasileira alcança na área dos direitos humanos.

Estamos todos nós indignados frente ao impasse armado pelo jogo político rasteiro da Câmara dos Deputados. Eis uma verdadeira situação de infelicianeidade, com a qual não podemos nos conformar.

CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, 68, o Frei Betto, frade dominicano, é autor de “Aldeia do Silêncio” (Rocco)

charge: Latuff

dica do Sidnei Carvalho de Souza