Os negócios dos Crivella

Candidato ao governo do Rio de Janeiro, o senador e ex-ministro Marcelo Crivella (PRB) usou o cargo para ajudar sócios de empresa do filho

O senador Marcelo Crivella (à esq.), pouco antes de embarcar com a família e o sócio do filho (ao lado dele), Jon Phelps (Reprodução/VEJA)
O senador Marcelo Crivella (à esq.), pouco antes de embarcar com a família e o sócio do filho (ao lado dele), Jon Phelps (Reprodução/VEJA)

Malu Gaspar e Thiago Prado, na Veja on-line

A campanha do senador e bispo da Igreja Universal do Reino de Deus Marcelo Crivella para o governo do Rio de Janeiro retrata um homem simples, de vida franciscana, que doa tudo o que recebe com as vendas de seus discos e livros para um projeto social na Bahia. O próprio senador declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) patrimônio relativamente modesto para um campeão de vendas de discos gospel – 739.000 reais.

Longe da propaganda eleitoral, no entanto, a vida de Crivella e de sua família não é tão trivial assim. Donos de dois imóveis na Flórida, nos Estados Unidos, e adeptos de confortos como jatos executivos e carros importados, os Crivella são homens de negócios. Desde o ano passado, dedicam-se a turbinar uma rede de escolas adquirida por um grupo americano e presidida pelo filho do senador, Marcelo Hodge Crivella, de 29 anos.

A rede comandada pelo jovem filho do senador é a Seven, que apregoa ter 10.000 alunos. Não é pequena, mas alimenta planos de se tornar ainda maior, multiplicando o número de filiais e espalhando-se pela América Latina. Para concretizar tal plano, os americanos já enviaram ao Brasil, por meio de uma offshore sediada em Luxemburgo, 64 milhões de reais. Crivella, o pai, aposta alto na empreitada. E não vê problema nem mesmo em se utilizar de suas prerrogativas como parlamentar e ministro da Pesca – cargo que ocupou de 2012 a 2014 – para impulsioná-la.

Na manhã de 10 de outubro de 2013, cinco executivos da empresa que comprou a Seven – a Full Sail, uma rede de ensino de computação e games sediada na Flórida – foram retidos no aeroporto de Manaus em sua primeira escala no Brasil, rumo ao Rio de Janeiro, onde fariam reuniões de trabalho. O motivo: dos cinco passageiros do jato Legacy prefixo N53NA, apenas quatro tinham visto de negócios. O quinto, Deepak A. Kumar, vice-presidente da Seven, tinha autorização para fazer turismo, mas o comandante do jato declarara que estavam todos ali a trabalho.

Com o impasse instalado, os americanos se comunicaram com os Crivella – e o ministro imediatamente começou a trabalhar para liberá-los. Coube ao secretário-executivo do ministério, Átila Maia, enviar um ofício ao subsecretário-geral das comunidades brasileiras no exterior, embaixador Sérgio Danese, pedindo urgência na solução do imbróglio. “A pedido do ministro Marcelo Crivella, amigo do empresário norte-americano que mantém investimentos na área de educação no Brasil (…), muito agradeceria a Vossa Excelência a gentileza de instruir a divisão competente a emitir, com urgência, autorização para a liberação dos cinco passageiros”, explicava a carta. “Conforme informação da Chefia da Polícia Federal em Brasília, o assunto já foi esclarecido.” No mesmo dia, todos foram liberados.

Não foi a primeira vez que Crivella fez um pedido do gênero aos serviços diplomáticos. Naquele mesmo dia, enquanto tentava liberar a entrada dos parceiros comerciais do filho no Brasil, seus antigos funcionários no Senado solicitavam ao Ministério das Relações Exteriores a emissão de dois vistos de entrada para designers americanos que a Seven estava trazendo para participar de um evento no país. Nesse caso, a interferência do ministro era necessária por causa dos prazos. Segundo e-mail enviado pelo gabinete do senador Eduardo Lopes, suplente de Crivella, ao Itamaraty, os designers tinham de desembarcar no Brasil impreterivelmente até o dia 23 de outubro – em 13 dias, portanto. Pedido feito, pedido atendido.

A história da associação entre o filho de Marcelo Crivella e os americanos é nebulosa. Formado em psicologia, Marcelinho trabalhava na área de licenciamento de marcas da Record, emissora controlada pelo bispo Edir Macedo, manda-chuva da Universal e tio de Crivella-pai, até ingressar na Seven, em junho de 2011. Seu dono era então o empresário Leandro Moreira, evangélico como Crivella. No mês seguinte, os americanos da Full Sail se aproximaram de Moreira com uma oferta de compra.

A negociação se desenrolou de setembro de 2011 a novembro de 2012, quando foi fechada a venda de 80% da empresa por cerca de 100 milhões de reais. Feito o negócio, a Seven passou a ser controlada pela Artemis Distribution Lux, S.A, empresa que é a ponta final de uma cadeia de offshores. Criada em junho de 2012 em Luxemburgo, ela tem como principal acionista a Artemis Distribution Partners Canada – que por sua vez, é da Artemis Distribution LLC, de Delaware, paraíso fiscal em território americano. Nos documentos da associação, todas essas empresas aparecem ligadas a Jon Phelps, dono e fundador da Full Sail.

O negócio previa que Moreira mantivesse 20% da Seven e continuasse à frente da operação. Mas, assim que assinou contrato, ele foi excluído da sociedade, proibido de entrar nas escolas – e até hoje, não teria recebido nenhum centavo, embora a Artemis já tenha injetado na Seven 64 milhões de reais, conforme mostram atas públicas da rede de escolas. Hoje, o empresário move um processo contra os americanos – Crivella-filho, apesar de presidente, não é sócio da empresa – na Justiça do Rio. Na ação há e-mails, fotos e documentos que contam a história da tumultuada sociedade e revelam a proximidade forjada entre os americanos e Crivella-filho ao longo da negociação de aquisição.

Outro conjunto de documentos, a que VEJA teve acesso, mostra ainda que, entre 2012 e 2013, as famílias Crivella e Phelps fizeram várias viagens e passeios nos Estados Unidos – especialmente pela Flórida, onde a mulher do senador, Sylvia Jane, tem dois imóveis. Numa dessas viagens, em janeiro de 2012, posaram todos para fotos em frente ao DC-3 mantido pelo dono da Full Sail – um avião que é o xodó de Phelps e figura no logotipo do grupo. Marcelinho, por sua vez, postava no Instagram fotos da viagem – como a que aparece em frente a um Camaro amarelo e entrando num jato executivo.

Entre um passeio e outro, os sócios da Seven aproveitavam o cacife do pai de Marcelinho para promover o próprio negócio. Entre março e abril, o filho de Crivella esteve no gabinete do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, para pedir patrocínio a um evento da Seven, a conferência de games CG Extreme. Saiu de lá com patrocínio de 120.000 reais e apoio da prefeitura para o evento. “Com o amigo prefeito do Rio hoje falando sobre grandes novidades para nossa cidade esse mês. Prefeito confirmou sua presença. E você, tá esperando o que?”, escreveu Marcelinho na legenda da foto com Paes que publicou no Instagram. Em outra ocasião, em junho de 2013, Phelps chegou até a pedir ajuda ao filho do senador para tentar marcar uma visita da presidente Dilma Rousseff à Full Sail em sua próxima viagem oficial aos Estados Unidos. A visita nunca aconteceu, mas a parceria entre eles deu frutos, e a Seven se engajou na pré-campanha de Crivella ao governo do Rio.

Num e-mail enviado a funcionários da Seven em 31 de julho do ano passado, Crivella-filho distribuiu tarefas e deu instruções sobre como montar a página do senador-candidato na internet. “Explorar imagens de que Crivella é um homem de família – casado há mais de 25 anos com Jane. Vamos trabalhar para passar o Garotinho logo!!”, diz um trecho da mensagem. Procurado por VEJA, Marcelinho afirmou que os funcionários da Seven que hoje trabalham na campanha já se desligaram da empresa. Crivella-pai, por sua vez, nega qualquer relação entre a campanha e a empresa do filho.

Embora a família Crivella tenha dois imóveis nos Estados Unidos, nenhum deles está registrado no nome do senador. O primeiro é um apartamento de 194 metros quadrados na região sul de Orlando, comprado pela mulher de Crivella, Sylvia Jane, em abril de 2011, e avaliado em 250.000 dólares pelos sites locais de busca de imóveis. O segundo é uma casa num condomínio do outro lado da cidade, também com valor estimado em cerca de 250.000 dólares. Crivella informa que o primeiro imóvel foi comprado por sua mulher com recursos próprios, já que Sylvia é escritora e tem uma loja de iogurtes. A casa, segundo ele, foi adquirida no ano passado pela filha, Débora – que mora na Flórida e trabalha na Full Sail, a dona da Seven no Brasil.

O senador diz ter ajudado na compra, contraindo um empréstimo junto ao Banco do Brasil – do qual, contudo, não revela o valor. Embora Crivella afirme que a operação está registrada em sua declaração de Imposto de Renda, ela não consta da declaração enviada ao TSE. Advogados ouvidos por VEJA afirmam que ele teria de ter declarado o empréstimo ao tribunal.

Marcelo Hodge Crivella, filho do senador (Reprodução/Instagram)
Marcelo Hodge Crivella, filho do senador (Reprodução/Instagram)

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Aplicativo avalia 45 marcas e lojas de roupas quanto a trabalho escravo

Publicado por Leonardo Sakamoto

Foi ao ar, nesta segunda (18), a atualização do aplicativo Moda Livre. Disponível gratuitamente para download em versões para iPhone e Android, ele avalia as ações que as principais marcas e varejistas de roupas no país vêm tomando para evitar que as peças de vestuário de suas lojas tenham sido produzidas por mão de obra escrava. O Moda Livre é também uma das primeiras reportagens feitas no Brasil em formato de aplicativo.

Como baixar:iphone
Ele está disponível na loja da Apple e no Google Play e roda nos sistemas operacionais iOs 5+ e Android 4+.

Nesta nova atualização, a base de empresas avaliada pelo Moda Livre foi ampliada para incluir mais nomes consagrados no mercado nacional da moda, atingindo 45 marcas e varejistas. É o caso das holdings Inbrands – que controla grifes refinadas como Ellus, Richards, Mandi e Bobstore – e do grupo AMC Têxtil, responsável por marcas conhecidas do público brasileiro, como Forum, Colcci e Triton.

Outra companhia detentora de marcas valiosas (como Siberian, Crawford e Memove), a Valdac Global Brands também integra o hall de companhias analisadas pela equipe da Repórter Brasil. Há também varejistas presentes de norte a sul do Brasil, como as Lojas Americanas, e fabricantes de roupas bastante tradicionais no mercado nacional – como Malwee e Marisol.

O Moda Livre avalia os principais grupos varejistas de moda em atividade no país, além das empresas em que a produção de roupa foi marcada por casos de trabalho escravo flagrados por fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A Repórter Brasil convidou todas as companhias a responder a um questionário-padrão que avalia basicamente quatro indicadores:

1. Políticas: compromissos assumidos pelas empresas para combater o trabalho escravo em sua cadeia de fornecimento.

2. Monitoramento: medidas adotadas pelas empresas para fiscalizar seus fornecedores de roupa.

3. Transparência: ações tomadas pelas empresas para comunicar a seus clientes o que vêm fazendo para monitorar fornecedores e combater o trabalho escravo.

4. Histórico: resumo do envolvimento das empresas em casos de trabalho escravo, segundo o governo.

As respostas geram uma pontuação e, com base nela, as empresas são classificadas em três categorias de cores: verde, amarelo e vermelho. Aquelas que não responderam ao questionário, apesar dos insistentes convites, foram automaticamente incluídas na categoria vermelha. A razão é simples: considerou-se que elas zeraram o questionário.

O Moda Livre não recomenda que o consumidor compre ou deixe de comprar roupas de determinada marca. Apenas fornece informação para que faça a escolha de forma consciente. O aplicativo é fruto da apuração da equipe de jornalismo da Repórter Brasil e do design e desenvolvimento da agência PiU Comunica.

Passei anos ouvindo que o consumidor é o culpado pelas desgraças do mundo ao não adotar um comportamento mais responsável ao escolher os seus produtos. Esse discurso, é claro, tira parte do peso da cobrança de cima das costas de empresas e de governos e ignora um elemento básico: falta informação de qualidade para que a maioria das pessoas possa tomar sua decisão. Daí surgiu a ideia do aplicativo, que tive o prazer de coordenar.

O aplicativo, que também conta com uma seção de notícias sobre trabalho escravo e o setor de vestuário, atualizada quando ocorrem resgates de trabalhadores e surgem outras informações relevantes, também pode ser encontrado na loja da Apple e no Google Play com os termos de busca “moda livre” e “moda livre repórter brasil”.

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Por produtividade, Seul permitirá soneca no trabalho

A partir de agosto, funcionários públicos terão direito a cochilos de até uma hora depois do almoço

Funcionários poderão usar salas e outros espaços para soneca (foto: Getty)
Funcionários poderão usar salas e outros espaços para soneca (foto: Getty)

Publicado por BBC [via G1]

A prefeitura de Seul, capital da Coreia do Sul, vai permitir que os funcionários públicos cochilem por até uma hora após o almoço.

A medida faz parte de um esforço para aumentar a produtividade dos trabalhadores durante os meses do verão no hemisfério norte.

A partir de 1º de agosto, os trabalhadores terão a opção de tirar uma soneca entre as 13h e as 18h, contanto que ajustem o horário do expediente, chegando mais cedo ou saindo mais tarde.

É preciso ainda avisar o chefe logo pela manhã sobre suas intenções – e ele precisa concordar com a soneca. “Os funcionários poderão usar salas e outros espaços para descansar”, disse um porta-voz da prefeitura.

“Alguns exemplos pioneiros de dar aos funcionários a possibilidade de cochilar durante o verão mostraram um resultado mais produtivo do que sem ele”, disse à BBC Brasil o pesquisador Kiu Sik Bae, do Instituto Coreano do Trabalho.

Segundo o jornal The Korean Times, é a primeira vez que um esquema como este é introduzido no país.

A justificativa, segundo divulgou a mídia local, é que as pessoas tendem a perder o foco no início da tarde e depois do almoço, principalmente durante o verão.

“Muitos relatórios de saúde mostram que tirar uma soneca à tarde ajuda os trabalhadores a melhorar o desempenho e estimular a criatividade”, escreveu o periódico.

Ceticismo
A ideia implantada pelo governo de Seul não é inédita. Grandes empresas, como Google, Nike, Procter & Gamble e Cisco já encorajam os funcionários a tirar um cochilo.

Na Espanha e em alguns países sul-americanos, a siesta é uma tradição comum.

A mídia sul-coreana e muitos críticos, no entanto, estão céticos quanto aos resultados da medida no país, por causa da cultura empresarial local.

Pedir permissão para tirar uma soneca fora do horário do almoço é considerado quase uma afronta.

“A maioria dos chefes não vai permitir que seus funcionários desfrutem de uma soneca durante o período do trabalho”, acredita Kiu.

“Eles podem pensar que isso vai fazer a pessoa perder o respeito e a moral no trabalho”, acrescentou o pesquisador.

Longa jornada
A Coreia do Sul é conhecida por ter uma das mais longas jornadas de trabalho diária no mundo.

Segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os sul-coreanos trabalham em média 2.092 horas por ano. É a terceira maior carga horária entre os países membros.

Porém, a produtividade é de apenas 66% da média entre os membros da OCDE, e menos da metade quando comparada com a dos Estados Unidos.

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OIT estima que trabalho forçado gera US$ 150 bilhões de lucro por ano

trabalho-escravoPublicado por Leonardo Sakamoto

Relatório divulgado pela Organização Internacional do Trabalho, nesta segunda (19), estima que o trabalho forçado na economia privada gera lucros anuais ilegais de 150,2 bilhões de dólares. A entidade havia estimado, em 2012, em cerca de 20,9 milhões o número de trabalhadores sob essas condições em todo o mundo (22% por exploração sexual forçada, 68% por outros tipos de exploração do trabalho e 10% por trabalho imposto pelo Estado) e é com base nessa quantidade que a estimativa de lucro foi feita.

“Profits and Poverty: The Economics of Forced Labour” [Lucros e Pobreza: Aspectos Econômicos do Trabalho Forçado] afirma que dois terços desse total (ou seja, 99 bilhões) sejam oriundos da exploração sexual comercial, enquanto 51,2 bilhões vêm da exploração com fins econômicos – que inclui agropecuária, extrativismo, indústria, comércio, trabalho doméstico, entre outras atividades.

As estimativas, feitas através de extrapolações com base em dados regionais, não foram produzidas para cada país.

“O trabalho forçado é nocivo para as empresas e para o desenvolvimento, mas sobretudo para suas vítimas. Este relatório imprime um novo caráter de urgência aos nossos esforços para erradicar o quanto antes esta prática altamente rentável, mas fundamentalmente nefasta”, afirmou em nota divulgada à imprensa o diretor geral da entidade Guy Ryder.

De acordo com dados divulgados pela OIT:

– Mais da metade das vítimas de trabalho forçado são mulheres e meninas, principalmente na exploração sexual comercial e trabalho doméstico;
– Homens e meninos são, sobretudo, vítimas de exploração econômica, na agricultura e mineração;
– 34 bilhões de dólares em lucros ficam com a construção civil, indústria, mineração e serviços;
– 9 bilhões de dólares ficam com a agricultura, incluindo silvicultura e pesca;
– 8 bilhões de dólares são economizados em residências privadas que ou não pagam ou pagam menos que o devido aos trabalhadores domésticos submetidos ao trabalho forçado.

Lucro anual do trabalho forçado por região

Ásia-Pacífico: US$ 51,8 bilhões de dólares
Economias Desenvolvidas e União Europeia: US$ 46,9 bilhões
Europa Central, Sudeste Europeu e Comunidade dos Estados Independentes: US$ 18 bilhões
África US$ 13,1 bilhões
América Latina e Caribe: US$ 12 bilhões
Oriente Médio: US$ 8,5 bilhões
Mundo: US$ 150,2 bilhões

Lucro anual por vítima de trabalho forçado por região

Economias Desenvolvidas e União Europeia: US$ 34,8 mil
Oriente Médio: US$ 15 mil
Europa Central, Sudeste Europeu e Comunidade dos Estados Independentes: US$ 12,9 mil
América Latina e Caribe: US$ 7,5 mil
Ásia-Pacífico: US$ 5 mil
África US$ 3,9 mil

Crises de renda e pobreza estão entre os principais fatores que levam ao trabalho forçado. Falta de educação formal, analfabetismo, gênero e migrações são listados como fatores de risco e de vulnerabilidade. Entre as medidas voltadas a combatê-los, o relatório aponta:

– Reforçar os pisos de proteção social a fim de evitar que os lares pobres contraiam empréstimos abusivos no caso de uma perda imprevista de renda;
– Investir na educação e na formação profissional para incrementar as oportunidades de emprego dos trabalhadores vulneráveis;
– Promover um enfoque da migração baseado nos direitos a fim de prevenir o trabalho clandestino e os abusos contra os trabalhadores migrantes;
– Apoiar a organização dos trabalhadores, inclusive nos setores e indústrias vulneráveis ao trabalho forçado.

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Empresas buscam autistas por suas habilidades únicas

Patrick Brophy trabalha em sua mesa na SAP. (foto: Ciaran Dolan / The Wall Street Journal)
Patrick Brophy trabalha em sua mesa na SAP. (foto: Ciaran Dolan / The Wall Street Journal)

Shirley S. Wang, no The Wall Street Journal

Algumas empresas estão vendo o autismo cada vez mais como uma vantagem no trabalho, em vez de uma deficiência.

A empresa alemã de software SAP AG, SAP.XE +0.03% por exemplo, tem procurado ativamente pessoas com autismo para certas posições, não como uma iniciativa de caridade, mas por acreditar que as características do autismo podem tornar algumas pessoas melhores para determinadas tarefas.

Segundo especialistas na deficiência, a iniciativa tem mérito: Estima-se que 85% dos adultos com autismo estejam desempregados. O programa, iniciado na Alemanha, Índia e Irlanda, também está sendo lançado em quatro escritórios da empresa na América do Norte.

A SAP pretende que, até 2020, 1% da sua mão-de-obra, de cerca de 650 pessoas, seja de pessoas com autismo, diz José Velasco, responsável pela iniciativa da SAP nos Estados Unidos.

Pessoas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) — que têm como características um comportamento repetitivo e deficiência para interações sociais — tendem a prestar muita atenção a detalhes, o que pode torná-las muito indicadas para fazer testes de software e eliminar falhas, segundo Velasco, que tem dois filhos com a doença.

Além disso, essas pessoas trazem uma perspectiva diferente ao local de trabalho, o que pode contribuir para a eficiência e a criatividade, diz.

“Elas têm uma natureza muito estruturada” e apreciam resultados precisos e sem ambiguidade, diz. “Estamos olhando para esses pontos fortes e vendo onde eles teriam valor na organização.”

Os funcionários autistas da SAP assumiram funções como a identificação de problemas de software e a distribuição de consultas feitas pelos clientes à central de atendimento, para membros da equipe responsável pela solução de problemas.

Um desses funcionários autistas trabalha em “marketing de talentos”, enviando mensagens a outros empregados internamente. A empresa procura alguém para produzir vídeos e está considerando um candidato com autismo que tenha experiência em mídia.

A SAP também está cogitando oferecer outras funções para autistas, como a redação de manuais que deem a clientes instruções muito precisas sobre como instalar o software.

As pessoas com autismo podem se sobressair numa descrição passo a passo, por exemplo, sem omitir detalhes que outros podem deixar escapar, diz Velasco. O processo de compras, como a obtenção de notas fiscais ou a gestão da cadeia de suprimentos, é outra área em que um indivíduo com autismo pode se destacar, diz ele.

Dara McMahon trabalha em sua mesa na SAP. (foto: Ciaran Dolan for The Wall Street Journal)
Dara McMahon trabalha em sua mesa na SAP. (foto: Ciaran Dolan for The Wall Street Journal)

A SAP não é a única empresa a ter um programa desse tipo. Nos EUA, a agência de hipotecas Freddie Mac FMCC +2.85% oferece estágios desde 2012, inclusive na área de TI, finanças e pesquisa.

A instituição contratou seu primeiro funcionário em tempo integral desse programa em janeiro, segundo uma porta-voz da Freddie Mac. Na área de TI, a empresa descobriu que os estagiários têm um bom desempenho em testes e modelagem de dados que exigem foco e grande atenção a detalhes, assim como uma maneira de ver as coisas que pode ter sido ignorada pelos desenvolvedores.

“Aproveitar as habilidades únicas de pessoas no espectro autista tem o potencial de fortalecer nosso negócio e nos tornar mais competitivos”, diz a norma interna da Freddie Mac.

Assim como ocorre em qualquer grupo, pessoas com autismo têm uma gama de interesses e habilidades. A SAP está trabalhando com uma consultoria dinamarquesa de treinamento com foco no autismo, a Specialisterne. A firma faz uma seleção cuidadosa de candidatos para encontrar profissionais adequados, antes de enviá-los para serem avaliados pela SAP.

Patrick Brophy, de 29 anos, é bacharel em ciência da computação e fez pós-graduação em sistemas de multimídia, que inclui o desenvolvimento de sites e edição. Brophy diz ter a síndrome de Asperger, termo comumente usado para descrever uma forma mais branda do transtorno do espectro autista.

Ele estava procurando um emprego integral há alguns anos, mas diz que, nas entrevistas pelas quais passou, acabava gaguejando ou interpretando mal as perguntas, o que ela acha que prejudicou seu resultado.

Mas quando chegou à SAP para a entrevista, ele tinha as qualificações técnicas e parecia ter a capacidade de trabalhar num ambiente corporativo, diz Peter Brabazon, gerente de programas da Specialisterne. Brophy foi contratado pelo departamento de garantia de qualidade em julho, onde identifica falhas em software que ainda vai ser vendido.

“Quatro semanas antes de entrar [na empresa], comecei a ficar mais nervoso”, diz Brophy, que se preocupava com sua adaptação a um novo ambiente. “Em um mês, [o trabalho] se tornou natural. Eu me encontrei.”

Para Brophy, o trabalho traz desafios, especialmente quando tem que mudar a forma com que faz uma determinada tarefa. Do ponto de vista social, foi fácil se integrar à equipe, diz Brophy e David Sweeney, colega designado para ser seu mentor.

Estima-se que 1% da população dos EUA, cerca de três milhões de pessoas, tenha uma síndrome do espectro autista. Os dados mais recentes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, divulgados na semana passada, mostram que 1 em cada 68 crianças foi diagnosticada com alguma espécie de autismo nos EUA.

No Brasil, o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo estimou, em 2007, que há um milhão de casos de autismo no Brasil. Hoje, será inaugurada em Itaboraí, RJ, a primeira clínica-escola para autistas do Brasil, que também funcionará como centro de capacitação profissional.

(Colaborou Camila Viegas-Lee.)

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