Arquivo da tag: Encanto

Scar Project – O câncer de mama não é uma fita rosa

Jéssica Parizotto, no Obvious

Onde mora a beleza feminina? Há beleza na dor? Quem sabe as respostas possam ser encontradas nos ensaios fotográficos que David Jay faz para o SCAR Project. Um projeto que mostra que o câncer de mama exige mais seriedade que uma fita rosa e que o encanto feminino é superior ao sofrimento.

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

Todo dia ela faz tudo sempre igual. O despertador toca, ela acorda preguiçosamente desarrumada e corre para o banheiro, toma um banho com o sabonete líquido que promete uma pele aveludada, lava o cabelo com o shampoo que reconstrói o que a coloração da moda destruiu, substitui o café da manhã que estava acostumada a tomar na casa de sua mãe por um iogurte que promete deixá-la mais leve, a roupa deve dar a impressão de que ela acorda linda e a maquiagem deve esconder as olheiras causadas pelas noites em busca do príncipe encantado. O cotidiano da música de Chico Buarque é belíssimo. O nosso, nem tanto assim.

David Jay é um fotógrafo que está acostumado a conviver com a feminilidade. Fotógrafo de moda há 15 anos, ele convive diariamente com questões que permeiam o universo da beleza feminina: a busca pelo corpo perfeito, a ditadura da magreza, a efemeridade com que a moda trabalha, enfim, todas essas barreiras pelas quais as mulheres devem passar ao nascer de cada dia.

Mas o projeto de sua autoria que mais chama a atenção nada tem a ver com o mundo da moda, apesar de estar completamente ligado à vida feminina. No SCAR Project nos é apresentada outra visão da beleza feminina: sem idealizações, sem as construções materiais que a moda implica, sem a urgência que nos é imposta.

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

O primeiro contato com as fotografias do projeto pode causar várias reações; haverá aqueles se que se revoltam e argumentam que não há beleza na dor, que isso é exploração. Mas há que se dar a chance de as imagens falarem mais do que o superficial. Há, sim, beleza na dor, mas não a beleza massificada de todos os dias: há o encanto inerente à condição humana, na sua total fragilidade.

Tudo começou quando Jay viu uma amiga de apenas 29 anos ter que passar por uma cirurgia mastectômica, que consiste em retirar completamente a mama e é um dos possíveis tratamentos para o câncer. Segundo David, essa foi a maneira que ele encontrou de confrontar e aceitar a situação. Daí em diante, várias mulheres foram fotografadas pelas suas lentes.

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

De acordo com o fotógrafo, o objetivo do projeto é o mesmo de outras campanhas: o de alertar mulheres para o perigo do câncer de mama. Porém, são dois os grandes diferenciais: o primeiro é o público alvo, que é o de mulheres jovens; o segundo é a honestidade com que ele procura mostrar a doença.

Para Jay, as campanhas de combate ao câncer acabam não alertando para o real perigo, escondidas atrás de laços rosa e propagandas “fofas”. Seu objetivo vem na contramão dessa ideia, nas suas palavras: “Eu não vou mostrar apenas metade da história – que tudo vai ficar bem e essas meninas têm câncer de mama, mas irão continuar com suas vidas – porque esse não é o caso. Eu gostaria que fosse o caso, mas a realidade é que algumas dessas meninas estão morrendo e é importante ter a sua história, mas também porque essa é a realidade da doença.”

Ele ainda argumenta que em uma análise mais demorada é possível perceber que as imagens não são estritamente sobre o câncer de mama, mas sim sobre autoaceitação, compaixão, amor e humanidade. O fotógrafo complementa: “Trata-se de aceitar tudo que a vida nos oferece… toda a beleza… todo o sofrimento também… com graça, coragem, empatia e compreensão. ”

Dizem que a mulher é o sexo frágil. Mas que mentira absurda! Sábias palavras, Erasmo!

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

cancer, cancro, david, jay, mama, mastectomia, scar
© David Jay, Scar Project.

 

A Globo, o Malafaia e um desabafo…

Imagem: Púlpito Cristão

Imagem: Púlpito Cristão

Fabricio Cunha, no Facebook

E nos vemos mais uma vez enamorados com a rede Globo.

Sinceramente, não conseguiria entender esse encanto, senão fosse o fato de avaliá-lo muito mais à luz da “persona”, no caso, o pastor Silas Malafaia, do que do segmento evangélico.

Estrategicamente, a TV sempre deu mais prejuízo do que lucro. Não anotamos um número significativo de vidas ou estruturas transformadas que citam um programa evangélico de TV como a sua gênese.

Muito pelo contrário, na TV, o segmento evangélico alcança seu pior estereótipo. E não é pelas personagens “crentes” caricatas nas novelas. Não. São os televangelistas que são nossa pior imagem pública. Eles, sim, e seus projetos pessoais de poder, caricaturas de uma triste realidade.

Duas semanas atrás o senhor Malafaia foi até a Globo e apertou a mão não sei de quem (me lembrei da hora em que o advogado Kevin Lomax, interpretado por Keanu Reeves aperta a mão do diabo, interpretado por Al Pacino em “Advogado do Diabo), “selou a paz” e firmou um “compromisso” entre nós, evangélicos e a emissora. Como pedido “fiel da balança”, solicitou um personagem evangélico que retratasse de fato quem somos.

Duas perguntas:

1. E quem somos? Um grupo formado por milhões de pessoas, que se agremiam nas mais diversas “denominações”, num país completamente diverso em sua identidade social, cultural e religiosa inclusive. Qual seria o retrato de um personagem “evangélico” de fato?

E, mais importante:

2. É a Globo, influenciada pelo sr. Silas Malafaia, que terá o poder de determinar o perfil do “bom evangélico”?

Por favor, sr. Malafaia (que nunca vai ler esse texto…). Quer falar, fale, mas fale em seu nome ou em nome de quem lhe deu procuração.

Também sou evangélico. Também sou pastor. Mas cansei de dizer que não sou como o senhor para pessoas que me conhecem sem ter o mínimo registro religioso que as dê algum discernimento para saberem que somos diferentes, que lemos bíblias diferentes, que vemos o mundo de forma diferente.

E se quiser vender-se para a rede Globo, venda-se, venda o que tem, mas não o que não possui.

Você é sim, infelizmente, uma voz evangélica com força pública, mas NÃO REPRESENTA OS EVANGÉLICOS, muito menos os detém.

Você NÃO FALA EM MEU NOME e nem em nome de outros milhões de irmãos evangélicos brasileiros, que tomam a sua cruz a cada dia e seguem o mestre Jesus de Nazaré.

No mais, senhoras e senhores, como bem diz meu amigo caipira Carlinhos Veiga:
“Nas contas que fiz, não sobrou nem um pouco. Ou eu sou ruim de conta, ou esse mundo tá louco.”

Vamos em frente.

Inspiração

Ricardo Gondim, em seu site

O poeta sempre busca inspirar-se. Inspiração significa colocar dentro da alma o que pode gerar encanto pela vida a partir das palavras; é inalar o vento que procria e tragar o ar que inebria. Todo o escritor, porém, sente vez por outra o ar rarefeito. Nessas horas falta a matéria prima da poesia. Os pensamentos ficam desconexos. As palavras rodopiam num redemoinho exasperante. As ideias, ensandecidas, criam um turbilhão na cabeça; e o coração, de tanto pensar, nada sente.

Aridez produz no poeta uma sensação de morte provisória; provisória, porque não mata completamente, só o deixa catatônico, estéril. E o primeiro sinal desse estado não é letargia, mas agitação. Irrequieto, belisca vários livros e mal consegue avançar nas páginas. Os olhos nervosos, o coração acelerado, os ouvidos desatentos não permitem a aragem criadora tranquilizar a alma. E sem placidez, como de uma lagoa adormecida entre duas montanhas, nenhum poeta cria qualquer coisa.

Contudo, o desespero de escrever mora no seu peito. Ele não se conforma, precisa fertilizar-se; carece de convencer-se de que a sua esterilidade é passageira. Assim se dá o Big Bang de um texto qualquer. Ele toma a pena e começa a rabiscar. Mas eis que de repente o texto toma as rédeas. E o poeta, outrora senhor do universo, vira refém. As palavras assumem o comando.  Ele, qual gatinho seguro por mãos poderosas, vê-se carregado de um lado para o outro pelas palavras que tenta redigir.

Tal é a vida: os projetos mais audaciosos viram rotina, as experiências mais fantásticas acabam, as emoções mais arrebatadoras fenecem. Euforia, qual menina cheia de graça, “vem e passa”. O tempo fecundo se acaba. A hora esplêndida murcha. Os segundos frenéticos findam. A vida entra em compasso fúnebre. A marcha se arrasta melancólica pela avenida. Nessa hora, a música de Maria Bethânia, Calmaria, ganha força: “Ê calmaria/ Melancolia que devora/ Tempo espicha/ O segundo vira hora/ Ê calmaria/ Traz a mágoa e vai-se embora”.

O que fazer? Resta tomar o caminho do poeta quando se vê diante da página desinspirado e partir para a vida mesmo sem  convicção: engatinhar um passo, ensaiar um xote, trotar uma corrida, desafinar uma cantiga, gaguejar um compromisso, bosquejar um projeto. Na quietação, obedecer ao imperativo de seguir, tímido mesmo. Devagarinho, deixar que a própria vida conduza. Basta não se permitir atolar na lacuna da aridez. A calmaria vai embora. Em mínimos movimentos a vida conduz adiante. Sem pressa. Sem afobação. Esses tempos veem e vão embora. Bethânia de novo: “Meu Deus não me livre disso/ Não me livre disso, não me livre disso/ Desse risco de tristeza/ Desse amor feito corisco/ Desse rasgo de beleza/ Sempre a beira do abismo”. 

Por que? Ora, pois “Quem quer singrar os mares/ Sem passar por tempestades/ É melhor fincar n’areia/ O barco, a vela, a vontade/ Quem teme a escuridão/ Nem carece ver o brilho/ Passeando no arco da amplidão.

Na sequidão, sem muita inspiração, autopromovido poeta, faço coro: “Ê calmaria/ Vento vem e leva embora…”.

Soli Deo Gloria

foto:  google