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Em entrevista inédita, Suassuna disserta sobre temas como Deus, morte e filosofia

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Publicado em O Globo

Não parecia a casa de um escritor, de um artista: parecia casa de avô, suspensa no tempo de um bairro chamado Casa Forte, no Recife. Pouco depois das três da tarde daquela terça-feira, 29 de abril, Ariano apareceu na sala de janelões abertos para o mundo. Estava magro, falava com voz rouca e enfraquecida, pouco mais que um sussurro. Mas o que dizia de maneira firme era brilhante.

Ariano Suassuna era um iluminado, com uma memória prodigiosa. Conversar com ele era uma aula de mundo e de vida. Tinha um olhar pícaro e ágil, e conversava com humor contido mas permanente. Era dono de um conhecimento assombroso, que desfazia qualquer fronteira entre a chamada cultura erudita e a popular. Para Ariano, a vida e a arte eram muito mais que essas divisões que ele desprezava olimpicamente. Eram o resultado da capacidade humana de sonhar e acreditar no sonho, de imaginar as realidades ocultas naquilo que se vê e, assim, recriar a vida. Dizia que a arte não tem uma utilidade prática, mas uma função clara: aumentar a beleza e a alegria do mundo. Tinha certeza de que imaginação e realidade estão altamente entrelaçadas.

Quando fundou o Movimento Armorial, mostrou que criar uma arte erudita a partir da cultura popular não era (nem é) nada mais que desfazer barreiras que ele sempre repudiou. Ariano era um visionário que acreditava na imaginação.

Assim levantou sua imensa obra. Foi da poesia ao romance, caminhou pelo teatro. Era ousado na escrita, que nascia de seus mergulhos profundos nas raízes populares nordestinas para voltar, universal, à superfície do mundo. Manteve uma aparente contradição ao longo de tudo que fez: para inovar, apegava-se às tradições populares. Para projetar o futuro, voltava ao passado. Foi um reflexo cristalino do emaranhado dos muitos pais e das muitas mães que geraram a alma nordestina e, por consequência, brasileira: a cultura ibérica, os ecos mouros, lusitanos, indígenas. Conhecia a fundo o teatro grego, a poesia clássica, sabia de memória Sófocles e Camões (sabia de cor uns cinquenta sonetos dele) e um mundo mais, apreciava especialmente os autores russos, a música dos grandes. Mas também reverenciava a viola e a rabeca, a poesia de cordel, as cavalhadas, os festejos religiosos, as danças do povo.

Dizia que, para ele, escrever era “uma vocação inexcusável. Eu nunca quis ser outra coisa senão escritor. Comecei a escrever aos 12 anos de idade, publiquei meu primeiro poema aos 18 e nunca mais parei. Continuo escrevendo. Todo dia eu leio e escrevo, e não é por obrigação, é por paixão”.

Na verdade, fazia tudo por paixão. Tinha uma visão religiosa do mundo e da vida. Dizia acreditar em destino, mas advertia: “Não como um grego, com uma visão fatalista. E é por isso que não sou um desesperado”. E prosseguia sua fala mansa recordando, com a naturalidade de quem menciona uma conversa com o vizinho, um poema de Sófocles, esclarecendo: “Faz parte da tragédia ‘Antígona’, na parte recitada pelo coro, uma meditação sobre o destino do homem”. E depois, recordava outro poema, um canto popular do Nordeste: “O nosso Deus corrige o mundo/ pelo seu dominamento/ eu sei que a terra gira/ pelo seu grande poder/ grande poder/ pelo seu grande poder”.

Ariano via nesse refrão atesourado em algum rincão de sua memória infinita como contraponto de Sófocles. “No caso do grego, que é o caso de um não cristão, o poema termina no desespero. O irremediável da morte acabaria com toda a sua história. Nós, que acreditamos em Deus, achamos que o mundo é governado pela vontade divina. E isso abranda a ideia de destino. Para os gregos, destino é fatalidade. Para mim, é a vontade de Deus que termina regulamentando tudo”.

A religiosidade de Ariano estava impregnada em todas as suas falas. E a razão, para ele, era muito simples: “Eu acredito em Deus por uma necessidade. Se Ele não existisse, a vida seria uma aventura amaldiçoada. Eu não conseguiria conviver com a visão amarga, dura, atormentada e sangrenta do mundo. Então, ou existe Deus, ou a vida não tem sentido nenhum. Bastaria a morte para tirar qualquer sentido da existência. Um grande poeta popular, Leandro Gomes de Barros, meu conterrâneo da Paraíba, escreveu três estrofes que eu creio que formulam aquele que eu acho o problema filosófico mais grave da Humanidade. Veja você: Camus, o grande escritor franco-argelino, tem um livro em que começa dizendo que o único problema filosófico realmente sério é o do suicídio. O suicídio é uma coisa muito grave: a pessoa avalia o mundo, avalia a si própria e acha que não vale a pena. Mas apesar dessa frase ser muito bonita, Camus, a meu ver, estava errado. O problema filosófico na verdade não é o do suicídio, que é apenas um aspecto dele. Mais grave, para mim, é o problema do mal e do sofrimento humano. Então, sinto que Leandro Gomes de Barros formulou muito melhor que Camus essa questão. Essa é a pergunta mais séria que as pessoas que não acreditam em Deus podem fazer às que acreditam. Repare:

Se eu conversasse com Deus

iria Lhe perguntar

por que é que sofremos tanto

quando viemos para cá?

Que dívida é essa

que o homem tem de morrer para pagar?

Perguntaria também

como é que Ele é feito

que não come, que não dorme

e assim vive satisfeito.

Por que foi que Ele não fez

a gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes

e outros que sofrem tanto,

nascidos do mesmo jeito,

criados no mesmo canto?

Quem foi temperar o choro

e acabou salgando o pranto?

Veja que coisa linda! Isso coloca em questão a própria existência de Deus. É como se Deus tivesse querido temperar o choro e acabou errando na mão, como se Deus fosse capaz de dar um erro, e infringido um sofrimento terrível ao ser humano… Então, para mim Deus é uma necessidade. Então, repito: se eu não acreditasse, seria um desesperado”.

Dizia isso e sorria um sorriso serenado.

Privilégios extraordinários

Garantia ser um homem tranquilo. De poucos medos. Talvez, brincava, por irresponsabilidade. Sempre achava que as coisas iam dar certo. Quando alguém perguntava se tinha medo da morte, respondia rindo: “Não gosto de contar valentia por antecipado. Pode até ser que na hora eu me apavore. Mas até onde eu vejo, não tenho da morte não”.

Dizia que a vida não devia nada a ele. “Se ela acha que me deve alguma coisa, passo recibo de quitação agora mesmo. Não posso me queixar da vida. Tive privilégios extraordinários”, arrematava sorrindo.

Achava que os otimistas eram ingênuos e os pessimistas, amargos. E se dizia um realista esperançoso. Acreditava na utopia. Para ele, enquanto existir o ser humano haverá espaço para a utopia.

Era um homem muito afetivo. Prezava, acima de tudo, sua família. Graças à sua mulher Zélia, paixão de adolescência que durou para sempre, 67 longos anos, aos seis filhos e 15 netos, desconhecia a solidão.

Tive pouquíssimos encontros com Ariano Suassuna. Três ou quatro. O último foi naquela terça-feira de abril. Prometi voltar, não deu tempo. A Caetana, que é como a morte é chamada no sertão nordestino, chegou antes.

(Eric Nepomuceno é jornalista, escritor e tradutor)

Papa afirma que comunistas são os cristãos não assumidos

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Pontífice defendeu que a pobreza está no centro do Evangelho; o comunismo teria se apropriado dessa bandeira no século XX

Publicado no Último Segundo

O papa Francisco, cujas críticas ao capitalismo desenfreado levaram alguns a rotulá-lo como marxista, disse em uma entrevista publicada neste domingo (29) que comunistas tinham roubado a bandeira do cristianismo.

O pontífice, de 77 anos, deu uma entrevista ao Il Messaggero, um jornal de Roma, para marcar a festa de São Pedro e São Paulo, um feriado na cidade.

Ele foi questionado sobre um post no blog da revista Economist que dizia que ele soava como um leninista quando criticou o capitalismo e pediu uma reforma econômica radical.

“Eu só posso dizer que os comunistas têm roubado a nossa bandeira. A bandeira dos pobres é cristã. A pobreza está no centro de o Evangelho”, disse ele, citando passagens bíblicas sobre a necessidade de ajudar os pobres, os doentes e os necessitados.

“Os comunistas dizem que tudo isso é comunismo. Claro, vinte séculos mais tarde. Então, quando eles falam, pode-se dizer: ‘mas então você é cristão’”, disse ele, rindo.

Desde sua eleição, em março de 2013, Francisco tem frequentemente atacado o sistema econômico global como sendo insensível aos pobres e não fazer o suficiente para compartilhar a riqueza com aqueles que mais precisam.

No início deste mês, ele criticou a riqueza feita a partir de especulação financeira como intolerável e disse que a especulação com commodities era um escândalo que comprometeu o acesso dos pobres aos alimentos.

‘Jesus seria a favor do casamento gay’, diz Elton John

Cantor planeja se casar com seu companheiro, David Furnish, no próximo ano

Elton John e seu companheiro, David Furnish, em foto de 2010 (foto: Evan Agostini / AP)

Elton John e seu companheiro, David Furnish, em foto de 2010 (foto: Evan Agostini / AP)

Publicado em O Globo

Em entrevista para um programa da “Sky News”, o cantor inglês Elton John, de 67 anos, afirmou que Jesus defenderia o casamento gay caso fosse vivo nos dias de hoje.

O músico, que irá se casar em 2015 com seu companheiro, David Furnish, também afirmou que leis como a do celibato para integrantes do clero da Igreja Católica e a que proíbe o casamento de membros gays da Igreja da Inglaterra, eram “velhas e estúpidas”.

— “(Jesus) acreditava no amor, na compaixão, no perdão e na tentativa de unir as pessoas. As igrejas deveriam se preocupar com isso — disse o astro.

Sir Elton John também comentou sobre o atual arcebispo de Canterbury, Justin Welby, líder da igreja da Inglaterra, e o Papa Francisco, a quem chamou de “maravilhoso”.

— Ele resumiu tudo à humildade da fé e disse basicamente que apenas o amor e a inclusão importam. Isto também deve ser encorajado pela Igreja da Inglaterra.

O cantor aproveitou para falar sobre a sua intenção de apresentar membros da comunidade gay a Vladimir Putin, presidente da Rússia, para mostrar o impacto de uma legislação “profundamente divisionista”.

— Não é positivo quando dizem que eu não devo falar com esse tipo de gente. A única maneira de resolver problemas é conversando com as pessoas.

Elton John também afirmou que seu casamento será “bastante discreto”, já que houve uma grande festa quando o casal celebrou sua união civil, em 2005.

dica do Gerson Caceres Martins

‘A maior eclosão de compulsão gay está no movimento evangélico’, diz ex-ministro presbiteriano

O comediante Danilo Gentili (foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

O comediante Danilo Gentili (foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

Renato Kramer, no F5

Danilo Gentili entrevistou no “The Noite” (SBT) desta segunda-feira (23) o ex-ministro presbiteriano Caio Fábio, hoje líder do Movimento Caminho da Graça.

Polêmico e altamente “sincericida”, Caio Fábio não deixou pedra sobre pedra em suas afirmações sobre o que viu durante a sua longa trajetória em mais de trinta anos de ministério. A entrevista foi longa. Aqui apenas alguns flashes para quem perdeu.

“Eu achava que a comunidade evangélica era alienada como era, era massa de manobra como era porque faltava instrução. Então passei 33 anos ensinando, dos luteranos aos neopentecostais. Criamos até a Associação Evangélica Brasileira pra ver se dava parâmetros de saúde mental para o pessoal, mas descobri que ninguém queria isso”, afirmou Caio Fábio.

“Isso desmonta o circo, a estrutura, a exploração”, continuou o ex-pastor, “instrução ajuda o povo a andar com as próprias pernas. Instrução liberta, tira as dependências desses gurus tiranos sobre a cabeça das pessoas, e isso eles não querem!”, acrescentou enfático, referindo-se a alguns líderes evangélicos. “[Edir] Macedo me abomina, esse povo todo me abomina porque passei a vida tirando as estruturas de poder que eles usam para manipular o povo”, concluiu.

Mas isso foi só o começo. Caio Fábio parecia querer desabafar em rede nacional todo um descontentamento com o que acontece muitas vezes por detrás dos cultos de algumas vertentes evangélicas. Danilo Gentili quis saber o que de mais abjeto o seu entrevistado teria observado nesse universo. “A capacidade que esse pessoal teve de literalmente tirar o cérebro das pessoas”, respondeu Caio Fábio.

“Os evangélicos são burros, é o que você tá falando?”, questionou Gentili. “Ficaram”, replicou Caio Fábio. “Qualquer um fica sob aquele rolo compressor” completou o entrevistado. E ainda comentou: “Eu fiz uma pesquisa sobre você e vi que você já passou por lá, você (Danilo) sabe o poder que aquilo ali tem de fazer mentes tornarem-se amebas”, concluiu com firmeza.

Caio Fábio falou também, entre tantas outras coisas, de como pode ser mal interpretado o “Livro Sagrado” e a sua visão do Velho e do Novo Testamento (“A Bíblia é a mãe de todas as heresias, se você quiser – a Bíblia diz sobre a Bíblia que parte dela já caducou”, afirmou) e desmascarou as “possessões demoníacas” apresentadas em alguns cultos: “Aquilo ali é sugestão, é psiquismo demoníaco aprendido pela cultura neopentecostal – na maioria das vezes é forjamento, têm até possessos contratados”, delatou Caio Fábio.

“Eles me chamam de herege porque eu digo que essas coisas caducaram, porque justamente se caducaram o dízimo já era e eles vivem disso!”, continua Caio Fábio em sua metralhadora giratória. Até que o apresentador lhe coloca numa espécie de ‘saia justa’. “Como você acha que Jesus veria hoje o movimento gay?”, perguntou Gentili de supetão.

Mas Caio Fábio não se fez de rogado, nem tampouco titubeou em responder: “Do jeito que Ele viu nos dias dEle. Nos dias dele tava cheio de gay, o que que Ele fez?!”, devolveu a pergunta para Danilo. “Não sei. O que que Ele fez?”, quis saber o apresentador. “Nada”, respondeu tão simplesmente Caio Fábio. Mas desenvolveu melhor.

“Tava cheio de puta, o que Ele fez? Nada. Tava cheio de canalha, calhorda pra todos os lados, o que Ele fez? Nada. Ele acolheu quem o procurou, não perguntou coisa nenhuma. Isso não estava na pauta de Jesus nem está”, argumentou. “Essa pauta aí é uma pauta moral, é uma pauta ideológica, é uma pauta da fragilidade da religião que introjeta culpa nas pessoas e exacerba o maior movimento de compulsão psicológica justamente para aquilo que eles proíbem”.

E então foi que veio talvez a sua informação mais pitoresca da noite: “Você pegue uma estatística e vá ver onde proporcionalmente nesse país existe a maior eclosão de compulsão gay…não é no Corinthians”, ironizou. “É no São Paulo (FC)?!?”, ajuntou Danilo. “No São Paulo chega perto”, brincou Caio Fábio, “mas nada alcança o movimento evangélico”, concluiu. “Tem muito veado lá?”, perguntou Gentili. “Claro! Uma sociedade que só introjeta pecado vai produzir só tarados! Não tem jeito dos evangélicos melhorarem enquanto eles piorarem o mundo para todos”, sentenciou o líder do Movimento Caminho da Graça.

dica do Moisés Gomes