‘Como é possível, na era da felicidade, não ficar doente de tristeza?

Para analista, redes sociais impulsionam busca pela perfeição – mas há saída: “Ninguém está propriamente bem. E nunca foi problema não estar feliz o tempo todo”.

foto: Paulo Giandalia/Estadão
foto: Paulo Giandalia/Estadão

Marilia Neustein, no Estadão

Para a psicanalista Maria Lucia Homem, o interesse em assuntos do universo da psicanálise é cada vez maior. E há uma razão clara para isso. O ser humano, diz, está mais aberto a se descobrir e enfrentar seus sofrimentos: “As pessoas fazem análise e não acham que são loucas por causa disso. Isso é uma revolução. O sujeito contemporâneo sabe onde buscar ferramentas para se perguntar o que é a depressão, o que é a loucura, a violência, o racismo, a guerra”.

Segundo a analista lacaniana, formada pela USP e com especialização no Collège International de Philosophie da Universidade de Paris 8, as redes sociais contribuem para que vivamos em uma espécie de Show de Truman – em escala planetária. “Trata-se de um grande circo contínuo, divertido, engraçado e feliz, um delírio. Isso tem um custo. A clínica mostra isso claramente”, diz a professora da Faap – que ministra curso, dia 16, sobre cinema e psicanálise na Casa do Saber. Para ela, a psicanálise ajuda nesse processo porque atua no “backstage” e dá espaço para que os pacientes possam… falar. “Falar transforma uma pessoa. Simples assim.”

Abaixo, os principais trechos da conversa com a coluna, na casa de Maria Lucia, no bairro paulistano da Lapa.

Existe uma curiosidade por temas da psicanálise. Andrew Solomon foi aplaudido de pé na Flip e o suicídio de Robin Willians, amplamente debatidos nas redes sociais. Há um crescimento e uma popularização desse interesse?
Sem sombra de dúvidas. Freud foi uma figura importantíssima para fazer uma espécie de divulgação de uma outra concepção de subjetividade. Hoje, qualquer pessoa, em muitos meios, conhece a palavra “inconsciente”. E também termos como “ego”, “superego”, “ato falho”, “recalque”. São palavras que já estão em pleno uso. Então, nós podemos dizer que, inconscientemente, somos todos freudianos. Já estamos há cem anos sensíveis a nos observarmos de um ponto de vista mais sofisticado e menos ingênuo.

Como assim?
Já não achamos que existem forças transcendentais que guiam as nossas cabeças – isso, claro, dentro de uma massa ocidental e intelectualizada. As pessoas fazem análise e não acham que são loucas por causa disso. Isso é uma revolução. O sujeito contemporâneo vem com essa bagagem, ele sabe exatamente onde buscar ferramentas para fazer perguntas a si próprio. Esse interesse é crescente. As pessoas se perguntam: o que é a depressão, o que é a loucura, a violência, o racismo, a guerra?

E como a psicanálise ajuda nesse entendimento?
A psicanálise é uma ferramenta gigantesca, uma lupa. É como se a gente descobrisse uma espécie de microscópio da alma. Para mim, isso é pedagógico. Triste, mas, ao mesmo tempo maravilhoso.

Percebe isso no consultório?
Lógico. Um dos grandes problemas da clínica contemporânea é uma “psicologização” dos pacientes. Eles já chegam dizendo: Eu tenho um trauma de infância” ou: “Eu tenho histórico de abandono”. O paciente chega com uma etiqueta. E aí você precisa desmontar isso para começar o processo analítico real. É muito comum escutar “sou depressivo”. E, na verdade, nós, profissionais, sabemos muito mais do que esse senso comum a respeito da depressão.

O que, por exemplo?
Tem um texto que eu gosto da Elisabeth Roudinesco (historiadora e psicanalista francesa) que explica como a lógica da nossa sociedade é depressiva, ou é – para ser mais precisa – “depressivante”. Não tem como – em uma cultura pautada pelo ideal da felicidade – não existir infelicidade. Vivemos na era do imperativo, do “be cool”, “be happy”. As pessoas têm de estar sempre se divertindo, viajando, na distração, no delírio, no bliss. Mas a própria definição do momento de êxtase é aquilo que é raro – e as pessoas transformam isso em algo necessário. Existe uma inversão muito clara. Queremos tornar o impossível possível. E nos frustramos por nos sentirmos fracassados perante esse ideal.

Que ideal é esse?
Sei lá, meu primeiro milhão, minha casa, meu casal lindo de filhos. Então, a clínica nos mostra que existe um gap entre o que a pessoa é e o que ela acha que tem de ser; como ela acha que deveria estar se sentindo e como o outro espera que ela seja. As coisas ficam embaralhadas e o resultado é que se sofre muito. Esta é uma das razões que fazem com que as pessoas tenham mais interesse a respeito desses assuntos. Porque ninguém está propriamente bem. E nunca foi problema não estar feliz o tempo todo.

Isso é um problema do nosso momento histórico?
Com certeza. Não que a gente não tenha tido ideais desde sempre. Sempre houve melancolia – isso é retratado pelos gregos. Mas uma coisa é retratar a melancolia como quadro possível, outra coisa é colocar a felicidade, o prazer e o entretenimento como obrigações contínuas. Todas as estatísticas mostram que estamos em uma epidemia de sintomas mentais em que depressão, pânico e transtornos alimentares são a ponta de lança. Como não estar doente de tristeza na era da felicidade? Como não estar doente de desemparo, de medo, de pânico quando todas as redes de amparo estão esgarçadas? O individualismo mata os elos comunitários. É um paradigma que não tem como não jogar o sujeito no desamparo. Os iguais são seus concorrentes e você tem de se destacar. Então, como é possível não ter medo? Como o pânico, a fobia, a fragilidade não vão ser os sintomas básicos de um era que só prega o ideal de força, potência e vitória? E como não ter transtorno ou distúrbios com o corpo e com a imagem que se tem de si em um universo que dita o tempo todo o corpo que você deve ter: jovem, magro e belo?

As pessoas querem mandar uma no corpo da outra?
Sim, e isso é muito autoritário. Quer maior autoritarismo do que o conceito de “humanos, não envelheçam” – sobretudo mulheres? Vivemos em uma cultura que diz “tempo, não passe”. Ora, isso é impossível. Então, estamos numa luta inglória, dando murro em ponta de faca com grandes preceitos da vida. Como não sofrer? Como não ter uma forma de defesa psíquica com isso tudo?

E você acha que o amor e o casamento também sofrem com essa ‘superidealização’?
Claro. É interessante analisar as estatísticas do momento, mas cerca de metade das relações termina em divórcio. As pessoas mais se desencontram do que se encontram. E ao se encontrarem – aquele encontro real mesmo, quando ‘bate o santo’, tem química, identificação do inconsciente – não é tão óbvio, é mais raro, é quando você está muito à vontade com alguém e quer dar o seu melhor. Ainda assim, quando há tudo isso, é muito difícil manter essa sensação. Porque você também está operando em um real “hiperfetichizado” do que seria o amor, o casamento, o casal, o comercial de margarina. Exigimos muito do outro – o mesmo tanto que exigimos de nós mesmos. Entretanto, os afetos, no meio disso, pulsam – graças a Deus. E é justamente porque eles pulsam que a gente acaba sofrendo. O afeto não mente.
Mas há, hoje em dia, um resgate dos casamentos mais tradicionais, com cerimônias religiosas. Isso é um aspecto interessante. Eu vejo que os rituais simbólicos têm uma importância, mantiveram um valor simbólico, o peso da tradição – para usar uma expressão clichê. Aquilo que sempre foi feito carrega um peso simbólico que pode ser interessante.

Como assim?

Para além dessa leitura meio superficial de que vivemos em um momento de “caretização” global. Acho que é mais complexo do que isso. Eu ousaria colocar lenha na fogueira e dizer que a gente pode olhar para trás e se perguntar: o que posso aprender com quem viveu antes de mim? Enterramos os mortos, alguma sabedoria isso deve ter. É útil? A rigor não sei se é. Mas talvez a gente precise desse ritual simbólico para elaborar a perda, a nossa própria consciência enquanto seres mortais. Então, eu quero acreditar que esse retorno pode ter alguma sabedoria. “Ritualizar” as uniões ou os pactos pode ter alguma força, mas isso é a leitura mais interessante que eu poderia fazer do fenômeno. Entretanto, há um rebote.

Qual?
A gente não faz essa ritualização, por exemplo, do casamento ou dos aniversários das crianças só como uma forma de reflexão, de simbolizar as passagens. As pessoas “espetacularizam”, contratam o buffet x, as flores y, o vestido não sei como, transformam tudo em um grande evento, por onde circula muito dinheiro. Depois, vêm a infelicidade e a separação.

Isso tem tudo a ver com as redes sociais?
Sim, acredito que a lógica da rede social é transformar o seu ‘eu’ em várias imagens postadas numa lousa chamada mural (Instagram). Ou em um local chamado linha do tempo (Facebook).

E as pessoas só postam imagens felizes…
Isso anda junto. Quando a gente trabalha com essas formas de apreender o mundo, estamos falando em fazer um Show de Truman (filme protagonizado por Jim Carrey, que descobre que sua vida, na verdade, é um programa de TV) em escala planetária. É um grande circo contínuo, divertido, engraçado e feliz, um delírio. Só que isso tem um custo e a clínica mostra isso. Claramente.

De que forma?
Ouço o avesso disso. A clínica é o backstage desse circo. Um exemplo: as mulheres nem podem mais ter filhos em paz. Tem que pensar qual vai ser a roupa, a foto, a lembrancinha. E o pós-parto é um momento difícil, como o período da amamentação. Aí a pessoa chora quatro meses sem parar, tem depressão pós-parto. Não se pode nem sofrer e nem envelhecer em paz.

E o afeto, onde fica?
É o ponto crucial. Esse é o nosso problema. Por que a psicanálise funciona? Porque falar transforma uma pessoa. Simples assim. E por que isso acontece? Porque a fala, a linguagem e a maneira de se expressar estão ligadas ao afeto. Isso é uma das bases do que Freud cifrou. A psicanálise funciona porque sentimos e falamos. E, se fazemos isso a partir de uma posição apropriada, não tem como não ter uma transformação e caminhar numa direção que te leve a sofrer menos com o que você mesmo causa a você. Quando chega um paciente na análise, normalmente é alguém que já está desconfiado que aquilo que ele sofre tem a ver com ele mesmo. E existe essa vontade de saber o que é isso.

Pode ser que a gente venha a viver melhor?
Sim! E não digo isso de maneira ingênua, mas acho que existe essa possibilidade, mesmo com a nossa cultura não favorecendo isso por si só. /

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Dilma redobra ataque a Marina: “Coitadinho não pode ser presidente”

Presidente-candidata tenta desconversar sobre ofensiva à rival. No campo programático, afasta ideia de colocar área de humanas no Ciência sem Fronteiras

Presidente e candidata à reeleição pelo PT, Dilma Rousseff durante entrevista coletiva no Palácio da Alvorada - 14/09/2014 (foto: Ichiro Guerra/Divulgação/VEJA)
Presidente e candidata à reeleição pelo PT, Dilma Rousseff durante entrevista coletiva no Palácio da Alvorada – 14/09/2014 (foto: Ichiro Guerra/Divulgação/VEJA)

Gabriel Castro, na Veja on-line

Em entrevista concedida neste domingo no Palácio da Alvorada, a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, voltou a criticar a adversária Marina Silva, que tem se queixado dos ataques do programa eleitoral da petista. A presidente afirmou que um “coitadinho” não pode ocupar o maior cargo da República. “Não tem coitadinho na Presidência. Quem vai para a Presidência não é coitadinho. Porque, se se sente coitadinho, não pode chegar lá”, disse ela.

A petista afirmou que tem discutido apenas o programa de governo da adversária, sem ataques pessoais, e que isso é parte da disputa eleitoral. “A campanha tem de ser do mais alto nível. Agora, eu considero alto nível discutir proposta, sim. Ninguém pode se dar por satisfeito quando não discute propostas”, afirmou.

Sobre seu programa de governo, Dilma descartou a inclusão dos cursos de humanas no programa Ciência Sem Fronteiras. Ela prometeu manter o programa em um eventual segundo mandato, mas afirmou que não há recursos para que alunos fora da área de exatas sejam incluídos. “Nós não temos dinheiro para fazer para todo mundo. Em humanas, cá entre nós, nós não fazemos feio”, afirmou.

Dilma também declarou que, no futuro, o programa deve incluir um critério de renda. Hoje, apenas o mérito do aluno é levado em conta, o que acaba fazendo com que o governo financie os estudos e a moradia de muitos alunos das classes mais altas. “Não está afastado o corte por renda no futuro, não. É óbvio que em algum momento teremos de fazer isso”, declarou.

A próxima seleção do programa se encerra em 23 de setembro e deve escolher cerca de 14.000 beneficiados. Todos os alunos que não forem selecionados terão direito a uma segunda chamada no Ciência Sem Fronteiras 2. Se cumprirem os critérios mínimos de qualificação, eles serão beneficiados na próxima etapa do programa. Haverá 100.000 novas vagas em um segundo governo, afirmou a presidente. Até agora, pouco mais de 86.000 alunos participaram do Ciência Sem Fronteiras. Por meio do programa, o governo financia os custos acadêmicos e de moradia de alunos de universidades brasileiras que sejam aceitos para um intercâmbio em universidades estrangeiras.

Paulo Roberto – Dilma também afirmou não estar preocupada com o possível depoimento de Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, no Congresso Federal. “Nós não temos nenhuma expectativa ou preocupação em relação a isso”, afirmou. Costa, que está preso, tem revelado à Polícia Federal nomes de políticos beneficiados pelos desvios na estatal. Parlamentares da CPI da Petrobras pretendem ouvi-lo, mas isso depende de autorização do Supremo Tribunal Federal.

 

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Na vida sob o califado, histórias de estupros

Estado Islâmico mantém cerca de 40 mulheres, entre 12 e 30 anos, como escravas sexuais

A garota yazidi foi capturada durante uma ofensiva nas Montanhas Sinjar. Ela permanece presa (foto: Reprodução da internet)
A garota yazidi foi capturada durante uma ofensiva nas Montanhas Sinjar. Ela permanece presa (foto: Reprodução da internet)

Rose Troup Buchanan, no The Independent [via O Globo]

Uma jovem yazidi capturada pelo Estado Islâmico (EI) revelou o extremo abuso que sofre como escrava sexual nas mãos dos jihadistas. Com apenas 17 anos, Mayat (nome fictício) foi sequestrada por integrantes do EI em 3 de agosto, durante uma ofensiva dos extremistas nas Montanhas Sinjar. Ela permanece com seus raptores.

Estes homens permitiram que Mayat falasse — ela sabe um pouco de inglês já que queria estudar na Europa — para “nos machucar ainda mais”, nas palavras da garota:

— Eles nos falam para descrever em detalhes aos nossos pais o que eles estão fazendo.

Os pais dela, refugiados no Curdistão, deram o número da filha a um jornalista do jornal italiano La Repubblica. A adolescente implora ao entrevistador para não chamá-la pelo nome, porque tem “vergonha do que eles fizeram” com ela:

— Parte de mim gostaria de morrer imediatamente, afundar sob a terra. Mas há outra parte que ainda tem esperança de ser salva, para ser capaz de abraçar meus pais mais uma vez.

Uma das cerca de 40 mulheres e meninas detidas pelos extremistas em uma cidade desconhecida, Mayat estima a idade delas em torno de 12 a 30 anos.

— O que estão fazendo comigo? — questiona-se, diante da pergunta do repórter. — Tenho muita vergonha de dizer, e nem sei como descrever minha tortura.

Na entrevista, Mayat conta como as mulheres e as jovens são mantidos em uma casa vigiadas por guardas armados. Há, segundo ela, “três quartos de horror”, onde as mulheres são estupradas, ao longo do dia, geralmente por homens diferentes.

— Eles nos tratam como escravas. Somos sempre “dadas” para homens diferentes. Alguns chegam diretamente da Síria — conta a jovem.

O EI tem feito enormes ganhos territoriais ao longo de todo o Norte do Iraque e em partes da Síria, capturando milhares de mulheres e crianças, de acordo com um relatório da Anistia Internacional do mês passado.

— Eles nos ameaçam e nos batem se tentamos resistir. Muitas vezes, eu desejava que eles me batessem tão forte até que eu morresse. Mas eles são covardes até para isto. Nenhum deles têm coragem de acabar com nosso sofrimento — ataca a garota.

Mayat diz que algumas das meninas mais jovens pararam de falar por causa do abuso e foram levadas pelos jihadistas. Muitas das mulheres tentaram acabar com as próprias vidas.

— Às vezes, sinto como se nunca vai ter fim. E se isso acontecesse, minha vida ficaria para sempre marcado pela tortura que sofri nas últimas semanas — conta Mayat. — Mesmo que sobreviva, não acho que serei capaz de remover este horror da minha mente.

A história de Mayat contradiz afirmações anteriores do EI, que pretendia mostrar que a vida sob o regime do Estado islâmico teria muitos mais cuidados com as viúvas e crianças.

O governo britânico prometeu doar armas e munição para o Iraque para combater a insurgência. Em meio a preocupações de terrorismo, o presidente americano, Barack Obama, prometeu mostrar ao povo americano os esforços para “degradar e destruir” o EI.

Mayat termina dizendo:

— Eles já mataram meu corpo. Agora, estão matando minha alma.

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Malafaia diz que Dilma o persegue por pedir cadeia aos mensaleiros

“Esses caras aí [os pastores] falam isso de mim por dor de cotovelo. Porque tomam o maior sarrafo da minha teoria teológica. Só um idiota babaca pra falar o que essas caras falaram!”

Manifestação organizada pelo pastor evangélico Silas Malafaia em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, reúne multidão em favor da liberdade religiosa, da vida e da família tradicional em Brasília (foto: Roberto Jayme/UOL)
Manifestação organizada pelo pastor evangélico Silas Malafaia em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, reúne multidão em favor da liberdade religiosa, da vida e da família tradicional em Brasília (foto: Roberto Jayme/UOL)

James Cimino, no UOL

O pastor Silas Malafaia disse durante entrevista ao UOL o motivo pelo qual votaria em qualquer candidato (“até em Levy Fidelix”) contra a presidente Dilma Rousseff. Segundo ele, a candidata petista e seu partido o perseguem desde que ele fez uma manifestação no ano passado, em frente ao Palácio do Planalto, pedindo cadeia aos mensaleiros.

“O PT trata bandido como exemplo! Chega de PT. Doze anos do partido que mais roubou na história!”, disse o pastor, que no ano passado intimidou fieis de sua igreja que não denunciassem pastores acusados de corrupção. “Ninguém deve se meter com os ungidos de Deus. Meu irmão, isso é coisa muito séria, eu já vi gente morrer por causa disso!”

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

UOL – Entrevistamos dois pastores, um da igreja Betesda e outro da igreja Anglicana, e perguntei a eles sobre sua influência política entre evangélicos. Eles disseram que o senhor tem menos influência do que gosta de propagar. O que o senhor acha disso?

Silas Malafaia – Olha, quem fala isso deve ter dor de cotovelo de mim. Todas as vezes que me posicionei sobre isso, eu disse que não existe líder evangélico máximo no Brasil. Todos os líderes evangélicos têm uma certa influência. E não fui eu que falei, que me posicionei [sobre a mudança no programa de governo de Marina Silva], foi Jean Wyllys. Foi o ativismo gay. Eu apenas me dirigi a quem me segue. E isso é um direito meu. Aí ele quem disse que por minha causa a Marina mudou. E esses caras aí [os pastores] falam isso de mim por dor de cotovelo. Porque tomam o maior sarrafo da minha teoria teológica. Só um idiota babaca pra falar o que essas caras falaram! Olha o termo que eu vou usar: Idiota babaca!!! Nunca falei que sou melhor que os outros. Não me dou essa importância.

O senhor disse em várias ocasiões que não apoiaria Marina porque ela, como cristã, não era muito assertiva. Por que o senhor mudou de opinião?

Eu falei isso quatro anos atrás. Lembra que na eleição presidencial passada o negócio ficou acirrado por causa de aborto? Então, aí a Marina chegou a disse assim: “Eu faço um plebiscito sobre o aborto.” Para mim ela tinha que dizer o seguinte: “Eu sou contra o aborto, mas apoio um plebiscito.” Achei hipocrisia. Aí eu deixei de apoiá-la e fui até o Serra. Usei a seguinte frase: “Pior que um ímpio é o cristão que dissimula.” Fiquei indignado na época. Mas usar uma coisa de quatro anos atrás não tá valendo pra agora.

O senhor acha que ela muda muito de opinião como Aécio e Dilma estão dizendo?

Acho que ela muda menos de opinião que eles. O que Aécio e Dilma dizem está no campo do debate político. Interesse eleitoral.

Por que o senhor diz em seu Twitter que a presidente Dilma o ataca?

Meu filho, eu estou sofrendo a maior perseguição que nenhum pastor, padre ou igreja já sofreu até hoje. Em junho do ano passado nós fizemos uma manifestação em Brasília, com 70 mil pessoas às quatro horas da tarde em que eu pedi cadeia aos mensaleiros. Botei pra arrebentar! Um mês depois, olha que coincidência incrível, a Assembleia de Deus Vitória em Cristo e a Associação Vitória em Cristo, em que eu trabalho com obras sociais e programas de televisão, entraram em procedimento fiscal. Estou há 14 meses com várias equipes de auditores para fazer uma devassa nas minhas contas. Eu disse: “Eu não sou ladrão, vão quebrar a cara.” Fiquei quieto na época senão iam dizer que eu estava com medo. Eles usam a prática nazista, comunista, fascista para detonar a credibilidade de pessoas! É a prática deles meu irmão! Agora tem a eleição e eu estou em cima! E eu te digo uma coisa: Se o Levy Fidélix fosse para segundo turno contra a Dilma eu votaria nele. E deixa eu te falar outra coisa que eu acho importante dizer: Marina não é candidata dos evangélicos. Marina é a candidata do brasileiro que quer mudança no país. Tem evangélico que vota em Aécio. Tem evangélico que vai votar na Dilma. Ela é a candidata de todo mundo que está de saco cheio do PT. O PT trata bandido como exemplo! Chega de PT! 12 anos do partido que mais roubou na história!

Quanto o senhor acha que seu twitaço influenciou na decisão de Marina Silva em mudar seu programa de governo?

Se os meus tuítes tivessem influenciado Marina, ela teria modificado um monte de coisa do seu programa que eu continuo sem concordar. Os meus tuítes deram alerta para que o pessoal da campanha verificasse o que os ativistas LGBT da campanha fizeram. E o ativismo gay quer tudo e dane-se o que os outros pensam. E eu não estou falando dos homossexuais, estou falando do ativismo gay. Agora, o programa da Marina não tem uma linha que contemple a ideologia cristã…

O que o senhor gostaria que tivesse contemplado da ideologia cristã no programa?

Nada! Não quero privilégios para evangélicos! O que eu disse foi que tem muitos pontos ali que eu não concordo, como adoção de crianças por homossexuais. Não concordo.

Mas o senhor discorda, por exemplo, que outros 29 direitos civis que são negados aos homossexuais sejam regulamentados, como o direito a herança, por exemplo…

Quem disse que precisa de união civil para ter herança? Herança o cara deixa para qualquer um. Isso é falácia…

Na verdade não é bem assim. Segundo o Código Civil brasileiro, 50% da herança, por lei, tem que ir para seus herdeiros necessários, que são os filhos, depois os pais e em terceiro o cônjuge. Você só pode dispor dos outros 50%…

Então, aí vai para os pais dos homossexuais também. É igual para todo mundo… (mais…)

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Silas Malafaia: “Marina levará 80% dos votos evangélicos”

Visto como pivô da mudança no programa de governo do PSB, o pastor diz que as questões de costumes devem ser decididas no Congresso e defende a alternância de poder

Silas Malafaia diz que nunca disputará uma eleição. “Eu? Político? Não fui chamado para isso” (foto: Nidin Sanches/Nitro/Época)
Silas Malafaia diz que nunca disputará uma eleição. “Eu? Político? Não fui chamado para isso” (foto: Nidin Sanches/Nitro/Época)

Felipe Patury e Teresa Perosa, na Época

O líder evangélico Silas Malafaia é o pastor brasileiro mais influente das redes sociais. Campeão de seguidores, ele promove todos os dias o que chama de “tuitaços”. São quatro mensagens lançadas ao meio-dia no Twitter. “Só boto bomba atômica.” Por que adotou essa estratégia? “Ninguém usa as redes sociais como os evangélicos.” Malafaia provou o que diz. Na semana passada, usou o “tuitaço” para condenar o programa de governo da presidenciável Marina Silva (PSB), que defendia o casamento gay e a criminalização da homofobia. No dia seguinte, Marina tirou esses pontos do programa. Agora, Malafaia diz que votará no Pastor Everaldo (PSC) no primeiro turno e em Marina no segundo.

ÉPOCA – O senhor condenou no Twitter a primeira versão do programa de Marina Silva, que defendia o casamento gay e a punição da homofobia. Marina voltou atrás por sua causa?
Silas Malafaia –
Claro que não. Entender isso é simples. Nem Marina, nem (a presidente) Dilma Rousseff, nem (o presidenciável tucano) Aécio Neves leram seus programas de governo. Entregam o texto a equipes especializadas. O programa de Marina tinha dois erros graves. A turma do LGBT (Lésbicas, Gays, Bi e Transgêneros), intransigente e exagerada, ressuscitou o Projeto de Lei 122 (que criminalizava a homofobia), já derrotado no Senado. Em relação ao ativismo gay, o programa de Marina é mais avançado que o de Dilma, levando em conta que o governo do PT tem financiado a causa gay. Estão reclamando de quê? Meus tuítes só acenderam a lâmpada na equipe da Marina para mudar o que estava escrito. Mesmo assim, não me agradou em tudo. Tem muitos pontos lá contrários à ideologia cristã.

ÉPOCA – O recuo de Marina levou o senhor a apoiá-la?
Malafaia –
Claro. Ela teve coerência. Tem coisa que o candidato promete e não dá para fugir. Marina disse uma coisa como isso: “Se for eleita presidente, não disputarei a reeleição porque não quero estar no poder pensando na continuidade do poder. Quero estar no Planalto para deixar um legado para as próximas gerações”. Quando ouvi isso, pensei: essa serva está fazendo uma colocação extraordinária. É uma declaração mais importante que a sobre o casamento gay. Marina não é candidata dos evangélicos, é candidata do povo brasileiro, que está de paciência esgotada com o PT e a corrupção deslavada. Ela interpreta essa mudança. Não me venham com “evangeliquês” nem tentem colocar nela a pecha de fanática, porque Marina contraria muita coisa que pastor evangélico pensa.

ÉPOCA – Homofobia, casamento gay e aborto devem ser tratados nas eleições presidenciais?
Malafaia –
Devem ser tratados no Congresso. Lá, onde os segmentos da sociedade se fazem representar, é o lugar de discutir esses temas. Se os ativistas gays querem algum direito, mandem seus representantes para o Parlamento. Não foram os evangélicos que botaram essa agenda na campanha presidencial. Foram eles.

ÉPOCA – Por que o senhor acredita que essas questões não devem fazer parte do debate presidencial?
Malafaia –
Um dos maiores filósofos da atualidade, Michael Sandel, um doutor em Harvard que já deu entrevista para ÉPOCA, diz que a moral, os princípios e as questões da fé são fundamentais no debate político. Atenção: não é pastor que está falando isso, não. É um dos maiores pensadores do nosso tempo. Esta eleição tem de ser moral. Não vale tratar do maior escândalo de roubalheira da história do Brasil, o mensalão? E a roubalheira na Petrobras? A corrupção é um câncer na sociedade. A discussão tem de ser moral mesmo. Por que (a presidente) Dilma (Rousseff) e (o ex-presidente Luiz Inácio) Lula (da Silva) nunca condenaram os mensaleiros, que estão na prisão? Estão com medo de eles abrirem a boca e os colocarem na roda?

ÉPOCA – Onde o governo Dilma acertou e onde errou nas questões que interessam aos evangélicos?
Malafaia –
Dizer que o PT só errou seria incoerência e imbecilidade. O PT acertou na ampliação dos programas sociais. Mas o que seria do investimento social do PT se não houvesse a estabilidade econômica? Podem chorar à vontade, mas esse foi ou não um mérito de Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco (ex-presidentes)? A alternância de poder é fundamental para o fortalecimento da democracia. O PT precisa perder a eleição para o bem do Brasil.

ÉPOCA – O que os evangélicos esperam do próximo governo?
Malafaia –
O que está na Bíblia: dias melhores para os brasileiros, que haja paz no país e nas casas, que haja prosperidade. Sabe o que os evangélicos fazem? Aprendemos, com a Bíblia, a orar pelos nossos governantes. Cada um vota em quem quiser. Em 2010, votei em José Serra (PSDB) para presidente. Dilma venceu. Perdi a conta de quantas orações fiz por ela na minha igreja. Quando o mandatário assume, entendemos que é a vontade de Deus.

ÉPOCA – O Pastor Everaldo (PSC), seu amigo, é candidato a presidente e pretendia capturar o voto evangélico. Marina Silva, também evangélica, pode tomar-lhe esse eleitorado?
Malafaia –
Quando Everaldo lançou sua candidatura, marcou 4% nas pesquisas eleitorais. Pensávamos que, se os líderes evangélicos se engajassem na campanha, Everaldo chegaria a 10% e teríamos uma agenda no segundo turno. A lamentável morte de Eduardo Campos mudou o panorama. Marina também é evangélica e tem um histórico político no Brasil. Everaldo, não. O trator da Marina passou por tudo. Passou por Everaldo, Aécio e Dilma. Everaldo sofreu mais com isso, por causa do voto evangélico.

ÉPOCA – Há líderes evangélicos que apoiam o Pastor Everaldo. Outros estão com Marina Silva, Dilma Rousseff ou Aécio Neves. Por que esse segmento é tão fragmentado?
Malafaia –
Isso mostra que os evangélicos não têm unanimidade em pensamento político. Cada um é livre para fazer suas escolhas. Por isso, sempre fui contra a criação de um partido evangélico. Baixo o bambu quando alguém vem com essa ideia. Temos de estar em tudo que é partido. Mas não tenho dúvidas: Marina levará de 80% a 90% do voto evangélico. A candidatura dela, o acirramento da propaganda e as redes sociais mudaram tudo. O evangélico tem interação social, porque vai à igreja pelo menos uma vez por semana. Ninguém usa as redes sociais como os evangélicos, e somos entre 25% e 27% da população. Somem a nós os católicos praticantes, também uns 25% a 27% e que, em muitos pontos, pensam igual. Já deu a maioria da população.

ÉPOCA – Que presidenciável está mais preparado para atender às demandas evangélicas?
Malafaia –
Em primeiro lugar, Everaldo. Depois, Marina e Aécio. Dilma começou a falar agora, mas, no Congresso Nacional, nos quatro anos de seu governo, o PT votou contra nossos princípios. As demandas evangélicas são: casamento entre homem e mulher, proibição do aborto, liberdade de religião e imprensa livre, mesmo falando mal de nós. Não queremos impor ideologia. Queremos que o Brasil seja democrático, cresça, crie emprego e prospere para todos.

ÉPOCA – Dilma prometeu apressar a tramitação da Lei Geral das Religiões, que dá benefícios fiscais às igrejas evangélicas.
Malafaia –
Vou mandar a Dilma uma caixa de óleo de peroba, porque uma garrafa só não dá. Ela pensa que nós, evangélicos, somos idiotas e otários. Doze anos de PT… só agora essa conversa? Na caneta, ela não pode decidir isso. Tem de ser o Congresso. É hipocrisia eleitoral. Estão tão desesperados que prometem o que não podem entregar.

ÉPOCA – O senhor afirmou que o PT o ataca.
Malafaia –
Em junho do ano passado, fizemos uma manifestação em Brasília com 70 mil pessoas. Lá, eu disse que o povo queria os mensaleiros na cadeia. Um mês depois, a Receita Federal abriu fiscalização na igreja em que sou pastor e na Associação Vitória em Cristo, entidade com que levanto recursos para obras sociais e programas de TV. Coincidência? Em julho, os procedimentos foram encerrados. Não descobriram nada, porque não sou ladrão nem bandido. Tem evangélico em todos os lugares. Um passarinho me contou: a ordem veio de cima para me detonar e calar minha voz. Eles têm medo de certa liderança que tenho entre os evangélicos.

ÉPOCA – O senhor pretende se candidatar algum dia?
Malafaia –
Nunca. O que são partidos políticos? Partes da sociedade. Não sou de partes. Sou do todo. Eu, que trabalho para Deus todo-poderoso, direi que Ele é um mau patrão e, agora, serei empregado dos homens? Uma das coisas mais fantásticas do ser humano é conhecer seus limites, reconhecer erros e corrigir rotas. Eu? Político? Não fui chamado nem tenho competência para isso. Onde estou, falo com todos, teço minha ideologia. Lá, seria só mais um.

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