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Daniela Mercury transforma sua opção amorosa em bandeira política

A cantora pop assume um relacionamento gay – e, com isso, coloca a questão homossexual irreversivelmente na pauta política

SOMOS UM CASAL Daniela e Malu, em foto publicada na rede social Instagram. As declarações da cantora Joelma e a polêmica sobre o deputado Marco Feliciano inspiraram o gesto de ambas (Foto: Reprodução/Instagram)

SOMOS UM CASAL
Daniela e Malu, em foto publicada na rede social Instagram. As declarações da cantora Joelma e a polêmica sobre o deputado Marco Feliciano inspiraram o gesto de ambas (Foto: Reprodução/Instagram)

Flávia Yuri Oshima, Margarida Telles, Marcos Coronato, Martha Mendonça, e Thaís Lazzeri, na Época

A cantora Daniela Mercury viajou para a Europa em 10 de março. Como embaixadora do Unicef, braço das Nações Unidas que zela pelos direitos das crianças, participou dos preparativos para um encontro de embaixadores brasileiros e suecos, a ocorrer no Brasil neste ano. Com dois shows marcados em Portugal no início de abril, ficou por lá e esperou que a namorada, Malu Verçosa, fosse a seu encontro. Em Lisboa, as duas acompanharam a repercussão da entrevista da cantora Joelma a ÉPOCA. A vocalista da banda Calypso dissera ser contra o casamento gay e elogiara tentativas de “curar” a homossexualidade. Daniela e Malu também acompanharam o desenrolar das controvérsias sobre o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara – que, com suas declarações polêmicas sobre negros e gays, se tornou o inimigo número um das minorias organizadas no Brasil.

Foi nesse contexto que Daniela e Malu, que começaram a namorar pouco depois do Carnaval, resolveram mandar ao Brasil um recado em forma de imagens pela rede social Instagram. Quatro fotos simpáticas dos rostos bem próximos e sorridentes, das mãos com alianças e um textinho singelo de Daniela – “Malu agora é minha esposa, minha família, minha inspiração para cantar” – tornaram-se um manifesto poderoso sobre direitos iguais e o direito à diferença. Não houve outro assunto nas redes sociais na quarta-feira, 3 de abril. O nome da artista esteve nos tópicos mais comentados do Twitter. No Google, em poucas horas havia meio milhão de referências sobre o tema. O casal gostou da reação do público. “O apoio dos brasileiros mostra que somos um povo avançado e civilizado. E mais uma vez os brasileiros mostraram que Feliciano não nos representa”, afirmou a cantora, em entrevista a ÉPOCA.

776_capaNa verdade, Feliciano representa, legitimamente, os 211 mil eleitores que nele votaram. Trata-se de uma parte da população que questiona transformações nos costumes, como o direito de duas pessoas do mesmo sexo casar, ter filhos (adotados ou biológicos) e desfrutar os mesmos benefícios financeiros mútuos que os casais heterossexuais. O debate entre liberais e conservadores se manifesta em várias partes do mundo, incluindo o Brasil e os Estados Unidos. Lá, esse debate ferve nas instâncias formais da democracia: os juízes da Suprema Corte debatem se os Estados têm autonomia para discriminar uniões gays de uniões heterossexuais. Até agora, 25 Estados se adiantaram – 17 a favor da igualdade, oito contra. No Brasil, o assunto ganhou relevância por causa da exposição do deputado Feliciano.

“A intenção era comunicar nosso casamento, mas coincidiu com o momento que o Brasil vem passando”, diz Malu, mulher de Daniela. “É muito bom que algo pessoal de alguém importante como Daniela sirva para uma luta em que ela acredita e que defende.” Em momentos assim, o ato individual, feito em público, torna-se político. Ao declarar seu amor para todos que quisessem saber, Daniela fez política.

Entenda-se “política” não como a prática do conchavo em corredores palacianos, e sim no sentido mais puro, primitivo e belo da palavra – o do cidadão que tenta influenciar seus iguais e a coletividade em que vive, pelo poder de seu exemplo e de suas ideias. Uma forma especialmente difícil de fazer política é assumir em público uma orientação sexual e afetiva que difere da maioria. Tão difícil que, no Brasil, são raríssimas as personalidades públicas homosse­xuais que declaram isso em público. Nos Estados Unidos e na Ingalterra, a prática do “outing” – declarar-se gay com propósitos políticos – ajudou a influenciar a opinião pública favoravelmente às causas homossexuais (leia os exemplos ao lado). No Brasil, tal assunto em geral é considerado de foro íntimo. As poucas celebridades que se assumiram gays em público nunca fizeram disso uma bandeira. Nesse sentido, o ato de Daniela Mercury é inovador. Estrela da música pop nacional, ela é provavelmente a primeira celebridade de seu tamanho a assumir-se gay com propósitos políticos.

Produção do filme de Joelma, da Calypso, é cancelada

A má repercussão das declarações homofóbicas da cantora está afastando patrocinadores

Joelma-Divulgação

Paulo Sérgio, no Portal PS

As coisas realmente não andam bem para Joelma e Chimbinha. Depois das desastradas declarações homofóbicas de Joelma para a revista Época, e a revolta dos fãs e de artistas que colocaram a “boca no mundo” – ou nas redes sociais – indignados com o que a líder da banda disse, agora é o filme sobre a história deles que não vai mais acontecer.

Por conta da repercussão negativa em torno das declarações de Joelma, nenhuma grande empresa quer se envolver com a produção do filme. Segundo o jornal carioca Extra, já estava difícil para a produção encontrar patrocinadores, agora a coisa está ainda mais complicada.

A atriz Deborah Secco, que foi escalada para viver Joelma no cinema, não recebeu uma informação oficial sobre o que vai acontecer com o longa. Até segunda ordem, a produção está cancelada.

Rosemary, Rose, Rosa

Ruth de Aquino, na Época

Quando Rosemary saiu das sombras de seu chefe direto, Lula, e ficou mais famosa do que vilã de novela, ao ser demitida por Dilma, a fofoca correu o Brasil: “Sabia que ela era amante de Lula?”. Um amigo me dizia saber de fonte segura e insuspeita, do Palácio. Outro comentava apenas que era óbvio: “Eles viajavam juntos para todo lado, ela era uma secretária com superpoderes e com passaporte diplomático”.

O assunto começou a me dar asco. Creio que muitas mulheres já se viram em situação parecida. Foi promovida? É porque deu para o chefe. Viajaram juntos, foram para o mesmo hotel? É claro que transaram.

Inicialmente, nenhuma reportagem deixou claro que os dois teriam uma relação amorosa ou sexual. Mas todos os eufemismos foram usados. Rose é “amiga íntima” de Lula. Dona Marisa Letícia “não gosta de Rose”. Rose chama Lula de “tio”. Lula chama Rose de “Rosa”. Pedidos de Rosa para ajeitar a vida da filha e do ex-marido eram como ordens. Rose “rodou o mundo” com Lula. A Polícia Federal “gravou 122 ligações pessoais entre Rose e Lula”.

Não me interessa saber se o PR – sigla usada por Rosemary para tratar do então presidente em e-mails – e sua ex-chefe de gabinete em São Paulo trocavam carinhos. Se havia um caso consensual entre dois adultos, isso interessa apenas à ex-primeira-dama. A julgar pela ausência de Dona Marisa em evento do Calendário Pirelli, no Rio de Janeiro, onde Lula se aboletou sobre o decote de Sophia Loren, ele não escapará da CPI doméstica.

O importante para todos nós é que Rosemary, falastrona, não só pedia favores pessoais em nome de Lula. Para obter o que queria, ela se identificava como sua “namorada”. Se for verdade, e ela usou o sexo ou o amor como trampolim para defender interesses privados, isso é imoral, ilegal, irregular. Mulheres assim prestam um desserviço à categoria. E Lula, até que ponto ele permitiu que sua intimidade contaminasse suas decisões como líder político? Não é imoral apaixonar-se. Mas um presidente não pode misturar vida privada e pública, sob pena de, nas suas próprias palavras, “ser apunhalado pelas costas”. Dilma não gostou.

A imprensa sempre protegeu a vida particular de Fernando Henrique Cardoso e nunca fuçou suas aventuras ou romances extraconjugais. Era tabu falar de filhos de FHC fora do casamento, por ser um assunto estritamente privado. O adultério do senador Renan Calheiros só veio à tona porque havia uma empreiteira no meio do amorzinho com Mônica Veloso, a mineira que escancarou na Playboy os bens materiais de Renan.

Esquecendo o lado picante – já que Rose não é nenhuma Mônica Veloso e nem com plástica seria convidada a posar nua –, os maiores estragos morais vêm do abominável “pequeno poder” de nossa República. Instalado por um governo queprometia ética, ética, ética. As revelações diárias da Operação Porto Seguro, da Polícia Federal, sobre as tramoias dos personagens envolvidos com o escritório da Presidência da República em São Paulo chocam, de certa maneira, até mais que o mensalão, um escândalo da alta política.

A Porto Seguro mostra a teia da baixa política. Um dos fios podres é a desmoralização de agências reguladoras. Com a indicação de Rose e a cumplicidade do senador “incomum” José Sarney, o Congresso aprovou raposas para regular os galinheiros. Foi o caso de Paulo Vieira, cuja incompetência técnica para dirigir a Agência Nacional de Águas (ANA) tinha sido atestada por especialistas.

Paulo chamou alguém do mesmo sangue, Rubens, para dirigir a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Os irmãos Vieira são acusados de coordenar um esquema de pareceres irregulares que favorecem amigos, senadores e parentes. Diplomas falsos, avaliações de faculdades no MEC, cargos apadrinhados em autarquias do governo, construções de portos e mansões particulares em ilhas de cabras e bagres. Violando regras e procedimentos. Rose e Paulo, amigos há dez anos, planejavam abrir um curso de inglês em São José dos Campos, Red Balloon (ou Balão Vermelho). É uma história muito brega, se não fosse perigosa.

Lula agora precisa explicar direitinho quem o apunhalou. Nunca antes na história um presidente foi tão traído. Duvido que fale antes da viagem de duas semanas que fará, a partir desta sexta-feira, para Paris, Berlim, Doha e Barcelona.

Há outra pergunta que não sai da minha cabeça. Qual foi o motivo da demissão fulminante de Rose?

1) um ato de coragem e retidão de Dilma por não compactuar com a corrupção?

2) um ato de irritação com uma personagem de cujo caráter Dilma suspeitava havia anos, tendo alertado Lula em vão?

3) uma manobra para evitar que Rose deponha no Congresso (governistas se opõem a sua convocação alegando que ela já foi demitida)?

Se a afobada Rose diz que não fez nada “imoral, ilegal ou irregular”, vamos dar a ela a chance de se defender. Não?

Os 50 são os novos 30

Guiomar Nogueira (Foto: Rodrigo Schmidt/ÉPOCA)

Com mais saúde, beleza e dinheiro no bolso, menos responsabilidades e encanações, uma nova geração descobre que a melhor fase da vida chega aos 50 anos

Flávia Yuri Oshima, Margarida Telles, Natália Spinacé (texto) e Rodrigo Schmidt (foto), na Época

Idade é quase uma questão de opinião. Pode mudar de acordo com o ponto de vista. Na cabeça da gente é uma. Aos olhos dos filhos, outra. Na impressão dos amigos, uma terceira. Há apenas 30 anos, os 50 anunciavam o início da velhice. Não mais. Não só por uma questão de percepção íntima ou da sociedade. Mas pela própria fisiologia. Graças a avanços na saúde, nos costumes e no conforto material, a nova geração de 50 anos chega a essa fase com vitalidade, um gosto de novidade e a sensação de estar no auge da vida. Eles se sentem jovens como, há alguns anos, se sentia quem tinha 30. “Há três décadas, o estado de saúde geral dos meus pacientes de 50 era o mesmo das pessoas de 70 que atendo hoje”, diz o geriatra João Toniolo Neto, da Escola Paulista de Medicina. “Não é exagero dizer que a maioria dos pacientes de 50 anos tem saúde e disposição mental dos de 35 daquela época.”

As pessoas de 50 anos de hoje em nada lembram as da década de 1970. Muitas têm o corpo tão ou mais em forma que seus filhos adultos. Outras estão no pique para ter filhos (biológicos ou adotados), começar uma nova faculdade, um novo romance, uma nova empreitada ou qualquer outra aventura. É um fenômeno mundial. Só na livraria on-line Amazon, há mais de 100 livros escritos na última década sobre o tema: Os novos velhos, Os sem idade, Os imortais. A profusão de títulos é só um sintoma. A postura dessa nova idade tem impacto direto na economia, no mercado de trabalho, no consumo, nos relacionamentos, nas relações familiares – em toda a sociedade.

É como se, em questão de poucas décadas, a população ativa do país dobrasse. Foi o que aconteceu no Brasil. Em 50 anos, a expectativa de vida da população aumentou de 48 para 73 anos. Deverá chegar a 80 em 2050. Ao se distanciar da morte, os cinquentenários se distanciaram também da velhice. Eles têm disposição física, mental e financeira. O fato de não se verem como os mais velhos do grupo contribui para o sentimento de bem-estar com a própria idade. Uma pesquisa da seguradora MetLife, feita com mais de 2 mil americanos, estima que mais da metade dos nascidos entre 1955 e 1964 tem ambos os pais vivos. Apenas 11% já perderam os dois. Os cinquentões ainda são os filhos e, em muitos casos, cuidam dos mais velhos.

Fontes: Bruna Felix Bravo, coordenadora do departamento de cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia (RJ); Karla Assed, dermatologista; Joel Block, psicólogo, autor do livro Sex over 50 (Sexo depois dos 50);  (Foto: Monica Yassuda, coordenadora de gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (Each USP); Claudia Carraro, consultora da Carreira e Cia.)Fontes: Bruna Felix Bravo, coordenadora do departamento de cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia (RJ); Karla Assed, dermatologista; Joel Block, psicólogo, autor do livro Sex over 50 (Sexo depois dos 50); Monica Yassuda, coordenadora de gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (Each USP); Claudia Carraro, consultora da Carreira e Cia.

Graças a essa satisfação, o hábito de tentar disfarçar a idade parece estar ficando démodé – para usar uma expressão francesa que também saiu da moda. A maioria deles, mesmo os mais vaidosos, encara a idade de forma positiva. Não querem ter dez ou 20 anos a menos. Querem estar bem aos 50. De acordo com uma pesquisa do Ibope Mídia, feita com 3.500 brasileiros nessa faixa etária, mais de 60% estão muito satisfeitos com a vida que têm.

A longevidade depende de três fatores: uma genética favorável, um ambiente saudável e bons hábitos. O primeiro deles, nosso DNA, não mudou. Os dois outros evoluíram. A começar pelas condições criadas pelos avanços da medicina e pelo progresso econômico e social. Algumas conquistas vieram da saúde pública. Vacinas desde a infância, condições de moradia mais higiênicas, expansão do saneamento básico e até o hábito de fazer exames pré-natais contribuíram para isso. Mesmo quem chega aos 50 anos com doenças crônicas pode ter uma vida saudável e funcional. “O controle e o tratamento de enfermidades como câncer e problemas cardíacos ajudaram muito a elevar a idade média do brasileiro e a aprimorar sua qualidade de vida”, diz Nezilour Lobato Rodrigues, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

Walmir Paulino (Foto: Rodrigo Schmidt/ÉPOCA)

Décadas de avanço econômico recente no Brasil e no mundo – apesar da crise atual – levaram bilhões de pessoas da pobreza aos confortos modernos. Além de comprar bens materiais, elas estão investindo em saúde e bem-estar. Algumas pesquisas mostram a relação entre o conforto financeiro e a longevidade. Um dos maiores levantamentos com essa faixa etária no mundo, o Estudo Longitudinal sobre Idade (Elsa, na sigla em inglês), do University College of London, mostra que a incidência de depressão no grupo com menos recursos financeiros chega a 27%. Entre os mais ricos, o índice fica em 8%. O estudo acompanhou 9 mil pessoas por dez anos e comprovou a relação entre bem-estar e longevidade. Entre os que se diziam infelizes, a mortalidade foi o triplo da registrada no grupo que se declarava mais satisfeito com a vida.

Dinheiro ajuda, mas o rejuvenescimento dos cinquentões não depende de nível social. É uma mudança notável mesmo entre os mais pobres. “A informação está disponível para todos. É uma questão de escolha, não de classe”, diz Toniolo. Quem opta por uma vida saudável envelhece melhor. Não se trata de acompanhar níveis de triglicérides ou colesterol. “Viver bem tem a ver com cuidar da saúde do corpo, da mente e das relações.” A seguir, ÉPOCA mostra como a geração de novos cinquentões encara saúde, sexo, família, trabalho, dinheiro, cultura e consumo. Continue lendo

Bebê a blog: o limite da exposição das crianças na Internet

Bruno Astuto, na Época

Que pais resistem à deliciosa tentação de sacar da carteira uma foto do filho para exibir toda a graça e a felicidade que o fofucho proporciona? Desde que o mundo é mundo, seja em miniaturas a óleo dentro do camafeu a retratos em preto e branco, é impossível negar o orgulho da descendência e o impulso de despertar o elogio alheio — até porque, ai de quem reagir a uma imagem do pimpolho dizendo “mas que criança feia”. Todo bebê é lindo e ficou estabelecido que é a cara do pai, com leves traços da mãe.

Mas, em tempos de Facebook, Instagram e celular, para que carregar mais um papel impresso na bolsa? Estão lá, ao escrutínio dos amigos virtuais, todos os passos, sorrisos, dentinhos e roupinhas dos pequenos — alguns nem bem saídos da maternidade. Uma amiga se disse outro dia chocada com o álbum virtual de fotografias de uma conhecida na sala de parto, com direito, sobretudo, a posições ginecológicas. E claro que o filme do parto também estava lá, incluindo a trilha sonora e os efeitos especiais feitos por uma empresa especializada em criar sites para divulgação do parto.

Temos, adultos, a faculdade de estar ou não numa rede social. O direito de querer, ou não, ter um perfil aqui e ali, controlando aquilo que desejamos postar. Como não conhecemos claramente as regras de armazenagem de nossas fotos nos provedores desse mega auto-Big Brother, desenvolvemos um filtro intuitivo que nos impede de colocar uma foto comprometedora, esteticamente desfavorável ou da qual poderemos nos arrepender no futuro. Também gozamos da liberdade de deletar um registro do namoro que já terminou ou de uma imagem que merece ser esquecida.

Mas não no Facebook alheio. Nele, ajoelhou, tem que rezar. Se a pessoa não quiser apagar a foto, mesmo diante de repetidas súplicas, não haverá Cristo que consiga dissuadi-la. Para não ser vítima de uma foto indesejada, é preciso não posar para ela e conviver com o estigma da antipatia. Ainda assim, existe o poder da escolha, a faculdade que nos diferencia das outras espécies — e viva ela.

Um bebezinho não tem o poder de dizer sim ou não, e essa geração recém-nascida ainda não sabe o que a aguarda. Pensei nisso diante do novo fenômeno da web, os baby bloggers, bebês que “assinam” blogs de estilo e gracinhas mantidos pelos próprios pais. É o caso do Tiny Times, de uma mãe inglesa que registra a mínima caretinha e gargalhada do filho de dois anos a bordo de roupa

s de grife com a devida legenda dando o crédito à marca. Ao contrário das inúmeras blogueiras de moda que vêm ganhando rios de dinheiro com esse negócio, o pequeno faz propaganda fashion sem faturar um tostão. Mas já existem empresas de olho nele, devido ao sucesso da empreitada. Ele foi até convidado para a primeira fila do desfile da semana de moda da Austrália, onde vive mamãe.

Já há paparazzi nas ruas das grandes capitais fashion do planeta especializados em capturar imagens de bebês estilosos para sites como o Hide and Ho, o Children with Swang e o Planet Awesome Kid, o pioneiro do gênero, com milhões de visitantes em busca de inspiração para vestir suas crianças no último grito da moda. Não por acaso, a maioria das grifes de luxo está lançando linhas infantis, de olho no crescimento de 8,5% do mercado.

Será que, assim que se derem conta da própria aparência (o que acontece, em geral, a partir dos 3 anos), essas crianças não desenvolverão uma sufocante angústia de parecer eternamente bonitas para agradar aos pais? Ou a fobia de exposição que, até o advento das redes sociais, era “privilégio” dos filhos de celebridades? Ou pior: uma irresistível atração pelas câmeras e pela autopromoção para se sentirem amadas e cortejadas?

Postar uma ou outra foto do bebê na rede é bem compreensível; quase o mesmo impulso que nos leva a sacar o retrato da carteira. O problema, como sempre, é o exagero. Ao tentar fazer do filho uma isca de curtidas e comentários positivos nas redes sociais, os pais lhe negam o direito ao anonimato e à discrição. É em casos como esses que dou valor ao bom e velho álbum de papel, que desenterramos do fundo do armário, por vontade própria, para recuperar as lembranças que não temos dos tempos em que dormíamos candidamente no berço protegidos por papai e mamãe — sem que um flash estivesse à nossa espreita a todo instante.