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Desacelere: Aprenda a esperar

Danilo Venticinque, na Época

Há algumas semanas, uma falha em minha conexão de internet me fez perceber que havia algo errado comigo. Talvez você tenha o mesmo problema. Graças a uma dessas panes súbitas que fazem da informática uma ciência inexata, todos os e-mails que mandei durante um dia inteiro não conseguiram sair do computador.

Ao final do dia, movido por um tédio que só a desconexão forçada é capaz de provocar, decidi reler as mensagens presas na minha caixa de saída. O resultado foi revelador. Por dedicar muito pouco tempo a cada mensagem, escrevi respostas lacônicas para pessoas que haviam me mandado sugestões elaboradas. Aceitei um convite para um jantar ao qual não poderia ir. Enviei a um colega um recado com erros inaceitáveis para alguém que ganha a vida escrevendo.

A vontade de resolver vários problemas instantaneamente, típica dos tempos digitais, me tornara afobado, distraído e monossilábico. Não curti.
Como muitas outras pessoas que passaram a infância no mundo analógico, mas a adolescência e a vida adulta na era digital, eu desaprendi a esperar antes de tomar decisões. A chegada dessa geração à vida adulta marca uma importante mudança cultural.

O americano Frank Partnoy, professor de finanças da Universidade de San Diego, a descreve como um vício em velocidade. Para ele, os avanços tecnológicos que fizeram da comunicação instantânea um hábito (e, para muitos, uma obrigação) intensificaram nosso culto às decisões rápidas e à intuição.

“No passado, a demora para decidir costumava ser valorizada como um sinal de sabedoria. Isso desapareceu”, afirma Partnoy. “Poucos líderes têm a coragem de dizer que não estão prontos para tomar uma decisão e precisam de mais tempo.”

Nas organizações, essa mudança pode ser percebida em todos os níveis. Mesmo nos cargos mais altos, em que as decisões teoricamente deveriam ser mais ponderadas, a pressa virou regra. Pessoas mais bem remuneradas sabem que seu tempo é mais valioso – e, por isso, tendem a ver a espera como um desperdício de recursos.

Desde 2005, o culto à velocidade tem uma bíblia: o best-seller Blink, do jornalista canadense Malcolm Gladwell, que analisa os mecanismos da intuição. Boa parte do livro é dedicada à “regra dos dois segundos” – o tempo necessário para que um especialista forme uma opinião (geralmente correta) sobre um caso, antes mesmo de conseguir elaborar uma explicação racional.

Blink cita exemplos de psicólogos e críticos de arte cujas impressões instantâneas se provam tão corretas quanto análises cuidadosas. Poucos meses depois do lançamento, executivos do banco de investimentos Lehman Brothers distribuíram cópias do livro a funcionários e convidaram Gladwell a dar palestras com o mote “siga seus instintos”. O mercado financeiro comemorava a vitória da intuição sobre a cautela.

A reação dos defensores da lentidão demorou um pouco. Sete anos depois, três pesquisadores acabam de lançar livros defendendo uma tese contrária: para nos tornarmos mais eficientes e tomarmos decisões melhores, o segredo está na arte de esperar.

O defensor mais aguerrido dessa corrente de pensamento é Partnoy, cujo livro Como fazer a escolha certa (Campus, 272 páginas, R$ 69,90) chegará ao Brasil em novembro. Nos Estados Unidos, o livro foi lançado com o título minimalista Wait (Espere). Trata-se de uma improvável ode à espera em tempos de velocidade.

Partnoy afirma que as decisões mais eficientes não são tomadas por pessoas que seguem sua intuição, mas sim por aquelas que adiam ao máximo o momento de decidir e usam o tempo extra para amadurecer suas ideias.

O time dos cautelosos é reforçado por Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia, com o livro Rápido e devagar: duas formas de pensar, que acaba de chegar às livrarias brasileiras. No recém-lançado The art of procrastination (A arte de protelar), o filósofo John Perry, da Universidade Stanford, também defende (com humor) as vantagens de quem aprende a esperar. Para esse trio, o canto de vitória dos apressados pode ter sido prematuro.

“Não existe homem fiel”

Cristiane Segatto, na Época

A frase não é minha, mas reflete a crença de grande parte dos brasileiros. Na quinta-feira (2) foi repetida pelo cantor Zezé Di Camargo durante uma entrevista coletiva. “Não existe homem fiel. Existe homem numa fase fiel”, disse ele ao dar pistas de que se separou de Zilu, com quem esteve casado por 30 anos.

Ninguém precisa ser um estudioso para saber que a infidelidade é mais comum do que parece, mas os estudos existem. Não são tão abundantes quanto as “puladas de cerca”, mas os achados nos permitem afirmar uma ou duas coisas.

Décadas de pesquisa demonstram que, pelo menos historicamente, a infidelidade é mais frequente entre os homens que entre as mulheres. Nos Estados Unidos, de 20% a 40% dos homens heterossexuais casados terão ao menos um affair durante a vida. Entre as mulheres, o índice varia de 10% a 25%.

A cada ano, de 1,5 a 4% das pessoas casadas têm um caso. É o que nos conta uma reportagem publicada neste mês pela revista Psychology Today, assinada por Hara Estroff Marano. Suspeito que o índice real de infidelidade – tanto lá quanto aqui – seja muito superior ao confessado.

Há um fato novo: a traição está deixando de ser uma prática marcadamente masculina. As pesquisas mais recentes flagram a mudança na população abaixo de 45 anos. Os índices de infidelidade entre homens e mulheres estão convergindo.

A maior parte das traições começa no ambiente de trabalho. Com mais mulheres trabalhando fora, as chances que elas têm de encontrar um affair se tornam tão altas quanto as oportunidades que os maridos têm. Além disso, a independência financeira deu às mulheres a liberdade de arriscar. E muitas estão fazendo isso.

Aos meus ouvidos, a frase de Zezé soa ultrapassada. Ou pelo menos incompleta. Homens e mulheres traem. As motivações para a traição, no entanto, ainda parecem ser diferentes. É o que dizem os especialistas.

Entre as mulheres, a principal razão de traição ainda são necessidades emocionais. Basicamente, elas traem porque não estão felizes com o casamento.

Entre os homens, a traição é independente da qualidade do casamento. Eles traem quando o casamento vai bem e quando vai mal.

O fator determinante para a traição – tanto entre os homens, quanto entre as mulheres – é a oportunidade. “As pessoas casadas se envolvem com outras pessoas quase sempre sem planejar”, diz o psicólogo Barry McCarthy.

Nenhum lugar oferece mais oportunidades que o ambiente de trabalho. Ele permite o contato constante com um grande número de pessoas, quase sempre com interesses comuns. E ainda torna plausível a desculpa clássica: “Benhê, vou dar uma esticada aqui no escritório”.

Não é mais possível entrar em qualquer discussão sobre infidelidade sem levar em conta as pesquisas recentes sobre os hormônios e a maquinaria do cérebro. Em estudos feitos com ressonância magnética, a antropóloga Helen Fisher demonstrou que existem sistemas neurais diferentes que determinam a atração, o amor romântico e o vínculo. Eles podem operar de forma independente entre si.

“Todo mundo começa um casamento acreditando que nunca terá um affair”, diz Helen. “Por que, então, nossos dados coletados em várias partes do mundo demonstram que as pessoas traem mesmo quando são felizes no casamento?”

A resposta: “Você pode ter um vínculo forte com um parceiro e sentir um amor romântico intenso por outro. E, ao mesmo tempo, perceber que outras pessoas lhe despertam desejo sexual”, diz Helen.

Hormônios, hormônios, hormônios. Podemos submetê-los às regras da cultura. Fazemos isso o tempo todo para que a vida em sociedade seja viável. Mas eles são rebeldes.

charge: Charges do Denny

Cachoeira pode salvar o Brasil

Confira imagens de Cachoeira na sessão da CPI

Guilherme Fiuza, na Época Online

Carlinhos Cachoeira perdeu a vontade de viver. Está extremamente deprimido, muito chateado mesmo. Quem deu essa notícia triste foi a noiva do “empresário da contravenção”, Andressa Cachoeira. A mesma que dois meses atrás dava risadas, dizendo que seu amado conquistara muita gente por ser “uma pessoa encantadora”. Na época, a musa dos caça-níqueis fazia planos para o casamento assim que Cachoeira saísse da prisão. Hoje o casal não parece mais tão feliz. O que mudou, afinal?

Aparentemente, nada. Carlinhos continua preso, Andressa continua linda, e o patrimônio milionário dos Cachoeiras, construído com o suor dos políticos comprados, continua intacto no laranjal da família. O que estará azedando esse conto de fadas do Cerrado? Ao que tudo indica, a culpa é da CPI.

Quando todos os holofotes estavam apontados para a Comissão que investiga as obras completas do bicheiro, estava tudo bem. Com o Brasil inteiro olhando para o escândalo, os clientes de Cachoeira tremiam em seus gabinetes. O risco a seus mandatos e pescoços recomendava um olhar carinhoso para com Carlinhos, garantindo-lhe tratamento republicano com a grife de Márcio Thomaz Bastos, o padroeiro das causas malcheirosas. Era um tempo de otimismo, com governantes e parlamentares suando frio, e a sensação de que a qualquer momento um habeas corpus mágico do doutor Márcio acabaria com aquele constrangimento todo. Como chegou a ponderar Andressa, “ninguém está livre de ser preso” – ou seja, era um mero incidente a superar, para o bem de todos (os sócios).

Mas algo deu errado. O Brasil, entediado, mudou de novela. Preferiu os pilantras de Avenida Brasil e os charlatões da Rio+20. Abandonada pelo público, a CPI ficou à vontade para embromar sem culpa. Aliviou o ex-dono da Delta, barrou sua convocação tranquilamente, enquanto a plateia assistia ao teatro da salvação do planeta no Rio de Janeiro. Os depoimentos de Fernando Cavendish e Luiz Antonio Pagot (ex-diretor do Dnit) ficaram para depois das férias, depois das Olimpíadas, depois do início da campanha eleitoral – enfim, ficaram para depois. É como se o desfile da Mangueira fosse marcado para Quarta-Feira de Cinzas.

Carlinhos não merecia isso. Com a queda vertiginosa da CPI no ibope, seus companheiros no Congresso e nos palácios descobriram que a farra pode sair mais barata do que parecia. Se o Brasil não está nem aí, eles também não estão. Cachoeira começou a entender que pode mofar onde está. Daqui a pouco o comando da República popular desloca Thomaz Bastos para refrescar outro aloprado, e a jovem Andressa perceberá que ninguém está livre de continuar preso. A essa altura, talvez nem a Playboy a queira mais.

Como rei morto é rei posto, Adriano Aprígio, o ex-cunhado de Carlinhos e um de seus principais testas de ferro, já caiu também. Foram descobertos e-mails enviados de sua casa à procuradora Léa Batista de Oliveira, uma das denunciantes do bicheiro, em tom não muito educado: “Sua vadia, ainda vamos te pegar. Cuidado, você e sua família correm perigo”. A prisão de Aprígio, um dos guardiões do patrimônio dos Cachoeiras, fez Carlinhos passar mal na cadeia, como revelou sua noiva, consternada: “Ele desmaiou. O diretor pegou, levou ele para a sala do diretor. Ele passou muito mal, muito mal mesmo”.

É comovente ver um homem que tanto fez por tanta gente sofrendo assim, sozinho, com as notícias terríveis que recebe na cadeia. Neste momento de dor, vai aqui um conselho ao torturado réu: nobre empresário da contravenção, pare de esperar pela providência dos falsos companheiros. Acabe você mesmo com a solidão. Agora.

Faça como Roberto Jefferson: aperte o botão vermelho. Conte quem no governo federal mandava proteger a Delta e aprovar todos os acréscimos de contrato que a construtora espetava no PAC. Explique resumidamente como esse dinheiro saía do governo e voltava para as campanhas dos políticos aliados ao governo, passando por suas empresas de fachada.

Acorde, senhor Cachoeira. Seus amigos palacianos vão esquecê-lo nesse cubículo. Seus esquemas serão refeitos com outro despachante mais esperto. Entregue esses parasitas com crachás de revolucionários. O Brasil lhe será eternamente grato.

foto: Dida Sampaio/AE

9 em cada 10 pessoas espionam o perfil do ex no Facebook

Facebook (Foto: Getty Images)

Publicado originalmente na Época

Sim, a maioria dos usuários do Facebook usa a rede social para espionar o ex ou a ex-namorada. Um estudo da Universidade de Western Ontario, no Canadá, buscou entender a relação entre o sofrimento causado por um rompimento e o uso do Facebook. Assim, Veronika Lukacs, que conduziu a pesquisa, descobriu que 88% das pessoas que passaram por términos nos últimos doze meses utilizam a rede para ficar de olho na vida do antigo parceiro.

Com o título “É complicado: rompimentos românticos e suas consequências no Facebook” (em tradução livre), o estudo entrevistou homens e mulheres usuários da rede social, que haviam passado por um fim de relacionamento no último ano. Os participantes tiveram ainda que responder a um questionário escrito sobre o comportamento no Facebook depois de um término.

“O que eu descobri foi que o nível de sofrimento muda de acordo com a quantidade de tempo que você passa espionando o ex na internet. Quanto mais a pessoa fiscaliza, mais aflita e angustiada ela fica”, diz Veronika. “Você fica angustiado porque espiona ou espiona porque está angustiado? Meu palpite é que é um pouco de cada”, afirma.

O estudo chegou ainda a outros números interessantes. Sete em cada dez pessoas conferem o perfil do ex a partir de amigos em comum ou até mesmo fazendo o login com a senha de um amigo. Além disso, 74% dos usuários não se contentam em espionar o perfil do ex e ficam de olho também no perfil da nova ou possível nova namorada do antigo parceiro. Abaixo, outras descobertas curiosas.

Infográfico - O ex e o Facebook (Foto: Gustavo Campoy (gráfico); Veronika Lukacs (pesquisa))

Gustavo Campoy (gráfico); Veronika Lukacs (pesquisa)

Foto: Getty Images

Por que a educação moderna criou adultos que se comportam como bebês

Camila Guimarães, Luiza Karam e Isabella Ayub, na Época

Os alunos do 3º ano de uma das melhores escolas de ensino médio dos Estados Unidos, a Wellesley High School, em Massachusetts, estavam reunidos, numa tarde ensolarada no mês passado, para o momento mais especial de sua vida escolar, a formatura. Com seus chapéus e becas coloridos e pais orgulhosos na plateia, todos se preparavam para ouvir o discurso do professor de inglês David McCullough Jr. Esperavam, como sempre nessas ocasiões, uma ode a seus feitos acadêmicos, esportivos e sociais. O que ouviram do professor, porém, pode ser resumido em quatro palavras: vocês não são especiais. Elas foram repetidas nove vezes em 13 minutos. “Ao contrário do que seus troféus de futebol e seus boletins sugerem, vocês não são especiais”, disse McCullough logo no começo. “Adultos ocupados mimam vocês, os beijam, os confortam, os ensinam, os treinam, os ouvem, os aconselham, os encorajam, os consolam e os encorajam de novo. (…) Assistimos a todos os seus jogos, seus recitais, suas feiras de ciências. Sorrimos quando vocês entram na sala e nos deliciamos a cada tweet seus. Mas não tenham a ideia errada de que vocês são especiais. Porque vocês não são.”

Mimados (Foto: Marcelo Spatafora)
O que aconteceu nos dias seguintes deixou McCullough atônito. Ao chegar para trabalhar na segunda-feira, notou que havia o dobro da quantidade de e-mails que costumava receber em sua caixa postal. Paravam na rua para cumprimentá-lo. Seu telefone não parava de tocar. Dezenas de repórteres de jornais, revistas, TV e rádio queriam entrevistá-lo. Todos queriam saber mais sobre o professor que teve a coragem de esclarecer que seus alunos não eram o centro do universo. Sem querer, ele tocara num tema que a sociedade estava louca para discutir – mas não tinha coragem. Menos de uma semana depois, McCullough fez a primeira aparição na TV. Teve de explicar que não menosprezava seus jovens alunos, mas julgava necessário alertá-los. “Em 26 anos ensinando adolescentes, pude ver como eles crescem cercados por adultos que os tratam como preciosidades”, disse ele a ÉPOCA. “Mas, para se dar bem daqui para a frente, eles precisam saber que agora estão todos na mesma linha, que nenhum é mais importante que o outro.”

A reação ao discurso do professor McCullough pode parecer apenas mais um desses fenômenos de histeria americanos. Mas a verdade é que ele tocou numa questão que incomoda pais, educadores e empresas no mundo inteiro – a existência de adolescentes e jovens adultos que têm uma percepção totalmente irrealista de si mesmos e de seus talentos. Esses jovens cresceram ouvindo de seus pais e professores que tudo o que faziam era especial e desenvolveram uma autoestima tão exagerada que não conseguem lidar com as frustrações do mundo real. “Muitos pais modernos expressam amor por seus filhos tratando-os como se eles fossem da realeza”, afirma Keith Campbell, psicólogo da Universidade da Geórgia e coautor do livro Narcisism epidemic (Epidemia narcisista), de 2009, sem tradução para o português. “Eles precisam entender que seus filhos são especiais para eles, não para o resto do mundo.”

Como domar um ego adolescente (Foto: Marcelo Spatafora)

Em português, inglês ou chinês, esses filhos incensados desde o berço formam a turma do “eu me acho”. Porque se acham mesmo. Eles se acham os melhores alunos (se tiram uma nota ruim, é o professor que não os entende). Eles se acham os mais competentes no trabalho (se recebem críticas, é porque o chefe tem inveja do frescor de seu talento). Eles se acham merecedores de constantes elogios e rápido reconhecimento (se não são promovidos em pouco tempo, a empresa foi injusta em não reconhecer seu valor). Você conhece alguém assim em seu trabalho ou em sua turma de amigos? Boa parte deles, no Brasil e no resto do mundo, foi bem-educada, teve acesso aos melhores colégios, fala outras línguas e, claro, é ligada em tecnologia e competente em seu uso. São bons, é fato. Mas se acham mais do que ótimos.

Fotos: Marcelo Spatafora