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A felicidade dá ressaca

Bruno Astuto, no site da Época

Quanto mais nós nos aproximamos daquilo que imaginamos ser nossa felicidade, parece que mais distante ela fica, quer ver?

Você sonhou com aquela promoção que garantiria um dinheiro extra no início do mês e todas as glórias e sucessos naturais ao cargo. Finalmente seu chefe reconheceu seus esforços e alçou você degraus acima na hierarquia da firma. Era para você se sentir no auge, no topo da carreira, mas, agora que chegou lá, por que não está tão feliz? Por que sente que os colegas não parecem tão felizes por você ou que, agora que chegou lá, você não conseguirá dar conta do recado?

E, se depois de anos de extrema solidão, dando a cara na porta com tantas pessoas erradas, você finalmente tem a certeza de que encontrou o amor da sua vida? Mas, por algum mistério que lhe escapa, os passarinhos não estão cantando eternamente e você descobre que nem tudo são flores. Na verdade, você até se belisca para saber por que não está saltitando de alegria com a flechada do cupido. E até duvida se a pontaria do famoso querubim anda tão certeira.

Por outro lado, existe aquela que passou a vida inteira plasmando que a felicidade seria casar com um homem que lhe desse estabilidade (financeira e emocional), ter filhos e netos, uma bonita casa e bastante rotina. Agora que conseguiu tudo isso, ela se pega o tempo todo a imaginar pelos cantos o dia em que vai tomar coragem e tocar fogo nos lençóis, nas panelas e nos armários — e ainda varrer as cinzas.

Se você já ganhou algum prêmio, sabe que não há solidão pior do que a do dia seguinte, ainda que tenha recebido aplausos e cumprimentos durante toda a noite anterior. Se já foi noiva, sabe como é aquela hora em que você se olha sozinha no espelho do banheiro da suíte de núpcias, meses e meses depois de passar todos os minutos planejando a festa, o vestidos e os docinhos. E se pergunta se fez mesmo a coisa certa.

Se passou meses enconomizando para comprar aquela bolsa caríssima, quando finalmente está com ela em mãos, por que a vida de repente não passou a fazer mais sentido? E por que, ao desfilar com essa peça preociosa por aí, as pessoas não se comoveram tanto quanto você? Elementar: essa é uma felicidade individual, que não se divide, que só quem a tem a entende.

Os sambistas do Rio bem que avisaram do alto de sua sabedoria: tomar um porre de felicidade. E a grande ressaca dessa história é o drama da humanidade de não saber o que fazer com o sucesso depois que ele é alcançado. É a angústia de ter a certeza se deu o passo certo, se as pessoas saberão que, apesar das glórias, você ainda é uma pessoa frágil, e se, depois de tanta luta para chegar aonde chegou, você de fato está em seu devido lugar.

A felicidade, que deveria significar que uma pessoa está mais próxima daquilo que sonhou para si, não é tão simples quanto parece nem tão complexa quanto nós imaginamos.

Talvez ela esteja não na promoção, no casamento e no prêmio em si, mas nos abraços sinceros que recebemos naquele dia, na emoção da sua mãe ao vê-la subindo ao altar, mais madura e mais mulher, no orgulho do avô que nem sabe ler e escrever e vê o neto ganhando o reconhecimento da comunidade científica, nas rugas do marido que, pode não ser mais aquela maravilha, mas esteve ao seu lado em tantos momentos importantes e banais. A felicidade talvez só seja realmente sentida quando se percebe que ela foi compartilhada.

É necessária uma enorme sensibilidade para enxergar a felicidade, porque ela não é grande nem acintosa nem eterna, mas discreta, sutil, fugaz e escondida nos mínimos detalhes. Ela não está aí, dando sopa para quem quiser ver, mas para quem estiver suficientemente sagaz e atento para descobri-la — geralmente nos lugares menos óbvios — e quem estiver disposto a dividi-la.

Não, a vida não começa aos 40

Jennifer Aniston, Foto clássica 1024x768 Papel de Parede Wallpaper Jennifer Aniston, 43 anos.

Eliane Brum, na Época

Parece uma epidemia. Não paro de ouvir e de ler que “a vida começa aos 40”. A frase não é nova, talvez tenha até uns 40 anos… Hoje, porém, ela parece ter deixado o marketing publicitário para virar filosofia da vida cotidiana. E em bocas que costumam dizer coisas que valem a pena. De uns tempos para cá, atrizes e escritoras interessantes têm repetido esse slogan, depois de passar dos 40. Nesse verão, li várias vezes essa frase em revistas femininas diferentes, ditas por mulheres diferentes, mas incluídas no pacote do “bonita-e-bem-sucedida”… e com mais de 40.

Entendo que a frase é simpática. E bem intencionada. E tenha sido até revolucionária no passado recente. Afinal, mesmo durante boa parte do século XX acreditava-se que a vida acabava aos 40 – a vida das mulheres, pelo menos. Ou, pelo menos, acreditava-se que, depois dos 40, o mais emocionante que uma mulher poderia esperar seriam os netos (que, acredito, sejam mesmo algo bem emocionante). Entendo também que é uma conquista existirem protagonistas de novelas com mais de 40 anos e mulheres em todas as áreas criando depois dos 40. Receio, porém, que estejamos enfiando o nosso pé em uma nova armadilha. E, em vez de uma frase meio marqueteira, meio lugar comum, que se diz aqui e ali quando falta assunto, ao ser levada a sério torne-se uma sentença.

O que significa “a vida começa aos 40”? Fiz uma pequena pesquisa em blogs e revistas e parece que significa o seguinte: a vida começaria aos 40 porque as mulheres ainda estariam bonitas, já seriam donas de uma carreira consolidada e financeiramente estáveis, teriam passado por percalços suficientes para se sentirem mais confiantes e, então, sem as pressões e inseguranças dos 20 e até dos 30, estariam mais livres para inventar novos rumos para suas vidas – e novos rumos que estariam mais próximos de seus desejos.

Significava também que, aos 40, as mulheres já estariam com os filhos crescidos e, portanto, teriam superado certo peso da maternidade. Mas acho que essa parte do pacote já perdeu força, na medida em que hoje muitas mulheres estão justamente tentando engravidar ou com filhos pequenos ao completar 40 anos. Nesse sentido, o mais correto a afirmar nesses dias é que, em muitos casos, a vida dos filhos começa quando suas mães têm 40 anos. E acho que este é um bom tema para outro momento.

Por que eu desconfio da afirmação de que “a vida começa aos 40”? Primeiro, porque nela está implícito que existe uma espécie de “vida de verdade”, enquanto a outra, a que veio antes, seria uma vida menor. Eu acho que é preciso ter medo, muito medo, da tal da “vida de verdade”.

Seja aos 40 ou em qualquer idade, a tal da “vida de verdade” é fonte de muito sofrimento desnecessário. Ela coloca nossas vidas imperfeitas – e tudo e todos que dela fazem parte – como sendo sempre insuficientes diante de alguma outra vida imaginária. Ou nos instala no modo de espera de algo extraordinário que ainda vai acontecer e nos arrancar do que interpretamos como uma mesmice aquém do que merecemos. A “vida de verdade” é uma grande mentira. E a história de que “a vida começa aos 40” a reforça. Nesse ritmo, talvez a vida não comece nunca. E acho que há gente demais – mulheres e homens – vivendo à espera de que a vida comece, sem reparar que ela já vai pelo meio.

Se formos levar na literalidade da letra que a vida começa aos 40, seria muito triste. Seria mesmo desesperador. Se, ao alcançar os 40 uma mulher chegasse à conclusão de que o que se passou antes foi apenas um preâmbulo para uma vida – e não a vida em si, com toda a sua quantidade de drama e de nadas – haveria um motivo bastante legítimo para se matar aos 40. Afinal, o que foi que você fez antes se não era vida o que estava acontecendo?

Mas, digamos que essa mulher hipotética seja intrépida o suficiente para pensar: “Oquei, tudo o que veio antes foi tempo perdido, ou apenas uma preparação para o que está por vir, mas agora a vida de verdade começa”. Nesse caso, ela também chegaria à conclusão de que seria uma existência muito curta. Com a expectativa de vida de 77 anos, segundo o último censo do IBGE, as brasileiras teriam aí, em média, uns 37 anos pela frente.

Nesses 37 anos, mesmo que essa mulher seja saudável como uma vaca de leilão, teria de lidar com problemas de saúde aqui e ali, depois aqui, ali e em toda parte. Teria de lidar com as letras que vão diminuindo de tamanho bem diante dos seus olhos. Teria de lidar com a perda progressiva da juventude. E teria de lidar com a velhice dos pais, com a sua própria, e também com a morte daqueles a quem ama. É muita coisa para lidar, não? Se além de tudo isso a vida estiver começando… coitadas de nós.

Ao defender que “a vida começa aos 40”, portanto, estamos nos lançando em um paradoxo lógico: “a vida começaria no mesmo momento em que chega à metade”. E não a qualquer metade, mas a uma metade que envolve declínio físico, perdas inescapáveis e termina em morte. Parece deprimente? Seria, se fosse só isso, mas há também muitas possibilidades interessantes em curso, se tivermos aprendido algo em algum momento anterior. Triste? Algumas vezes muito triste, com certeza, mas também engraçada, se já conseguirmos rir de nós mesmas, e com um monte de coisas para inventar e para experimentar – e outras que só nos resta aceitar. É a vida, com sua mistura de tragédia e de comédia e um bocado de espaços vazios e de repetições. Continue lendo

Reynaldo Gianecchini: ‘Eu não tenho aids’

Ruth de Aquino, na Época

Pequenos objetos como elefantes, bicicletas, velocímetro de táxi, placa de carro de Montevidéu e girassóis artificiais preenchem cada canto da sala de estar de Reynaldo Gianecchini. Na estante do apartamento em que o ator mora, na região paulistana dos Jardins, há DVDs de músicas de Carnaval, do filme argentino Um conto chinês e de O artista, sensação deste Oscar. Um imenso livro de fotos de Steve McCurry, o lendário fotógrafo da revista National Geographic, domina a mesa de centro. Uma poltrona de Sergio Rodrigues fica em frente à televisão de plasma. Uma instalação colorida da artista plástica e grafiteira Nina Pandolfo anima a entrada da cozinha. “Adoro essas pinturas que remetem a desenhos animados, meio japoneses, lúdicos, com animais, crianças. Tenho uma criança eternamente alimentada dentro de mim”, diz Reynaldo – ou Giane, como é conhecido entre os amigos.

Nem sempre foi assim. Antes do câncer, a casa de Giane só tinha móveis pretos e brancos, nenhum objeto. A doença o internou no hospital e no apartamento paulistano. “Passei a fazer terapia e descobri que a casa é você. Comecei a encher as prateleiras de objetos de antiquário, transformar livros antigos em mesa, pintar parede de laranja e até pensei em fazer faculdade de arquitetura”, diz Giane. “Mudei tudo internamente com a doença. Tenho uma nova medula. E mudei minha casa. Agora tenho cantinhos que representam meu desejo de aventura, de pegar uma moto e sair pela América Latina.”

De seu primeiro estágio em escritório de advocacia em São Paulo – quando, estudando Direito na PUC, conheceu a cidade “quase como um office boy, de metrozão e busão” – até hoje, Giane atravessou muitas estradas, algumas delas tortuosas. Ele não esquece que, na primeira novela na TV Globo, no ano 2000, assistia a seu desempenho “com o chicote nas costas”. “Eu era muito ruim, me sentia muito mal, não sabia nada, era estabanado, derrubava cenário do estúdio, meus colegas até se condoíam de mim, mas aprendi com a ajuda deles e dos diretores.”

Apaixonado pela profissão, diz que quer retomar quanto antes o trabalho interrompido por causa da doença – ele interpretava, no teatro, o papel de vilão na peça Cruel, baseada num texto do sueco August Strindberg. Sentado no sofá do apartamento cada vez mais personalizado, Gianecchini falou sobre o câncer, a espiritualidade, as fofocas, a sexualidade, o trabalho e o futuro.

ÉPOCA – Você se sente curado?
Reynaldo Gianecchini
– A operação de medula para mim foi um renascimento. Meu transplante é um pouco menos cabeludo do que os que se fazem com a medula de outra pessoa, quando pode rolar uma rejeição. Eu super me aceitei (risos). Meu transplante foi nada mais que uma quimioterapia muito pesada. Eu sabia que seria duro, mas não tinha noção. É uma quimioterapia que mata sua medula, aí você toma suas células de novo, as que foram salvas e são sadias. E essas células vão se reproduzindo para formar uma nova medula. Foi o único momento de meu tratamento em que eu pensei, caramba, será que aguento isso? É muito penoso. Seu corpo inteiro, por dentro, fica em carne viva. Não para nada dentro. Você come, vomita, tem diarreia. Comer ainda está uma briga, porque eu não tenho apetite.

ÉPOCA – Como ficou sua imunidade?
Gianecchini
– Logo após o transplante, imunidade zero, por não ter mais medula. Você fica com febre, fica sujeito a tudo. Eu, graças a Deus, não tive nenhuma infecção. Fiquei o tempo todo no hospital, a gente fica bem isolado, não pode receber visita, nada. A boa notícia é que a operação é intensa, mas rápida. Em nove dias, minha nova medula já tinha “pegado”. Aí você é um bebê. A gente perde todos os anticorpos, tem de tomar todas as vacinas de novo.

ÉPOCA – O que você quer fazer agora?
Gianecchini
– Nadar. E ir à praia no Rio.

ÉPOCA – Como será sua volta ao palco?
Gianecchini
– A partir de 13 de março, vou começar bem devagar minha peça Cruel às segundas e terças. Faço o vilão, o cruel. Isso vai ser meio louco. Lidei com tanto amor, tanta gente vai me assistir, as pessoas tão carinhosas, querendo me rever no palco. E vou estar lá fazendo horrores (risos), supermalvado. Mas vou continuar muito cuidadinho. Tenho de me alimentar direitinho, e não quero trabalhar como um louco. Gravações de novela os médicos liberaram só a partir de junho.

ÉPOCA – Você continuará a fazer exames?
Gianecchini
– Tenho de fazer exame de sangue sempre, porque ainda estou sujeito a pegar qualquer bactéria. São seis meses de acompanhamento mais profundo. Na verdade, são cinco anos de acompanhamento. Posso viajar, mas não posso ficar dando mole. Não posso ficar com gente gripada. Uma coisa meio chata é que, na minha peça em São Paulo, não vou poder receber as pessoas no camarim, ficar abraçando, beijando. Porque uma pessoa que pode nem saber que está gripada pode me custar muito caro.

ÉPOCA – Qual foi a primeira reação ao descobrir que estava mesmo com câncer?
Gianecchini
– Meu médico me ligou e disse: “É. Vai para o hospital”. Minha mãe estava na cozinha aqui em casa fazendo comida. Pensei: como vou falar isso para minha mãe, se o marido dela, meu pai, está com câncer terminal? Era só isso que eu pensava. Sentia muito por minha mãe. Essa é uma notícia que não dá para rodear. Eu disse: “Mãe, eu tenho de ir para o hospital porque estou com câncer”. Não tinha outra maneira de falar. Ela desligou o fogão. A gente foi em silêncio absoluto para o hospital.

ÉPOCA – O que você sentiu?
Gianecchini
– É como se um buraco se abrisse em sua vida, como se tudo começasse a passar em câmera lenta. O tratamento tinha um prazo de seis meses. Pensei: nesse tempo vou virar uma chavinha, nada mais vai me importar a não ser me curar.

ÉPOCA – Em que momento profissional chegou o diagnóstico?
Gianecchini
– A doença me pegou num momento muito cheio de vida e de muitos planos de trabalho. Como disse, eu estava fazendo a peça Cruel. Quando me internei, dois dias depois ia começar a ensaiar um musical com Claudia Raia, Cabaret, que amo e está em cartaz lindamente. Ia voltar para a TV com uma novela. Foi uma rasteirinha.

ÉPOCA – Quais eram seus sintomas?
Gianecchini
– Sentia umas dores, estava com o pescoço meio inchado, tinha acabado de operar uma hérnia, meu corpo estava meio esquisito, parecia uma gripe com dor de garganta, apareciam uns gânglios pequenos. Fui a um médico para verificar se era bactéria, virose. Fiz todos os exames possíveis, desde a coisa mais cabeluda até a mais simples. E deu tudo negativo. Até aí, beleza. Mas meu médico, infectologista, resolveu se certificar de tudo. O exame detectou que eu tinha gânglios no corpo inteiro. Daí para chegar ao câncer foi relativamente rápido, mas não se chegava a um diagnóstico. É preciso saber que tipo de câncer é, que subtipo. Câncer tem nome e sobrenome. Cada um tem um tratamento. Como eu me sentia bem, tinha dia que eu pensava: não é câncer. Eu tomava cortisona, sumiam os gânglios e a febre. Ficou um mês nisso. É. Não é. Fiquei um mês internado. Ficava num quarto, fazendo todos os exames, esperando os resultados, exames chegaram a ir para os Estados Unidos. Quando os laudos todos bateram, descobriu-se que era um tipo muito raro e agressivo de câncer.

ÉPOCA – De onde veio inicialmente sua certeza de cura?
Gianecchini
– Eu aprendi, li sobre minha doença. Soube que era uma doença muito agressiva, mas que tinha um elemento positivo. Como ela é muito agressiva e sou muito jovem, podia entrar com um tratamento superagressivo e bater de frente. Com tumores menos agressivos, às vezes o tratamento pode durar a vida inteira. No meu caso, eu poderia receber uma quimioterapia muito forte, porque meu corpo conseguiria combater. A doença chegou com tudo, mas o remédio iria também com tudo. Um campo de batalha feroz, um tratamento muito intensivo, mas falei: “Vamos lá!”.

ÉPOCA – Você teve medo de morrer?
Gianecchini
– O importante para mim era saber que valores eu precisava rever, qual o sentido de tudo isso. A primeira questão foi, sim, a morte. Caramba, pensei, a gente age como se não tivesse de lidar com isso. Estou lidando muito cedo, muito jovem, é claro que não quero morrer agora. Mas ela está aqui na minha frente. Comecei a fazer terapia para fuçar em mim tudo o que havia para fuçar, porque era o momento. A gente vive o dia a dia como se a morte não fosse uma certeza. A gente devia viver sempre com a certeza de que amanhã a gente pode morrer. Tanta coisa fica tão pequena, tão sem valor diante da possibilidade da morte. Decidi viver o presente, que é maravilhoso, sem passado e futuro. Comecei a viver de forma tão intensa que até nos momentos de introspecção eu ia muito fundo. Continue lendo

Grazielly e o jet ski assassino

Ruth de Aquino, na Época

Era a primeira vez que Grazielly Almeida Lames ia à praia, aos 3 anos. Pais sabem como tudo é festa nesse dia, eternizado em álbuns de família ou vídeos. Crianças brincam com areia, baldinho e água de um jeito maravilhado, que se perde com o avançar dos anos. O primeiro banho de mar de Grazielly também foi o último. Um jet ski desgovernado e em alta velocidade, ligado por um adolescente de 13 anos que caiu ao tentar pilotar a máquina, atingiu a cabeça loura de Grazielly. Deitada de bruços, ela se preparava para fazer um castelinho de areia. E morreu.

“Só vi aquele vulto vindo atrás de mim, batendo na cabeça da menina”, disse a mãe, Cirleide, de 24 anos. “Ela estava tão feliz.” A família é do interior de São Paulo. Mãe e filha tinham viajado para passar o Carnaval na praia de Guaratuba, em Bertioga, num condomínio. O pai, o motorista Gilson, de 33 anos, não estava no momento da tragédia. Ficou transtornado quando soube pelo cunhado. “Um jet ski é um brinquedo assassino” na mão de adolescentes, disse Gilson. “É a mesma coisa que deixar uma arma na mão de uma criança.”

Todos os possíveis culpados fugiram rapidamente sem prestar socorro. O adolescente, o pai, Marciano Assis Cabral, que tem posto de combustível em Mogi das Cruzes. E o dono do jet ski, filho e sócio do empresário José Augusto Cardoso, que hospedava o menino e sua família num condomínio. O depoimento do garoto, previsto para quinta-feira em Bertioga, não aconteceu por “medo do assédio da população e da imprensa”. Não se sabia, até o fechamento desta edição, se o adolescente de 13 anos chegou a pilotar o jet ski ou apenas deu a partida no motor.

Ninguém ficará preso pela morte de Grazielly. Nem os maiores responsáveis, os adultos que permitiram que um menino brincasse com o jet ski como quem brinca de bola na praia. O vídeo familiar mostra a menininha, que poderia ser filha, neta ou irmã de qualquer um de nós, encantada com o mar. Minutos depois, sua vida tinha acabado – e a de seus pais também. É a impunidade que estimula barbaridades como essa?

Conversei com Lars Grael, o velejador e atleta olímpico que amputou a perna num desastre no mar em 1998. “A impunidade no Brasil favorece a negligência criminosa. Pessoas continuam conduzindo embarcações a motor no meio de banhistas, surfistas e remadores porque sabem que nada vai acontecer com elas”, diz Grael.

O jet ski é uma motocicleta sobre a água, afirma Grael. “Se um menino pilota uma moto onde há pedestres, a chance é grande de atropelar e matar alguém. Por que há mais conscientização no asfalto que na água?” Um jet ski sofisticado alcança até 100 quilômetros por hora. As regras para seu uso existem, mas a fiscalização é risível.

O piloto de jet ski precisa ser maior de idade e ter habilitação da Capitania dos Portos. Respeitar as regras do tráfego marítimo – entre elas, a distância mínima de 200 metros para a arrebentação e os banhistas. Usar colete salva-vidas. E conectar a chave de segurança, com uma cordinha presa ao pulso. Se o piloto cai na água, a chavinha se solta automaticamente do jet ski e ele é desativado. “Muita gente conecta a chave, mas não a coloca no pulso”, diz Grael. “É um absurdo. Nesse momento, o piloto assume que está gerando um risco para os outros.”

No caso de Bertioga, pode existir o crime de responsabilidade passiva. Quem aluga ou empresta jet skis para alguém sem os requisitos legais deveria ser condenado por assumir conscientemente um risco. A bagunça é generalizada. Nas praias lotadas do verão, há máquinas em mau estado de conservação. O mais comum é “confiar” na palavra de quem quer alugar o jet ski.

Não são colocadas as boias de delimitação para o jet ski sair da areia e voltar. A coisa está ficando num nível tal que a Marinha passou a dotar algumas Capitanias de bafômetro, para evitar bebuns na direção dessas motos aquáticas. Mas a amostragem é ínfima.

O drama transcende os jet skis. “Todo país desenvolvido com cultura náutica tem uma Guarda Costeira, com poder de policiar, abordar e prevenir”, diz Grael. “Esse debate deveria estar no Congresso. É uma omissão nossa, constitucional. A Marinha exerce voluntariamente esse papel, mas sua função é outra, de proteger a soberania nacional.”

Para patrulhar com eficiência mais de 8.000 quilômetros de costa atlântica e mais de 40.000 quilômetros de rios, lagos e represas, o Brasil precisaria, segundo estimativas, de 3 mil embarcações e 100 mil profissionais. Estamos tão atrasados que, para pilotar uma lancha no Brasil, basta acertar metade das perguntas de um exame teórico. Não há prova prática.

Se nada for feito, continuaremos matando criancinhas. Ou chorando por elas.

Quando os bregas saem do armário

Bruno Astuto, na Época

A morte de Wando, na semana passada, parece ter anistiado um verdadeiro exército de pessoas da prisão do chique. Ele teria ficado feliz, muito feliz, de ver tanta gente saindo do armário para lhe prestar homenagens nas redes sociais, fãs ocultos que talvez jamais teriam exposto seu amor pelo romantismo de Wando caso ele ainda estivesse fazendo seus shows Brasil afora.

Nesses shows, não se viam celebridades e intelectuais nas primeiras cadeiras, portanto as fotos de divulgação não iam parar nas colunas nem nas revistas. Mas Wando não estava nem aí; desde o começo de sua carreira, ele se focou no chamado “público brega”, ou seja o Brasil inteiro, salvo raríssimas exceções que não sabiam o que estavam perdendo.

Já assisti a vários shows de Wando e tivemos uma história de que sempre ríamos muito quando nos encontrávamos. Uma vez, eu e Narcisa Tamborindeguy (sim, a Mulher Rica) estávamos indo a um comício da irmã dela, Alice, em São Gonçalo, na periferia do Rio. Nós nos perdemos no caminho e fomos parar no comício do candidato adversário — e só nos demos conta quando estávamos subindo ao palco. Pois Wando estava passando em frente ao local e foi ele que nos resgatou para o comício certo a bordo de um ônibus branco, com luz neon no interior e muitas calcinhas penduradas num varal. Só Wando.

Era um homem que dizia que não há nada melhor do que comer uma lata de pêssegos em calda depois de fazer amor. Outras pérolas de seu repertório: não existe nada mais comovente do que ver uma mulher colocando e tirando uma calcinha; levar a mulher a um motel é a maior prova de amor que um homem pode dar e o melhor lugar do mundo é uma cama redonda, lençóis de seda e espelho no teto.

Quando começou a febre de revival dos anos 80 e o número de shows aumentou, entrevistei Wando para saber o que ele achava de tanta gente chique frequentando suas apresentações. “Nem sei do que você está falando. Eu sempre cantei para pessoas chiques. Chique é ser do povo e estar apaixonado”. Ponto para Wando, que foi o primeiro namorado de sua mulher, com quem reatou o romance depois que ela ficou viúva pela primeira vez.

Ficou meio combinado que dizer que está apaixonado e gritar os sentimentos para o mundo inteiro é um ato bandeiroso de breguice. Mais do que brega, é perigoso; as pessoas andam apavoradas com gente apaixonada, em busca de um compromisso. Chique é ser independente, individual, não se apegar a ninguém. Há quanto tempo você não vê alguém sofrer por amor — ou pelo menos admitir? No Facebook, por exemplo, quando uma pessoa sai de um “relacionamento sério” para o status de “solteiro”, surgem logo fotos de festas, frases animadas, uma empolgação sobrenatural. É como se ela quisesse dizer ao mundo: ninguém me faz sofrer.

Assim que percebeu que o casamento estava de fato indo para os ares, uma amiga querida tomou aquela que diz ser a primeira providência urgente e cabível nos dias de hoje. Contar para os filhos? Avisar aos amigos próximos? Preparar a partilha dos bens? Não, ela correu para o Facebook e deletou o próprio perfil. “Embora esteja muito bem resolvida, não sei se estou preparada para ver fotos do meu marido viajando, rindo e curtindo todas com a futura namorada, ou seja, fazendo coisas que ele não fazia mais comigo há anos”.

Sábia decisão. Nenhuma pessoa civilizada gostaria de que o ex quebrasse a cara, mas uma dosezinha de sofrimento e outra de saudade cairiam bem, seriam de bom tom. Até a popularidade das redes sociais, a gente achava que só as atrizes anunciavam o término de um casamento ou de um namoro numa semana para, na seguinte, estrelarem as capas das revistas de celebridades brindando com champagne ao pôr-do-sol e ao novo amor. E atire a primeira pedra quem nunca pensou “esses artistas, hein, não duram com ninguém e não deixam a cama nem esfriar”.

Só que as celebridades tinham as revistas e as colunas, mas os anônimos não. Com Facebook, Orkut e Twitter, estamos assistindo, perplexos, a um festival nunca antes imaginado de felicidades e superações instantâneas. Ninguém sofre, ninguém se resguarda. Depois de uma decepção, o negócio é publicar, publicar e publicar.

Confesso que quando a atriz Demi Moore, aquela deusa, foi parar no hospital com claros indícios de coração despedaçado após ser deixada pelo marido-bonitão Ashton Kutcher, resgatei a esperança na humanidade. Sim, ainda pessoas que sofrem por amor.

Nesse ponto, as músicas de Wando eram um perigo, porque podiam detonar em nós aquela coisa incubada, sufocada, inadmissível, que, de vez em quando, nos pega de jeito. O desejo de estar apaixonado e ouvir de alguém que você é luz, raio, estrela, luar e manhã de sol.

É o cúmulo da breguice, mas tem coisa melhor?