Marina

EX-RIVAIS Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (PSB) em primeiro evento público após o anúncio do apoio da ex-senadora do tucano no segundo turno, em São Paulo (foto: Andre Penner/AP)
EX-RIVAIS
Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (PSB) em primeiro evento público após o anúncio do apoio da ex-senadora do tucano no segundo turno, em São Paulo (foto: Andre Penner/AP)

 

Eliane Cantanhêde, na Folha de S.Paulo

Marina sonhou salvar o mundo com Chico Mendes, mudar o Brasil com o PT, virar presidente pelo PV, criar a Rede e, enfim, engrossar o desejo de mudança na chapa de Eduardo Campos. Uma sonhática que vive da esperança.

Em 2010, Marina ficou neutra no segundo turno. Em 2014, sem poder e querer apoiar a algoz Dilma, ficou diante de nova neutralidade ou o apoio a Aécio. Optou pela frente de todos os candidatos do primeiro turno –exceto Luciana Genro (PSOL)– a favor da mudança com o tucano.

Apoiar um dos lados não foi uma decisão fácil, já que o projeto da Rede foi construído com o discurso da terceira via, da alternativa à polarização entre PSDB e PT, não mais apenas cansativa, agora sangrenta.

Mas não seria simples também repetir a neutralidade de 2010. O momento é outro e todas as pesquisas indicavam que a maior parte do eleitorado de Marina deslizaria naturalmente para Aécio, independentemente de acertos partidários. E mais: a maioria do PSB e das lideranças consolidadas da Rede optavam claramente pelo tucano.

A cúpula do PSB não deixou margem de dúvida: 21 a favor de Aécio, sete pela neutralidade, um por Dilma. Posição consolidada pelas viúvas de Eduardo Campos e do mítico Miguel Arraes e seguida pelo partido em 23 das 27 unidades da Federação. Ficaram de fora: Bahia, onde não há segundo turno para o governo, Paraíba, Acre e Amapá. Não é um racha maior do que o que existe, por exemplo, no PMDB.

Na Rede, que não é um partido, mas, sim, um movimento, é natural e até saudável que os mais puristas tenham se rebelado contra a decisão de Marina. Rebeldias assim alimentam a utopia, mantêm nutridos os utópicos. Mas Walter Feldman, Neca Setubal, Capobianco… sabem que, na vida real, só se avança negociando, compondo, optando.

Sorte de Aécio. Mais do que votos, Marina Silva agrega valor.

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Na vida sob o califado, histórias de estupros

Estado Islâmico mantém cerca de 40 mulheres, entre 12 e 30 anos, como escravas sexuais

A garota yazidi foi capturada durante uma ofensiva nas Montanhas Sinjar. Ela permanece presa (foto: Reprodução da internet)
A garota yazidi foi capturada durante uma ofensiva nas Montanhas Sinjar. Ela permanece presa (foto: Reprodução da internet)

Rose Troup Buchanan, no The Independent [via O Globo]

Uma jovem yazidi capturada pelo Estado Islâmico (EI) revelou o extremo abuso que sofre como escrava sexual nas mãos dos jihadistas. Com apenas 17 anos, Mayat (nome fictício) foi sequestrada por integrantes do EI em 3 de agosto, durante uma ofensiva dos extremistas nas Montanhas Sinjar. Ela permanece com seus raptores.

Estes homens permitiram que Mayat falasse — ela sabe um pouco de inglês já que queria estudar na Europa — para “nos machucar ainda mais”, nas palavras da garota:

— Eles nos falam para descrever em detalhes aos nossos pais o que eles estão fazendo.

Os pais dela, refugiados no Curdistão, deram o número da filha a um jornalista do jornal italiano La Repubblica. A adolescente implora ao entrevistador para não chamá-la pelo nome, porque tem “vergonha do que eles fizeram” com ela:

— Parte de mim gostaria de morrer imediatamente, afundar sob a terra. Mas há outra parte que ainda tem esperança de ser salva, para ser capaz de abraçar meus pais mais uma vez.

Uma das cerca de 40 mulheres e meninas detidas pelos extremistas em uma cidade desconhecida, Mayat estima a idade delas em torno de 12 a 30 anos.

— O que estão fazendo comigo? — questiona-se, diante da pergunta do repórter. — Tenho muita vergonha de dizer, e nem sei como descrever minha tortura.

Na entrevista, Mayat conta como as mulheres e as jovens são mantidos em uma casa vigiadas por guardas armados. Há, segundo ela, “três quartos de horror”, onde as mulheres são estupradas, ao longo do dia, geralmente por homens diferentes.

— Eles nos tratam como escravas. Somos sempre “dadas” para homens diferentes. Alguns chegam diretamente da Síria — conta a jovem.

O EI tem feito enormes ganhos territoriais ao longo de todo o Norte do Iraque e em partes da Síria, capturando milhares de mulheres e crianças, de acordo com um relatório da Anistia Internacional do mês passado.

— Eles nos ameaçam e nos batem se tentamos resistir. Muitas vezes, eu desejava que eles me batessem tão forte até que eu morresse. Mas eles são covardes até para isto. Nenhum deles têm coragem de acabar com nosso sofrimento — ataca a garota.

Mayat diz que algumas das meninas mais jovens pararam de falar por causa do abuso e foram levadas pelos jihadistas. Muitas das mulheres tentaram acabar com as próprias vidas.

— Às vezes, sinto como se nunca vai ter fim. E se isso acontecesse, minha vida ficaria para sempre marcado pela tortura que sofri nas últimas semanas — conta Mayat. — Mesmo que sobreviva, não acho que serei capaz de remover este horror da minha mente.

A história de Mayat contradiz afirmações anteriores do EI, que pretendia mostrar que a vida sob o regime do Estado islâmico teria muitos mais cuidados com as viúvas e crianças.

O governo britânico prometeu doar armas e munição para o Iraque para combater a insurgência. Em meio a preocupações de terrorismo, o presidente americano, Barack Obama, prometeu mostrar ao povo americano os esforços para “degradar e destruir” o EI.

Mayat termina dizendo:

— Eles já mataram meu corpo. Agora, estão matando minha alma.

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Arte transforma

Em vez de campeã de suicídios, minha cidade natal agora é berço de todo tipo de artista e criador

Companhia “Os Cogitadores”.
Companhia “Os Cogitadores”.

Walcyr Carrasco, na Época

Nasci numa pequena cidade do interior de São Paulo, Bernardino de Campos. Meus avós vieram da Espanha e foram colher café em fazendas da região, assim como centenas de imigrantes, italianos também. Estruturada em torno da estrada de ferro, a antiga Sorocabana, onde meu pai trabalhava, a cidade não cresceu de forma expressiva. Antigos cafezais permanecem abandonados em torno dela. A estrada de ferro fechou. O número de habitantes? Cerca de 11 mil. Meus pais se mudaram quando eu tinha 3 anos de idade. Passei todas as minhas férias, quando criança, em Bernardino, na casa de minha avó paterna, Rosa. Ainda reconheço ruas e casas. Há muito tempo não tenho nenhum parente bem próximo na cidade. Meus primos vivem em São Paulo, como eu; meus tios e meus avós já se foram. Mas sinto uma afinidade com Bernardino. Raízes contam na vida de alguém.

Por que falo tudo isso?

Há dez anos fui convidado para participar do primeiro Festival de Teatro de Bernardino de Campos (Festar), com grupos de várias cidades do interior. Fui, é claro. Gostei de ver o entusiasmo pelas peças, a alegria dos grupos em participar. Era uma novidade. Conversando com as pessoas, descobri que Bernardino se transformara numa campeã de suicídios. A tal ponto que, quando alguém ia comprar corda, já diziam, meio brincando, meio assustados:

– Vai partir desta para melhor?

É que as pessoas sempre se matavam da mesma maneira, se enforcando. Eu mesmo, ao visitar uma tia-avó, me surpreendi ao constatar que não só ela não me reconhecia, como também, ao despertar, não sabia quem era o próprio filho, devido aos remédios que tomava. Fiquei triste, é claro. Olhei aquelas ruas desertas, onde a partir das 20 horas nada acontecia, e pensei:

– Que esperança, que perspectiva de vida há aqui?

Os anos se passaram, e não voltei à cidade. Para minha surpresa, no último fim de semana fui convidado a participar da nova edição do Festar, agora comemorando dez anos. É de admirar um festival de teatro no interior que dura dez anos. Soube depois que outras cidades também têm seus festivais, uma iniciativa que vale a pena aplaudir. Fui bem contente. Além de também escrever para teatro, penso que todos nós, da televisão, temos nossa primeira pátria nas artes cênicas. Ao chegar, descobri que Bernardino continua com suas dificuldades econômicas. Mas o prefeito apoia as artes. A secretária de cultura, Cibele, já montou uma escola de dança, teatro, para crianças e adolescentes – totalmente gratuita. Criou-se um baile para a terceira idade que, soube, bomba todos os fins de semana. Durante a semana do festival, as peças, infantis e adultas, tiveram casa cheia, mesmo às 23 horas, um dos horários de apresentação. Esperava, inicialmente, textos ingênuos, bem amadores. Preconceito meu. Entre os principais, havia Casa de bonecas, de Ibsen, sobre a independência e a dignidade da mulher; Pterodáctilos, criação de um grupo de Registro que vem arrebatando prêmios em festivais; e a peça Um pequeno animal selvagem, do grupo Os Cogitadores, de São José do Rio Preto, escrita por Zeno Wilde, autor paulista de vanguarda que já morreu. Era uma montagem forte, intensa, que não ficou em cima do muro. Pelo contrário, os atores não tiveram medo de chocar. Surpreso, pensei: “Arte não é só para encantar, também pode chocar, abrir uma janela para um universo que os espectadores não conhecem”. Aplaudi a peça de pé. Também vi uma montagem de um auto de São João, escrita e dirigida por uma garota da cidade, bem divertida. O que mais me impressionou foi ser um texto escrito, dirigido e interpretado por um grupo local. Teve de pedir roupas emprestadas para o figurino, ajuda de todos os tipos e até uma carroça para colocar no palco. (Como vão tirar, não me perguntem.)

Em certo momento, nas conversas, perguntei sobre os casos de depressão e suicídio. Estranharam. Alguém lembrou que isso acontecia, sim, em Bernardino há um certo tempo, mas agora não se ouve mais falar. Óbvio. As pessoas estão criando! Mexer com as cabeças não é tão tangível como construir um viaduto. Vi essas pessoas convivendo com música, teatro, dança, trocando experiências. A arte tem um profundo poder de transformação. É um lindo caminho, que começa a acontecer. E que com certeza cria novas consciências e um jeito novo de viver.

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Metade dos brasileiros é favorável à realização da Copa do Mundo, diz Ibope

Apesar disso, 39% dos entrevistados declaram que estão ‘frios’ quando questionados sobre seu envolvimento com o torneio

Moradores de Teresópolis já estão em clima de Copa do Mundo: metade dos brasileiros é favorável a realização do evento (foto: Marcelo Piu / Agência O Globo)
Moradores de Teresópolis já estão em clima de Copa do Mundo: metade dos brasileiros é favorável a realização do evento (foto: Marcelo Piu / Agência O Globo)

Leonardo Guandeline, em O Globo

Pesquisa realizada pelo Ibope divulgada nesta segunda-feira mostra que 51% dos brasileiros são favoráveis à realização da Copa do Mundo no país ante 42% contrários. Em fevereiro, 58% dos entrevistados eram a favor do Mundial no Brasil e 38%, contra.

No levantamento divulgado nesta segunda-feira, 36% acreditam que a Copa tem grandes chances de ser bem-sucedida. Outros 28% creem serem médias as possibilidades de êxito e 31% acham que o Mundial está fadado ao fracasso.

Apesar disso, 71% dos entrevistados dizem torcer para que dê tudo certo e 11%, para que o Mundial seja um fiasco. Os indiferentes somam 14% e os que preferem não responder ou não sabem, 4%.

Quando questionados se os brasileiros, no geral, torcem para que a realização do Mundial dê tudo certo, 59% deram respostas positivas ante 22% que acreditam que a população espera que a Copa dê errado. Outros 12% creem ter a percepção que os brasileiros estão indiferentes nesse aspecto e 7%, não sabem ou preferem não responder.

De acordo com o Ibope, os sentimentos negativos em relação ao torneio prevalecem sobre os positivos. Os mais citados são preocupação (para 30% dos entrevistados) e desperdício (29%). Positivamente, os entrevistados citaram alegria (26%) e esperança (para 18% dos entrevistados).

No levantamento, quando questionados sobre o grau de envolvimento com o torneio, tomando por base um termômetro, 39% declaram que estão ‘frios’ e 18%, ‘gelados’. Outros 30% indicam que estão bastante envolvidos e apontam as temperaturas mais ‘quentes’ no termômetro, mas somente 7% e 5% desses, respectivamente, mencionam ‘fervendo’ e ‘muito quente’. Outros 28% disseram que seu envolvimento com o Mundial é ‘morno’.

O Ibope entrevistou 2.002 eleitores de 16 anos ou mais, em 140 municípios do país, entre os dias 15 e 19 de maio de 2014. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos para mais ou para menos.

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Podemos sorrir ainda em meio ao espanto e ao medo?

reflejos-de-un-futuro-by-vixen-paranoid-thumbPublicado por Leonardo Boff

Na minha já longa trajetória teológica dois temas me foram desde o início sempre centrais, a partir dos anos 60 do século passado porque representam singularidades próprias do cristianismo: a concepção societária de Deus (Trindade) e a ideia da ressurreição na morte. Se deixássemos fora estes dois temas, não mudaria quase nada no cristianismo tradicional. Ele prega fundamentalmente o monoteísmo (um só Deus) como se fôssemos judeus ou muçulmanos. No lugar da ressurreição preferiu o tema platônico da imortalidade da alma. É uma lastimável perda porque deixamos de professar algo singular, diria, quase exclusivo do cristianismo, carregado de jovialidade, de esperança e de um sentido inovador do futuro.

Deus não é a solidão do uno, terror dos filósofos e dos teólogos. Ele é a comunhão dos três Únicos que, por serem únicos, não são números mas um movimento dinâmico de relações entre diversos igualmente eternos e infinitos, relações tão íntimas e entrelaçadas que impede que haja três deuses mas um só Deus-amor-comunhão-inter-retro-comunicação. Temos a ver com um monoteísmo trinitário e não atrinitário ou pré-trinitário. Nisso nos distinguimos dos judeus e dos muçulmanos e de outras tradições monoteístas.

Dizer que Deus é relação e comunhão de amor infinito e que dele se derivam todas as coisas é permitir-nos entender o que a física quântica já há quase um século vem afirmando: tudo no universo é relação, entrelaçamento de todos com todos, constituindo uma rede intrincadíssima de conexões que formam o único e mesmo universo. Ele é, efetivamente, à imagem e semelhança do Criador, fonte de interrelações infinitas entre diversos que vem sob a representação de Pai, Filho e Espírito Santo. Essa concepção tira o fundamento de todo e qualquer centralismo, monarquismo, autoritarismo e patriarcalismo que encontrava no único Deus e único Senhor sua justificação, como alguns teólogos críticos já o notaram. O Deus societário, fornece, ao invés, o suporte metafísico a todo tipo de socialidade, de participação e de democracia.

Mas como os pregadores, geralmente, não se referem à Trindade, mas somente a Deus (solitário e único) perde-se uma fonte de crítica, de criatividade e de transformações sociais na linha da democracia e da participação aberta e sem fim.

Algo semelhante ocorre com o tema da ressurreição. Esta constitui o núcleo central do cristianismo, seu point d’honeur. O que reuniu a comunidade dos apóstolos depois da execução de Jesus de Nazaré na cruz (todos estavam voltando, desesperançados, para suas casas) foi o testemunho das mulheres dizendo: “esse Jesus que foi morto e sepultado, vive e ressuscitou”. A ressurreição não é uma espécie de reanimação de um cadáver como o de Lázaro que acabou, no final, morrendo como todos, mas a revelação do novissimus Adam na expressão feliz de São Paulo: a irrupção do Adão definitivo, do ser humano novo, como se tivesse antecipado o fim bom de todo o processo da antropogênese e da cosmogênese. Portanto, uma revolução na evolução.

O cristianismo dos primórdios vivia desta fé na ressurreição resumida por São Paulo ao dizer:”Se Cristo não ressuscitou a nossa pregação é vazia e vã a nossa fé”(1Cor 15,14). Faríamos então melhor pensar: ”comamos e bebamos porque amanhã morreremos”(15,22). Mas se Jesus ressuscitou, tudo muda. Nós também vamos ressuscitar, pois ele é o primeiro entre muitos irmãos e irmãs, “as primícias dos que morreram”(1Cor 15,20). Em outras palavras e isso vale contra todos os que nos dizem que somos seres-para-a-morte, que nós morremos sim, mas morremos para ressuscitar, para dar um salto para o termo da evolução e antecipá-la para o aqui e agora de nossa temporalidade.

Não conheço nenhuma mensagem mais esperançadora do que esta. Os cristãos deveriam anunciá-la e vive-la em todas as partes. Mas a deixam para trás e ficam com o anúncio platônico da imortalidade da alma. Outros, como já observava ironicamente Nietzsche, são tristes e macambúzios como se não houvesse redenção nem ressurreição. O Papa Francisco diz que são “cristãos de quaresma sem a ressurreição”,   com “cara de funeral”, tão tristes como se fossem ao próprio enterro.

Quando alguém morre, chega para ele o fim do mundo. É nesse momento, na morte, que acontece a ressurreição: inaugura o tempo sem tempo, a eternidade bem-aventurada.

Numa época como a nossa, de desagregação geral das relações sociais e de ameaças de devastação da vida em suas diferentes formas e até de risco de desaparecimento de nossa espécie humana, vale apostar nestas duas iluminações: Deus é comunhão de três que são relação e amor e que a vida não é destinada à morte pessoal e coletiva mas a mais vida ainda. Os cristãos apontam para uma antecipação desta aposta: o Crucificado que foi Transfigurado. Guarda os sinais de sua passagem dolorosa entre nós, as marcas da tortura e da crucificação, mas agora transfigurado no qual as potencialidades escondidas do humano se realizaram plenamente. Por isso o anunciamos como o ser novo entre nós.

A Páscoa não quer celebrar outra coisa do que esta ridente realidade que nos concede sorrir e olhar o futuro sem espanto e pessimismo.

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