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Hotel cinco estrelas nos EUA abre as portas e recebe 500 sem-teto para a noite de natal

A procura por vagas para ser voluntário da iniciativa é maior do que a para ser hóspede

Publicado no Catraca Livre

O hotel Omni, um cinco-estrelas localizado no centro de Dallas, nos EUA, manteve sua tradição natalina e fez nessa véspera de Natal a mesma coisa que nos últimos nove anos: abriu suas portas para servir um banquete e hospedar homens, mulheres e crianças sem-teto por uma noite.

Em 2012, o prefeito de Dallas  Mike Rawllings foi um dos que serviram os moradores de rua.

Em 2012, o prefeito de Dallas Mike Rawllings foi um dos que serviram os moradores de rua.
reprodução soupmobile

Os moradores de rua chegam por um tapete vermelho, recebem muitos abraços e até cumprimentos do Papai Noel. Depois, almoçam, tomam banho, ganham roupas novas e se preparam para um banquete de natal. Na manhã do dia seguinte, acordam em belos e quentes quartos.

A ação é comandada pela SoupMobile, uma organização sem fins lucrativos que distribui alimentos e constrói abrigos para moradores de rua. O objetivo do “Room at the Inn“, como o evento do dia 24 de dezembro é conhecido, é juntar fundos para esse trabalho. Cada um dos mil voluntários que participam da ação (o prefeito da cidade é um deles) paga cerca de mil dólares para estar ali. E a procura é grande, pois existe até uma fila de espera para quem quiser servir e ajudar os sem-teto.

O vídeo abaixo (em inglês) foi feito na edição do ano passado e mostra como é a ação.

Ben Canales: fotógrafo das estrelas

Publicado no Discovery Brasil

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Você já ouviu falar em astrofotografia? Nossa galeria de fotos mostra o trabalho do astrofotógrafo Ben Canales, especialista em tirar fotos do céu – mais especificamente durante a noite. Com apenas 31 anos de idade, Canales já viajou ao redor do mundo, tirando fotos das estrelas e conquistando muitos prêmios com suas obras primas.

Fotografo autodidata, ele sempre gostou de ir à lugares distantes, que lhe permitissem ver as estrelas. Começou a tirar fotografias primeiramente como um hobby, mas também para compartilhar com seus amigos suas experiências noturnas.

Fascinado pelo mistério das estrelas e apaixonado pelo que faz, Ben Canales compartilha com o público suas dicas de como tirar boas fotografias a noite, como, por exemplo, estar a no mínimo 80km de distância da cidade. Embora fotografe paisagens, gosta de mesclar elementos naturais e humanos em suas fotografias, que costumam conter pessoas, cabanas, casas abandonadas ou carros.

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Luz e trevas

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Por Tuco Egg, no A Trilha

Elmiro caminhava sozinho no ermo da floresta escura que ladeava sua casa. A luz trêmula do lampião queimava banha de porco iluminando discretamente o caminho e temperando-o com o aroma pesado da gordura queimada. Era pouco óleo e Elmiro esperava alcançar os limites da floresta antes da luz extinguir-se. O som que ecoava no mato era vibrante, vivo, intenso e tenso.

A chama se apagou quando o velho já avistava adiante o azulado da luz da lua refletindo difuso no nevoeiro que lambia sereno o pasto verde do seu sítio. Elmiro parou no limite da floresta, sentou no tronco seco do cambucá que fora derrubado a machado pelo seu avô para fazer os moirões que cercavam a bicharada e permaneciam lá, firmes, há cinco décadas. Sentado na beira do tronco, ergueu a cabeça lentamente para deleitar-se na visão que lhe enlevava a alma.

Viajou os olhos solenemente pelas estrelas, constelações, nebulosas, planetas e meteoros enquanto sentia a brisa gelada e úmida da noite molhar sua face sulcada por um emaranhando incrível de rugas profundas. As gotas do orvalho escorriam lentamente pelos labirintos de seu rosto. Agora de olhos fechados, Elmiro lembrava do luar incrível que vira no ano anterior quando tropeirava solitário pelas serranias de Campos Novos. Salgou o orvalho com lágrimas pela simples lembrança do vapor azulado subindo do corpo quente de seu cavalo, dançando à luz do luar em movimentos imponderáveis, naquela noite belíssima.

O cheiro do café já alcançava a beirada da floresta. Era hora de aquecer-se em casa.

***

A partir do século 18, e de forma definitivamente empolgante, o iluminismo fez nossos olhos se abrirem para um universo novo de conhecimento. Os misticismos antigos foram um a um sendo iluminados pela luz das novas e incontestáveis descobertas. E viu o homem que isso era bom, diria com muito acerto a versão humanista da poesia de gênesis.

Um universo de escuridão se dissipa em um clique. Se não for no interruptor, será no google. E a luz deitará sobre nós. E todas as trevas serão dissipadas.

Mas a luz que a ciência nos lançou apagou as estrelas. Nos movimentos frenéticos de nossos centros urbanos não há mais espaço para nebulosas, estrelas cadentes e vapores azuis dançando ao luar. Nem para os mistérios que essas visões evocam. Nossas lâmpadas iluminam o ambiente que vivemos, e isso é uma bênção, mas apagam para sempre os mistérios indecifráveis da noite e os movimentos que suas asas suaves embalavam na alma do homem.

Um amigo me fez lembrar da frase de Carl Sagan: É melhor saber do que crer. Saber é bom, disso ninguém tem dúvida, mas jamais saberemos o suficiente. Crer e saber podem andar juntos, de mãos dadas, e dançar nas noites escuras e geladas, sob a luz do luar.

Artista malaio faz incríveis retratos de celebridades à base de rabiscos

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Publicado no Metamorfose Digital

Para o ilustrador mediano, traçar linhas desorientadas não é a melhor maneira de criar retratos realistas. Entretanto Vince Low não é um ilustrador qualquer. O artista baseado em Kuala Lumpur, Malásia, de alguma forma, que a gente não consegue entender, consegue produzir retratos impecáveis de alguns dos maiores atores de Hollywood usando apenas rabiscos infantis.

O principal ilustrador da agência de publicidade malaia, Grey, tem um portfólio impressionante de obras de arte impressionantes, mas sua série de retratos mais recente, chamada Faces, é particularmente atraente. Isso porque as representações impressionantes de estrelas como Jack Nicholson, Morgan Freeman, Will Smith e Leonardo Di Caprio foram todas feitas exclusivamente com rabiscos em telas brancas.

A maioria das pessoas têm dificuldade em captar suas características únicas, utilizando técnicas de desenho clássico, mas ele cria representações faciais altamente precisas apenas utilizando milhares de linhas que se sobrepõem. Simplesmente incrível!

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Fé e fofoca

A fofoca é a base da tese da “cura gay”: maléfica, preconceituosa, com o poder de destruir vidas

Fantine (Anne Hathaway), no filme dirigido por Tom Hooper

Fantine (Anne Hathaway), no filme dirigido por Tom Hooper

Walcyr Carrasco, na Época

Um dos meus livros prediletos é Os miseráveis, de Victor Hugo, do século XIX. Creio que um dos trabalhos mais apaixonantes da minha vida foi traduzi-lo e adaptá-lo para jovens. Uma das passagens mais marcantes, descrita em detalhes no original, fala do poder da fofoca.

Fantine é mãe solteira e deixou sua filha, a menina Cosette, aos cuidados de um casal, a certa distância da cidade onde se fixou. Trabalha como operária e envia quase tudo o que ganha para o sustento da menina. Só que não sabe ler e escrever. Recorre a um profissional para redigir suas cartas e ouvir as respostas. As colegas de trabalho desconfiam. Para quem tantas cartas, afinal? Convencem o homem que as escreve não a revelar seu conteúdo – ele é discreto –, mas a fornecer o endereço para onde são enviadas. Uma delas, então, viaja às próprias custas para apurar a história. Volta com a satisfação de “saber de tudo”. Conta o que sabe para todas.

Estigmatizada numa época em que ser mãe solteira era uma desonra, Fantine briga com as outras. É demitida por moralismo. Acaba nas ruas como prostituta. Quem leu o livro, viu algum dos filmes ou versões teatrais inspirados na obra sabe que ela vende os dentes e cabelos para depois morrer tragicamente. Onde começou toda a sua via-crúcis? Na curiosidade sobre a vida alheia.

Acredito que a fofoca é maléfica. É fundamentada no preconceito. Tem o poder de destruir vidas. Em sua primeira peça de teatro, em 1934, a escritora americana Lilian Hellman (1905-1984) aborda o tema. A peça, The children’s hour, foi sucesso na Broadway e ganhou versão cinematográfica com as estrelas da época, Audrey Hepburn e Shirley MacLaine.

Aqui no Brasil, o filme ganhou o título de Infâmia. (Procurem, vale a pena ver.) Narra a história de duas mulheres, sócias fundadoras de uma escola infantil nos Estados Unidos. Uma aluna as acusa de ter uma relação homossexual. Não têm, de fato. Mas a avó da garota espalha a fofoca na comunidade. Perdem os alunos, quebram financeiramente e, finalmente, uma delas se suicida.

Histórias como essa são frequentes. No mundo artístico, encontro jovens que deixaram a cidade distante onde viviam, porque não suportavam mais os falatórios. Certa vez, em visita à pequena Bernardino de Campos, interior de São Paulo, onde nasci, conversei com um rapaz de cabelos pintados de verde, num estilo meio punk, cuja família se mudara para lá. Fazia faculdade, mas queria voltar a São Paulo, onde trabalhava como motorista. Eu me espantei:

– Prefere o trânsito de São Paulo a terminar um curso universitário, ter uma carreira?
– Aqui, meu cabelo virou até notícia na rádio – respondeu ele.

Por que falo sobre tudo isso?

Sim, sei que a proposta de “cura gay”, do deputado Marco Feliciano, já foi muito comentada. Seria chover no molhado dizer quanto isso nos ridiculariza internacionalmente, já que a Organização Mundial da Saúde não classifica a homoafetividade como doença e, portanto, não se trata de algo a curar. Mas quero olhar a questão por outro ângulo. Todo esse movimento liderado por Feliciano, entre os evangélicos, e pela deputada Myrian Rios, como católica carismática, entre outros, não pode ser confundido com fé. É uma enorme curiosidade pela vida alheia. Como fofoca transformada em questão política.

Convivo com esse tipo de comportamento não é de hoje. Tenho uma tia que frequenta a igreja Assembleia de Deus. Nunca corta os cabelos, devido a uma interpretação do Velho Testamento, em que eles são descritos como “véu da mulher” – embora nada proíba Feliciano de depilar as sobrancelhas. Adolescente, eu morava em Marília, interior de São Paulo. Uma jovem evangélica da Assembleia deixou de ser virgem. A fofoca se espalhou no templo. A moça foi expulsa publicamente da igreja. Não é o primeiro preceito cristão acolher os pecadores?

Normatizar a vida dos fiéis é exercer poder sobre eles. Esse poder é exercido pela fofoca entre os membros da comunidade religiosa, que passam a controlar o comportamento uns dos outros. Trazer esse tema, da igreja, para a política, é um acinte para a sociedade. Quanto mais se fala em “cura gay”, mais cresce o preconceito. E o preconceito estimula a fofoca, o controle sobre o comportamento alheio. É um risco para quem acredita nas liberdades individuais. Inevitavelmente surgirão novas vítimas, como a Fantine de Victor Hugo.