Integrantes de CPI de alvarás de SP são acusados de extorsão

Eles são acusados de extorquir dinheiro de comerciantes.
Uma dessas conversas aconteceu dentro da Câmara e foi gravada.

Eduardo Tuma, presidente da CPI dos Alvarás.
Eduardo Tuma, presidente da CPI dos Alvarás.

Publicado no G1

Integrantes da CPI criada para fiscalizar a emissão de alvarás para comerciantes são exatamente os acusados de extorquir dinheiro desses comerciantes. Uma dessas conversas aconteceu dentro da câmara e foi gravada. O Ministério Público vai investigar.

Dois homens entram em um bar e se apresentam como fiscais de uma CPI. Dizem que o comércio tem irregularidades. Depois, marcam um encontro com o dono e falam: ‘é só dar dinheiro, que tudo se resolve’. Como você se sentiria se passasse por isso?

Um comerciante, que enfrentou essa situação, responde: “Eu me sinto mal. Me sinto constrangido. Sensação de impotência. Essa é a verdade”.

Ele é dono de um bar na capital paulista, recebe em média 100 clientes por dia. Depois que foi assediado, o comerciante procurou o Fantástico e pediu ajuda. Disse que estava sendo vítima de uma tentativa de uma tentativa de extorsão por dois funcionários públicos. Com uma câmera escondida, passamos a acompanhar as conversas. Gravamos inclusive o encontro com o representante de uma empresa que, em troca de dinheiro, prometia regularizar a situação do comércio.

Representante: Eu vou dar baixa no seu processo para arquivo. E aí, morreu o assunto. Eu vou dar um parecer e eu vou falar direto com o vereador. Eu não vou nem falar com eles. É direto com o vereador que eu vou falar.

O comerciante diz que a corrupção começou quando os dois funcionários públicos foram ao bar dele. Era 15 de agosto passado.

“Os caras vieram aqui, comeram, pagaram. Depois se identificaram como integrantes da CPI dos alvarás. Olharam supostas irregularidades e pediram uma série de documentação”, conta o comerciante.

“CPI dos Alvarás” é a comissão da Câmara Municipal de São Paulo criada para investigar irregularidades nas emissões dos alvarás de funcionamento de bares, casas noturnas e restaurantes da cidade.

A CPI começou em fevereiro deste ano, com a promessa de evitar tragédias como o incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Lá, 242 pessoas morreram, em janeiro de 2013.

Os dois funcionários públicos que procuraram o dono do bar, em São Paulo, são Roberto Torres e Antônio Pedace. Roberto é engenheiro civil, funcionário da Prefeitura de São Paulo. Trabalha na Secretaria Municipal de Licenciamento.

“O cargo que ele ocupava na prefeitura, nós consideramos, sim, sensível. É um cargo que trabalha na concessão de licenças, na liberação de licenças”, explica o controlador-geral da Prefeitura de São Paulo, Mário Vinicius Spinelli.

Em maio passado, a prefeitura autorizou roberto a trabalhar na CPI dos Alvarás da Câmara Municipal. Já Antônio Albertino Pedace é assistente parlamentar do vereador Eduardo Tuma, o presidente da CPI.

Depois de vistoriar o bar, no dia 15 de agosto, Roberto e Antônio deixaram um relatório com o comerciante. Quem assinou foi Roberto, que é engenheiro e assessor técnico da CPI. Disse ter encontrado oito irregularidades e pediu que oito documentos fossem apresentados. O prazo foi de cinco dias.

O comerciante reconhece que o bar não tem certificado de acessibilidade nem brigada de incêndio; e que espera a renovação do alvará dos Bombeiros. “Se eu estou errado, eu tenho que corrigir. Eu tenho que ter direito a fazer a correção do erro e ponto final”, diz o comerciante.

Mas não era bem isso que os integrantes da CPI pareciam querer como mostram as conversas a seguir:

Primeiro, Roberto Torres marcou, por telefone, uma reunião na Câmara dos Vereadores.

Roberto Torres: Você me dá uma ligadinha que eu vou estar na casa.
Comerciante: É na Câmara mesmo?
Roberto Torres: Na Câmara mesmo.

A reunião acontece 24 dias depois da suposta vistoria no bar, no dia 8 de setembro.

Os fiscais se encontraram com o dono do bar em uma sala, que fica no subsolo da Câmara Municipal. Uma sala que fica trancada. Tem que ter chave para entrar no local. Foi uma conversa particular, a portas fechadas. Em nenhum momento, ele prestou esclarecimentos públicos como deve acontecer em uma CPI desse tipo.

O comerciante mostra a documentação do bar, mas os dois integrantes da CPI não dão muita bola, não. O assessor Antônio Pedace vai direto ao assunto. Fala que o comerciante precisa de um laudo.

Antônio Pedace: “Vai fazer um laudo para nós que está tudo ok na casa de vocês, entendeu? Que está ok”.

E os dois indicam uma arquiteta chamada Margarete.

Comerciante: Como é que ela trabalha? Ela vai lá?
Pedace: Não, ela vai vir aqui.
Comerciante: Nós não vamos ter problema depois?
Torres: Não. Com relação à CPI, não. Como eu sou membro técnico, eu assino, mando para a secretaria e acabou.
Pedace: Tem o carimbinho e tudo. A gente dá baixa e põe no arquivo.
Comerciante: E o valor que ela vai?
Pedace: É R$ 15 mil que ela cobra. Porque ela já fez para outras casas aqui também para resolver.

O comerciante fala que está preocupado em perder movimento se tiver o bar citado na CPI e tiver que prestar depoimento.

Comerciante: Pode até ser chamado em plenário? Eu fiquei preocupado.
Pedace: Na semana passada, veio um monte de empresário chamado em plenário.
Comerciante: Está vendo.

O dono vai dando corda, para ver a reação dos dois. E ele termina a conversa fazendo uma proposta para encerrar o caso.

Comerciante: A gente não quer nenhum problema com a CPI. Agora, sei lá. Se der para fazer R$ 10 mil. Não sei.
Pedace: Eu vou falar com ela.

Comerciante: Quando você faz uma fiscalização, quando ela vem, ela vem, fotografa e a irregularidade põe no processo. Não tem nem processo. Não mostraram nem processo que foi aberto.
Fantástico: O que caracteriza isso para o senhor?
Comerciante: É pagamento de propina. Estou pagando dinheiro para que o processo seja arquivado.

O Fantástico mostrou as imagens do encontro na Câmara para dois promotores de Justiça que fazem parte do Grupo Especial de Combate a Crimes Financeiros.

“São evidências de que nós estamos diante de um esquema de corrupção”, diz o promotor Arthur Lemos Junior.

“Tudo indica que eles acabaram visitando outros comerciantes, usando a mesma estratégia ilícita”, completa Arthur Lemos Júnior.

O Fantástico falou com o vereador presidente da CPI dos Alvarás, Eduardo Tuma. Ele garantiu que não sabia de nada.

“A CPI não tem qualquer força para arquivar ou não arquivar caso. Ou para conceder ou não conceder alvarás. Nós fizemos diligências públicas. Quer dizer, contávamos com acompanhamento da Guarda Civil Metropolitana, com a TV Câmara. Conversar com comerciante dentro da Câmara não é procedimento da CPI. Não é mesmo”, diz Eduardo Tuma.

A história do dono do bar não parou por aí. Um dia depois do encontro na Câmara Municipal de São Paulo, o assistente parlamentar Antonio Pedace deu um aviso ao comerciante. A arquiteta Margarete, que nem chegou a ser apresentada ao dono do bar, não quis fazer o laudo por menos de R$15 mil.

Pedace: Não teve jeito de abaixar. Então, eu estou te mandando uma outra pessoa falar com você que se chama Marcos Peçanha.

Marcos Peçanha se apresenta como engenheiro: Fazemos tudo. Todo tipo de regularização. Eu vou dar baixa no seu processo para arquivo e morreu o assunto. Eu cobro R$ 13 mil, em duas vezes.

Comerciante: Mas o senhor faz parte da CPI?
Marcos Peçanha: Não.
Comerciante: Mas eu não vou ter problema não?
Marcos Peçanha: Não. Eu encerro a fiscalização lá.
Comerciante: Você está fazendo para mais gente também?
Marcos Peçanha: Eu fiz para várias pessoas.
Comerciante: Aqui nessa CPI dos Alvarás?

Como Peçanha conseguiria arquivar o processo tão facilmente?

Marcos Peçanha: Eu vou dar um parecer e eu vou falar direto com o vereador.
Comerciante: Com o engenheiro?
Marcos Peçanha: Eu não vou nem falar com eles. É direto com o vereador que eu vou falar.
Comerciante: Quem que é?
Marcos Peçanha: O presidente da CPI. Eu vou ser sincero. Eu vou matar o negócio no ninho.

Peçanha diz que vai dar um presente para Eduardo Tuma, o presidente da CPI dos Alvarás: “Um presente para o vereador e acabou. Uma garrafa de uísque, qualquer coisa”, diz Marcos Peçanha.

No fim da conversa, Peçanha dá a entender que o presente pode ser dinheiro também.

Marcos Peçanha: Não pense que eu vou pegar R$ 13 mil para mim que não funciona.
Comerciante: Já falaram que tem pessoas que precisam receber.
Marcos Peçanha: Deixa eu conversar com ele. Alguma coisa lá tem que dar para o vereador.
Comerciante: Está bom.
Marcos Peçanha: Um presente. Vamos ver.

“Isso que ele está dizendo é crime. Isso é crime. Eu quero que o Ministério Público atue nesse sentido. O que é isso? Imagina. Não conheço. Nunca recebi nada, qualquer forma de presente ou de vantagem licita ou ilícita desse senhor.  Eu não posso ser responsável por uma pessoa que se utiliza do meu nome. Quero que ele testemunhe isso. Faço questão de fazer uma acareação com esse senhor”, diz Eduardo Tuma.

No começo deste mês, a CPI dos Alvarás terminou, com a apresentação de 15 propostas, principalmente para diminuir a burocracia na concessão dos documentos.

O dono do bar nem chegou a ser nem citado no relatório. Acreditava que assim teria sossego. Mas nem com o fim da CPI, isso não aconteceu. Marcos Peçanha não desistiu.

Comerciante: Peçanha?
Marcos Peçanha: Isso.
Comerciante: Meu sócio ligou e falou que a CPI foi encerrada.
Marcos Peçanha: Ela está encerrada mas, como diz, ela foi encerrada. Mas quando eles foram aí, não estava encerrada, entendeu?

Peçanha faz uma sugestão: diz ao comerciante para ele oferecer menos dinheiro a Roberto Torres e Antônio Pedace, os dois homens que se apresentaram como fiscais da CPI.

Marcos Peçanha: “Se conselho fosse bom, a gente não dava, vendia. Faz uma contraproposta e acabou. Dentro das suas condições e já era”.

O Fantástico foi até o escritório de Marcos Peçanha, engenheiro que sugeria dar baixa nos processos.

A informação que o Fantástico recebeu é que Peçanha não estava. No dia seguinte, fomos lá outra vez e nada de novo. Também ligamos várias vezes, deixamos recados mas ele não retornou.

Procuramos Antônio Pedace na Câmara, mas ele não foi localizado. No sábado (25), o assistente parlamentar enviou uma nova ao Fantástico. Disse que: “Em nenhum momento, pediu qualquer valor a seu favor ou de outras pessoas e que simplesmente. Indicou uma empresa especializada, uma pessoa que já fazia esse trabalho de forma idônea, para regularizar e realizas as pendências realizadas no referido estabelecimento. E obras e mudanças seriam necessárias para a continuidade das atividades comerciais”.

O presidente da CPI afirmou que nem o assistente dele, Antônio Pedace, nem o engenheiro Roberto Torres tinham autorização para fiscalizar comerciantes. “Esse senhor é o Antônio. Ele é ligado a nós sim, mas não tinha qualquer autorização para trabalhar nessa questão da CPI. Talvez análise de documentos, sim”, declarou Tuma.

O escritório onde Marcos Peçanha recebeu o dono do bar fica na Rua Riachuelo, região central. O Fantástico investigou e o engenheiro Roberto Torres, o integrante da CPI dos Alvarás que procurou o comerciante, aparece na escritura desse imóvel. Roberto é o dono do escritório.

Roberto de Faria Torres está sendo monitorado desde junho do ano passado pelo setor de inteligência da Controladoria Geral do Município. O nome dele está em uma lista de servidores públicos que são analisados. É uma checagem que a controladoria faz para saber se o salário do funcionário é compatível com o patrimônio dele.

O Fantástico apurou que, nos últimos cinco anos, pelo menos 15 imóveis apareceram no nome de Roberto, como os mostrados no vídeo acima. Ele recebe da prefeitura um salário de R$ 4 mil por mês. A investigação da controladoria pode comprovar se o engenheiro teria ficado rico ilegalmente.

“Se, de fato, a conduta dele foi uma conduta que desabone a sua função enquanto servidor público, ele será sim penalizado. Inclusive, dependendo do caso, com a demissão”, destaca o controlador-geral da Prefeitura de São Paulo, Vinicius Spinelli.

Tentamos falar várias com Roberto Torres. Ele chegou a desligar duas vezes o telefone na nossa cara.

O Ministério Público vai investigar se havia uma máfia na CPI dos Alvarás.

“Há necessidade de outras pessoas que também foram vítimas desse esquema de nos procurarem para que a gente possa apurar os fatos não só em relação a essa vítima, mas em relação a todos os outros que também foram extorquidos por este grupo”, diz o promotor de justiça Roberto Bodini.

O comerciante não cedeu à pressão. “Se eu pagar, o que vai acontecer? Mês que vem, vai bater outra pessoa na minha porta. Não dá para, simplesmente, o cara querer sobreviver às nossas custas”, diz o comerciante.

a “nota de esclarecimento” do vereador evangélico pode ser lida aqui.

perguntas: por que ele esperou a veiculação da reportagem para agir? por que não afastou imediatamente seu assessor de confiança envolvido?

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‘Eles não machucam ninguém’, diz John Grisham sobre quem compartilha pornografia infantil

Escritor americano defende punição mais branda para quem recebe conteúdo sexual de menores

Premiado escritor entrou na polêmica sobre penas para quem recebe e compartilha material pornográfico de menores (foto: Lisa W. Buser / for USA TODAY)
Premiado escritor entrou na polêmica sobre penas para quem recebe e compartilha material pornográfico de menores (foto: Lisa W. Buser / for USA TODAY)

Publicado em O Globo

O premiado escritor americano John Grisham criticou nesta semana as punições para quem assiste pornografia infantil em seu país, alegando que elas são “pesadas demais”. As declarações foram feitas em entrevista ao jornal “The Telegraph”, do Reino Unido.

O autor de thrillers como “O Dossiê Pelicano”, “A Firma” e “Tempo de Matar” argumentou que as penas para quem somente assiste ao material seriam mais severas do que o ato mereceria. Grisham afirmou ainda que, em consequência, o sistema prisional dos Estados Unidos “enlouqueceu”, com cadeias “cheias de caras da meia idade e de cabelos brancos como eu”.

Durante a entrevista, John Grisham contou ainda a história de um amigo seu, estudante de Direito, que foi preso por apenas baixar arquivos com conteúdo de pornografia infantil.

– Estas são as pessoas que não fazem mal a ninguém. Elas merecem algum tipo de punição, seja qual for, mas 10 anos de prisão? – questiona.

Há um amplo consenso nos EUA de que a distribuição e a posse de pornografia infantil é um crime federal que deve ser severamente punido, mas não há controvérsia pelo fato de a pena ser a mesma para ambos os lados, tanto para quem compartilha quanto para quem recebe. A polêmica é ainda maior especialmente em um momento em que materiais pornográficos se espalham por redes sociais e aplicativos como Whatsapp.

Nos últimos 15 anos, de acordo com a organização Families Against Mandatory Minimums, a duração das sentenças federais para pornografia infantil aumentaram 500%. Em 2013, a Comissão de Sentenças dos Estados Unidos começou a rever a política de condenação em torno de pornografia infantil, dada a complexidade da questão na era da Internet.

Nesse contexto, Grisham parou de defender todos os condenados por crimes sexuais, acrescentando que ele “não tem simpatia” por pedófilos.

– Deus, por favor, prender essas pessoas. Mas muitos desses caras não merecem pesadas penas de prisão, mas isso é o que eles recebem – disse.

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Porque Marina Silva

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Ed René Kivitz

O povo brasileiro já percebeu: não é hora de virar as páginas, é hora de mudar de livro.

O que me traz a esse lugar e a essa hora é a convicção de que a imagem usada por Caio Fernando Abreu veste perfeitamente o atual momento do Brasil, e encontra em Marina Silva aquela que melhor conseguiu captar a voz das ruas, e está em sintonia com o desejo de mudança que mora no peito dos brasileiros.

Mas não podemos ser negligentes à realidade de que o inusitado que colocou nas mãos de Marina Silva a possibilidade concreta de ser eleita para ocupar a presidência da república, resultou em outro fato igualmente significativo: o recrudescimento do debate a respeito da identidade evangélica.

Considerando os necessários descontos em razão dos discursos acalorados pelo processo eleitoral é razoável dizer que o imaginário popular é influenciado a ponto de ver transformado o nome evangélico em uma espécie de xingamento, adjetivo pejorativo associado a pessoas de fé e boa vontade. Também por essa razão nos reunimos nessa manhã.

Nos mobilizamos não apenas para apoio e suporte a uma candidatura que nos representa e carrega consigo muito do ideário cristão. Também nos aproximamos para adensar nosso compromisso em defesa daquilo que é maior do que qualquer projeto político, a saber, o Evangelho e a Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo.

Não aceitamos a ideia de que ser evangélico é ser ignorante, moralista, homofóbico, sectário, intolerante.

Nosso Senhor Jesus Cristo é apresentado como aquele que “andou por toda parte fazendo o bem”, lançando no coração humano as sementes do amor, da generosidade, do perdão e da solidariedade, virtudes absolutamente distantes de quaisquer perspectivas que alimentem o ódio, a condenação, a exclusão, a discriminação e a segregação. Em seus passos o povo pacífico desse país caminha.

Devemos recusar a ideia de que ser evangélico é ser manipulável e manipulador.

Rejeitamos a sugestão de que a consciência do povo evangélico seja propriedade de quem quer que seja, e esteja cativa de ideologias e programas menores do que a agenda do reino de Deus.

Igreja não é lobby.
Igreja não é partido político.
Igreja não é instrumento de pressão.
Igreja não é curral eleitoral.
Púlpito não é palanque.
Altar não é plataforma para comício.

Não podemos nos calar diante daqueles que falam em nosso nome, como se o povo evangélico fosse um bloco monolítico, que segue a cartilha de um homem só. Com todo o respeito e estima que merece nosso irmão Jorge Mario Bergoglio, nós evangélicos não temos Papa.

Temos um sem número de irmãos anônimos que há anos militam por uma sociedade de justiça e paz, um Brasil republicano e democrático. Embora não somem em nossas fileiras nesse processo eleitoral, são dignos do nosso respeito e consideração.

Ainda que trilhemos caminhos diferentes, todos estamos de mãos dadas em busca de um país que supere a fome, a miséria, a corrupção sistêmica, e o fazer político viciado no apego ao poder pelo poder, aos ganhos individuais em detrimento do bem comum, à apropriação da res pública para satisfação de interesses particulares.

Por essa razão, no exercício de nosso sacerdócio religioso, como pastores e pastoras, orientadores espirituais desse imenso contingente da população brasileira que se identifica como evangélico, é urgente reafirmar os compromissos que sempre nos caracterizaram ao longo de nossa história.

É tempo de reafirmarmos o compromisso com a justiça em sua máxima abrangência e a promoção de uma cultura de paz.

É tempo de reafirmarmos o compromisso com o Estado Laico: a liberdade de culto e crença, a isonomia entre todas as tradições religiosas – inclusive a defesa do direito de não pertencer a qualquer tradição religiosa, e o respeito às consciências individuais.

É tempo de reafirmarmos o compromisso com a unidade, na esperança de que o debate ao redor de um pleito eleitoral nos aproxime para a defesa de valores comuns, em vez de nos distanciar em razão de valores menores do que aqueles que nos unem: uma casa dividida não prevalece, nos advertiu Jesus.

É tempo de reafirmarmos o compromisso com a defesa dos direitos humanos e das minorias, a diaconia e o serviço, mantendo nosso coração alinhado aos profetas que nos ensinaram a abraçar a causa do órfão, da viúva e do estrangeiro, dos fracos e vulneráveis, dos que não têm vez e não têm voz.

Quando nos ensinou a governar, Jesus não nos apontou o caminho do trono. Colocou em nossas mãos uma bacia e uma toalha. Lavar os pés é o nosso jeito de exercer o poder.

É com base nesses compromissos, que expresso meu apoio à candidatura de nossa irmã Marina Silva. E sei que trago comigo, nessas poucas palavras, muitas vozes.

Marina é a proposta que ultrapassa os maniqueísmos, como: partido a contra partido b, classe média e elite contra pobres e miseráveis, ciência contra religião, o povo contra o governo. Marina sabe caminhar em meio às contrariedades e propõe uma forma criativa de lidar com as tensões do diverso.

Marina é a superação da política bipolar. Marina vem da floresta, nasceu no berço da (bio)diversidade. A complexidade é seu habitat natural.

Não devemos confundir flexibilidade, abertura ao diálogo, capacidade de inclusão, respeito às divergências, atitudes essenciais ao espírito democrático, com claudicância, inconstância e incoerência. Devemos temer mais a prepotência dos que pretendem governar o mundo com a caneta na mão, do que o espírito conciliador dos que injustamente são acusados de escrever programas de governo à lápis.

Os ataques e agressões devem ser esperados e infelizmente fazem parte do processo. Mas sabemos que só agride quem tem medo. Minha avó me ensinou que “só recebe pedra árvore que dá bom fruto”. Marina é uma árvore frutífera.

Marina representa a política para além de números e estatísticas. Está inserida na vida pública fundamentada em valores e princípios éticos, o que é próprio daqueles cuja consciência se conserva no temor a Deus, maior instância de juízo, pois único justo juiz.

Marina não é seguidora de Maquiavel, para quem os fins justificam os meios, mas seguidora de Jesus, que nos ensina a cuidar das coisas do reino de César sem sacrifício dos valores do reino de Deus.

Marina é uma liderança qualificada, seu compromisso com a justiça não é posicionamento de campanha. É sua biografia, sua história, seu serviço prestado ao país, que ganhou reconhecimento mundial.

Votamos em Marina não porque é nossa irmã de fé, mas porque a julgamos preparada para o cargo a que postula, tendo a história como testemunha de sua experiência e capacidade, com ampla legitimidade popular.

Votamos em Marina não porque “irmão vota em irmão”. Não estamos elegendo uma autoridade religiosa ou eclesiástica.

Votamos em Marina porque julgamos que reúne condições de conduzir o Brasil, não apenas na manutenção dos inequívocos avanços dos últimos anos, mas também e principalmente de maneira a qualificar, aprofundar e ampliar as conquistas que nos fazem cultivar a esperança de um futuro que possa incluir na mesa e na festa da abundância um número ainda maior dos nossos concidadãos brasileiros.

Por Marina, e junto com todos os que caminham ao seu lado, levantamos aos céus nossa oração, somando nossa voz ao profeta Amós, suplicando que nessa terra e nesse chão, “corra a retidão como um rio, e a justiça como um ribeiro perene!”

Sim, sabemos que Marina não é um Messias de saia.

Como todos nós, Marina é fruto de uma história, e honra suas origens. Mas seu projeto de futuro não é mais do mesmo pois de fato, não é hora de virar as páginas, é hora de mudar de livro.

[Pronunciamento no Encontro de Lideranças Evangélicas com Marina Silva]

fonte: Facebook

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Pedófilo relata tentativas de tratar a doença e o medo do descontrole

G1 teve acesso a depoimento exclusivo em que homem fala do transtorno.
Especialistas comentam a falta de tratamentos que podem evitar crimes.

Ilustrações de Mariana Leme
Ilustrações de Mariana Leme

Giovana Sanchez e Bruno Machado, no G1

Como foi a reação quando o senhor contou para a sua esposa?
– Nossa, ela ficou arrasada. Na hora, ela não falou nada. Ela não teve palavras. Eu consegui conversar com ela na semana seguinte, já na prisão.
– O senhor tem alguma religião? Procurou ou já tinha?
– Eu já tinha, eu já era evangélico. Ajuda não tinha pedido para ninguém. É muito difícil pedir ajuda. Se eu falasse “eu sou ladrão” era mais fácil. Pedófilo não, porque o pedófilo já é estigmatizado mesmo. É um criminoso. Não é um doente, é um criminoso.

Marcos* tem 52 anos, dois filhos adolescentes, uma esposa e um emprego. Ele também tem culpa – a culpa de quem cometeu um crime e teve que ir para a cadeia para perceber que precisava de ajuda. A culpa de quem tem uma doença que é associada quase automaticamente a um crime: pedofilia, termo médico para o desejo sexual por crianças.

Com a voz trêmula, Marcos agradece a Deus por ter a família perto. No depoimento obtido com exclusividade pelo G1, ele fala do medo de não conseguir se controlar, “de virar um pervertido”. O impulso começou na adolescência. “Eu achava que era normal para todas as pessoas.” Há cerca de dez anos, Marcos passou a acessar mais a internet e tudo piorou. “Fiquei um viciado nesse tipo de site. Como eu posso dizer? Eu virei um visitante, comecei a colecionar figurinhas. Comecei a ver vídeos de sexo envolvendo crianças.”

Rastreado pela Polícia Federal, Marcos foi preso em flagrante por ter vídeos de pedofilia em seu computador. Segundo dados da PF fornecidos pela ONG SaferNet Brasil, de 1999 a 2013 ocorreram 333 prisões por esse delito. Só no ano passado, foram 860 inquéritos e 134 prisões em flagrante por posse ou consumo de pornografia infantil.

Marcos ficou na cadeia por pouco mais de um ano – a pena por esse crime vai de 1 a 4 anos de prisão. Ao ser solto, procurou ajuda. “Era muito constrangedor. Nas primeiras sessões, até para falar com o médico era muito difícil”. Hoje ele toma quatro tipos de medicação (antidepressivos em geral), além de fazer acompanhamento psiquiátrico.

“Foi muito importante, tanto o tratamento ambulatorial quanto o psicológico. Eu era compulsivo, assistia aos vídeos compulsivamente, masturbação compulsiva também. Acabou tudo isso”, explica ele.

O desejo sexual por crianças é catalogado nos manuais médicos como uma doença da família das parafilias – transtornos de preferência sexual que incluem, por exemplo, incapacidade de consentir com o ato e humilhação do parceiro. A pedofilia afeta menos de 1% dos homens e entre 0,2% e 0,3% das mulheres – assim haveria algo como 997 mil homens e até 311 mil mulheres no Brasil. A doença é diagnosticada a partir dos 16 anos em pessoas que apresentam frequentes ou intensas fantasias, atividades ou práticas sexuais com crianças ou jovens menores de 13 anos.

O imaginário social geralmente toma todo agressor de crianças por pedófilo. Mas, segundo os médicos, nem todo pedófilo é agressor de crianças, e nem todo agressor de crianças é pedófilo.

Há dez anos, o psiquiatra Danilo Baltieri fez uma pesquisa para seu doutorado com agressores sexuais de crianças em uma penitenciária de São Paulo. De todos, 20% eram pedófilos diagnosticados. Segundo a literatura internacional, a porcentagem de transtornos mentais entre agressores sexuais de crianças pode variar de 30% a 60%. “Esses 20% [de pedófilos] estavam lá sem tratamento, sem abordagem, nada”, diz o psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina do ABC, que comanda o único centro que atende especificamente parafilias de forma voluntária e gratuita no Brasil.

“Não é um transtorno de fácil diagnóstico. É difícil, não basta uma única consulta”, explica.  O tratamento é feito inicialmente com psicoterapia em grupo de um tipo específico: a cognitivo-comportamental, com foco no comportamento “sexualmente desviado” do paciente.

No ambulatório do ABC, Baltieri atende de forma gratuita 20 pedófilos – 19 homens e 1 mulher. Alguns já foram presos por abusar de crianças ou por consumir pornografia infantil – e há quem não tenha cometido crimes. “Muitos indivíduos com pedofilia de fato não atuam, eles apenas fantasiam sexualmente e às vezes até se casam com mulheres. [...] A pedofilia não é crime, a pedofilia é uma doença. O que é crime é estupro de vulnerável, é o ato. Alguns indivíduos com a doença atuam contra a criança e são criminosos. [...] Existe a tendência a dizer ‘pedofilia é crime, denuncie’. Isso é um absurdo total que só prejudica os pacientes que precisam de tratamento”, explica Baltieri, que trata pedófilos há 15 anos.

A ideia de que o pedófilo é um doente e precisa passar por tratamento é compartilhada pela dona de casa Débora*, de 29 anos, do interior de SP. No final de julho, ela estranhou o fato de sua filha de nove anos ter recebido um convite de amizade no Facebook de um jovem que pedia para ela instalar um aplicativo de mensagens temporárias.

“Monitorei, tirei ela do Facebook e fiquei falando com ele como se fosse a minha filha. E ele se manifestou. Ele perguntava se eu já conhecia sobre sexo, se queria aprender, que ele queria fazer. Mandava fotos dos órgãos. Aí eu insistia em falar que era uma criança, porque tinha que caracterizar pedofilia, e ele falava que não tinha problema, porque já tinha visto todas as fotos e gostava dela assim mesmo. Foi aí que eu fiz todos os boletins de ocorrência e fui atrás da Polícia Federal”, afirmou ela em entrevista ao G1.

A mãe descobriu que o homem é um ex-aluno da escola da filha, em Piracicaba (SP), de 18 anos. Ela entrou em contato com a mãe dele e marcou um encontro com os dois. “Foi um encontro triste pra mim, a mãe dele estava ali, junto, muito desesperada, sem conseguir acreditar no que acontecia. Eu vendo o sofrimento daquela mãe, eu sendo mãe também, eu sofri muito”, disse Débora. “Ele precisa de tratamento. Porque ele não vai mudar da noite pro dia.”

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Marlon Teixeira: “Deus faz muito por mim, preciso agradecer”

Marlon Teixeira: contratos com a Avon, H&M e Carolina Herrera (foto: Lucas Lima)
Marlon Teixeira: contratos com a Avon, H&M e Carolina Herrera (foto: Lucas Lima)

título original: Marlon Teixeira no topo do mundo da moda

João Batista Jr., na Veja SP

Marlon Teixeira superou um câncer no mediastino, região central da caixa torácica, aos 3 anos de idade, e perdeu o pai um ano antes. Na adolescência, sonhou ser árbitro de futebol, influenciado pela família ligada ao universo da bola — seu avô paterno, Delfin Peixoto, venceu na chapa de Marco Polo Del Nero e assumirá a vice-presidência da CBF em 2015. “Mas virei modelo e comecei a trabalhar feito louco”, diz.

Aos 22 anos, ele é o top brasileiro mais bem cotado. Atualmente, figura em campanhas de grifes como Tommy Hilfiger, Avon, H&M e Carolina Herrera. “Passei por cada uma na vida, não tenho por que ser deslumbrado”, ponderou ele na semana passada em São Paulo, onde esteve a trabalho.

Quando vem de férias ao Brasil, gosta de surfar e frequentar a igreja evangélica Bola de Neve. “Deus faz muito por mim, preciso agradecer.”

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