Pelas barbas do bispo

Edir Macedo discursa na abertura do templo para bispos e pastores (reprodução)
Edir Macedo discursa na abertura do templo para bispos e pastores (reprodução)

Anna Virginia Balloussier, no Religiosamente

Para “seculares”, como evangélicos chamam quem tem outra ou nenhuma fé, o Templo de Salomão sempre foi uma caixinha de surpresas. Ou melhor, uma caixona para 10 mil fiéis, com 52 metros de altura (equivalente a um prédio de 18 andares), 105 de largura (duas vezes a Catedral da Sé) e 121 de comprimento (maior que o Maracanã).

Em junho, a mídia “secular” foi avisada de que não poderia fotografar ou filmar, nem agora nem nunca, o interior da nova obra da Igreja Universal do Reino de Deus.

Por meses a fio, acompanhei as obras do Templo de Salomão. Qualquer um podia: elas eram transmitidas em tempo real, 24 horas por dia, pela internet.

Mas só a fachada. Saber o que se passa lá dentro, onde as lentes não chegam, são outros quinhentos.

Mesmo após a abertura, quem sacar uma câmera –tanto faz se profissional ou “vale-selfie” de celular– estará “desviando do objetivo único da visita, de contemplar, meditar, orar a Deus e ouvir Sua Palavra, e ainda distraindo outros visitantes”, segundo o departamento de comunicação da Universal.

Ver com os próprios olhos também não é para todos, já que a entrada é controlada e, até segunda ordem, barrada à imprensa.

Nesta quinta (24), a igreja convocou alguns veículos de comunicação para falar sobre o projeto iniciado em 2010. Éramos cerca de 15 jornalistas, contando dois colegas de fora (da espanhola Efe e da inglesa Reuters).

Para responder nossas perguntas, dois assessores de imprensa, o pastor Miguel Lacerda, que falaria sobre a parte “espiritual”, e o arquiteto “secular” Rogério Silva de Araújo, há 16 anos cuidando de construções da igreja –antes, projetou uma fábrica da Volkswagen em Resende (RJ) e outra da Brahma na capital fluminense.

Obreiros tomam chuva enquanto esperam para entrar no templo (foto: Carlos Cecconello/Folhapress)
Obreiros tomam chuva enquanto esperam para entrar no templo (foto: Carlos Cecconello/Folhapress)

Por onde começar?

Na próxima quinta (31), acontece a inauguração oficial da réplica “made in Brás” que a Universal fez para a construção bíblica destruída duas vezes em Jerusalém, a última 1944 anos atrás.

Espera-se uma longa fila de autoridades no dia (a Universal não divulgou quem). A presidente Dilma Rousseff já confirmou presença.

O templo, que tem isenção de IPTU (o que é de praxe para qualquer igreja do país), vai restringir o acesso a convidados. A imprensa assistirá a tudo por um telão do lado de fora, numa espécie de “curral”.

Imagens internas, portanto, só as fornecidas pela Record, emissora que o bispo Macedo comanda desde 1989. Uma questão de organização, diz a Universal, ou flashes ricocheteando pelo recinto podem ficar ao Deus dará.

Jornalistas não poderão circular também pela parte externa no espaço, onde a Universal montou o Tabernáculo (simulação da tenda que judeus liderados por Moisés usavam como centro de oração) e fincou 12 oliveiras trazidas do Uruguai. Comuns em Israel, essas árvores dão azeitona, que gera azeite, mencionado na Bíblia como sinal do Espírito Santo.

Não misture água e azeite: fiéis poderão, sim, conhecer o templo. Só não quando bem entenderem, ao menos por ora.

Por tempo indeterminado (na coletiva falou-se em “semanas”, alguns pastores dizem 2015), entrar lá exigirá credencial. E só consegue uma quem embarcar nas caravanas da Universal, pagando por ônibus de turismo contratados pela igreja. Para agosto, está difícil descolar passagem. Quase tudo esgotado. Sair do centro de São Paulo custa R$ 45.

Escrevi sobre essas regras de acesso, bem como a implantação de detectores de metais nas portas e o veto a tablets, celulares, camisas de time, decotes e bonés, na semana passada.

A BARBA DO BISPO

A inauguração está sendo feita em parcelas –se você passar pela avenida Celso Garcia qualquer dia à tarde, verá centenas de obreiros (nome para os ajudantes do pastor) esperando a hora dos portões abrirem, com o uniforme azul-marinho da Universal.

Alguns ambulantes também cercam o aspirante a novo cartão-postal religioso de São Paulo, que não terá nenhum tipo de comércio, nem para venda de comida, de acordo com a assessoria. Fiel da Universal, João vendia camisas em inglês dando “welcome” ao “extraordinary” e prometia versões do tipo “Templo de Salomão: eu fui!” em “italiano, espanhol, francês e angolano”. Ontem, acabou perdendo boa parte do material para uma batida policial, o “rapa”.

Um barbado Edir Macedo, com quipá na cabeça, abriu o primeiro dia de pregação no sábado passado, 19 de julho, com deferências a Deus, “o todo-poderoso de Israel”.

No dia 14 de janeiro, estreou o novo visual no Instagram, em foto na qual sua mulher, Ester, cortava suas unhas com um alicate.

Em vídeo gravado em 2013 e publicado em abril no YouTube, Macedo anuncia o compromisso de não aparar os pelos faciais.

“Não vou fazer mais a barba, até a inauguração. Alguns bispos também estão fazendo isso. Você vai ver a cara da gente estranha.”

Durante a mesma pregação, ele pede “uma oferta especial extra” dos fiéis para o templo, então 55% concluída. E lista os custos.

Iluminação, R$ 22 milhões. R$ 2.200 por cada uma das 10 mil cadeiras. Pelas pedras israelenses usadas no Brás, 30 milhões. “Nós estamos fazendo tudo do melhor.”

SEM DILMA

O bispo diz que o templo não pode ser feito “por pessoas que nada tem com a nossa fé”. Por isso, não quer patrocínio de qualquer governo, municipal, estadual ou federal.

“Não vou pedir ajuda a Dilma. Não vou pedir. Se eu chegar lá, Dilma, eu sei que o Banco do Brasil tem verba para esse tipo de coisa. Mas a gente tem que botar lá na porta: Banco do Brasil. Eu não quero isso.”

A contribuição abrirá caminhos, diz o bispo. “Deus vai abençoar sua vida economicamente. Nós estamos com esse propósito. Vocês têm que ser ricos, prósperos.”

Na reunião desta quinta, os assessores da Universal estimaram o custo do templo em R$ 680 milhões, 100% bancado com doações.

QUERO SER GRANDE

O quarteto que conversou com a imprensa desmentiu boatos (como o de que Edir Macedo teria mandado construir um túmulo para ele no local) e divulgou números grandiosos.

São, no total, 100 mil m² de área construída, o equivalente a dois parques Trianon.

E haja saco de cimento –mais precisamente 145 mil. Calcula-se 2.600 toneladas de ferro gastas na réplica.

Com “tecnologia alemã produzida na Itália e desenvolvida em Portugal”, a iluminação da fachada reproduz a “cor amarelada do entardecer” em Jerusalém.

Eles importaram 40 mil m² de pedras de Hebron, cidade de Israel, que seriam do mesmo tipo encontrado no Muro das Lamentações –o último vestígio do segundo templo de Jerusalém. Foi lá que Jesus derrubou a mesa de cambistas e vociferou contra quem fazia da “casa de oração” um “covil de salteadores”, segundo a narrativa bíblica.

A versão paulistana não terá nenhum dos símbolos clássicos da Universal, como o letreiro “Jesus Cristo é o Senhor”. As portas estarão abertas para qualquer um: evangélico, católico, espírita, muçulmano etc.

Uma exceção: no pátio, uma bandeira com o símbolo da igreja, uma pomba branca dentro de um coração vermelho. A mensagem, segundo o pastor Miguel, é: “Aberto a todos, mas construído pela Igreja Universal”.

Ao lado, flâmulas do Brasil e de Israel. Mais atrás, uma bandeira para cada um dos países em que a Universal atua hoje (“mais de cem”).

A suntuosidade do Templo de Salomão, afirma o pastor Miguel, tem um objetivo: fazer com o que o visitante saia de lá inspirado. E pense com a Universal: “Poxa, é grande. Quero que minha vida seja assim”.

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Bruna Marquezine a Neymar: “Estou orando por você e por toda seleção, que vai seguir forte!”

título original: Marquezine manda mensagem para Neymar: “seu sonho não acabou”

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Publicado no UOL

A atriz Bruna Marquezine usou seu perfil no Instagram para mandar mensagem de apoio para Neymar. Quase 24 horas após a lesão do atacante ser confirmada, ela mandou uma mensagem para o atleta.

“A ficha ainda não caiu! Mas eu não quero falar de sofrimento, nem da nossa dor, nem dessa injustiça toda! Quero só dizer que você é amado demais! Te lembrar que o Deus que nós servimos é milagroso e vai te curar de uma maneira inexplicável, que a palavra final é Dele, e não de médico nenhum! Não foi nada irreversível! Você é novo, ainda vai realizar todos os seus sonhos, alcançar muitos objetivos, porque é merecedor e sua luz nunca vai acabar, porque ela vem de Deus! Ele te ama muito! Agora vamos que vamos, você sempre diz que tudo passa, e é verdade ! Você é forte e Deus nunca dá uma cruz maior do a gente possa aguentar, Ele acredita que você pode passar por isso e Ele tem planos muito maiores pra você ! Eu creio nisso ! Estou orando por você e por toda seleção que vai seguir forte! Você ajudou muito a seleção a chegar onde está hoje e se Ele quiser vamos ser campeões! Por você e pra Glória de Deus! O seu sonho vai ser realizado, não acabou! Foi só interrompido! Eu amo você meu preto e to com você até o fim! Beijos, sua Bru”, escreveu.

Antes da longa mensagem para Neymar, a namorada do atacante ainda citou uma passagem da Bíblia.

Bruna acompanhou a dor de Neymar direto do estádio. A atriz esteve no Castelão ao lado de Rafaella, sua cunhada, para ver a partida do Brasil. Esse foi o terceiro duelo da Copa em que a atriz esteve nas arquibancadas.

A atriz não foi a primeira pessoa próxima a mandar uma mensagem pelas redes sociais para Neymar. Antes de Bruna, o pai de Neymar e Rafaella, sua irmã, também haviam postado frases de apoio.

Após o choque com Zuñiga, que lhe rendeu uma fratura na vértebra, Neymar passou por exames ainda em Fortaleza e teve constatado que não poderia jogar na Copa.

Com a coluna imobilizada por uma cinta, o atacante dormiu na Granja Comary e foi para o Guarujá, neste sábado, para seguir seu tratamento.

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Dr. Rey vira sensação em bastidor do PSC

Anna Virginia Balloussier, na Folha de S.Paulo

O deputado Marco Feliciano congela o sorriso para o selfie. “Olha como vai sair na reportagem: os dois maiores héteros e o homem que toca todas as mulheres”, diz na convenção nacional do Partido Social Cristão, o PSC, que tomou a Assembleia Legislativa de São Paulo com bandeiras nas cores verde e branca e o logotipo cristão do peixe.

Ele abraça o colega Jair Bolsonaro e Dr. Rey, aspirante à sua primeira vaga na Câmara dos Deputados. A foto é tirada a pedido da repórter, com o celular dela, pelo cirurgião plástico conhecido por “Dr. Hollywood”, reality show que acompanha sua vida em Beverly Hills.

Candidato à reeleição, Feliciano avalia estar muito bem acompanhado nesta manhã de sábado, 14 de junho. “Uau, temos uma estrela hollywoodiana! Isso dá um upgrade no partido. Nós temos aí um Bolsonaro em São Paulo. O filho do Jair Bolsonaro é candidato pelo partido.”

Veja vídeo

A “defesa da família” é o mínimo denominador comum entre o ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos e dois neófitos na política, Dr. Rey e Eduardo Bolsonaro, policial federal formado em direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e caçula do polêmico deputado do PP-RJ.

O trio é candidato a engrossar a bancada de deputados federais do “único partido que não tem vergonha de falar de Deus”, como define o cirurgião plástico, sacando uma bandeirinha do Brasil do bolso do terno preto de risca de giz.

Lá fora, um caminhão de som toca “Hotel California”. Fazendo as vezes de cabo eleitoral, garotas de cabelo escovado, calça preta justa e salto alto vestem a camisa com o nome de Dr. Rey e o de Maria Melilo, campeã do “Big Brother Brasil” em 2011 se filiou ao PSC após superar um câncer no fígado provavelmente causado pelo uso de anabolizantes. Segundo sua assessoria, ela deve concorrer a deputada estadual.

Hoje, a legenda tem 12 congressistas na Câmara dos Deputados, como Feliciano (SP) e Ratinho Jr. (PR), e um senador, Eduardo Amorim (SE).

Para 2014, a sigla lança um candidato à Presidência. Everaldo Dias Pereira, o Pastor Everaldo, da Assembleia de Deus (Ministério Madureira), sobe no palanque, pede “um copinho d’água para molhar o bico” e deságua uma enxurrada de críticas ao atual governo, “ausente, omisso e incompetente”.

“A minha mãe se chama Dilma, mas é uma santa mulher”, diz o presidenciável, “nascido literalmente na igreja”, sobre a mulher que o deu à luz no dia 22 de fevereiro de 1956, após sentir as dores do parto num culto evangélico. Em 2010, o PSC estava na coligação que elegeu Dilma Rousseff (PT).

Pastor Everaldo aparece como terceiro colocado em pesquisa Datafolha feita no começo de junho, com 4% das intenções de voto -tecnicamente empatado com Eduardo Campos (PSB), que ficou com 7% na sondagem. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, o candidato do PSC pode estar com 6%, e o ex-governador de Pernambuco, com 5%.

Em entrevista à Folha, o cientista político Fernando Abrucio comparou a ascensão do pastor à de Enéas Carneiro em 1994, presidenciável de direita que aproveitava seus poucos segundos de propaganda na TV para bater na mesa e exclamar: “Meu nome é Enéas”. “Ele [pode] ser um fenômeno como o Enéas [que acabou em terceiro lugar].”

Everaldo rechaça o paralelo. “Com todo o carinho e respeito, até o biotipo é diferente.” Também se incomoda como rótulo de nanico. “Ninguém chama o PV, o PC do B assim, e somos maiores do que eles.”

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Grupo multirreligioso de juristas é criado para combater intolerância

Contra o preconceito. Durante encontro, representantes religiosos decidem pela criação de novo grupo. - Divulgação
Contra o preconceito. Durante encontro, representantes religiosos decidem pela criação de novo grupo. – Divulgação

Advogados irão agir conjuntamente em casos de denúncias de discriminação

Juliana Prado, em O Globo

RIO – Representantes de várias religiões decidiram criar um grupo de juristas para defender fieis das mais variadas matizes de casos de preconceito e intolerância. A decisão foi anunciada por integrantes de Igreja Católica, Umbanda, Candomblé, Budismo, Islamismo e Judaísmo. O grupo foi recebido num templo de candomblé, localizado no Bairro de Bonsucesso, na Zona Norte, nesta segunda-feira. A ideia surgiu depois que o juiz Eugênio Rosa, da Justiça Federal, afirmou, em sentença emitida a um pedido de liminar, que umbanda e candomblé não são religiões.

A polêmica ainda não se encerrou, já que está em andamento um processo em que a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa e a Associação Naconal de Mídia Afro pedem a retirada da internet de 16 videos ofensivos à umbanda e ao candomblé. Na última sexta-feira, o grupo teve uma vitória parcial, depois que o desembargador Roy Reis Friede determinou, via liminar, que o Google retire o material do ar sob pena de pagamento de multa de R$ 50 mil diários. No entanto, a decisão final sobre o mérito do processo cabe ao mesmo juiz, que já negou esse pedido no início do processo.

O interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, Ivanir dos Santos, representante do candomblé, celebrou o caráter “inédito” da criação do grupo de advogados para defender os direitos das manifestações religiosas – tenham elas o cunho que tiverem. Ele conta que a ideia surgiu de uma conversa com representantes da Igreja Católica e começou a ganhar força nas últimas semanas. O grupo também irá acompanhar o desenrolar do atual processo na Justiça Federal.

- Vamos manter a mobilização e nossa ofensiva junto ao Judiciário. Com o grupo, começaremos a monitorar outras agressões e casos de preconceito que possam surgir. Finalmente, poderemos agir de forma unida – afirma Ivanir, emendando, ainda, que a investida de se reunir juristas em torno de várias crenças é inédita “no mundo”.

A tentativa das lideranças é mais ambiciosa e terá um obstáculo pela frente: trazer para o debate sobre intolerância religiosa representantes dos evangélicos, que ainda não sinalizaram positivamente neste sentido. Alguns dos vídeos acusados de desrespeitar umbanda e candomblé – e alvos do processo judicial em curso – têm como cenário, justamente, templos neopentecostais. Ivanir dos Santos declarou que já se abriu uma porta ao diálogo com algumas lideranças, mas ainda não houve avanço em definitivo. Ele sustenta que, com a decisão liminar do desembargador, as esperanças de uma vitória final na justiça aumentam.

- Com a decisão do desembargador uma luz se acendeu. Mesmo com o processo voltando para o mesmo juiz, acreditamos que temos uma chance grande de sairmos vitoriosos. Não somos contra a liberdade de expressão, mas contra o ódio e o preconceito (que seriam expostos nos vídeos).

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Cristãos aproveitam jogos da Copa para evangelizar torcedores na terra do Candomblé

Para integrantes da Igreja Batista Missionária da Independência e da Convenção Batista Brasileira, a Copa é um espaço de convivência entre as diferenças - André Miranda / O Globo
Para integrantes da Igreja Batista Missionária da Independência e da Convenção Batista Brasileira, a Copa é um espaço de convivência entre as diferenças – André Miranda / O Globo

Arena Fonte Nova recebe grupo inusitado que não está ali para ver os jogos, mas para passar mensagem religiosa e levar paz aos estádios

André Miranda, em O Globo

SALVADOR — Era só um torcedor gritar “A taça é de Portugal, ô pá”, para se ouvir em resposta que não era nada daquilo. “A taça é do Senhor Jesus”, repetiam os voluntários da Convenção Batista Brasileira, tudo isso numa das entradas da Arena Fonte Nova, com as estátuas dos orixás do Dique do Tororó ao fundo. Não muito longe, também ao lado do estádio, outro grupo, este da Igreja Batista Missionária da Independência, distribuía panfletos com o título “Estratégia para a vitória”, enquanto eram acompanhados pelo Sal da Terra, um bloco bem baiano, mas nada terreno. É a Copa servindo de mote para passar uma mensagem cristã, numa Salvador mais conhecida por seus terreiros de candomblé.

As ações das duas igrejas reuniram quase 500 seguidores para cada dia dos dois jogos já realizados em Salvador, o primeiro na última sexta, entre Espanha e Holanda, e o segundo nesta segunda-feira, entre Alemanha e Portugal. O grupo da Convenção Batista Brasileira usava camisas amarelas onde se lia na frente a frase “Jesus Transforma” atrás os nome e número “John 3.16″, em inglês mesmo para chamar atenção dos turistas. Trata-se de um versículo do Evangelho de São João, um que começa dizendo que “Deus amou o mundo”.

Eles apostavam em atividades lúdicas convidando os torcedores que passavam a fazer embaixadas, tentar acertar o gol numa mini-trave feita de canos ou pintar o rosto nas cores dos países que participariam dos jogos. Também distribuíam leques — essenciais para o calor “do capeta” que fazia em Salvador — com sugestões de frases em português, entre elas “Deus te abençoe!”, e alguns ensinamentos sobre as ações de Cristo.

O programa da Igreja Batista se chama TransCopa e tem sido replicado em todas as cidades que servem de sede para a competição. Durante a partida entre Alemanha e Portugal dos 230 presentes na capital baiana, ninguém assistiu à partida: eles esperaram o jogo começar para, depois, ajudar na limpeza do entorno da Arena Fonte Nova.

— Nós estamos aqui para incentivar a paz — explicou Miguel Calmon, coordenador da TransCopa Salvador. — Temos gente de vários estados participando. Já fizemos isso na Copa das Confederações, no ano passado, e certamente estaremos no Rio, para as Olimpíadas de 2016.

Enquanto a turma da TransCopa brincava com as turistas de um lado da Fonte Nova, o outro lado da arena foi tomado pelo batuque do Sal da Terra. O bloco, organizado pela Igreja Batista Missionária da Independência, já existe há 15 anos e sempre desfila em eventos populares de Salvador. O grupo foi representado por mais de 200 pessoas, puxado por porta bandeiras que levavam os símbolos de Brasil, Alemanha e Portugal.

Logo atrás, alguns de seus seguidores faziam coreografias e outros caprichavam nos instrumentos. Os turistas, naturalmente, paravam para tirar fotos a toda hora e, invariavelmente, captavam em suas lentes as mensagens religiosas que o Sal da Terra queria mostrar em cartazes anti-aborto, contra a prostituição infantil, além de pedidos para evitar o uso de drogas e pela paz.

Eles distribuíam panfletos em que definiam sua “estratégia para a vitória”: “permanecer naquilo que Deus ensina em sua palavra”. Curiosamente, o panfletos estavam decorados com sombras de jogadores de vôlei e não de futebol. Mas, tudo bem, a gente aprende no catecismo que perante Deus os esportes são todos iguais.

— Nossa ideia é trazer a mensagem de Jesus para as pessoas — explicou o pastor Ubiratan Gomes, da Igreja Batista Missionária da Independência. — Esperamos que todas as nações que estejam aqui sejam abençoadas.

Nesse clima de paz, os representantes dos dois grupos batistas não se incomodaram em falar sobre as religiões afro-brasileiras, comuns em Salvador e cujas cerimônias costumam chamar a atenção dos turistas estrangeiros. Tanto para um quanto para o outro, a Copa é um espaço de convivência entre as diferenças.

— A religião é uma escolha da pessoa. Não vemos rivalidade. Mas é importante que todos conheçam um pouco de cada religião para melhor optar —afirmou Miguel Calmon.

— Salvador tem todas as vertentes religiosas e nós respeitamos. Por isso nossa ação aqui é passar um ensinamento, não impor uma crença — concluiu o pastor Ubiratan.

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