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Prece pela paz

Ricardo GondimPaz-Palestina-Israel

Meu Deus, quanto furor. Narinas não cessam de resfolegar ira em teu nome. Não basta o que já se horrorizou em nome de Jesus? Não há como esconder os navios com almas agrilhoadas. Espada e cruz se misturaram com o sangue de inocentes. Negociaram vidas sob o manto da fé. A fama do nazareno deu lucro aos senhores feudais. O silêncio religioso em chacinas, massacres e perversidades fala mais alto que todos os sermões juntos.

Humanos não podem se acostumar quando alguém destila peçonha, alegando te defender.

Por que alguns se sentem convocados a arvorar certezas com tanto ranho? O que falta para que peguem em armas para te advogar? Teólogos tentam te confinar a uma ideia. Nos compêndios, nas sumas, tu não passas de substantivo abstrato. Assim, ao construírem um deus menor, teu altar fica dois pavimentos mais baixo no panteão dos ídolos. Embora saibam que tu não aceitas os limites de suas definições, os áulicos sacerdotes insistem em te diminuir ao tamanho do incitador de contendas.

Rogo: perdoa os que projetam em ti um narciso cósmico.
Peço: anula a influência dos que se fiam em teu furor para justificar a própria perversidade.
Imploro: desconsidera os medíocres que tentam te cooptar como parceiro.
Insisto em suplicar: sê misericordioso com os que acreditam na força do medo e da coerção como caminho para a paz.

Boníssimo,

Transforma a arena em um prado;
a trincheira em uma horta;
o tanque em um arado;
o estrondo da guerra em uma canção de ninar.

Traze à lembrança de homens e mulheres de bem o que pode suscitar esperança;
Ressuscita sonhos mortos, precocemente, no coração da moça e do rapaz;
Reescreve em uma tábua de carne a utopia do cordeiro e do leão deitados na relva;
Para o sol no meridiano até que haja cura entre as nações.
Faze com que justiça e paz se beijem.

Nosso pecado é monstruoso.
Nossa história tem sido feia.
Nosso amanhã não precisa de um milagre teu.
Carecemos de nos tornar o milagre que esperamos.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

O milagre de Neymar

Neymar-chorando-em-video-size-598Tati Bernardi, na Folha de S.Paulo

Meu pai, que, cansado “das palhaçadas desse país”, tinha resolvido torcer pra Alemanha, me ligou na sexta à noite inconsolável “quebraram o menino”. Minha mãe, que acha que a Copa está comprada (legal que essa pessoa misteriosa que comprou a Copa adora uma prorrogação!), apareceu aqui em casa no domingo “cê viu a declaração dele que linda? Aqueles olhos verdes tão puros, cheios de lágrimas”. Os dois vão torcer hoje, como loucos, pra seleção brasileira.

Meu namorado, que desde o primeiro jogo falava “tô mais preocupado com as eleições”, me pediu agora “vamos ver o jogo tranquilos, tá? Não chama uma megagalera porque eu tô tenso”. No Facebook, pude ver intelectuais céticos e publicitários irônicos virando péssimos poetas. Teve o que fez uma tentativa de aliteração “Ney mar, nem areia, nem morto, nem machucado, nem brinca, nem acredito…”. Teve o que pluralizou “acordamos fraturados, mas nosso sonho não acabou! Hoje somos todos Neymar!” e teve o que caprichou na autoajuda sem medo de ser feliz “é nas adversidades que encontramos uma força gigante e vitoriosa e blá-blá-blá”.

Comentaristas, obcecados com datas (o que eu acho chatérrimo), pararam de relembrar a cor da meia do meio-campo no dia 15 às 17h de 1978 e correram pra fazer locução de videozinhos emocionais. É brega, mas é melhor que comparar a velocidade do perdigoto do Messi com a aceleração do escarro do Maradona em 94.

Neymar não foi o melhor da Copa, não foi o artilheiro e, também estou muito triste, não joga hoje. Mas vencer o pessimismo e o cinismo do brasileiro já fez dele um mito e o grande herói deste Mundial. A fratura de Neymar botou ereta a fé de muita gente. Ver um menino caído no chão fez levantar até os marmanjos embotados. Putz, olha eu também tentando falar bonito.

Sem remédio, clínica usa ‘palavra de Deus’ para tratar viciados

foto: Milena Crestani/Folhapress

foto: Milena Crestani/Folhapress

Milena Crestani, na Folha de S.Paulo

Em barracos de madeira e lona, sem nenhum profissional da saúde nem remédios, uma igreja evangélica de Campo Grande (MS) oferece “tratamento” gratuito para dependentes químicos.

O idealizador da Clínica da Alma, mantida com doações, é o pastor Milton Marques, um ex-viciado em drogas.

Atualmente, cerca de cem “pacientes” de cidades de Mato Grosso do Sul e de outros Estados vivem na chácara, a 20 km do centro da cidade.

Todo o “tratamento” é baseado na fé e nos “dizeres da Bíblia”. “Não tem lógica dar remédios para um dependente e esperar que ele cuide de tomar na hora certa”, afirma o pastor.

Tratamento sem remédio

Homens de diversas idades chegam ao local indicados por parentes ou após serem encontrados nas ruas por fiéis da Igreja Tabernáculo da Glória.

“São pais que não veem os filhos há anos. Perderam emprego, casa e estavam morando na rua”, diz o pastor, que começou abrigando-os na sede da igreja, no centro. “Mas lá muitos saíam escondido e continuavam com as drogas.”

O Ministério Público Estadual instaurou um inquérito em abril para apurar se há violação aos direitos dos dependentes, após denúncias de cárcere privado e de que o pastor ficaria com metade do salário de ex-viciados que conseguem emprego.

Apesar de dizer que todos são livres para sair da chácara, Marques afirma que, quando alguém tenta ir embora, os colegas o impedem.

Mark Diego da Silva, 23, por exemplo, tentou escapar três vezes nos primeiros dias, quando chorava e tremia muito. “A vontade é de sair correndo. Nessa hora, as pessoas que estão há mais tempo aqui ajudam bastante.”

“Cheguei a comer lixo e não reconhecia que era viciado. Tudo mudou quando eu conheci a palavra e o pastor Milton”, afirma o ex-locutor Marcelo Renato Guterres, 42.

ROTINA

O dia a dia dos dependentes se resume a orações e cuidados com a chácara. Foram eles, inclusive, que construíram os barracos dos dormitórios em chão de terra batida e as duas casas de alvenaria, tudo com materiais doados.

Às 6h, os monitores –ex-viciados que estão há mais tempo no local– tocam o sino que chama para o culto.

Depois do café, todos cuidam da horta e dos animais ou fazem tarefas domésticas. Às 11h, há uma pausa para descanso e o almoço.

À tarde, a rotina se repete até as 16h, hora do banho frio antes das orações e do estudo da Bíblia. Duas vezes por semana, o futebol é liberado.

Há três anos, o CRP (Conselho Regional de Psicologia) denunciou a falta de profissionais da saúde no local.

“O tratamento não segue o que é preconizado pelo SUS e não há informação sobre pessoas que tenham se recuperado”, diz Carlos Afonso Marcondes Medeiros, que presidia o CRP-MS à época.

Segundo o pastor, as condições da chácara não são ideais, mas ele indaga: “Seria melhor se eles ainda estivessem na rua se drogando?”

Milena Crestani/Folhapress

foto: Milena Crestani/Folhapress

Pra quem tem fé

fegifEd René Kivitz

Fui abraçar um amigo que havia sepultado o pai dias antes. Suas palavras de ânimo e gratidão a Deus iluminaram meu coração. Contou de como o pai chamou os filhos e pediu perdão, expressou sua tristeza por não ter sido melhor pai, reiterou seu amor pela mãe deles, e os encorajou a seguir em frente superando um passado que teria tudo para deixar marcas desastrosas nos meninos.

Sem aquela conversa e aquele momento de reconciliação o luto teria sido mais pesado, a história familiar não teria sido redimida, as memórias permaneceriam cobertas pela poeira fina das inadequações do pai que estava de partida. Meu amigo estava grato a Deus pela maneira como seu pai havia se despedido dos seus e da vida. Seu comentário foi simples, “Deus nos visitou naquele hospital”.

Para os menos afeitos às questões da fé, o discurso do meu amigo pode soar apenas como esforço de fazer fechar a conta após a morte do pai, uma espécie de auto-engano para receber consolo de sua própria consciência iludida a respeito de um Deus ausente (que nunca esteve naquele hospital), inútil (afinal, deixou o homem morrer), ou mesmo inexistente (criação humana para remediar sua covardia diante de um universo vazio de sentido).

Mas enquanto abraçava meu amigo novamente experimentei a consciência da fé. Esperar de Deus que sejamos poupados do trivial da vida e das realidades comuns a todos os mortais, isso sim é fantasia, ilusão e covardia. Negar a realidade de Deus porque não encontra evidência de sua presença, isso também é uma forma de buscar sentido, diferente apenas na direção percorrida pelos que têm fé: afirmar seu oposto para tentar encaixar as peças soltas de um universo caótico.

A fé não é um recurso para mover Deus em nosso favor. Não é o botão que uma vez acionado possibilita que sejamos blindados das más notícias e fatalidades. A fé é a experiência de quem atravessa a vida sob os olhos de Deus e sua generosidade mais que suficiente. A diferença entre os que invocam a presença de Deus em suas circunstâncias não se justifica necessariamente pela súplica para que os problemas que causam dor sejam solucionados. Deus é invocado e convidado para a caminhada porque a fé é a convicção de que sua presença no vale da sombra da morte faz toda a diferença.

Aquele que tem fé não pretende evitar a morte, mas com certeza colocar diante da morte a face do Deus que ilumina toda a escuridão. Não quer fugir das dores que o sagrado direito de viver impõe, mas afirmar que a morte e suas trevas malditas não determinam o tom da existência e não têm o poder de fazer com que sua ferrugem encardida embace o passado e pinte o futuro com sombras e tons de cinza.

A fé não nos exime de atravessar o vale da sombra da morte. Mas com absoluta certeza acende uma luz no vale, e faz com que a travessia não seja marcada por medo, angústia, tristeza e solidão, mas por reconciliação, comunhão e esperança de ressurreição.

fonte: Facebook

A graça das coisas

alegria

Publicado por Piero Barbacovi

Elienai Cabral Jr. uma vez falou: Se você não for salvo pela graça, será por ela escandalizado.

Jesus sentava-se à mesa com qualquer um que queria estar presente, inclusive os que eram banidos das decentes casas. Compartilhando da refeição, eles recebiam consideração em vez da esperada condenação. Um perdão misericordioso em vez de um apressado veredicto de culpa. Graça admirável em vez de desgraça universal. Eis aqui uma demonstração muito prática da lei da graça – uma nova chance na vida.

Jesus afirma, com efeito, que o Reino de seu pai não é uma subdivisão para os justos nem para os que sentem possuir o segredo de Estado da salvação. O Reino não é um condomínio fechado elegante com regras esnobes a respeito de quem pode viver ali dentro. Não; ele é para um elenco mais numeroso de pessoas, mais rústico e menos exigente, que compreendem que são pecadores porque já experimentaram o efeito nauseante da lua moral. Homens e mulheres que são verdadeiramente preenchidos com a luz são aqueles que fitaram profundamente as trevas da sua existência imperfeita.

O problema é que a maioria aceita a graça na teoria, mas a nega na prática. Dobrando-se aos poderes deste mundo, a mente deformou o evangelho da graça em cativeiro religioso e distorceu a imagem de Deus à forma de velho chatonildo, sempre de cara emburrada. O amor foi reprimido e a liberdade, acorrentada.

Nossa espiritualidade começou a começar no eu, não em Deus. Nossa fissura por impressionar a Deus, nossa luta pelos méritos de estrelas douradas, nossa afobação por tentar consertar a nós ao mesmo tempo em que escondemos nossa mesquinharia e chafurdamos na culpa são repugnantes para Deus e uma negação aberta do evangelho da graça.

Toda geração cristã tenta minimizar o cegante brilhantismo do significado do evangelho, porque ele fica parecendo bom demais para ser verdade. Pensamos que salvação pertence aos decentes e piedosos, àqueles que permanecem a uma distância segura dos becos da existência, cacarejando seus julgamentos sobre aqueles que a vida maculou.

A Boa Nova significa que podemos parar de mentir a nós mesmos. O doce som da graça admirável nos salva da necessidade do auto-engano. Pois a Graça proclama a assombrosa verdade de que tudo é presente. Tudo de bom é nosso não de direito, mas meramente pela liberalidade de um Deus gracioso. Embora haja muito que podemos ter feito para merecer – nosso diploma e nosso salário, nossa casa e nosso jardim, uma garrafa de boa cerveja e uma noite de sono caprichada – tudo é possível apenas porque nos foi dado tanto: a própria vida, olhos para ver e mãos para tocar, mente para formar ideias e coração para bater com amor.

Não há coisa alguma que algum de nós possa fazer para herdar o reino. Devemos simplesmente recebê-lo e aproveitá-lo como criancinhas. E criancinhas não fizeram coisa alguma. As crianças são nosso modelo porque não têm a menor pretensão ao céu. Se estão mais próximas de Deus é porque são incompetentes, não porque são inocentes.
A igreja deve estar constantemente consciente de que sua fé é fraca, seu conhecimento incompleto, sua profissão de fé hesitante, de que não há um único pecado ou falha do qual ela não seja de um modo ou outro culpada. E embora seja verdade que a igreja deva sempre se dissociar do pecado, ela não pode jamais ostentar qualquer desculpa para manter qualquer pecador à distância.

Porque meu encontro com Cristo não me transformou num anjo. Porque a justificação pela graça significa que meu relacionamento com Deus foi consertado, não que me tornei o equivalente a um paciente sedado em cima de uma mesa.