Creio em Ti, Senhor… até a epifania

epifania

Publicado por Lou Mello

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”

Clarice Lispector

 

Creio em ti, Senhor

Deus é amor, pai, senhor…

Já tive fé de menino inocente, daquelas capazes de mover montanhas, embora nunca tenha cometido tal desatino. Nunca vi, se bem me lembro, mas tinha certeza dos milagres, sinais e maravilhas.

Não sei em qual proporção, mas defendi Deus com unhas e dentes muitas vezes. Em grande parte delas, fiz sem esperar reciproca ou contrapartida. Enquanto o exaltava, podia estar sem trabalho, e sem trabalho, não havia dinheiro para levar uma flor para  minha amada ou um chocolate para meus filhos, muito menos para manter as contas em dia. Tal era a certeza de que um dia veria a epifania com esplendor do criador pairando diante de mim e nada disso teria a menor importância.

Os dias, semanas, meses e anos foram passando, um abismo chamando outro, tempestades sem chuvas serôdias, manhas sem alvorecer, tardes de ocasos pobres e noites sem luar. Lembro-me de um amigo pastor falando durante bom tempo de quase todas as coisas boas que os evangelhos prometiam me dar e da minha resposta em uma frase a ele: “Sem dúvida, gostaria de receber tudo isso agora se Deus quisesse me dar”.  Mas nunca aconteceu.

Minhas palavras de refrigério agora são as tais consolações dos vira-latas. “Deus é Deus da vida e da morte”. “Não há lideres verdadeiros que nunca tenham sofrido.” “O amor de Deus não pode ser entendido pelo homem.” E assim vai.

Me pego tramando, o tempo todo, contra mim mesmo. Você estava errado. Sua teologia era menor. Deus nunca foi como você imaginava. Então quem era Deus? Digo a mim mesmo que preciso crer que Deus controla a vida de todos nós, a todo instante. Constato a impossibilidade de viver sem fé e clamo ao Criador que me contrarie para que eu volte a crer. Crer na oração, nas pessoas, em mim mesmo e em Deus.

Creio em Ti… Desventurado homem que sou.

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Fé ajuda a encarar desafios, mas deve ser coerente com a prática

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Publicado no UOL

Em um dos seus maiores sucessos, Gilberto Gil canta “andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar”. Nos anos 80, quando a música ganhou as rádios de todo o país, pouco se falava sobre a influência da religiosidade no bem-estar físico e mental. De lá para cá, muitos cientistas, em todo o mundo, já se dedicaram a estudar essa relação, com resultados surpreendentes até para quem não crê. “Diversas pesquisas já mostraram que pessoas mais espiritualizadas sofrem menos de ansiedade, depressão e estresse, estão menos vulneráveis a doenças cardíacas, vasculares, endócrinas e autoimunes; como consequência, vivem mais e melhor”, garante Ricardo Monezi, pesquisador do Centro de Estudos em Medicina Comportamental da UNIFESP.

Em geral, quem tem fé tende a ser mais otimista e persistente com os desafios do dia a dia. “A experiência religiosa, na maioria das vezes, pressupõe a concentração e a busca do equilíbrio a partir da conexão com alguma força maior em que se acredita, que pode ser feita, por exemplo, a partir da oração”, esclarece Jorge Claudio Ribeiro, filósofo e professor da PUC-SP. “Assim, a pessoa que crê conta com recursos para se refazer mais rapidamente, enquanto a que não acredita em nada tem mais chances de se desesperar diante de uma dificuldade”, justifica. O pesquisador concorda que a espiritualidade facilite a conexão com o divino ou sagrado que zela por nós, produzindo um sentimento de segurança e conforto e ajudando, ainda, a lidar com os grandes mistérios da vida num nível mais subjetivo.

Fé sem religião também vale

Os benefícios da fé, no entanto, não requerem que ela seja institucionalizada. Ou seja, não é preciso seguir os preceitos de determinada religião ou sequer frequentar qualquer tipo de templo. “Ter fé é assumir um compromisso pessoal com uma determinada visão de mundo, com ideias, ideologias e conceitos que podem ser retirados de uma única religião ou de várias”, afirma David Charles, teólogo e chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

De fato, muitas pessoas praticam uma fé própria e criam um mix de crenças de diferentes origens, sem se submeter a uma única vertente. “A religião e a religiosidade, que é a prática e a vivência da religião, são ferramentas que o ser humano pode usar para desenvolver a espiritualidade, mas não são as únicas”, pondera Monezi. Meditação, leituras diversas, orações e músicas também podem ser empregadas com o mesmo fim. “Até pelo diálogo com outra pessoa, porque um dos maiores exercícios de espiritualidade é a doação amorosa”, exemplifica.

Fé na prática

Numa perspectiva objetiva, a grande contribuição da fé é oferecer diretrizes para o comportamento, uma vez que ela geralmente está ligada a determinados valores. Por isso mesmo, o ideal é combinar razão e emoção na adoção de uma religiosidade. “Só tem sentido comprometer-se pessoalmente quando se consegue atribuir verdade e valor ao conjunto de princípios que ela expressa”, defende Charles. Quer dizer, não vale acreditar só por acreditar, por achar bonito. “É interessante que a experiência em que se está investindo apresente subsídios que poderão ser usados no dia a dia. Ou seja, o que se aprende no templo precisa fazer sentido no mundo lá fora”, reforça.

Em outras palavras, agir de acordo com o que se prega e vice-versa é o que fortalece a fé. “Quando há coerência entre o que se fala e o que se vive, a fé realmente passa a funcionar como um instrumento para o desenvolvimento pessoal, pautando a mudança real de atitudes”, acredita o teólogo. E ela só é prejudicial quando pressupõe intolerância. “Quando uma determinada fé desrespeita o conjunto de crenças dos outros, automaticamente implica no desrespeito ao ser humano, o que pode levar a sentimentos como raiva e desejo de vingança”, ressalva Monezi.

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Qual é a sua loucura?

Meu trabalho principal é o de fazer com que as pessoas reflitam sobre o que elas acreditam, e por que elas acreditam no que acreditam.

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Publicado por Nelson Costa Jr

“Hei de refletir que aquilo que é provável não é necessariamente a verdade, e que a verdade nem sempre é provável”. Freud.

Normalmente, deixamos escapar entre os dedos o que uma certa pessoa está dizendo sobre Deus porque sempre tentamos encaixar seu discurso em nosso sistema pessoal de valores e crenças. Quando nos vemos diante de alguém que possui um argumento diferente do nosso, geralmente possuímos cinco ou seis contra-argumentos para confrontarmos tal pessoa. No final, de alguma forma, tentamos encaixar tal indivíduo em nosso padrão, ou assumimos que estamos com a Coca-Cola no deserto e ele não. Sempre buscamos pelo nosso “direito”.

Mas a questão é: Que direito?

Tal processo coloca qualquer pessoa numa única prisão: o disparate. Passamos a medir o nosso valor não de acordo com o espírito que compartilhamos com os outros, mas com a medida teológica que temos, ou com o curriculum vitae que possuímos. O axioma disso é que, tanto um quanto outro, no âmago de suas vidas, contemplam dúvidas que costumam esconder da essência que vivem – As dúvidas estão lá, mas elas não podem ser expressadas porque a mente se tornou um lugar recalcado de acordo com o vício mental particular.

Ou seja, nossas crenças fundamentais agem muitas vezes como um escudo, nos protegendo de um verdadeiro confronto com os nossos corações. Logo, nos assegurarmos num discurso não irá nos ajudar, precisamos admitir nossas descrenças para nos livrarmos de nossos versos lógicos e enfrentarmos o que realmente acreditamos. Precisamos confrontar as máscaras que produzem essa sensação de lugar, propósito, e perspectiva, para nos libertarmos do desvario.

O problema é que existir criticamente é pleonasmo. A existência em si já é pura crise. Lamentavelmente transferimos tudo isso para algum alvo –  O outro. Lidamos com uma forma de crença ‘suspensa’, uma crença que só existe como algo que não é completamente reconhecido (publicamente), um segredo pessoal e obsceno. Como nas questões eclesiásticas, é fácil criticarmos a Igreja e líderes religiosos como  Silas Malafaia e Marco Feliciano, mas acredito que necessitamos ir  além desse tipo de censura. Precisamos confessar que somos asnos quebrados cheios de ceticismo. Precisamos confessar publicamente que não acreditamos mais nas Sagradas Escrituras, na Igreja, no filho de Deus, no Altíssimo, e na verdade, para que possamos ver novamente o despertar da encarnação de Cristo entre nós.

Não estou tentando convencer ninguém abraçar minhas idéias. A propósito, elas não são minhas, basta vasculhar os manuscritos de Jacques Lacan, Slavoj Zizek, Bruce Fink, Peter Rollins, Paul Hessert and Frederiek Depoortere que você irá encontrá-las. Estou tentando simplesmente anunciar a importância da honestidade para aqueles que dão algum crédito ao mistério.

Ocupo-me em disseminar uma mensagem que nos convida a enxergar uma fé que se encontra entre nossas rachaduras. Não sou contra a Igreja como muitos pensam, pelo contrário, sou a favor dela. Minha preocupação com a maioria delas é o fato de funcionarem como um centro de distribuição de narcóticos, e seus lindos líderes como traficantes. Quero somente provocar as pessoas a deixarem o vício de Deus, a saírem das condições perfeitas, e a desmascararem o sofrimento interno através de um confronto direto com suas realidades. Penso que estamos gastando muito tempo com teologias desnecessárias – O que vai acontecer quando eu morrer? -, deixando assim de viver antes de morrer.

Meu trabalho principal é o de fazer com que as pessoas reflitam sobre o que elas acreditam, e por que elas acreditam no que acreditam. Enfim, por mais que tentemos categorizar, homogeneizar os seres humanos, é necessário compreendermos que não somos idênticos, que apenas nos identificamos, e que precisamos sempre nos perguntar: Qual é a nossa loucura?

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Contato com a religião depende mais dos pais que da escola

Primeiro contato com religião se dá por meio da família Foto: Shutterstock
Primeiro contato com religião se dá por meio da família
Foto: Shutterstock

Publicado por Vida de Mãe

Os brasileiros são um povo de fé. Segundo dados do Censo de 2010, 92% das pessoas declaram ter alguma religião, em sua maioria (87%) a cristã. Essa religiosidade é transmitida às crianças pelos pais e por outros familiares, mas a forma como esse contato inicial é absorvido é variável. Para o professor César Leandro Ribeiro, coordenador do Departamento de Teologia da PUC-PR, se a criança vai ter esse primeiro contato como algo positivo ou negativo, depende da significação que ela vai dar às descobertas: “A religiosidade está intimamente atrelada à experiência”, comenta.

Ribeiro exemplifica, dizendo que uma boa relação da criança com os pais ou com figuras de autoridade torna mais fácil a aceitação da religião, “pois há uma projeção da imagem da autoridade na imagem de Deus”. O oposto, garante Ribeiro, também é verdadeiro: relações familiares negativas podem afastar os jovens da religião.

Após o contato inicial feito em casa, nas escolas, as crianças têm acesso às aulas de ensino religioso, ampliando o conhecimento e a compreensão da área. Mesmo que de matrícula facultativa, no Brasil, o ensino religioso deve ser oferecido pelas escolas públicas de ensino fundamental. Mas, mesmo que a legislação assegure o respeito à diversidade cultural religiosa do País, o Ministério da Educação informa que “questões mais específicas são decididas por cada sistema de ensino, no âmbito de sua autonomia”, o que significa que o conteúdo ministrado e o respeito à matrícula facultativa fogem ao controle do órgão federal.

Ribeiro nota uma mudança fundamental na forma como as religiões são tratadas em sala de aula. “Antes, o ensino era confessional. Hoje, é área de conhecimento”. Esse novo formato, adotado para abranger o sincretismo religioso brasileiro, busca o estudo de variadas religiões, do catolicismo ao candomblé, do espiritismo às crenças orientais. Quem atesta isso é a pedagoga Tânia Wiacek, que ministra aulas de Ensino Religioso na Escola Municipal CEI Belmiro César, de Curitiba. “Não há doutrinação, mas uma apresentação de valores e rituais de cada religião”. Na escola, as crianças iniciam o estudo das religiões no 1º ano do ensino fundamental, aos seis anos.

Mas o professor Ribeiro diz que existe resistência às mudanças: grupos defendem a volta do ensino confessional, nos moldes de pastorais, que atuam mais no campo da ação. A ação pastoral está associada ao catolicismo e é a forma que a igreja encontra de sair do campo das ideias e prestar serviços à comunidade.

Como lidar com as diferenças

Muitas instituições de ensino no Brasil são católicas ou de alguma ordem religiosa específica. Dessa forma, outra problemática se apresenta: como o colégio ensina diferentes crenças às crianças. De acordo com Ribeiro, o mais importante é que se valorize o respeito. “Se alguma escola católica age com preconceito em relação a algum aluno de outra religião, está indo contra seus próprios princípios; não está sendo cristã”, diz. Segundo Ribeiro, precisamos buscar o meio-termo, fugindo de extremismos. Afinal, uma escola católica, mesmo que baseada nos princípios do Evangelho, vai formar seres humanos e não necessariamente cristãos, resume o teólogo.

Segundo a educadora Tânia, os alunos aceitam bem as diferenças religiosas. “O preconceito está nos pais, não nas crianças”, revela. Frente ao ensino religioso, alguns responsáveis demonstram medo de que haja, na escola, a doutrinação de alguma crença contrária à que se cultiva em casa. Como na rede pública de ensino a matrícula na disciplina é facultativa, os pais podem optar por não inscrever os filhos. “Cabe aos pedagogos explicar as aulas e explicitar que não há tentativa de doutrinação, mas sim uma apresentação de variadas culturas”, diz Tânia. Como resultado desse esforço, revela ela, 100% dos alunos frequentam suas aulas.

O teólogo Ribeiro não vê um distanciamento da nova geração do campo religioso. Mesmo que as crianças hoje recebam muito mais informações do que gerações anteriores, para o professor não há uma grande mudança aparente. “O ser humano, essencialmente, é o mesmo”. Assuntos em alta hoje, a preservação da natureza e a vida comunitária – mesmo que online – se aproximam muito mais dos princípios da igreja do que a rebeldia de gerações anteriores, que lutaram contra todas as formas de autoridade. “Quanto mais eu ando por aí, mais eu vejo como os jovens são extremamente generosos. Acredito muito nessa nova geração”, completa.

Significação de experiências muda forma como criança vê religiosidade Foto: Shutterstock
Significação de experiências muda forma como criança vê religiosidade
Foto: Shutterstock
Conforme especialista, crianças não estão se afastando da religião Foto: Shutterstock
Conforme especialista, crianças não estão se afastando da religião
Foto: Shutterstock
Hoje, ensino religioso é considerado área de conhecimento Foto: Shutterstock
Hoje, ensino religioso é considerado área de conhecimento
Foto: Shutterstock
Legislação assegura respeito à diversidade cultural religiosa Foto: Shutterstock
Legislação assegura respeito à diversidade cultural religiosa
Foto: Shutterstock

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