Os pastores feiticeiros e seu evangelho pagão

Pastores da Igreja Universal do Reino de Deus inovam. Pela TV, em Brasília, prometem bom desempenho em concursos públicos. O fiel só precisa levar caneta ou comprovante de inscrição ao templo para ser ungido. O discurso? “Se Deus te iluminar, te der a direção, nada dá errado” [Sonia Racy, no Estadão]

Ed René Kivitz

O pior dessa notícia é que tem uma lógica danada. Literalmente, a lógica é danada. É dos quintos dos infernos. Mas faz todo o sentido dentro da cosmovisão religiosa popularmente identificada como cristã, isto é, da subcultura sociologicamente definida como segmento religioso que se pretende cristão. Senão, observe.

  • Para quem crê em um Deus intervencionista, que se mete no cotidiano da vida humana vindo de fora (de outro mundo, da sala do trono, ou sei lá de onde), qual é o problema de pedir a Deus que favoreça um dos seus filhos em um concurso público?
  • Para quem acredita em unção como ritual litúrgico, e sai por aí passando óleo e azeite em portas e janelas, carros, pessoas, animais de estimação, propriedades, galpões empresariais e escritórios, e outras coisas mais, qual é o problema de ungir ritualisticamente uma caneta ou uma ficha de inscrição para um concurso público?
  • Para quem acredita que Deus revela segredos aos seus filhos, fala pela boca dos profetas e dá palpite na vida dos outros, qual é o problema em pedir uma iluminação ou uma direção, tipo informação privilegiada, como ajuda para o êxito num concurso público?
  • Para quem acredita que o templo é a Casa do Senhor, e que os pastores, bispos, apóstolos e patriarcas são Servos do Senhor, pessoas especiais, com uma unção especial de Deus, qual é o problema de participar dessa unção ritualística no Templo Sede Internacional e receber a bênção do homem de Deus antes de atravessar o desafio de um concurso público?
  • Para quem faz promessas de subir escadas de joelhos, realiza peregrinações carregando cruz nas costas, amarra fitinhas de santos no pulso, pendura no pescoço colares benzidos nos terreiros, carrega santinhos na carteira, ou participa de correntes da fé em busca de bençãos materiais e soluções para problemas circunstanciais, qual é o problema de ungir a caneta ou a inscrição para o concurso público?

Em síntese, apesar de grotesca e de causar espanto, respeitada a lógica religiosa popular cristã, não há nada de errado nessa prática noticiada pela Agência Estado. O desafio é responder se essa lógica expressa de fato o Evangelho de Jesus Cristo.

fonte: Blog do Ed René Kivitz

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Na sola dos “cinco solas”

José Barbosa Junior, no Crer é também pensar

Confesso que os “defensores da fé” me cansam.

Cansam porque não produzem nada a não ser a crítica de quem pensa diferente. E para julgarem quem pensa diferente, tendo “base histórica” e “bíblica”, muitos deles utilizam-se dos cinco solas, que nada mais são do que afirmações, em latim, sobre aspectos que “delineariam” a confissão de fé cristã nos tempos “reformados” (o excesso de aspas é inevitável).

O interessante é que até os cinco solas são frutos de interpretação (como toda leitura da Bíblia o é) e de um tempo, de uma era. Torná-los imutáveis e monointerpretativos seria uma afronta ao próprio espírito da Reforma que dizem acolher. E quando se tornam engessados, viram arma nas mãos de seus utilizadores e, claro, a favor da “defesa da fé”.

Ok! Mas… que fé?

Aliás, que Cristo? Que Graça? Que Escrituras? Que Glória de Deus?

Não adianta você me tirar da cartola os cinco solas… primeiro tem que me dizer do que você está falando. Pode ser que usemos a mesma frase (em latim) para dizermos coisas totalmente diferentes, entendeu?

Vamos aos exemplos:

Quando eu digo SOLA FIDE (somente a fé), falo da experiência com o sagrado, com o intangível, o numinoso, o transcendente. E essa experiência não é privilégio só dos que têm a Bíblia como “regra de fé e prática”. A fé não tem copyright. Não é propriedade exclusiva de um grupo, muito menos de um livro. Fé é algo tão pessoal e místico que não me cabe duvidar da experiência do outro. Pode ser que ele, o outro, esteja experimentando uma face de Deus que eu ainda desconheço, por isso,este outro merece, no mínimo, o meu respeito.

Quando um “defensor da fé” diz SOLA FIDE, em primeiro lugar ele está falando do seu objeto de defesa. Fé deixa de ser a experiência para ser um objeto de defesa. E se for tido como experiência TEM QUE ser a MESMA experiência dele, se não, não é “verdadeira”. A experiência que é diferente da dele é um inimigo a ser combatido! Para isso envidará esforços, elegerá hereges, acenderá fogueiras. O importante é “batalhar pela fé uma vez entregue aos santos”. Fé, neste caso, é motivo de luta, de guerra, de defesa!

Quando eu digo SOLO CHRISTUS (Somente Cristo), estou falando de uma pessoa. O Deus encarnado, a Palavra feita gente, Emanuel, aquele que traduz em si o amor de Deus pela humanidade, tornando-se humano. De tão humano, divino! É amor tomando forma, cheiro, toque, voz… e, seguindo o seu exemplo, tornamo-nos melhores seres humanos. Quando digo o SOLO CHRISTUS me vem à mente que toda salvação passa por ele, o segundo Adão, e que se o primeiro Adão torna o pecado “universal”, o segundo Adão torna a salvação “universal”, sem mérito ou demérito de quem quer que seja. Se diferente disso, o “erro” do primeiro Adão seria mais forte e mais poderoso do que o “acerto” do segundo Adão. Por que a tal “solidariedade da raça” só vale para o pecado e não para a salvação?

Porém, quando um “defensor da fé” diz SOLO CHRISTUS, ele está dizendo que só a salvação na confissão de fé dele sobre o Cristo. Que só a salvação no NOME de “Jesus”. E quem não confessar esse NOME, por mais que nunca tenha ouvido falar dele, ou por mais que já viva na prática os seus ensinamentos, é um coitado, réu do inferno eterno. Talvez um predestinado mesmo à perdição, obra do grande amor de Deus, que cria uns eleitos para a salvação e outros para torrarem eternamente numa grande fogueira que Ele mesmo criou para lançar aqueles que Ele mesmo determinou que não creriam nEle. Quanto amor! Até porque o CHRISTUS só derramou seu sangue por esses “preferidinhos”, infelizmente deixando de fora todos os outros, tão amados de Deus quanto os eleitos, mas, por sua infinita soberania e poder, incapazes de chegarem à salvação.

Quando eu digo SOLA GRATIA (Somente a Graça), estou falando de graça mesmo, sem divisão, sem preferências. Falo de algo tão louco e absurdo que faltam-me palavras para descrever sua “ação”. A graça é injusta ao salvar gente “do bem” e gente “do mal”, gente “certinha” e gente “torta”, porque é graça, e porque graça atinge gente, seja a “gente” que for. E sua abrangência é ilimitada. Não há confissão de fé capaz de detê-la! Não há conceito que possa diminuir seus efeitos e seus desmandos. Sim, a graça é um desmando de Deus! Subverte toda a lógica e toda a noção que temos de “justiça”. É manifestação de Deus para todos, indistintamente. Creio numa graça que abraça prostitutas, gays, políticos, e até mesmo… religiosos.

Mas, quando um “defensor da fé” diz SOLA GRATIA, em primeiro lugar ele precisa distinguir a graça da graça. Como assim? É óbvio! Existe uma graça “comum” e uma outra, “especial”. Sim, é isso mesmo! Existe uma graça de segunda categoria, tipo aqueles cartões de natal que mandamos pra quem nem conhecemos, desejando simplesmente “boas festas”, e há uma graça caprichada, de primeira, como cartões escritos à mão, cheios de amor, com o cheiro da pessoa amada. A graça “comum” está aí para todos, “quem quiser pode chegar”. Já a graça “especial”, infelizmente (ou felizmente – para eles) não pode atingir a todos, é privilégio dos eleitos, estes sim, podem desfrutar de toda a graça que Deus tem pra dar, mas só pra eles. E graça aqui, deve ser entendida como favor imerecido também, é claro, mas… ai daquele que não observar os mandamentos!

Quando eu digo SOLA SCRIPTURA (Somente a Escritura), estou falando de uma carta de amor, inspirada por Deus, mas escrita por homens, contando histórias de seu povo, conforme seu entendimento temporal das realidades ao seu redor. Nesta carta, que fala muito mais da percepção que os homens, em seu tempo, tinham de Deus, percebo um Ser divino em todo tempo buscando relação com toda a humanidade. Um Deus que tem prazer no diálogo, na amizade, e que como prova maior dessa busca, se diminui, se enfraquece, e se faz homem, não porque “não tinha outra opção”, mas porque tanto amor tinha que ser demonstrado e vivido na sua completude, no ser igual ao ser amado. SOLA SCRIPTURA se manifesta quando percebo a carta de amor em toda sua amplitude e carinho, culminando na Palavra encarnada, o CHRISTUS. Por isso, qualquer interpretação que fuja do CHRISTUS e do amor encarnado nEle, causa-me estranheza. Aliás, o SOLA SCRIPTURA deve sempre levar em conta que QUALQUER leitura já é, em si, uma interpretação, logo, uma aposta e, se tanto, passível de erro.

Porém, quando um “defensor da fé” fala SOLA SCRIPTURA, ele está falando de um MANUAL. E, se é um manual, tudo está ali, resolvidinho, respondido, com a seção de “perguntas e respostas” completa, sem variações. Pecou? O manual traz o castigo, a forma de reprimenda, e o modelo de re-aceitação. Com o manual, é fácil saber quem é o certo e quem é o errado, afinal a equação é simples: faz tudo o que o manual diz: é bom! Vacila em artigos do manual: é mau! E tudo está lá, detalhadamente. Pastores são ungidos do Senhor, logo não devem ser questionados. Gays queimarão no fogo eterno. Mentirosos, orgulhosos, avarentos, ops… pulemos essa parte (aqui o manual deve ter cometido algum equívoco).

Finalmente quando eu digo SOLI DEO GLORIA (Glória somente a Deus),  penso num Deus que é glorificado em todo o mundo, por gente de todas as tribos, raças, línguas e nações que, mesmo não falando “O NOME”, amam uns aos outros, praticam o bem, são capazes de dividir, de compartilhar. Vejo Deus glorificado nas ações de uma Madre Teresa de Calcutá, repartindo sua vida entre os leprosos de uma índia fragmentada pelas castas, da mesma forma que vejo a glória de Deus num homem como Ghandhi, capaz de liderar uma revolução não armada e que influenciará um pastor negro nos Estados Unidos a fazer a mesma coisa. Vejo a glória de Deus quando milhares de pessoas, de todos os credos, gêneros e cores se unem numa corrente de solidariedade, como vi de perto em minha cidade, Teresópolis, atingida por uma tragédia sem precedentes em janeiro de 2011.

Entretanto, quando um “defensor da fé” diz SOLI DEO GLORIA, ele é capaz de ver a glória de Deus não nas pessoas que se solidarizam, mas na própria tragédia em si. Um Deus que mostra a sua glória através da sua ira! Um Deus que é glorificado mesmo numa atitude insana como a de um louco que invade uma escola e atira em crianças indefesas, matando vidas e sonhos. Um “defensor da fé” dá glórias a Deus por isso, e exalta a Sua soberania. A glória de Deus também é manifesta na destruição dos povos pagãos e finalmente, será exercida em toda a sua plenitude nos tempos finais, quando os eleitos herdarão os céus, e Deus, para a Sua própria glória, lançará os não-eleitos na churrasqueira da eternidade: o inferno!

E quem está certo? Não sei!

Só pretendo com este texto provocar a todos que se julgam donos da verdade. Pode ser uma pretensão descabida, mas tentem fazer esse exercício. Tentem imaginar que o “outro” pode ter razão. Assim como eu mesmo posso estar errado em muitas das minhas “visões”.

Estamos navegando naquilo que não é palpável, logo, tudo o que dissermos será fruto daquilo que somos, daquilo que pensamos, antes mesmo que o texto nos fale. E somos seres sujeitos À mudança, logo, não me cabe o julgamento de quem quer que seja. Que entendamos que, na sola dos “cinco solas”, muitas vezes colocamos nossas conveniências, aquilo que nos protege. Na sola (na base) dos nossos “cinco solas” na verdade estamos nós mesmos, com nossas esquisitices e doenças, logo, nossas interpretações falam muito mais de nós que dos reformadores.

E ainda mais, aos “reformados” cabe uma responsabilidade maior de não estacionarem em Genebra, ou em Wittemberg, ou seja lá onde for… a verdade, se é que concordamos que se manifesta em uma PESSOA, é dinâmica, tenta ouvir o seu tempo, tem o seu linguajar, tenta responder às suas próprias perguntas e não as do passado. Igreja reformada, sim, mas não engessada. Sempre se reformando!

Como disse, pode ser que eu esteja errado, e, se for um dos eleitos, riremos de tudo isso na “eternidade”. E se eu não for, sem problemas, vocês estarão ocupados demais e nem se lembrarão das pobres almas no inferno eterno.

Que Deus nos ajude!

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Cristo no Octógono

João Carlos Assumpção, no Lance!NET

Publiquei ontem minha coluna no LANCE! sobre o “uso” de Cristo no esporte. Antes notório no futebol, agora também faz parte do octógono com a febre do MMA. Como alguns leitores sugeriram, reproduzo o texto em meu blog, lembrando que o que escrevi é apenas uma reflexão pessoal, não focada em A, B ou C. Uma reflexão e uma série de indagações que queria compartilhar com os internautas. Então lá vai:

“Durante a Copa de 2010 viajei a Israel com três amigos, que também foram aos territórios palestinos, a fim de fazer um documentário para discutir os problemas na região tendo o futebol e o Mundial como pano de fundo.

Na ocasião cheguei a acompanhar do Oriente Médio uma polêmica entre Juca Kfouri, jornalista que admiro muito, e Kaká, uma das esperanças do Brasil na Copa passada. Divergiam sobre o marketing religioso que tanto Kaká como outros jogadores da Seleção costumam fazer, provocando até reação da Fifa por conta dos excessos na comemoração da Copa das Confederações que os brasileiros venceram em 2009, derrotando os Estados Unidos na final.

Kaká fazia proselitismo de uma igreja a qual, pelo que me consta, acabou abandonando depois, o que não quer dizer que tenha deixado de ter fé em Cristo. Somos um país laico e a crença religiosa é um direito de todo cidadão que deve ser respeitado, como Juca sempre respeitou. E eu respeito também. Mas há algumas coisas que não entendo.

Toco no assunto porque não é só no futebol que os atletas, principalmente os brasileiros, reverenciam Cristo ao anotar um gol. Direito legítimo, mas que levanta algumas questões. Eu, que sou cheio de dúvidas e tenho poucas certezas na vida, fico indagando aos meus botões se Jesus estaria tão preocupado assim com um jogo de futebol. Com um gol. Com um título. Ou se não teria preocupações maiores, como as enchentes na região serrana do Rio, a fome na África, as guerras, catástrofes e desastres pelo mundo que nem precisamos enumerar.

Agora, além dos campos de futebol, virou moda também no octógono os brasileiros festejarem suas vitórias louvando Cristo e atribuindo a ele os murros, cotoveladas, pancadas na cabeça e todo o sangue que tiram de seus adversários.

O sujeito quebra o maxilar do rival, arrasa seu rosto, abre a testa, tira sangue da orelha, faz o adversário dormir e sai comemorando e agradecendo Jesus, dizendo que o mérito foi dele. Por ter apagado o outro? Teve o dedo de Cristo aí?

Ganha quem treina melhor, aprimora a força física e mental, está num dia mais propício quando sobe ao octógono, desenvolve técnicas de nocaute e finalização, não quem reza mais. Ou quem Cristo quis escolheu.

As religiões são usadas para tudo. Para justificar guerras (e isso não é de hoje), preconceitos e discriminações, “explicar” as injustiças e desgraças da vida, mas agora, além de jogar bola, parece que Jesus entrou no octógono e partiu para a pancadaria. Colocaram Cristo neste papel. Acho curioso e tento entender o fenômeno. Como tento entender como é que deixaram abrir um templo perto do Aeroporto de Guarulhos, o principal do país, prejudicando centenas e centenas de pessoas no primeiro dia do ano e ainda prometendo mais confusão ao já caótico trânsito paulistano. Ônibus estacionados no meio da Dutra impedindo a circulação, uma situação lamentável e boa parte dos fiéis, em vez de se comportar como cidadãos, mais preocupada em orar.”

dica do Rogério Moreira

foto: Jornal do Brasil

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Bíblia livra porteiro de ser assassinado durante assalto em Vitória

mãos em prece na bíblia - preto e branco

Deborah Hemerly, na Gazeta Online

Um porteiro de 47 anos escapou por bem pouco da morte, durante um assalto, na noite de segunda-feira, em Vitória. Ele ficou sob a mira de quatro pistolas, e só não foi morto graças à fé dele, reconhecida por um dos criminosos, que viu a Bíblia do trabalhador.

A vítima contou para a polícia, no Departamento de Polícia Judiciária (DPJ) de Vitória, que o assaltante chegou a perguntar para ele se era evangélico. Como o porteiro disse que sim, o suspeito então completou: “Só não vou te matar, porque você é um homem de fé”.

O trabalhador então foi trancado dentro de um banheiro, com as mãos amarradas para trás, até que o bando fugisse levando computadores, cadeiras, um televisor, um DVD, baterias de carro e bebedouros de um galpão, que fica na Avenida Vitória.

O porteiro disse para a polícia que era por volta de 19 horas de segunda-feira, quando os quatro bandidos armados invadiram o galpão, anunciando o roubo. Ele foi obrigado a deitar no chão, mantendo a cabeça abaixada, enquanto o bando carregava os objetos para fora do galpão.

A vítima destacou que estava sozinha havia pouco tempo, pois os outros funcionários já tinham ido embora. O galpão não tem câmeras de vigilância. Os bandidos quebraram uma vidraça para ter acesso à parte onde os objetos roubados estavam.

O porteiro contou para a polícia que, assim que o bando escapou, ele conseguiu se livrar das amarras e sair em busca de socorro. Ele foi até o DPJ de Vitória, onde pediu ajuda. A vítima lembrou que o bando prometeu voltar para buscar o restante das coisas.

Policiais militares chegaram a fazer buscas pela região. Mas nenhum suspeito foi localizado. Na ocorrência, a vítima não detalha se os criminosos estavam de carro nem quanto tempo durou o roubo.

imagem: freepic

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Natal: Encarnação em cada tempo

Robinson Cavalcanti

“Naqueles dias saiu um decreto da parte de César
Augusto para que o mundo inteiro fosse recenseado.
Esse primeiro recenseamento foi feito quando
Quirino era governador da Síria”
(Lc 2:1-2).

A narrativa de Lucas nos chama a atenção para o contexto, para a conjuntura, para a História, para o tempo do nascimento de Jesus. Havia um Império, o Romano, com domínio sobre ampla área do mundo. Um Império implica a existência de um Imperador com plenos poderes, um grande exército, força de ocupação, opressão sobre uma empobrecida província periférica, governada por uma monarquia ilegítima e subserviente, e um Sinédrio igualmente ilegítimo e corrupto. César Augusto, Quirino.

Jesus não foi um ser mitológico, atemporal, pairando sobre o mundo, mas o esvaziamento da divindade que se faz humanidade sob circunstâncias adversas, a espera de Boas Novas. Houve o transcendente, com a estrela-guia e o coro das hostes angélicas, mas o tempo tinha manjedoura, magos do oriente. Um povo, com uma cultura e um contexto de opressão, discriminações, preconceitos, injustiças, corrupção, violência.

Cada ano – nesses vinte séculos – o Natal é festejado pelos cristãos de vários continentes e países, vivendo um tempo concreto, com os seus desafios, a espera de uma encarnação que seja boas novas para os corações em busca de paz e de um sentido para a vida, e que seja, também, boas novas para as más realidades conjunturais, com suas adversidades e desafios, no campo político, econômico e social.

Como está o mundo, o país, a região, a cidade, o bairro, em 2011? Em que contexto a encarnação “renasce” hoje e aqui? Que respostas e propostas a Igreja celebrante do aniversário, mais do que a justa festa e a dramática verdade encenada na manjedoura, é portadora de boas novas para o nosso tempo?

De nós – os da festa da fé –, depende a festa de Salvação, de libertação, de cura, de transformação para os que em trevas “viram uma grande luz”.

Glória a Deus nas maiores alturas! Sempre. Aleluia! Mas… Paz na terra entre os homens a quem Ele quer bem!

Que o Natal seja encarnação em nosso tempo!

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