Pra quem tem fé

fegifEd René Kivitz

Fui abraçar um amigo que havia sepultado o pai dias antes. Suas palavras de ânimo e gratidão a Deus iluminaram meu coração. Contou de como o pai chamou os filhos e pediu perdão, expressou sua tristeza por não ter sido melhor pai, reiterou seu amor pela mãe deles, e os encorajou a seguir em frente superando um passado que teria tudo para deixar marcas desastrosas nos meninos.

Sem aquela conversa e aquele momento de reconciliação o luto teria sido mais pesado, a história familiar não teria sido redimida, as memórias permaneceriam cobertas pela poeira fina das inadequações do pai que estava de partida. Meu amigo estava grato a Deus pela maneira como seu pai havia se despedido dos seus e da vida. Seu comentário foi simples, “Deus nos visitou naquele hospital”.

Para os menos afeitos às questões da fé, o discurso do meu amigo pode soar apenas como esforço de fazer fechar a conta após a morte do pai, uma espécie de auto-engano para receber consolo de sua própria consciência iludida a respeito de um Deus ausente (que nunca esteve naquele hospital), inútil (afinal, deixou o homem morrer), ou mesmo inexistente (criação humana para remediar sua covardia diante de um universo vazio de sentido).

Mas enquanto abraçava meu amigo novamente experimentei a consciência da fé. Esperar de Deus que sejamos poupados do trivial da vida e das realidades comuns a todos os mortais, isso sim é fantasia, ilusão e covardia. Negar a realidade de Deus porque não encontra evidência de sua presença, isso também é uma forma de buscar sentido, diferente apenas na direção percorrida pelos que têm fé: afirmar seu oposto para tentar encaixar as peças soltas de um universo caótico.

A fé não é um recurso para mover Deus em nosso favor. Não é o botão que uma vez acionado possibilita que sejamos blindados das más notícias e fatalidades. A fé é a experiência de quem atravessa a vida sob os olhos de Deus e sua generosidade mais que suficiente. A diferença entre os que invocam a presença de Deus em suas circunstâncias não se justifica necessariamente pela súplica para que os problemas que causam dor sejam solucionados. Deus é invocado e convidado para a caminhada porque a fé é a convicção de que sua presença no vale da sombra da morte faz toda a diferença.

Aquele que tem fé não pretende evitar a morte, mas com certeza colocar diante da morte a face do Deus que ilumina toda a escuridão. Não quer fugir das dores que o sagrado direito de viver impõe, mas afirmar que a morte e suas trevas malditas não determinam o tom da existência e não têm o poder de fazer com que sua ferrugem encardida embace o passado e pinte o futuro com sombras e tons de cinza.

A fé não nos exime de atravessar o vale da sombra da morte. Mas com absoluta certeza acende uma luz no vale, e faz com que a travessia não seja marcada por medo, angústia, tristeza e solidão, mas por reconciliação, comunhão e esperança de ressurreição.

fonte: Facebook

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A graça das coisas

alegria

Publicado por Piero Barbacovi

Elienai Cabral Jr. uma vez falou: Se você não for salvo pela graça, será por ela escandalizado.

Jesus sentava-se à mesa com qualquer um que queria estar presente, inclusive os que eram banidos das decentes casas. Compartilhando da refeição, eles recebiam consideração em vez da esperada condenação. Um perdão misericordioso em vez de um apressado veredicto de culpa. Graça admirável em vez de desgraça universal. Eis aqui uma demonstração muito prática da lei da graça – uma nova chance na vida.

Jesus afirma, com efeito, que o Reino de seu pai não é uma subdivisão para os justos nem para os que sentem possuir o segredo de Estado da salvação. O Reino não é um condomínio fechado elegante com regras esnobes a respeito de quem pode viver ali dentro. Não; ele é para um elenco mais numeroso de pessoas, mais rústico e menos exigente, que compreendem que são pecadores porque já experimentaram o efeito nauseante da lua moral. Homens e mulheres que são verdadeiramente preenchidos com a luz são aqueles que fitaram profundamente as trevas da sua existência imperfeita.

O problema é que a maioria aceita a graça na teoria, mas a nega na prática. Dobrando-se aos poderes deste mundo, a mente deformou o evangelho da graça em cativeiro religioso e distorceu a imagem de Deus à forma de velho chatonildo, sempre de cara emburrada. O amor foi reprimido e a liberdade, acorrentada.

Nossa espiritualidade começou a começar no eu, não em Deus. Nossa fissura por impressionar a Deus, nossa luta pelos méritos de estrelas douradas, nossa afobação por tentar consertar a nós ao mesmo tempo em que escondemos nossa mesquinharia e chafurdamos na culpa são repugnantes para Deus e uma negação aberta do evangelho da graça.

Toda geração cristã tenta minimizar o cegante brilhantismo do significado do evangelho, porque ele fica parecendo bom demais para ser verdade. Pensamos que salvação pertence aos decentes e piedosos, àqueles que permanecem a uma distância segura dos becos da existência, cacarejando seus julgamentos sobre aqueles que a vida maculou.

A Boa Nova significa que podemos parar de mentir a nós mesmos. O doce som da graça admirável nos salva da necessidade do auto-engano. Pois a Graça proclama a assombrosa verdade de que tudo é presente. Tudo de bom é nosso não de direito, mas meramente pela liberalidade de um Deus gracioso. Embora haja muito que podemos ter feito para merecer – nosso diploma e nosso salário, nossa casa e nosso jardim, uma garrafa de boa cerveja e uma noite de sono caprichada – tudo é possível apenas porque nos foi dado tanto: a própria vida, olhos para ver e mãos para tocar, mente para formar ideias e coração para bater com amor.

Não há coisa alguma que algum de nós possa fazer para herdar o reino. Devemos simplesmente recebê-lo e aproveitá-lo como criancinhas. E criancinhas não fizeram coisa alguma. As crianças são nosso modelo porque não têm a menor pretensão ao céu. Se estão mais próximas de Deus é porque são incompetentes, não porque são inocentes.
A igreja deve estar constantemente consciente de que sua fé é fraca, seu conhecimento incompleto, sua profissão de fé hesitante, de que não há um único pecado ou falha do qual ela não seja de um modo ou outro culpada. E embora seja verdade que a igreja deva sempre se dissociar do pecado, ela não pode jamais ostentar qualquer desculpa para manter qualquer pecador à distância.

Porque meu encontro com Cristo não me transformou num anjo. Porque a justificação pela graça significa que meu relacionamento com Deus foi consertado, não que me tornei o equivalente a um paciente sedado em cima de uma mesa.

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O futebol como religião secular mundial

Publicado por Leonardo Boff

A presente Copa Mundial de Futebol que ora se realiza no Brasil, bem como outros grandes eventos futebolísticos, semelhante ao mercado, assumem características, próprias das religiões. Para milhões de pessoas o futebol, o esporte que possivelmente mais mobiliza no mundo, ocupou o lugar que comumente detinha a religião. Estudiosos da religião, somente para citar dois importantes como Emile Durkheim e Lucien Goldmann, sustentam que “a religião não é um sistema de ideias; é antes um sistema de forças que mobilizam as pessoas até levá-las à mais alta exaltação”(Durckheim).

A fé vem sempre acoplada à religião. Esse mesmo clássico afirma em seu famoso “As formas elementares da vida religiosa: ”A fé é antes de tudo calor, vida, entusiasmo, exaltação de toda a atividade mental, transporte do indivíduo para além de si mesmo”(p.607). E conclui Lucien Goldamnn, sociólogo da religião e marxista pascalino: ”crer é apostar que a vida e a história tem sentido; o absurdo existe mas ele não prevalece”.

Ora, se bem reparamos, o futebol para muita gente preenche as características religiosas: fé, entusiasmo, calor, exaltação, um campo de força e uma permanente aposta de que seu time vai triunfar.

A espetacularização da abertura dos jogos lembra uma grande celebração religiosa, carregada de reverência, respeito, silêncio, seguido de ruidoso aplauso e gritos de entusiasmo. Ritualizações sofisticadas, com músicas e encenações das várias culturas presentes no país, apresentação de símbolos do futebol (estandartes e bandeiras), especialmente a taça que funciona como um verdadeiro cálice sagrado, um santo Graal buscado por todos. E há, valha o respeito, a bola que funciona como uma espécie de hóstia que é comungada por todos.

No futebol como na religião, tomemos a católica como referência, existem os onze apóstolos (Judas não conta) que são os onze jogadores, enviados para representar o país; os santos referenciais como Pelé, Garrincha, Beckenbauer e outros; existe outrossim um Papa que é o presidente da Fifa, dotado de poderes quase infalíveis. Vem cercado de cardeais que constituem a comissão técnica responsável pelo evento. Seguem os arcebispos e bispos que são os coordenadores nacionais da Copa. Em seguida aparece a casta sacerdotal dos treinadores, estes portadores de especial poder sacramental de colocar, confirmar e tirar jogadores. Depois emergem os diáconos que formam o corpo dos juízes, mestres-teólogos da ortodoxia, vale dizer, das regras do jogo e que fazem o trabalho concreto da condução da partida. Por fim vem os coroinhas, os bandeirinhas que ajudam os diáconos.

O desenrolar de uma partida suscita fenômenos que ocorrem também na religião: gritam-se jaculatórias (bordões), chora-se de comoção, fazem-se rezas, promessas divinas (o Felipe Scolari, treinador brasileiro, cumpriu a promessa de andar a pé uns vinte km até o santuário de Nossa Senhora do Caravaggio em Farroupilha caso vencesse a Copa como de fato venceu), figas e outros símbolos da diversidade religiosa brasileira. Santos fortes, orixás e energias do axé são aí evocadas e invocadas.

Existe até uma Santa Inquisição, o corpo técnico, cuja missão é zelar pela ortodoxia, dirimir conflitos de interpretação e eventualmente processar e punir jogadores, como Luiz Suarez, o uruguaio que mordeu um jogador italiano e até times inteiros.

Como nas religiões e igrejas existem ordens e congregações religiosas, assim há as “torcidas organizadas”. Elas tem seus ritos, seus cânticos e sua ética.

Há famílias inteiras que escolhem morar perto do Clube do time que funciona como uma verdadeira igreja, onde os fiéis se encontram e comungam seus sonhos. Tatuam o corpo com os símbolos do time; a criança nem acaba de nascer que a porta da incubadora já vem ornada com os símbolos do time, quer dizer, recebe já aí o batismo que jamais deve ser traído.

Considero razoável entender a fé como a formulou o grande filósofo e matemático cristão Blaise Pascal, como uma aposta: se aposta que Deus existe tem tudo a ganhar; se de fato não existe, não tem nada a perder. Então é melhor apostar de que exista. O torcedor vive de apostas (cuja expressão maior é a loteria esportiva) de que a sorte beneficiará o time ou de que algo, no último minuto do jogo, tudo pode virar e, por fim, ganhar por mais forte que for o adversário. Como na religião há pessoas referenciais, da mesma forma vale para os craques.

Na religião existe a doença do fanatismo, da intolerância e da violência contra outra expressão religiosa; o mesmo ocorre no futebol: grupos de um time agridem outros do time concorrente. Ônibus são apedrejados. E pode ocorrer verdadeiros crimes, de todos conhecidos, que torcidas organizadas e de fanáticos que podem ferir e até matar adversários de outro time concorrente.

Para muitos, o futebol virou uma cosmovisão, uma forma de entender o mundo e de dar sentido à vida. Alguns são sofredores quando seu time perde e eufóricos quando ganha .

Eu pessoalmente aprecio o futebol por uma simples razão: portador de quatro próteses nos joelhos e nos fêmures, jamais teria condições de fazer aquelas corridas e de levar aqueles trancos e quedas. Fazem o que jamais poderia fazer, sem cair aos pedaços. Há jogadores que são geniais artistas de criatividade e habilidade. Não sem razão, o maior filósofo do século XX, Martin Heidegger, não perdia um jogo importante, pois via, no futebol a concretização de sua filosofia: a contenda entre o Ser e o ente, se enfrentando, se negando, se compondo e constituindo o imprevisível jogo da vida, que todos jogamos.

dica do Marcos Florentino

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Sobre fé e futebol

Em tempos de Copa do Mundo, não custa lembrar: fanatismos, quaisquer que sejam, são a negação da tolerância

fredfeMagali Cunha, em O Globo

Semanas atrás fui convidada pelo Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos, da Igreja Assembleia de Deus Betesda, para participar de um debate sobre fé e futebol. A pergunta era: “existe um lado bom no fanatismo?” Para me preparar, mergulhei numa reflexão instigante. Primeiro: qual é a relação entre fé e futebol?

Nenhum outro esporte mobiliza tanto os brasileiros quanto o futebol, que é, de fato e historicamente, uma paixão nacional. Como a religião também é forte elemento arraigado no jeito de ser brasileiro, não é difícil fazer a conexão futebol-religião.

Assistir a uma partida de futebol no Brasil é testemunhar uma série de expressões religiosas tanto da parte de jogadores e da equipe técnica como dos torcedores: orações de mãos dadas antes e depois das partidas, gestuais como o sinal da cruz, mãos elevadas, figa, sem contar os acessórios como cruzes, medalhas, colares. Algo como um apego de fé para que o divino exerça o seu poder e faça acontecer um resultado positivo.

Tudo isso ganha dimensões mais fortes em períodos de Copa do Mundo. A intensidade emotiva do tema traz fartas expressões no noticiário e na publicidade. Entram em cena os aspectos da fé que são parte da representação do futebol. Quem nunca observou quantas palavras e gestos religiosos estão presentes na publicidade em torno do tema?

Mas… e o lado bom do fanatismo, existe? Qualquer experiência, seja religiosa, seja esportiva, quando envolve paixão e emoção levadas ao extremo, está a um passo do fanatismo. Aqui estamos no mundo do extremismo, e o grande perigo dele está justamente na certeza absoluta e incontestável que o devoto/torcedor tem. Detentor de uma verdade (religiosa ou esportiva), o fanático torna-se intolerante. Não age com a razão quando defrontado com posições diferentes ou questionamentos daquilo que defende. O fanatismo é marcado pela irracionalidade, pelo autoritarismo e pelo agir passional, frequentemente violento. Fanáticos sempre acreditam que o fim, qualquer que seja, justifica os meios.

Somos chamados a prestar atenção em histórias de fanatismo religioso em que a relação entre líderes e seguidores termina sempre em tragédia. O caso mais famoso e controvertido é o do Templo do Povo, de Jim Jones, na Guiana, em 1978. No tempo presente, ações de fanatismo islâmico estão mais em evidência, a despeito do caráter fraternal dessa religião. No Brasil são as religiões de matriz africana as maiores vítimas. Fanáticos católicos, no passado, e, recentemente, evangélicos são protagonistas de ações que chegam a causar mortes. Isso sem falar das ações de lideranças religiosas, presentes na política partidária, baseadas na retórica do terror e no preconceito, em especial nestes tempos eleitorais…

No futebol o fanatismo se manifesta principalmente em torcidas organizadas. Elas levam a devoção ao extremo de agredirem torcedores dos times adversários. Os outros são tratados como inimigos, e as arquibancadas e ruas viram campo de batalha.

Diante disso, não tive dificuldade na resposta à questão do debate: não, não há um lado “bom” no fanatismo. Em qualquer uma de suas justificativas — religiosas, esportivas ou políticas —, não há nada de positivo. Fanatismo é expressão de autoritarismo e intolerância, duas das mais cruéis características da violência humana. O fanatismo nega o diálogo, a diversidade, o direito do outro à diferença. Fanáticos carregam uma cegueira que não lhes permite ver como um igual quem pensa e se comporta diferente deles; pior, consideram inimigos.

Nestes tempos, vale a pena recuperar a orientação da tradição cristã para qualquer experiência que envolva emoção e paixão: “No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; em tudo, amor”.

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