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A internet vai acabar com a sua fé?

Reinaldo José Lopes, na Folha de S.Paulo

A popularização do uso da internet é uma das principais causas para a diminuição vertiginosa da religiosidade dos americanos dos anos 1990 para cá.

Ou ao menos é o que diz uma nova pesquisa, divulgada pela “Technology Review”, revista do MIT, e enviada para este escriba por Rafael Garcia, o homem mais gato do jornalismo científico brasileiro e autor do blog “Teoria de Tudo” nesta Folha, o qual, além de ser másculo, pai de família e grande repórter, também faz às vezes de meu pauteiro de quando em quando. Será que tem a ver mesmo?

Bem, vamos aos fatos. Primeiro, uma olhada rápida no gráfico abaixo.

religioTraduzindo rapidinho no texto mesmo (já que eu faltei da aula de Photoshop), o gráfico de cima mostra a evolução da porcentagem de usuários da web na população americana de 1990 a 2010. O de baixo mostra a porcentagem de pessoas “não afiliadas” — ou seja, que declaram não pertencer a nenhuma igreja ou grupo religioso específico.

Note bem: isso NÃO significa que quase 20% dos americanos eram ateus ou agnósticos em 2010. Significa, isso sim, que eles não se identificavam como pertencentes a nenhum grupo religioso em especial. Boa parte dessa galera provavelmente diria que acredita em Deus, ou até em Jesus.

Beleza, adiante então. Na pesquisa — que ainda não foi publicada, mas pode ser acessada publicamente no diretório online arXiv clicando aqui –, o cientista da computação Allen Downey, da Faculdade Olin de Engenharia (Massachusetts, EUA), usou dados demográficos americanos para tentar achar correlações entre vários fatores, entre eles o nível educacional, a criação religiosa no âmbito familiar e, claro, o uso da internet.

O que a pesquisa fez, portanto, foi basicamente usar métodos estatísticos para ver quais fatores variavam juntos — ou seja, a probabilidade de mudanças num deles estarem associadas a mudanças em outro.

O trabalho mostrou — o que, aliás, não é nada surpreendente — que há uma correlação entre ser criado numa família que segue determinada tradição religiosa e acabar seguindo essa religião quando adulto. Tanto que, como hoje há mais pessoas não recebendo esse tipo de criação nos EUA, isso parece ter influenciado o aumento de “não afiliados”. Do ponto de vista estatístico, esse fator responderia por 25% desse aumento (ou da queda no número de religiosos tradicionais, tanto faz).

Também houve um aumento do número de pessoas com formação universitária — de 17% nos anos 1980 para 27% nos anos 2000 –, o qual, estatisticamente, também poderia explicar 5% do aumento de “não afiliados”.

As mesmas técnicas estatísticas, porém, também indicam a correlação entre “desafiliação” religiosa e uso da internet, uma das variáveis que mais brutalmente mudou de 1990 para cá, como a gente está careca de saber. A variável explicaria 25% das alterações de “religioso” para “não afiliado”.

Beleza. Agora repetida comigo, bem devagar, o mantra mais importante já inventado desde “Auuuuum”, que é o seguinte: correlação não é causação. Correlação não é causação. Mais mil vezes, por favor.

Falando sério, esse mantra é importantíssimo porque o fato de duas coisas “co-variarem” (variarem juntas) muitas vezes não significa que uma seja a causa da outra. Pode haver uma terceira causa aí no meio. E é preciso achar um mecanismo conectando os dois fatores caso você queira mesmo provar que um causa o outro.

Allen Downey propõe que a internet permitiu que pessoas de meios religiosos mais fechados pudessem ter contato com pessoas e informações fora de seu círculo, facilitando que eles deixassem de lado sua visão tradicional sobre temas de fé. É bastante razoável, mas difícil de provar, e longe de estar provado, claro.

Um “experimento natural” interessante pode acontecer aqui mesmo no Brasil, aliás. Hoje, dependendo de como se faz a conta, temos entre um terço e metade da população usando internet, e apenas uns 8% — no máximo — de “não afiliados”. Conforme o uso da web se universaliza por aqui, como se deu nos EUA, vai ser interessante descobrir se a tese do pesquisador continua de pé.

Igreja Universal terá que reembolsar e indenizar fiel endividada que gastou R$ 10 mil para ter problemas resolvidos

Igreja Universal é condenada a reembolsar fiel e indenizá-la por danos morais (foto: Bia Guedes / Agência O Globo)

Igreja Universal é condenada a reembolsar fiel e indenizá-la por danos morais (foto: Bia Guedes / Agência O Globo)

Publicado no Extra

A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) foi condenada pela Justiça a indenizar uma fiel levada a fazer doação para o “Culto da Fogueira Santa”. No processo, a frequentadora da igreja contou que havia depositado uma doação de R$ 10 mil numa conta bancária da igreja na crença de que seus problemas familiares e financeiros seriam resolvidos. A IURD terá que devolver os R$ 10 mil depositados e mais R$ 10 mil referentes a uma indenização moral, sendo os valores acrescidos de juros e correção monetária.

A decisão foi tomada pelo juiz Mario Cunha Olinto Filho, da 2ª Vara Cível da Barra da Tijuca. Na sentença, ele assinalou que a fiel encontrava-se “com o casamento se dissolvendo e, embora devendo cotas de condomínio e a escola dos filhos, resolve, por conta das promessas da ré (IURD), ‘doar’ R$ 10 mil para o ‘Culto da Fogueira Santa’, para ter as prometidas vitórias”.

O juiz acrescentou: “O dinheiro evidentemente não foi para a fogueira, embora possamos dizer metaforicamente que a autora torrou suas verbas: foi evidente para os bolsos dos organizadores da igreja, não sendo de forma alguma desconhecido do público – inclusive diante de inúmeras reportagens jornalísticas – serem escolhidos por critérios que envolvem a capacidade em arrecadação”.

Sobre o assunto, a IURD divulgou a seguinte nota:

“Com referência ao processo 040 2490 10 2009 8.19. 0001, que tramita na 2ª Vara Cível da Barra da Tijuca (RJ), a Igreja Universal do Reino de Deus informa que recorrerá da sentença, por entender que ela atenta às liberdades constitucionais de Crença e de Culto Religioso, além de resvalar em odioso preconceito contra a Universal, seus bispos, pastores e membros. Assim denota a mentirosa e leviana afirmação de que a doação foi “para os bolsos dos organizadores da igreja”, contra a qual serão tomadas as providências judiciais cabíveis.

Além disso, reiteramos que a Universal segue os rigorosos padrões bíblicos no tocante a ofertas e dízimos, onde seus membros e visitantes são convidados a oferecer suas doações “com alegria” e não por obrigação. A pessoa que oferece o faz espontaneamente, como um ato de liberalidade individual”.

O Deus (deus?) de Einstein

Reinaldo José Lopes, no blog Darwin e Deus

Einstein na fase gatinho, só pra variar um pouco. (Crédito: Reprodução)

Einstein na fase gatinho, só pra variar um pouco. (Crédito: Reprodução)

“Sem religião, a ciência é manca; sem ciência, a religião é cega.” A frase, caso você não saiba, é de autoria do físico alemão Albert Einstein (1879-1955), e as pessoas adoram usá-la para 1) mostrar como o pai da teoria da relatividade defendia a conciliação e o meio-termo entre visões científicas e religiosas do mundo e 2) usar a suposta crença de Einstein em Deus como a arma definitiva contra cientistas ateus radicais. A verdadeira visão do mais famoso gênio do século 20 sobre o tema, porém, é bem mais complicada.

De origem judaica, Einstein nem chegou a fazer o bar-mitzvah, a iniciação social e religiosa pela qual todo adolescente judeu deveria passar, lendo trechos das Escrituras na sinagoga ao completar 13 anos. Mais ou menos nessa idade, vivenciou uma breve fase de fervor religioso, estudando hebraico bíblico e tudo o mais. Mas passou rapidinho, e ele passou o resto da vida sem praticar os rituais do judaísmo.

Deixemos que o próprio Einstein explique, afinal de contas, qual sua visão sobre a existência/inexistência de Deus:

“Não posso provar para você que não existe um Deus pessoal, mas, se eu fosse falar dele, seria um mentiroso. Não acredito no Deus da teologia, que recompensa o bem e pune o mal. Meu Deus criou as leis que resolvem esse problema. O Universo dele não é regido por nossos pensamentos e desejos, mas por leis imutáveis.”

Ao mesmo tempo, Einstein se dizia um sujeito extremamente religioso — mas no sentido de que era tomado por um “sentimento religioso cósmico”, que ele comparava ao pensamento de São Francisco de Assis (erradamente, desconfio) e do filósofo judeu holandês Baruch Spinoza (1632-1677). O indivíduo que adota essa perspectiva, diz Einstein, “sente a futilidade dos desejos e objetivos humanos e a sublimidade e maravilhosa ordem que se revelam tanto na natureza quanto no mundo do pensamento”, chegando ao desejo de “experimentar o Universo como um todo único e significativo”. Esse estado de espírito seria a “evolução” máxima das religiões primitivas, desde que se permitisse que a ciência “purificasse o impulso religioso do peso de seu antropomorfismo”, ou seja, da tentação de enxergar o divino com características humanas.

Com base nessa visão, Einstein chegou até a afirmar, de modo aparentemente paradoxal: “Se você reza e pede benefícios a Deus, não é um homem religioso”.

E AQUELE PAPO DOS DADOS?

É verdade que, muitas vezes, o físico curtia fazer referências misteriosas e com ar profético a Deus que podiam ser mal interpretadas. O que será que ele queria dizer com frases como “Deus não joga dados”, “Sutil é o Senhor, mas malicioso ele não é” ou, pior ainda, “Quero saber como Deus criou este mundo. Não estou interessado neste ou naquele fenômeno, no espectro deste ou daquele momento. Quero conhecer os pensamentos divinos, o resto é detalhe”?

Metáforas e mais metáforas, no fim das contas. Explicando o clássico “Sutil é o Senhor”, eis o que ele disse: “A natureza esconde seus segredos por causa de sua elevação essencial, mas por meio de ardis”. Ou então: “O que realmente me interessa é saber se Deus poderia ter criado o mundo de um jeito diferente; em outras palavras, se a exigência da simplicidade lógica admite alguma margem de liberdade”.

No fundo, para Einstein, Deus não criou a lei e a harmonia do Universo, ele É esse conjunto de leis — uma posição que talvez possa ser classificada como panteísmo, não muito diferente da do nosso amigo Giordano Bruno.

É claro que nada disso deveria influir na decisão de cada pessoa de acreditar ou desacreditar em Deus. Apoiar-se numa suposta crença ou descrença de Einstein não passa de argumento de autoridade — basicamente o pior tipo de argumento que se pode usar para defender qualquer coisa.

‘Eu era um hipócrita’, diz ex-estrela mirim de ‘Two and a Half Men’

Angus aparece de barba em entrevista (foto: Reprodução)

Angus aparece de barba em entrevista (foto: Reprodução)

Publicado na Folha de S.Paulo

O ator Angus T. Jones, ex-estrela mirim da série “Two and a Half Men”, voltou a falar mal do programa e disse que ele se sentia um “hipócrita pago” ao seguir trabalhando no programa.

Há pouco mais de um ano, Jones, que é ligado à Igreja Adventista do Sétimo Dia, disse que “odiava” a série e pediu às pessoas que parassem de assisti-la.

De lá para cá, o papel do ator como o personagem Jake foi reduzido drasticamente. Ele foi tirado do elenco fixo do programa e se tornou um personagem recorrente —mesmo assim, Jake não apareceu em nenhum episódio da atual temporada de “Two and a Half Men”.

Por isso, Angus T. Jones tem se concentrado nos estudos e em divulgar sua fé cristã, que ele diz ter entrado em conflito com sua atuação no programa.

“Era difícil para mim estar na série e ser parte de algo que estava tirando sarro de tópicos do nosso mundo, onde realmente existem problemas para muitas pessoas”, disse Jones na mais recente entrevista, a uma rede de TV local de Houston, nos Estados Unidos.

“Eu era um hipócrita pago, porque não concordava com isso [atuar em 'Two and a Half Men'] e ainda estava fazendo.”

No sábado (15), Jones discursou a paroquianos de uma igreja em Houston. Ele tem viajado pelos EUA para divulgar a Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Mesmo assim, o ator afirmou se sentir mal por ter criticado abertamente “Two and a Half Men” e seu criador, Chuck Lorre.

“[A série] era tipo o bebê dele, e eu falei muito mal do bebê dele. Por isso, eu me arrependo, mas fora isso, não retiro nada do que disse.”

dica do Ailsom Heringer

Lavagem de roupa suja

megafone

Publicado por Piero Barbacovi

Dizem para eu me calar quando falo que Deus é frágil. Sim, no amor, ele é. E isso não o diminui, pelo contrário, apenas descreve sua grandeza: o poder mais maravilhoso do universo não usa da coerção para nos atrair. Não precisamos de mais do mesmo. Devemos ter coragem de enfrentar o mundo real, que não conta com grandes intromissões. Precisamos de amor, não de milagres.

Dizem para eu me calar quando afirmo que Cristo não veio nos salvar apenas para o post mortem. Essa visão empobrece a mensagem do Mestre e joga para o depois do fim o processo que deveria salvar as pessoas ainda dentro da história. Ricardo Gondim já falava:

“A alvissareira mensagem do evangelho anuncia que não basta salvar os indivíduos de si mesmos, eles precisam ser salvos para o próximo; não basta salvar os indivíduos do diabo, eles precisam ser salvos para não demonizar as relações sociais; não basta salvar os indivíduos do mundo, eles precisam ser salvos para voltar ao mundo e salgá-lo”.

Dizem para eu me calar quando falo que o determinismo diante da vida não faz sentido. Se fizesse, seus apoiadores levariam suas crenças até as últimas consequências. Porém, quando se trata de terrorismo, estupros, desgraças, favelas, diante da incongruência de seus raciocínios,  o que se vê são abacaxis de responsabilidade sendo jogados para cima de Deus, que, para financiar a história, orquestra horrores como etapas necessárias para cumprir uma vontade soberana. Um deus permissivo, cínico, cruel e maquiavélico não merece ser adorado.

Dizem para eu me calar quando falo que pressupostos doutrinários tidos como verdades absolutas, e sem reflexão crítica, devem ser repensados. Nossos religiosos escolheram compreender Deus a partir da onipotência. Se tivessem prestado mais atenção ao que a revelação do amor indica, com certeza teríamos menos pessoas destrocadas pela fé. Caso assim seja, estou com Marx: “a religião é o ópio do povo”, uma vez que incentiva a inoperância e a indiferença do homem diante da vida, dos seus problemas e de suas injustiças. Usando o fatalismo como bengala, instiga à acomodação.

Dizem para eu me calar quando digo que alguns religiosos são antiéticos, egoístas e exploradores, que só pensam no sucesso de suas empresas (igrejas), mercadejando milagres. Cético, não acredito mais em depoimentos de curas veiculados pela TV. Se fossem assim, tão cheios do Espírito Santo, estariam nos corredores superlotados dos hospitais, ajudando nosso Governo na sua patética tarefa de cuidar da saúde.

Não vou me calar, pois sei do poder transformador que cada um tem dentro de si e porque sempre fui adepto ao trabalho de formiguinha: se cada um faz sua parte, as coisas dão certo. Podem me chamar de ingênuo, mas vou continuar protestando por menores salários de deputados, por melhor aplicação dos impostos em saúde e segurança, por ciclovias, melhores transportes públicos e maior acessibilidade, e, em qualquer circunstância, pela educação (sem ela, todas as outras coisas perdem sentido).

Não vou me calar diante da espiritualidade morta e inoperante, que tenta tirar dos ombros a nossa responsabilidade de mudar a realidade; diante de religiões que começam e terminam em si mesmas; diante de doutrinas, teorias ou dogmas que sirvam para enganar pessoas, enriquecer a poucos e asfixiar muitos.

Não vou me calar. Vou sujar minhas mãos um pouco. Podem até me chamar de sonhador, esquerdista, betésdico ou o que for, mas sei que todos estamos com a faca e o queijo na mão. Tem pra todo mundo. Vou cortar o meu pedaço.