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Rachel Sheherazade: “A fé é 100% importante”

A jornalista Rachel Sheherazade, 40, posa sobre a bancada do "SBT Brasil", jornal que apresenta há quase 3 anos (foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

A jornalista Rachel Sheherazade, 40, posa sobre a bancada do “SBT Brasil”, jornal que apresenta há quase 3 anos (foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

título original: Rachel Sheherazade, do SBT, diz que se decepcionou após votar em Lula

Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo

O Uruguai virou “sócio de traficantes” ao regulamentar o comércio da maconha. A defesa do Conselho Federal de Medicina à legalização do aborto é “abominável”, e possivelmente está criando “um novo nicho de mercado” para a classe médica.

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São algumas das ideias da jornalista Rachel Sheherazade, 40, que há quase três anos é paga para falar o que pensa no “SBT Brasil”, jornal das 19h45, do qual é apresentadora.

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Quem fala o quer quer, lê o que não quer na internet. “Meus votos para 2014: que a Rachel Sherazedo seja estuprada”, postou o filósofo Paulo Ghiraldelli, em 26 de dezembro. Ela rebateu no Twitter e vai processar o detrator por incitação a crime. Ele creditou o ataque a um hacker.

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Por conflitos como este (“que estavam consumindo meu tempo”), a apresentadora já havia decidido se afastar da internet. “Foi ela que me trouxe aqui, mas comentários e ofensas estavam me deprimindo”, conta ao repórter Chico Felitti.

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Foi o YouTube que lhe garantiu fama. Em 2011, ela fez um vídeo criticando o Carnaval, pois a festa cercearia o direito de ir e vir do cidadão e sugaria recursos públicos. O comentário, feito na TV Tambaú, de João Pessoa, sua terra natal, caiu na rede e foi visto por mais de meio milhão de pessoas em uma semana.

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Três dias depois, em pleno reinado de Momo, recebeu uma ligação de Leon Abravanel, sobrinho de Silvio Santos e diretor de produção do SBT. “Achei que fosse trote.” O contato era um convite para vir a SP conhecer a rede.

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“Vim desconfiando que seria um convite. Nunca quis sair da minha cidade, não preciso sair da minha região para me realizar.” Mas topou.

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Até então fazia dupla jornada. Passou em um concurso para ser escrivã em um tribunal para ajudar a fechar as contas, porque o jornalismo na Paraíba “não bastava”. Está licenciada e termina nos próximos dias o período máximo de afastamento. “Vou pedir desligamento.”

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Passaram-se mais de mil dias até a certeza de que poderia abdicar da estabilidade do funcionalismo público. Ela não fala em dinheiro, mas o salário de apresentadora, em torno de R$ 150 mil, permitiu que seu marido, Rodrigo, deixasse o emprego na Paraíba para acompanhá-la.

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“Foi uma prova de fogo. O homem nordestino pode ser muito machista. Olhamos o que é melhor para a família.” Moram com os filhos Clara, 5, e Gabriel, 3, numa casa em Alphaville, complexo de condomínios de luxo a 23 km de São Paulo. Mas o clã faz pouco esse percurso.

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“Eu tenho muito medo. Sou meio neurótica com violência urbana, mais ainda depois de começar a fazer bancada, noticiar tudo o que há de ruim.” Quando os quatro vêm a São Paulo, “muito esporadicamente”, optam por ir a teatros de shopping.

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Se não, é de casa para a labuta, como no dia em que encontrou a reportagem. Ela chega ao SBT às 14h, dirigindo seu sedã preto, com pulôver da mesma cor, bordado com pedrarias. Ainda não decidiu o tema do comentário.

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Está entre Edward Snowden, ex-agente que vazou informações confidenciais da agência de inteligência americana e sinalizara que queria asilo do Brasil, e a rebelião na Papuda, penitenciária onde estão presos condenados do mensalão. Acabou ficando com política brasileira, “mais interessante”.

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Escreve o texto no camarim, “como quem conta uma história”. Seu nome, inclusive, veio de uma contadora de casos: a avó paterna leu os contos das mil e uma noites e se apaixonou pela protagonista, Sherazade. O segundo nome, adotado como sobrenome no lugar do original, Barbosa, ganhou nova sílaba sem razão conhecida.

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Ela dá as razões para ter mudado de orientação política. “Eu era de esquerda. Pintei a cara para o Collor sair. Votei no Lula até ele ser eleito. Me decepcionei com o PT.” Hoje, vota “em pessoas, não em partidos”. Não declara em quem vai votar neste ano.

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“Com a minha maturidade, passei a ter posicionamentos mais de direita do que de esquerda.” Cita o direito à vida e à propriedade como exemplos. Em um aspecto pelo menos ficou mais liberal: o estético. Foi instruída pela emissora a usar bobes para dar volume às mechas escorridas. Detestava. “Hoje, não tenho vergonha de ir à praça de alimentação de bobe.”

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Confessa não ser vaidosa. “É um suplício”, diz ao se dirigir ao camarim para ser maquiada. No caminho, elogia Reinaldo Azevedo, colunista da Folha e da revista “Veja”. “Ele é um fofo! Me defendeu na história do Lula.”

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A tal história: o ex-presidente teria se referido a ela como “uma jornalista do SBT, de 20 e poucos anos” que faz críticas “sem embasamento”. Azevedo fez um texto em defesa da colega em seu blog.

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Rachel, por sua vez, defende o pastor e deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. “Ele sofre perseguição religiosa”, diz ela, sobre o parlamentar criticado por posições controversas como a “cura gay”.

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É evangélica desde os 23 anos, quando foi batizada na igreja Batista. “A fé é 100% importante. Não teria resistido às dificuldades que encontrei aqui se não fosse pela fé.”

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Entre os percalços, ser nordestina (“ainda há preconceito forte”) e trabalhar em “uma redação que te olhavam de banda por ter chegado pelas mãos do dono”.

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Não que fosse queridinha do patrão. Diz só encontrá-lo no salão de cabeleireiro Jassa, que tem convênio com a emissora. “Silvio é muito gente.”

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O chefe um dia perguntou por que ela não improvisa seus famosos comentários. “A gente faz ao vivo, cada segundo conta”, respondeu. Precisa treinar para encaixar a fala em 45 segundos.

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Chegando ao camarim, ela comenta que não quer fazer jornalismo para sempre. Mas desconversa. “Por enquanto estou feliz.” Pelo menos até 2015, quando vence seu contrato, vai viver de discursar, como a xará da literatura. A personagem original, diz a lenda, prendia a atenção do rei narrando aventuras por mil e uma noites. “Ela, no fim, é igual à gente, tem que segurar a audiência.”

A paraibana passa lápis de olho, após ter sido maquiada por um profissional; "Não sou vaidosa, é um suplício!" (Adriano Vizoni/Folhapress)

A paraibana passa lápis de olho, após ter sido maquiada por um profissional; “Não sou vaidosa, é um suplício!” (Adriano Vizoni/Folhapress)

Número de cristãos assassinados pela fé dobrou em 2013, diz relatório

Tom Heneghan, na Reuters [via Estadão]

Os relatos sobre cristãos mortos ao redor do mundo por causa de sua fé duplicaram em 2013, comparado com o ano anterior, com os casos somente na Síria superando o total registrado em 2012, de acordo com uma pesquisa anual.

O Portas Abertas, um grupo sem denominação que presta apoio a cristãos perseguidos ao redor do mundo, disse nesta quarta-feita ter documentado 2.123 homicídios de “mártires”, comparado com 1.201 em 2012. Houve 1.213 mortes desse tipo somente na Síria no ano passado, afirmou a entidade.

“Essa é uma contagem bastante mínima baseada no que foi relatado na mídia e que podemos confirmar”, disse Frans Veerman, diretor de pesquisas para a Portas Abertas. Estimativas de outros grupos cristãos colocam a contagem anual em 8 mil.

O Portas Abertas colocou a Coreia do Norte no topo de sua lista de 50 países mais perigosos para cristãos, posição que o nação asiática ocupa desde que a pesquisa anual começou a ser realizada há 12 anos. Somália, Síria, Iraque e Afeganistão vêm a seguir.

O grupo sediado nos Estados Unidos relatou um aumento da violência contra cristãos na África e afirmou que muçulmanos radicais foram a principal fonte de perseguição em 36 dos países que estão na lista.

“O extremismo islâmico é o pior perseguidor da Igreja mundial”, disse a entidade.

Cerca de 10 por cento dos sírios são cristãos. Muitos se tornaram alvos de rebeldes islâmicos que os consideram apoiadores do presidente Bashar al-Assad.

O relatório não traz dados sobre assassinatos na Coreia do Norte, mas diz que lá os cristãos enfrentam “a mais alta pressão imaginável” e que cerca de 50 mil a 70 mil vivem em campos para presos políticos.

dica do Ronaldo

Mercado bilionário da fé avança com novos produtos e serviços

Um dos segredos para o crescimento das vendas, apoiado principalmente na alta taxa de expansão de evangélicos no Brasil, é o lançamento de novidades

íblia plástica – para ler até debaixo d'água. (foto: Bárbara Ladeia)

Bíblia plástica – para ler até debaixo d’água. (foto: Bárbara Ladeia)

Bárbara Ladeia, no iG

De bíblias à prova d’água ou com capa com estampa de animal, passando por agências de viagens, pelo mercado da moda e da música, as vendas de produtos cristãos estão longe da acanhada taxa de crescimento da economia do Brasil. As estatísticas ainda são escassas, mas empresários do setor contam que o segmento vive uma fase favorável.

No último levantamento publicado sobre o setor, em janeiro de 2013, o professor de ciências do comportamento da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), Mário René, chegou a cifras relevantes. Segundo a pesquisa, o mercado da fé movimenta R$ 12 bilhões por ano entre shows, eventos, produtos, entre outros.

“As compras de produtos relacionados à religião são totalmente impulsivas e emocionais” , diz o pesquisador. “Esse mercado é pouco estudado e muito pouco monitorado, então diversas informações escapam pelos dedos. ”

Entretenimento

Com crescimento de 60% no número de evangélicos nos últimos dez anos, está cada vez mais lucrativo trabalhar para esse público. É apostando no cenário de crescimento do público evangélico que Leo Ganem, ex-presidente da Geo Eventos, das Organizações Globo, comemora o segundo mês da Um Entretenimento. “Quando abrimos a empresa, queríamos dar foco mas tínhamos receio de trabalhar exclusivamente com esse público, mas estamos tão felizes com o resultado que alcançamos que vejo poucas possibilidades de trabalho fora do mercado gospel”, afirma.

Ganem está à frente da Expo-cristã, evento marcado para novembro deste ano. A ideia é receber em São Paulo 120 mil pessoas, devolvendo a popularidade e o prestígio ao evento, que corria o risco de ser engolido pela Feira Internacional Cristã (FIC), produzido pela Geo Eventos, empresa que encerrou as atividades em 2013. Entre os patrocinadores, nada menos que Bradesco e Mapfre Seguros. “Já sabendo que a Geo seria fechada, saí de lá e negociei um acordo de compra da marca para dar continuidade a esse trabalho.”

O executivo não é evangélico e hoje trabalha principalmente com feiras e gestão de talentos. Já conquistou a produção do Renascer Praise, além dos cantores Eli Soares e Hadassah Perez, dois expoentes da música jovem gospel, um na linha pop e a segunda na linha eletrônica.

Entre os eventos, Ganem planeja um festival de música. “O evangélico usa a música como principal meio de comunicação. Estamos buscando eventos para colocar nossos artistas na vitrine”, comenta. Para completar, o crescimento de evangélicos nos classes A e B, segundo o executivo, deve também elevar o tíquete médio de investimento em produtos evangélicos. “Eles já consomem muito livros e músicas. Dificilmente abraçam o produto pirata, o que ajuda muito.”

Viagens de fé

Fernanda, na Terra Santa Viagens: "Você imagina a emoção de ir aos mesmos lugares que estão na Bíblia? É indescritível"

Fernanda, na Terra Santa Viagens: “Você imagina a emoção de ir aos mesmos lugares que estão na Bíblia? É indescritível”

Leva entre dois e três meses para um cliente decidir pela compra de um pacote de viagens – o investimento é alto e exige um chamado divino. Até a assinatura dos contratos, a vendedora de pacotes de viagens Fernanda Ariana de Almeida Alves procura manter contato. “Eu chamo os clientes pelo nome, mando e-mail com mensagens bíblicas. Eles querem ser bem tratados”, diz. “Vou alimentando esse sonho deles com a Terra Santa. Não tem trabalho mais abençoado que viabilizar esse sonho.”

É com esse nível de profissionalismo na sedução do cliente que opera a agência da Terra Santa Viagens, localizada na Galeria Conde de Sarzedas, no Centro de São Paulo, na rua de mesmo nome – apelidada de “Rua dos Crentes” e “Crentolândia” por alguns dos frequentadores. A agência é uma das operações da Terra Santa Operadora de Israel, empresa de turismo com foco religioso.

Os destinos são diversos: de Israel até um roteiro pelas Igrejas do Apocalipse e na Grécia. Fernanda vende pouco menos de 500 pacotes por mês. A cada viagem que fecham para Israel, por exemplo, levam entre 30 e 40 pessoas. “Nós temos muita concorrência, por isso não chegamos a tantas pessoas”, diz. Um dos principais canais de venda está nas mãos dos líderes religiosos – que são atendidos com um carinho especial pela loja.

Anualmente, 20 pastores ganham a oportunidade de fazer o roteiro em Israel pela metade do preço. “Nós fazemos o preço de custo, conseguimos patrocínios para baratear o preço das viagens”, conta Fernanda.

Os pacotes variam de US$ 3,2 mil – nove dias em Israel – até US$ 5,4 mil, para o roteiro das Igrejas do Apocalipse. Todas as viagens são acompanhadas de um guia local e outro que sai do Brasil junto com o grupo, para evitar problemas com o idioma. Os roteiros incluem passagens por pontos turísticos, mas principalmente por lugares citados nos livros sagrados. “Você imagina a emoção de ir aos mesmos lugares que estão na Bíblia? É indescritível”, diz Fernanda.

Fernanda é da Assembleia de Deus. O dono da agência é judeu e também proprietário da Caminhos Sagrados, voltada para o público católico. “A gente sempre faz as viagens separados, eles têm muitas divergências”, diz Fernanda.

Sem misturar

A região central de São Paulo, ao menos para os negócios, é ecumênica. Quem desce a Conde de Sarzedas da rua Conselheiro Furtado na direção da baixada do Glicério, possivelmente não enxergará uma só loja com imagens de santos. São os cantores evangélicos que garantem o sucesso da barraca de Jarisson dos Santos Silva, que não é evangélico, mas vende CDs e DVDs piratas na “Rua dos Crentes”. “Não vendo nada de padre aqui, não. Não pode misturar, eles não gostam”, diz.

O maior sucesso são os discos de playback das músicas da cantora Aline Barros. “O pessoal quer cantar nas igrejas, então os playbacks acabam saindo bastante”, conta. O ambulante leva para casa pouco mais de R$ 60 por dia. “Dá para sobreviver”, fala.

Primeira dirigente da Igreja da Renovação Espiritual em Francisco Morato, Bete Vieira (esq.) e sua filha Aparecida

Primeira dirigente da Igreja da Renovação Espiritual em Francisco Morato, Bete Vieira (esq.) e sua filha Aparecida

Vestindo a camisa

Primeira dirigente da Igreja da Renovação Espiritual em Francisco Morato, Bete Vieira Rodrigues andava pela região à procura de um presente para uma aniversariante de sua comunidade.

Recém-mãe, a moça ganhará duas camisetas – uma simples, estampada, e uma outra branca cravejada de apliques metálicos com uma mensagem Cristã. “Eu gosto de vir aqui porque sempre tem muito mais opção de tudo”, diz. A filha, Aparecida Luciana da Silva, de 38 anos, faz companhia e divide os afazeres com a mãe, na função de secretária da igreja. “Aqui é tudo metade do preço”, comemora Luciana, que aproveitou a passagem pela galeria para comprar presentes para o cunhado e o seu pastor.

Foi a baiana Nara Keila Oliveira do Carmo, 35 anos, que atendeu a dupla. Ela trabalha há nove meses na Teddy Camisetas, também na Galeria Conde de Sarzedas. “Recebo muita gente aqui de fora de São Paulo que acaba comprando no atacado para vender nos seus Estados de origem”, conta. Frequentadora da Assembleia de Deus, Nara sempre esteve envolvida com o mercado gospel. Antes trabalhava no Recanto dos Evangélicos, a RDE, uma das lojas mais antigas do local.

Entre as camisetas, a maior loja da Conde de Sarzedas, é a Cia dos Séculos. Com modelos mais atrativos para a juventude, aproveita os trocadilhos com os temas jovens como o Facebook e até os rótulos do bourbon Jack Daniels, que há muito tempo já estampam camisetas do mundo do rock. “As vendas de 2013 as vendas foram bem melhores que as do ano anterior”, diz Karina Paz dos Santos, de 26 anos, que trabalha na loja há seis. Todas as camisetas custam R$ 20 no varejo e R$ 17,90 no atacado. “Vem muita gente de fora de São Paulo buscar, mas o melhor do movimento é sempre na sexta e no sábado”

Há 36 anos na região, a RDE é uma referência. Ana Lúcia de Carvalho, de 52 anos, é gerente da loja onde trabalha há 34 anos. “A gente não costuma contar quantas pessoas passam por aqui por dia, não. Tem dias que a gente da conta, mas tem dias que é muito mais corrido”, diz. Lá, os CDs de cantoras modernas como Bruna Karla fazem o maior sucesso. “Antigamente tinha bem menos diversidade que hoje, mas os clássicos ainda vendem muito”, conta a gerente da loja, que vende CDs de R$ 3 a R$ 19. Entre os clássicos, o preferido de Ana – e da maior parte dos clientes – é o cantor Ozéias de Paula. “Esse é o que mais vende entre os antigos.”

Textos sagrados

“Essa de tigre faz o maior sucesso com as mulheres”, diz Camila

“Essa de tigre faz o maior sucesso com as mulheres”, diz Camila

As bíblias e seus acessórios também chamam a atenção do público. Camila Causo, de 22 anos, é da Igreja Bíblica da Paz e há um ano e meio ajuda o pai na loja no Galeria Conde de Sarzedas. Entre os produtos mais vendidos da loja estão as capas para bíblias – em especial com as estampas “animal print”. “Essa de tigre faz o maior sucesso com as mulheres”, diz Camila.

Os livros administrativos também têm uma boa procura, especialmente para o público de fora de São Paulo, que também frequenta a região e faz compras por atacado. “Recebemos gente da Bahia, de Santa Catarina, do Rio de Janeiro, e de vários outros lugares.”

Camila afirma que agora, no segundo andar da galeria, já consegue faturar até R$ 8 mil reais. “Quando estávamos no terceiro andar, o movimento era muito fraco, não dava nem R$ 2 mil”, conta Camila. “Aqui é bem melhor, mas o aluguel também é mais caro, mas compensa.” O espaço onde a está a loja da família Causo custa R$ 2,5 mil ao mês – mais uma luva que, mesmo sendo ilegal, chega a R$ 40 mil.

Católicos fora do foco

Em Campo Grande (MS), o Judah Shopping Gospel vende produtos religiosos, mas o público evangélico é o que mais compra. Segundo Gerusa Maria de Oliveira, sócia-proprietária da loja, são cerca de 200 pessoas que vão pessoalmente às compras no local.

Apesar do nome, não se trata exatamente de um shopping, mas de uma única loja que vende todo o tipo de produto, como brinquedos. No entanto, Gerusa conta que as bíblias são as mais procuradas. “É de longe o produto mais vendido por aqui, seguido pelos CD”, afirma.

Desde que foi fundada, três anos atrás, o fluxo de clientes quase triplicou. “Precisamos aumentar a quantidade de produtos e também foi necessário contratar funcionários”, explica Gerusa. Atualmente, trabalham cinco pessoas na loja – dois funcionários, Gerusa, o marido e mais um familiar que ajuda nas contas.

Não fosse pela Jornada Mundial da Juventude, que contou com a visita do Papa Francisco I no ano passado – e injetou R$ 1,2 bilhão na economia carioca –, o mercado de produtos católicos poderia ter tido um 2013 mais tímido. A Expo-Católica aproveitou a visita do líder religioso para impulsionar o número de visitantes. Foram seis dias de evento, com 500 mil pessoas. “Normalmente, recebemos umas 30 mil pessoas nos dias abertos ao público. Esse volume todo não vai voltar a acontecer”, diz Kiara Castro e Castro, da Promocat, que promove o evento.

Para Klara, o crescimento do mercado evangélico tem sido um fator de profissionalização também dos produtos católicos. “Agora que os padres e os músicos estão investindo em divulgação e no trabalho de marketing”, diz. A curva é tímida, mas de crescimento.

Bíblias em queda

Quem não tem muito o que comemorar são os fabricantes de bíblias. Segundo o maior fabricante do livro sagrado no País, a Sociedade Bíblica Brasileira (SBB), o número de unidades distribuídas em 2013 deve ser igual ao de 2012, de pouco mais de 7,4 milhões unidades – entre livros entre católicos, evangélicos e ortodoxos. No ano passado, o faturamento da empresa foi de R$ 88,8 milhões.

O secretário de Comunicação e Ação Social da Sociedade Bíblica Brasileira (SBB), Erní Seibert, estima que o País imprima hoje cerca de 12 milhões de bíblias por ano, considerando também a produção de outras editoras – o equivalente a um lvro a cada 2,6 segundos.

No entanto, essas são apenas estimativas do executivo. Além de pouco profissionalizado, esse mercado não tem muito controle sobre o que é produzido e distribuído. “Eu tento fazer algum monitoramento, mas não adianta, essas empresas não têm esses números – e as que têm não divulgam”, afirma.

 

Os dois deuses do Brasil

Por Juan Arias, no El País

Talvez seja um caso único no mundo: quase 90% dos brasileiros (87%) estão convencidos de que “a fé em Deus torna as pessoas melhores”. Junto com esse dado surpreendente para países secularizados aparece outro não menos importante: 67% creem que o crescimento da economia deve ser impulsionado pelo Estado, não pela iniciativa privada, uma cifra que aumenta entre a população pobre.

É possível que ambos os dados possam estar relacionados, embora a confiança que a grande maioria dos brasileiros deposita em ambas as divindades – Deus e o Estado – tenha origens diferentes. A fé em Deus livraria as pessoas dessa maldade que impregna a sociedade, com suas violências e corrupções, tornando-as melhores, com menos tentações de maldade; 85% se declaram contrários ao uso de qualquer tipo de drogas.

A fé no Estado, por sua vez, os livraria das dificuldades econômicas. O Estado, como uma divindade boa, cuidaria das necessidades das pessoas melhor do que a economia privada, o esforço pessoal ou a criatividade. Seria o verdadeiro talismã para serem menos pobres.

Os dados, que aparecem em uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Datafolha, são importantes porque não se trata de uma possível anomalia de algum pequeno país periférico do mundo, como ocorre com o Butão e o PIB da felicidade, o “índice de felicidade bruta” (IFB). São dados de um grande país emergente, que começa a contar seriamente na geopolítica mundial, com 200 milhões de habitantes, coração do continente latino-americano.

Sempre se soube que o Brasil, como todo o continente latino-americano, tem um povo profundamente religioso, com uma religiosidade eclética e ecumênica, na qual convivem em paz diferentes crenças, daquelas de origem africana ou indígena até a católica e a evangélica.

Quando cheguei ao Brasil, há 15 anos, o escritor brasileiro Paulo Coelho me advertiu “Vai ser difícil para você aqui, inclusive entre intelectuais e artistas, encontrar agnósticos e ateus convictos”, e acrescentou: “Nós, brasileiros, sempre precisamos acreditar em algo”.

Talvez essa necessidade de acreditar em algo seja também, de algum modo, universal, embora nem sempre declarada. Países altamente secularizados, como por exemplo a Espanha, continuam sendo oficial e majoritariamente católicos ou cristãos. A diferença em relação aos brasileiros é que é difícil hoje encontrar um povo no qual 90% creiam que a mera fé em Deus torna as pessoas melhores. Até os crentes convictos de outros lugares do planeta reconhecem que nem sempre a fé em Deus e a boa conduta dos crentes caminham em paralelo. A história está repleta de criminosos, corruptos, racistas e exploradores que se professam religiosos e até frequentam igrejas. A história das guerras de religião e das diferentes inquisições revela como tantas vezes existe um divórcio entre a fé e a vida; entre o que se professa religiosamente e como se age na vida real. No Brasil, para 87% basta crer em Deus para que as pessoas sejam melhores.

O fato de uma ampla maioria dos cidadãos revelar também uma maior fé no papel benéfico do Estado do que na força da iniciativa privada poderia explicar o fato de que, na hora de votar ou de julgar os políticos, que aparecem sempre coletivamente na lanterna do apreço popular, salve-se sempre a figura do presidente da República, a quem se perdoa muito mais do que aos demais políticos.

Talvez porque o presidente seja visto pela maioria como uma espécie de divindade, de pai poderoso e bom, que acaba cuidando melhor do que ninguém dos seus súditos, mesmo que cometa erros.

Se a fé em Deus torna as pessoas melhores, a fé no Estado e no seu maior representante também deixaria os cidadãos mais protegidos das tentações do livre mercado e da iniciativa privada, um tema de candente atualidade hoje em dia, que divide as diferentes escolas do pensamento a respeito do papel do Estado no crescimento econômico.

Melhor que o Estado cuide de nós? Estamos mais seguros protegidos pelo pai religioso Estado do que pelo deus ateu ou pagão que reina no mundo das finanças, dos bancos, dos que tecem na escuridão as grandes crises mundiais?

Hoje, os brasileiros parecem ter certeza disso. E amanhã? Porque este país está em plena evolução, seus jovens estão mais conectados com o mundo externo da secularização e desejam abrir eles mesmos os caminhos, com suas próprias forças.

Carlos Alberto Di Franco, diretor do Departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais, escreve na sua coluna de segunda-feira em O Globo que, na universidade e nos ambientes de trabalho, “ao contrário das utopias do passado, os jovens acreditam na excelência e no mérito como forma de fazer a verdadeira revolução. Defendem o pluralismo e o debate de ideias”.

Os 60 milhões de jovens brasileiros sem dúvida forjarão o Brasil do futuro, que poderá ser muito diferente do que o refletido na pesquisa atual, onde ainda permanecem as marcas de um passado que vai se transformando à velocidade da luz.

Admirar a natureza faz as pessoas acreditarem em Deus?

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Publicado no Hype Science

Observar belas paisagens naturais como o Grand Canyon, nos Estados Unidos, ou ver uma aurora boreal, pode aumentar as chances das pessoas acreditarem em Deus e no sobrenatural, de acordo com um novo estudo.

O cientista psicológico Piercarlo Valdesolo, da Universidade Claremont McKenna, desenvolveu uma pesquisa a partir das filmagens de Planet Earth (“Planeta Terra”), um documentário produzido pela BBC sobre a natureza.  

De acordo com Valdesolo, as pessoas que assistiram trechos com as imagens inspiradoras do vídeo mostraram maior disposição em relatar o aumento da fé em Deus.

“A ironia disso tudo é que contemplar coisas que sabemos que são formadas por causas naturais, como as extensões das impressionantes crateras do vale do Grand Canyon, nos leva a explicá-las como um produto de causas sobrenaturais”, conta Valdesolo.

Uma descoberta interessante do estudo foi como os ateus reagiram às cenas: com desconforto. Os pesquisadores acreditam que essa reação pode ser o que leva algumas pessoas a procurar explicações para o desconhecido através de meios científicos.