7 km é exatamente a extensão do tamanho ‘grupo’ que eu fiz parte na manifestação de ontem (17/6). Um oceano de gente assustador. Nem contei com a Avenida Paulista. Com certeza a TV só ‘contou’ os 2,5 km da Avenida Paulista. Vi coisas impressionantes. Enquanto alguns pichavam agências bancárias, outro grupo de manifestantes chegava com pano e água para limpar. Enquanto um engraçadinho tentava praticar um ato exagerado, os manifestantes o repreendiam.
Esta manifestação que está se espalhando pelo Brasil revela o nível da injustiça, corrupção, descaso e impunidade que explode com fúria e força. Veja bem, eu disse que “explode”, porém, esta explosão precisa virar uma conscientização que molde o caráter político das pessoas, tanto no que tange a esfera partidária, quanto nas reivindicações e interesse pelo debate público. É de suma importância que a causa, ou melhor, as causas, superem o movimento Passe Livre. Que vire uma onda que não passa e que não se desintegra.
Em relação aos que estão definitivamente contra as manifestações e que são do contra mesmo, a despeito dos atos isolados, pontuais e infelizes de vandalismo, me façam um favor: não tenham filhos; vai que seus filhos nasçam medíocres, néscios e covardes como vocês… Temos que tomar cuidados com essas probabilidades de maldição familiar educacional e o BR não quer que essas crianças sejam você amanhã. Essa corja nem classe média é. É tudo pobre que subiu um degrau na vida e se sente indiferente aos anseios de enfrentamento dos problemas do BR ou sofreu lavagem cerebral em seus contextos de trabalho, casa, ambiente religioso ou fotinha com frase de Reinaldo Azevedo, Raquel Sherazade ou Datena.
Toda manifestação, ainda que pacífica, gera transtorno. Ambulâncias ficam paradas, o povo que depende do ônibus ou que utiliza o seu carro, não chega em casa. Por isso, manifestação desse tipo não é a “coisa mais linda do mundo”. Quem dera não precisássemos protestar nas ruas e não gerar transtornos a ninguém. Mas esses Atos públicos são o mal necessário que podem mudar o país. Se vai mudar, eu não sei, mas é o único jeito de tentar mudar. Eu não quero ser um desses que reclamam a vida a toda e quando tem a oportunidade de fazer algo, cruza os braços e ainda se volta contra. Isso se chama “ativismo da covardia”, onde eu faço apologia à covardia com bravura e com pseudo senso crítico.
Que estejamos juntos na tragédia com solidariedade e ação. Que estejamos juntos nas manifestações com conscientização e perseverança. Que estejamos juntos no respeito ao próximo como práxis individual e verdadeira.
Uma adoção mudou o rumo de uma família em Cuiabá e de um bebê indígena que estava fadado desde as primeiras horas de vida a ser sacrificado por ter nascido com Síndrome de Down. Quando se lembra do esforço que precisou ter para ser mãe adotiva do pequeno Antônio, hoje com sete anos, a psicopedagoga Beatriz Mello, de 56 anos, diz que faria tudo de novo só para ter a chance de salvar a vida do filho que é da etnia Cinta Larga.
“Foi uma escolha muito forte. Até pela minha formação eu sempre desejei ser mãe de uma criança com down. Eu fiz dar espaço para isso e recebi o meu maior presente, um ‘pacotinho especial’ que me dá alegria diariamente”, diz Mello.
Antônio vive com a mãe adotiva em Cuiabá. (Foto: Dhiego Maia/G1)
O ‘pacotinho especial’ de Beatriz vem ao longo dos anos contrariando as previsões médicas mais pessimistas. Além de ser down, Antônio é surdo e, por consequência, não fala e tem respiração limitada devido a um problema pulmonar grave. Há um ano, ele recebeu um implante de um aparelho no ouvido e já começa a reproduzir na fala os sons que ouve. Beatriz contou à reportagem que se emocionou quando observou o filho se esforçando para falar a palavra mamãe.
“Ele falou ma, ma, ma. Foi uma emoção muito grande”, recorda.
Superação
Os quatro primeiros anos de vida do garoto não foram fáceis. Antônio passava meses internado. Beatriz diz que o esforço, na época, era para mantê-lo vivo. Ela se emociona quando recorda do momento mais difícil quando pensou que Antônio não sobreviveria a mais um período no hospital. Em Maceió, a capital de Alagoas, o rim e o fígado de Antônio entraram em colapso.
“Eu disse bem próxima ao ouvido dele que se ele tivesse que nos deixar, a passagem dele seria iluminada. Mas que se ele quisesse ficar com a gente, ele receberia muito amor”, afirma.
Antônio saiu do coma e, um mês depois, deixou o hospital. “Ele optou pela vida sempre sorrindo, com bom humor. Meu filho é um guerreiro”, completa Beatriz.
Mãe de outras três filhas, a psicopedagoga conheceu a história do bebê que se tornaria o filho caçula dela por meio de uma reportagem exibida em 2005 pela TV Centro América, afiliada da Rede Globo em Mato Grosso. À época, Antônio estava debilitado e precisava fazer uma cirurgia. Ele era o 12º filho de um casal de índios que vivia em uma aldeia localizada na zona rural de Aripuanã, cidade distante a 976 quilômetros de Cuiabá.
A mãe biológica do garoto temendo que o filho pudesse ser sacrificado por conta da deficiência contrariou a tradição e entregou o menino para a Fundação Nacional do Índio (Funai). “Essa mulher foi muito corajosa porque ela sabia que se ele ficasse por lá não sobreviveria até pelas condições da aldeia que não tinha nem energia elétrica”, revela Beatriz.
Menino era o 12º filho de um casal indígena na cidade de Aripuanã. (Foto: Dhiego Maia/G1)
Da chegada de Antônio a Cuiabá para o primeiro tratamento médico até obter a guarda provisória dele foram dois meses de espera, conta Beatriz. Ele foi levado para a casa dela ainda debilitado e recebendo cuidados em uma ‘homecare’. A guarda definitiva só foi expedida quatro anos depois.
Da convivência com o filho especial, diz Beatriz, ela aprendeu a ser mais serena e forte. “O meu crescimento como pessoa é incrível. Eu sempre achei que faltava em mim o dom da paciência. Depois do Antônio me tornei mais tolerante e serena. Os valores que a gente têm na vida mudam, não tem jeito. Acasos acontecem por conta de um acaso ainda maior”, revela.
Antônio ainda continua cercado de cuidados por ter uma saúde frágil. Ele faz fisioterapia respiratória duas vezes por dia e ainda está aprendendo a se comunicar com o auxílio de uma fonoaudióloga. A meta de Beatriz é tornar o filho o mais independente possível.
Cinta Larga
Os índios da etnia Cinta Larga estão espalhados em aldeias pelos estados de Mato Grosso e Rondônia. Dados da Funai apontam que a etnia possui 1.757 integrantes. A comitiva do Marechal Cândido Rondon foi a primeira a fazer contato com os Cinta Larga, em 1915. A intensa pressão econômica na região em que está inserida por conta da atividade garimpeira fez a população da etnia reduzir consideravelmente ao longo dos anos.
A sexóloga inglesa Fran Fisher foi freira na juventude. Agora, entrevista religiosas para entender a interferência do catolicismo na sexualidade
EX-NOVIÇA REBELDE A sexóloga Fran Fisher em seu consultório, nos Estados Unidos. Abaixo, uma fotografia de quando ela acabara de entrar no convento (Foto: Christopher Thomond/The Guardian e arq. pessoal)
Quando a irmã Jane Frances de Chantal fugiu do convento em que morava, na Inglaterra, sabia que deixava para trás sua vida religiosa. Ela não imaginava que se tornaria especialista em sexo. Hoje, Fran usa seu sobrenome de casada, Fisher. Atende na Califórnia pacientes com problemas sexuais. A mudança de carreira ocorreu décadas depois de Fran sair do convento, onde viveu entre os 18 e os 20 anos. Ela se casou e teve dois filhos. Diz que só entendeu como a religião limitara seu prazer quando foi estudar sexologia, depois dos 40 anos. Decidiu, então, investigar a vida íntima de outras mulheres que abandonaram o hábito. O resultado está no livro In the name of God, why? (Em nome de Deus, por quê?), lançado nos Estados Unidos no fim de 2012.
ÉPOCA – Por que a senhora decidiu entrar para um convento?
Fran Fisher – Meus pais imigraram da Irlanda para a Inglaterra. Eram católicos fervorosos com pouquíssima educação. A escola em que fiz o ensino médio era católica. As freiras vinham conversar com as alunas, para sondar se alguma tinha interesse em entrar para o convento. Aos 15 anos, me senti atraída por esse estilo de vida. Tinha um interesse pessoal pela espiritualidade e era muito religiosa.
ÉPOCA – Em seu livro, a senhora relata que, aos 14 anos, acreditou estar grávida. Como esse momento influenciou a decisão de entrar para o convento?
Fran – Tive um encontro com um rapaz e não houve sexo, apenas preliminares. Não entendia muito bem como a gravidez ocorria. Tive medo de estar grávida e procurei minha mãe. Em vez de me acalmar, pois a gravidez naquele caso seria impossível, ela disse que eu poderia estar grávida. Disse ainda que eu fizera algo muito errado, que Deus desaprovaria. Fiquei apavorada e envergonhada. A partir daquele momento, passei a achar que o sexo arruinaria minha vida. Naquele dia, tornei-me muito mais religiosa.
ÉPOCA – Como era sua relação com a sexualidade enquanto estava no convento? A senhora lidava bem com eventuais desejos físicos?
Fran – Não tinha nenhum desejo, estava dormente. Num único momento, tive noção de minha sexualidade durante meus anos no convento. Quando nosso padre ficou doente, um substituto passou a vir ao convento para fazer a missa diária. Ele era jovem, e me lembro de sentir atração, mas não fiz nada a respeito. Não se podia discutir nada ligado ao corpo com as outras freiras. Tudo era reprimido.
ÉPOCA – A senhora se lembra de algum exemplo de repressão que sofreu?
Fran – A repressão estava no cotidiano. Por baixo do hábito, usávamos uma anágua feita de algodão bem pesado. Dessa forma, quando estávamos limpando o chão, poderíamos levantar o hábito para não sujá-lo. Lembro uma vez em que estava limpando uma escadaria com meu hábito enrolado na cintura, quando meu padre confessor apareceu inesperadamente. Eu me levantei para saudá-lo e fui repreendida por outra freira por estar com meu hábito levantado. Para ela, eu estava seminua.
ÉPOCA – Por que decidiu abandonar o convento?
Fran – Por uma série de razões. Tínhamos uma madre superiora paranoica e muito rígida. A pressão me deixou doente. Tive pneumonia duas vezes, perdi peso e sofri muito. O controle mental que nos impunham era muito difícil para mim. As perguntas que eu fazia eram consideradas inaceitáveis por minhas superioras. Lembro uma vez em que perguntei como Maria poderia ser virgem até sua morte, se pariu um filho. A madre superiora ficou chocada. Disse que aquilo era um desrespeito. A gota d’água foi quando minha irmã se casaria e me disseram que eu não poderia ir ao casamento, mesmo que comparecesse somente à cerimônia religiosa, com uma acompanhante. Todo esse dogma e paranoia foram demais para mim. Fugi enquanto todos estavam na missa da manhã.
ÉPOCA – Qual é sua relação com a religião hoje em dia? Ainda é católica?
Fran – Não me considero mais católica. Pessoalmente, não gosto de religiões organizadas. Se você atribui tanto poder a uma organização, ela se torna corrupta. Minha relação com Deus hoje em dia está cada vez mais forte e pura. Mas não é o Deus punitivo da minha infância.
ÉPOCA – Por que decidiu estudar sexualidade?
Fran – Quando me interessei por sexualidade, meu casamento já tinha 25 anos. Sua única área problemática era o sexo. Conheci uma sexóloga numa conferência. Fiquei fascinada, porque nunca tinha ouvido falar dessa profissão. Ela sugeriu que eu fosse a um curso. Achei que seria interessante. Fui e fiquei chocada com o que ouvi naquele fim de semana. Jurei que nunca voltaria. Acabei voltando, mesmo com medo, porque a curiosidade foi maior.
ÉPOCA – Quais eram os problemas relacionados ao sexo em seu casamento?
Fran – Fui educada para ficar de boca fechada e não expressar minha opinião. A raiz disso estava no lugar destinado às mulheres na sociedade em que fui criada e na religião católica. Infelizmente, me casei muito cedo, aos 22 anos, menos de dois anos depois de sair do convento. Não tinha aprendido a ser dona de meus próprios pensamentos com convicção. Depois de ter meus filhos, passei a ter relações só por obrigação. Minha resposta-padrão para qualquer sugestão de inovação sexual era “não”. Quando decidi estudar sexualidade, meu marido ficou animadíssimo. Passei a ser tão curiosa quanto ele, e, no lugar de dizer não, quando ele sugeria alguma coisa, eu pedia para ele me contar mais sobre aquilo.
ÉPOCA – Em seu livro, são entrevistadas outras ex-freiras. O que as histórias dessas mulheres têm em comum com a sua?
Fran – A principal similaridade entre todas era o silêncio sobre o sexo durante a infância. As mulheres que saíram cedo do convento, como eu, se casaram rapidamente. A proibição do sexo antes do casamento ainda era muito forte, então a maioria acabou se casando com o único homem com quem se envolveu, como eu. Aquelas que ficaram muito tempo no convento acabaram tendo vida sexual lá, com padres ou fiéis. Duas das 69 ex-freiras que pesquisei se relacionaram sexualmente com outras freiras. Quando uma freira se envolvia com um padre, havia uma dinâmica de poder, em que a mulher deveria ser subserviente. Uma delas me contou que só ela fazia sexo oral no padre. A contrapartida nunca ocorreu em muitos anos de relação. A exceção foi uma mulher que adorava sexo e estava na faixa dos 50 anos.
ÉPOCA – O perfil das jovens freiras mudou?
Fran – As freiras continuam vindo de onde sempre vieram, de países muito pobres, onde mulheres veem na Igreja sua única oportunidade de uma boa educação e de escape de uma existência difícil. Na minha infância, uma grande quantidade de freiras católicas vinha da Irlanda. Quando o país entrou para a União Europeia e mudanças econômicas poderosas ocorreram por lá, a vocação religiosa diminuiu. Agora, as noviças quase não existem mais, e os conventos estão fechando.
ÉPOCA – O que a senhora acha do celibato?
Fran – É inconcebível que a Igreja ainda tente basear sua religião numa premissa tão pouco natural quanto o celibato. A maior parte das pessoas gosta muito de sentir prazer, mesmo devotando sua vida a Deus. A ideia de que a Igreja consegue controlar a sexualidade das pessoas acabou gerando reações contrárias. Existem muitos homossexuais em conventos e mosteiros. Se você é muito religioso e gay, para onde mais pode ir?
ÉPOCA – A senhora costuma atender em seu consultório pessoas com problemas sexuais ligados à religião?
Fran – Recebo muitos pacientes justamente por causa do meu histórico. É importante respeitar a crença em Deus, mas separá-la do que foi doutrinado durante a infância. Quando se fala de sexualidade, muitos continuam com os mesmos medos, julgamentos e restrições da infância. Não os superamos só porque nos tornamos adultos. É um aprendizado rever esses conceitos. E um desafio.
Jacob Collier nasceu numa casa de Músicos e desde criança esteve envolvido com a música, principalmente o Jazz. Ele já viajou por diversos países tocando em Óperas e foi um dos três participantes do Mozart´s Magic Flute.
Dono de um talento sem igual e em razão das coisas que faz, Jacob pode ser considerado um gênio, hoje, com apenas 18 anos.
Leia abaixo a íntegra da entrevista exclusiva que Jacob Collier concedeu ao Fala Fil.
Quando eu assisti seus vídeos, pela primeira vez, fiquei bastante impressionado. Como surgiu a ideia de construir um coral usando somente a sua voz?
Eu sempre adorei cantar e também sempre gostei muito de compor e fazer arranjos. Além disso, sempre amei explorar todas as harmonias e suas possibilidades. Sempre ouvi corais de todos os estilos, música gospel e música feita por grupos vocais. O grupo Take 6 me inspirou muito a fazer o que eu faço.
Sob o ponto de vista técnico, como você gravou os seus vídeos?
Para os vocais, em primeiro lugar eu fiz os arranjos e escrevi as partituras em seis partes diferentes. Assim que terminei essa parte, eu comecei a gravar o som de cada parte de forma independente e usando Logic Pro, começando pela voz mais grave, depois juntei todas as vozes, instrumentos e por último a melodia. Quando tudo isso ficou pronto eu comecei a filmar cada parte – escolhi diferentes looks e cortes de cabelo e fui juntando cada parte.
Para os vídeos instrumentais eu tive que gravar e filmar cada instrumento simultaneamente e isso foi bastante desafiador, mas foi uma experiência muito gratificante.
Você é muito bem sucedido como instrumentista e começou como auto didata. Como e quando você descobriu seu interesse e talento natural para a música?
Desde sempre me lembro de ter grande interesse e ser apaixonado por música. Minha mãe me inspirou e me incentivou desde muito criança a tocar o seu violino e com frequência eu a assisti regendo a Orquestra de Câmara na Royal Academy of Music.
Em casa, sempre estivemos rodeados por música e de instrumentos musicais, eu sempre adorei tocar e cantar. Eu me lembro de ter ganho de presente um tambor Djembe quando eu tinha apenas oito anos e adorei.
Conheci o software Cubase quando eu tinha sete anos de idade e isso me permitiu começar a compor, fazer arranjos e gravar minha música. Eu sempre adorei juntar as vozes e gravar, mesmo quando eu era criança já fazia isso.
Você é um amante do Jazz, o que não é muito comum para um menino com a sua idade. Por que o Jazz?
Eu cresci ouvindo muitos diferentes estilos musicais, mas sempre admirei a capacidade de improvisação dos músicos de Jazz. Eu sempre adorei diferentes ritmos, trocar experiências e tocar com outros músicos. Mas o que eu realmente amo com relação ao Jazz é a harmonia tremendamente emocionante. Com o Jazz as possibilidades são infinitas.
Não posso afirmar, mas posso assumir que seus amigos, têm interesses diferentes dos seus. Seu interesse precoce pela música o manteve distante dos seus amigos?
Não muito, mas algumas vezes – por exemplo, quando eu tinha 12/13 anos, eu perdia meses do colégio para tocar em Óperas ao redor do mundo – eu toquei e fui um dos três garotos do “Mozart´s Magic Flute” e cantei na Ópera de Benjamin Britten “The Turn of the Screw” na Itália e na Espanha. No London Coliseum participei de três diferentes produções que me inspiraram bastante e me fizeram gostar ainda mais das harmonias.
Nunca fui excluído do meu grupo de amigos em razão da minha paixão pela música. Eles me respeitavam muito por isso, embora eles preferissem relaxar fazendo esportes, indo ao cinema ao contrário de mim que preferia ficar em casa compondo e tocando.
Fundei e estive à frente alguns grupos musicais na escola e um grupo de improvisação – Ceilidh Band – além de um grupo voltado para a percurssão.
Dentre outras coisas, você é músico, cantor, ator e compositor. Quais são seus objetivos?
Eu penso que música é uma poderosa forma de atingir os sentimentos e emoções das pessoas – uma ferramenta muito mais poderosa do que as palavras.
Através da música eu penso que é possível nos comunicarmos com as pessoas, pintar imagens do mundo sob diferentes aspectos. Eu adoraria descobrir e explorar diferentes gêneros musicais – do Jazz, passando pelo Hip Hop, Folk, Improvisação, música Renascentista, música Africana, Gospel e a música Erudita.
Eu adoraria me envolver com todos esses ritmos e dessa forma poder me conectar com outras pessoas e músicos além também de aprender e conviver com outras culturas. As diferentes formas de Arte, como a Música e o Teatro são para comunicar ideias que muitas vezes podem mudar a vida das pessoas.
Você acaba de começar um curso de quatro anos na fantástica Royal Academy of Music em Londres. Qual o curso que você está frequentando? Ao final desses quatro anos, o que você pretende fazer como músico?
Na minha turma do primeiro ano, sou o único pianista de Jazz, o que significa dizer que vou ter a oportunidade de tocar bastante, encontrar e trabalhar com músicos fantásticos.
É um pouco cedo para dizer o que vou fazer após ter terminado o curso. A única coisa que sei é que serei músico. Vou precisar esperar um pouco, adquirir experiência nesses quarto anos, viver todas as coisas para então decidir o que fazer.
Qual a opinião dos seus pais sobre suas escolhas?
Minha família sempre esteve a meu lado me apoiando em todas as minhas aventuras musicais. Sem o incentivo deles, eu simplesmente não conseguiria desenvolver minha carreira como músico e ser o que sou hoje. Na minha família, todos são músicos, sendo assim, música sempre esteve presente na minha casa.
Por sorte, meus vizinhos são muito pacientes e nos apoiam! Kkkkkk
Eu sempre toco música Folk com minha irmã Sophie que toca violino. Nós tocamos juntos, eu toco o Ukulele e canto. Também toco muito com minha mãe – nós tocamos juntos violino e piano, também toco baixo e Tango com ela e seus amigos… nos divertimos muito.
Gene Simmons do Kiss disse que escolheu seu músico porque era a forma mais fácil de encontrar as garotas. Como seu talento e sensibilidade com a música ajudam você a conquistar as meninas?
Ha ha ha … eu penso que tem me ajudado. Como eu disse, música é uma das melhores maneiras de nos conectarmos com outras pessoas. Na Escola que estou estudando já encontrei muitas meninas muito bacanas.
Diga suas preferências. Qual a sua Banda, Música, Show preferidos?
Poderia escolher muitas, não somente uma. O mais importante é que a gente ouça a música que gostamos, independente de que estilo seja, nunca devemos parar de ouvir música.
Meu objetivo final é poder conhecer e me conectar com outras pessoas, músicos e tocar músicas maravilhosas… estar feliz e fazer os outros felizes.
Antes de mais nada, tenho 25 anos e, desses, 17 eu morei no Japão, na região de Tokai. Mas minha opinião é formada pelo que eu passei e pelo que vi meus amigos passarem. Portanto, não vou abordar a constituição, violência no Brasil e outras coisas. É apenas um ponto de vista sobre a situação.
A terceira vez que fui para o Japão foi em 1996. Cheguei lá com 8 anos e morava na cidade de Shimizu. Cresci como quase todas as crianças brasileiras de lá. Meus pais normalmente trabalhavam das 8 hs às 20 hs, por isso, só os via na parte da noite ou finais de semana. Minha mãe deixava a comida pronta pra eu esquentar no microondas e, durante o dia, eu me divertia passeando de bicicleta pela cidade, pois não ia para pra escola.
Aos doze, ganhei um computador e Internet. Com quatorze, fui até a cidade de Hamamatsu pra sair com alguns amigos que havia conhecido online. Desde aquele dia, Hamamatsu virou minha casa e os amigos que fiz lá viraram minha família.
A maioria deles tinha a mesma idade que eu, entre 13 e 16 anos. Mesmo com essa diferença de idade, sempre fomos muito unidos pois, como éramos brasileiros, não tínhamos muito contato com japoneses. Apesar do comportamento de “gangue”, nunca realmente achamos isso, pelo menos não eu.
Logo na segunda ou terceira vez que eu estava em Hamamatsu, um amigo me ensinou a roubar motos de 50cc (conhecidas como scooter ou vespas). Era simples fazer ligação direta e, como no Japão pode-se dirigir motos até 400cc com 16 anos, não chamava muita atenção andar de moto por lá, apesar da idade. Depois vi amigos roubando bebidas no mercado, batendo carteira, etc. Não acho realmente que nós fazíamos isso por necessidade, mas para nossa diversão. Isso nos fazia “invencíveis”.
Depois disso vieram as drogas. Alguns amigos fumavam maconha, outros cheiravam cristal. Nunca me ofereceram, mas era normal a molecada experimentar por curiosidade ou pra fazer parte do grupo.
Foi nesse período que meus amigos começaram a ser presos. A maioria pegava apenas 3 meses no reformatório, pois eram réus primários. Saíam e, algum tempo depois, voltavam pelo mesmo ou outro motivo. Por causa disso, começou a desconfiança em casa. Meus pais perguntavam se eu usava drogas, se eu roubava. Um dia meu pai me disse:
“Quando você for preso, eu nem vou te visitar.”
“Quando você for preso”. Isso machucou um pouco.
Com o tempo eu comecei a perceber que eu estava por mim mesmo na rua. Tinha que pensar sozinho e decidir meu caminho. Vi que, se eu usasse cristal, iria ficar viciado como alguns dos meus amigos. Vi que, se eu roubasse som de carro, eu seria preso. Por isso, minhas transgressões sempre foram menores. Ainda mais quando um ou outro amigo saía do reformatório e falava:
“Dobrado, fica de boa. Os gambé têm um monte de foto sua lá. Ficaram perguntando se tu faz algo de errado, mas eu falei que tu é de boa.”
Comecei a andar com um pessoal que não fazia tanta coisa errada e, hoje, posso contar nos dedos quais dos meus amigos nunca foram presos. Da última vez que pensei nisso, contando comigo, apenas 4 pessoas que andavam na minha turma na época nunca foram presas. No máximo uma passagem pela delegacia por bagunça ou andar de skate em lugar proibido.
Eu era um dos únicos a andar de patins
Hoje eu posso dizer que tive um dos melhores “futuros” entre meus amigos. Talvez minhas escolhas tenham sido melhores na época. Mas isso foi graças a…É. Esse é exatamente esse o ponto que eu quero chegar.
Um dia minha irmã e meu irmão chegaram e me chamaram pra conversar sobre minha educação. Eu tinha uns 11 anos na época.
Eu não falava obrigado, não respeitava os mais velhos, mentia muito, não dava valor pro dinheiro entre outras coisas. Foram horas madrugada dentro falando sobre tudo isso. Depois daquele dia, eu vi que estava errado. Anos depois, eu me perguntei:
“Por que meus pais nunca me explicaram isso?”
Meus pais nunca me falaram o que as drogas causavam. No máximo, era um “se fosse bom, não chamaria droga”. Chamavam todos meus amigos de bandidos e diziam que eu seria preso, mesmo sem conhecer nenhum deles.
Lembro um dia em que levei dois amigos em casa, pra dormir lá porque íamos fazer uma viagem longa e minha casa era caminho. Meu pai comentou com meu irmão, “vou até esconder a carteira, vai que eles me roubam”. Meu irmão me avisou disso e fui fazer a viagem triste. Nunca mais levei nenhum amigo em casa quando meus pais estavam por lá.
Comecei a pensar: “por que dar ouvido aos meus pais?”, pois eram meus amigos que me ajudavam nas piores horas. Eram meus amigos estavam sempre ao meu lado. Eram meus amigos que me davam conselhos. Depois que saí de casa aos dezesseis e comecei a trabalhar, a distância entre meus pais e eu ficou ainda maior.
Enquanto meus amigos e eu ficávamos mais próximos, descobríamos que nossos pais agiam (quase) todos da mesma forma. A mesma falta de comunicação.
Por isso, quando penso em diminuir a maioridade penal, acho besteira. Essas crianças que cometem crimes — em sua maioria — são inocentes, ignorantes, sem responsabilidade. As que cometem por prazer sofrem de alguma psicopatia, como qualquer outra pessoa, e precisa de tratamento.
Queremos trancar as crianças em prisões, para esconder os erros que os pais delas cometeram? E depois que elas saírem? Um garoto vai preso aos 16, sai da cadeia aos 18 levando na testa o título de “ex-presidiário”, sem nem mesmo ter o ensino médio. Ele vai pra rua procurar emprego onde? Mesmo se conseguir, se ele tiver um filho, como ele irá educar para que o filho não siga o mesmo caminho?
Assim?
Claro, crianças e jovens devem responder pelo seus crimes mas, se o governo mal consegue deixá-las na escola, vão ter condições de educá-las na prisão?
É a mesma coisa que cobrir o sofá sujo com um lençol. A sujeira vai continuar lá e aumentar cada dia mais. E você, acha que devem prender nossas crianças ou tentar educá-las?
Lembrando que essa educação vem de casa, não a escola.
Por isso, não podemos culpar o governo, mas sim nos culpar.
Obs: Daniel Oshiro é fundador do grupo social Arteiros, que atuou na região de Tokai em 2010, em parceria com a HICE, como uma fonte de informação e estudos para jovens estrangeiros. Voltou ao Brasil em 2011 para estudar e pensa em voltar ao Japão para continuar o projeto.
O grupo também foi organizador do Free Hugs de Natal, que virou tradição em Nagoya e mesmo sem atuação do Arteiros hoje, a tradição continua.