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Homem ganha R$ 200 mil na TV e gasta tudo em 4 meses para não dividir com ex

publicado no F5

O inglês Scott Brown, 33, ganhou R$ 200 mil em um programa da televisão britânica, “Deal or No Deal”, e decidiu não dar um tostão para a mulher, de quem estava separado.

Ele tinha apenas quatro meses, antes de o programa ir ao ar, para torrar o dinheiro.

Brown disse que primeiro usou R$ 60 mil para quitar débitos dele e da mulher, Rachel, 29, com quem tem dois filhos, de seis e dois anos. Ele ainda reservou R$ 8.000 para cobrir gastos com o divórcio, além de comprar roupas, brinquedos e objetos para os filhos.

O resto, admitiu ao jornal “Daily Mail”, ele gastou se divertindo. Comprou um iPad, passou férias no México e comprou um Jaguar usado.

A última parte do dinheiro ele usou dias antes de seu próprio prazo, 21 de agosto, para pagar um curso de eletricista e começar uma nova carreira.

Como ele já havia suspeitado, a mulher, que havia pedido a separação no Natal do ano passado, após conhecer um caminhoneiro na internet, pediu parte do dinheiro quando assistiu o marido ganhá-lo na televisão.

Ela entrou na Justiça com um pedido de parte da pequena fortuna ganha pelo marido.

Um juiz determinou na quinta-feira passada que Brown escreva uma carta detalhando como gastou a quantia. Ele ainda foi impedido legalmente de continuar gastando e manter o dinheiro –ou o que havia sobrado dele– parado até que o caso se resolvesse.

Após ser ouvido no tribunal, Brown disse ao jornal como participar do programa mudou sua vida.

“Fiquei superfeliz de ganhar aquele dinheiro. Eu soube que Rachel poderia querer parte dele e eu decidi: ‘Ela não vai ganhar um tostão’.”

O homem contou que a mulher disse no ano passado que não o amava mais e que, na época que participou do game show, ele havia saído de casa e estava dormindo no chão na casa de seus pais.

“Como ela pode ter direito sobre esse dinheiro? Minha vida foi arrasada, não posso ver meus filhos todos os dias e perdi tudo que construí nos últimos onze anos”, disse.

Meu inferno mais íntimo

Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo

Um jovem rabino, angustiado com o destino da sua alma, conversava com seu mestre, mais velho e mais sábio, em algum lugar do Leste Europeu entre os séculos 18 e 19.

Pergunta o mais jovem: “O senhor não teme que quando morrer será indagado por Deus do porquê de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias? Eu sempre temo esse dia”.

O mestre teria respondido algo assim: “Quando eu morrer e estiver na presença de Deus, não temo que Ele me pergunte pela razão de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias, temo que Ele me pergunte pela razão de eu não ter conseguido ser eu mesmo”.

Trata-se de um dos milhares de contos hassídicos, contos esses que compõem a sabedoria do hassidismo, cultura mística judaica que nasce, “oficialmente”, com o Rabi Baal Shem Tov (imagem), que teria nascido por volta de 1700 na Polônia.

A palavra “hassidismo” é muito próxima do conceito de “Hesed”, piedade ou misericórdia, que descreve um dos traços do Altíssimo, Adonai (“Senhor”, termo usado para se referir a Deus no judaísmo), o Deus israelita (que, aliás, é o mesmo que “encarnou” em Jesus, para os cristãos).

Hassídicos eram conhecidos como “bêbados de Deus”, enlouquecidos pela piedade divina (e pela vodca que bebiam em grandes quantidades para brindar a vida…) que escorre dos céus para aqueles que a veem.

São muitas as angústias de quem acredita haver um encontro com Deus após a morte. Mas ninguém precisa acreditar em Deus ou num encontro como esse para entender a força de uma narrativa como esta: o primeiro encontro, em nossa vida, que pode vir a ser terrível, é consigo mesmo. Claro que se Deus existe, isso assume dimensões abissais.

Para além do fato óbvio de que o conto fala do medo de não estarmos à altura da vontade de Deus, ele também fala do medo de não sermos seres morais e justos, como Moisés e Elias, exemplos de dois grandes “heróis” da Bíblia hebraica. Ser como Moisés e Elias significa termos um parâmetro moral exterior a nós mesmos que serviria como “régua”.

A resposta do sábio ancião ao jovem muda o eixo da indagação: Deus não está preocupado se você consegue seguir parâmetros morais exteriores, Deus está preocupado se você consegue ser você mesmo.

Não se trata de pensar em bobagens do tipo “Deus quer que você seja feliz sendo você mesmo” como pensaria o “modo brega autoestima de ser”, essa praga contemporânea. Trata-se de dizer que ser você mesmo é muito mais difícil do que seguir padrões exteriores porque nosso “eu” ou nossa “alma” é nosso maior desafio.

Enfrentar-se a si mesmo, reconhecer suas mazelas, suas inseguranças e ainda assim assumir-se é atravessar um inferno de silêncio e solidão. Ninguém pode fazer isso por você, é mais fácil copiar modelos heroicos, por isso o sábio diz que Deus não quer cópias de Moisés e Elias, mas pessoas que O enfrentem cara a cara sendo quem são.

Podemos imaginar Deus perguntando a você se teve coragem de ser você mesmo nos piores momentos em que ser você mesmo seria aterrorizante. Aí está o cerne da “moral da história” neste conto.

Noutro conto, um justo que morre, chegando ao céu, ouve ruídos horrorosos vindo de uma sala fechada. Perguntando a Deus de onde vem aquele som ensurdecedor, Deus diz a ele que vá em frente e abra a porta do lugar de onde vem a gritaria. Pergunta o justo a Deus que lugar seria aquele. Deus responde: “O inferno”. Ao abrir a porta, o justo ouve o que aqueles infelizes gritavam: “Eu, eu, eu…”.

Ao contrário do que dizia o velho Sartre, o inferno não são os outros, mas sim nós mesmos. Numa época como a nossa, obcecada por essa bobagem chamada autoestima, ocupada em fazer todo mundo se achar lindo e maravilhoso, a tendência do inferno é ficar superlotado, cheio de mentirosos praticantes do “marketing do eu”.

Casas, escritórios, academias de ginásticas, igrejas, salas de aula, todos tomados pelo ruído ensurdecedor do inferno que habita cada um de nós. O escritor católico George Bernanos (século 20) dizia que o maior obstáculo à esperança é nossa própria alma. Quem ainda não sabe disso, não sabe de nada.

Proibição de aluguel de programas na TV irrita evangélicos

Catia Seabra e Gabriela Guerreiro, na Folha de S.Paulo

Representantes dos evangélicos no Congresso disseram que o governo enfrentará oposição se tentar proibir o aluguel de horários na programação de rádio e TV.

A Folha revelou ontem que a proibição consta da minuta de um decreto em estudo no governo, que atualiza o Código Brasileiro de Telecomunicações, de 1962.

Igrejas evangélicas estão entre os principais beneficiários da atual legislação, que não proíbe de forma explícita a prática do aluguel de horários na televisão.

Presidente da bancada evangélica, o deputado João Campos (PSDB-GO) classificou a proposta de “absurda”.

O deputado diz que o governo não poderá mudar a lei por decreto e por isso caberá aos congressistas impedir a aprovação de eventual projeto de lei com a proposta.

“O que motivaria o governo a tomar essa medida? Há alguma reclamação do público? Acho que não. Se há uma brecha na lei, tem que passar pelo Congresso. Somos radicalmente contra.”

Líder do PR, o deputado Lincoln Portela (MG) disse não acreditar que o governo vá levar adiante a mudança.

“O governo vai ter uma briga com milhões de religiosos”, disse Portela. “Essa mudança não passa nunca. A própria Record aluga programa para a Universal.” O bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, é dono da Record.

Para o deputado Silas Câmara (PSB-AM), evangélico e membro da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara, as redes comerciais têm direito de utilizar a grade alugada para “se viabilizar”.

“O governo só faria isso se quisesse deixar muito claro que seria uma retaliação contra a liberdade religiosa no país. Duvido que vá fazer.”

A bancada evangélica é composta por 66 dos 513 deputados na Câmara e pelo menos 3 dos 81 senadores.

Autor de projeto que proíbe o arrendamento ou aluguel da programação de emissoras de radiodifusão, o deputado Assis Melo (PCdoB-RS) defendeu a mudança.

“As concessões são públicas, mas hoje quem ganha com o aluguel são os setores da grande mídia que lucram com uma outorga pública.”

Em nota, o Ministério das Comunicações negou que a proibição do aluguel de horários faça parte da proposta de decreto, mas o documento obtido pela Folha é claro.

Um dos artigos da minuta diz que “é vedada a cessão ou arrendamento, total ou parcial, da outorga de serviço de radiodifusão”.

Leia a íntegra da minuta do decreto aqui.


Editoria de arte/folhapress

O dia em que Jesus matou Nietzsche na Rio-Bahia

Xico Sá, na Folha.com

“Aquilo que não me mata, só me fortalece”. Assina que é teu, amado mestre Friedrich Nietzsche, aquele do vassourístico bigode.

“O que não mata, engorda”. Essa é frase de qualquer vagabundo anônimo e popular mesmo.

Aí é que você vê que a filosofia de pára-choque de caminhão sempre foi nietzscheana ou tradutora do alemão para a estrada.

Reflito aqui à beira do caminho. Em uma lan-house de Solidão, Pernambuco. Havia iniciado essa reflexão com o amigo Paulo Mota, da cidade cearense de Sucesso. Vamos em frente.

Havia tomado um susto, há uns oito anos, sobre a escassez dessa filosofia nos caminhões. Foi em uma viagem Juazeiro do Norte/SP, na boleia de uma possante carreta, em reportagem sobre caminhoneiros para a revista “V”. Taí o fotógrafo Tiago Santana para me ajudar mentir, se for preciso.

Agora é para valer: a filosofia de pára-choque morreu na buraqueira da estrada. Nietzsche deve estar molhando seu bigodón em lágrimas de Viena.

Acabou chorare…

Jesus te matou, velho Nietzsche, na BR-101. Rio/Bahia, em uma vicinal qualquer no canavial de Sertãozinho.

Jesus, aqui resguardado todo respeito e devoção cristã, acabou com as clássicas frases, sempre sábias e  decifradoras da vida. Jesus invadiu todos os pára-choques, lameiras e painéis de caminhões.

Quando não tem Jesus, vai o escudo de time, mas o amor clubístico também não é mais o mesmo. Um Flamengo aqui, um  Corinthians acolá, um Santos, um São Paulo, Atlético mineiro, Bahia, Sport, Santa Cruz, Vitória, Ceará…

“Pra corno e torcedor de time, todo castigo é pouco”, buzina o nosso condutor mais uma vez, agora seu Caetano, de Barbalha (CE), um guia e tanto.

Os mais românticos ainda pintam lá um coração com o nome dela, a amada, como na canção do Roberto. O mais lindo que avistamos foi um “Eu te amo, Izildinha, desalmada”.

No que Caetano, sábio de rodagem, não se contém: “Ser caminhoneiro tudo bem, ninguém escolhe o destino; mas ser caminhoneiro e corno também já é demais da conta!”

Manda a pérola e aperta a trilha sonora, DJ de boleia, na marcha lenta: Benito de Paula. “Ah, como eu amei…”

A louvação a Jesus substituiu a sabedoria popular sobre rodas. As novidades, no entanto, não impedem que alguma graça resista. O atualíssimo “Jesus Salva”, por exemplo, já ganhou uma continuidade filosófica, em pequenos adesivos coloridos: “Jesus salva!… passa para Moisés, que chuta e é goool!!!”

Uma pausa para o churras de carneiro. Cerveja nevada, claro. Distrito de Paraguaçu, Rafael Jambeiro, Rio/Bahia. O cabarezinho Flor da Noite tá uma beleza. Só deusas. Tento resistir, mas lembro do sábio pedido de Santo Agostinho, o álibi perfeito para o perigo da hora: “Senhor, livrai-me das tentações, mas não hoje”.

Ô vidinha mais ou menos para eu gostar tanto dela Quase como se fosse, elegância à parte,  aquele italiano da “Dolce Vita”!