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São-paulinos criam a igreja do goleiro são Marcos pela internet

Reprodução do site Igreja de São Marcos *www.igrejadesaomarcos.com.br* feito por fãs do goleiro

Daniela Moura, na Folha.com

Pode soar estranho, mas foram dois são-paulinos, além de dois palmeirenses, que fundaram hoje a Igreja de São Marcos. Os publicitários Marcelo Fernandes e Caetano Sevilla se juntaram aos amigos torcedores do Palestra Itália, Elton Reale e Henrique Rojas para criar o site, fruto de uma ideia maluca para homenagear o goleiro que anunciou recentemente a aposentadoria dos gramados.

A igreja virtual conta com uma oração totalmente inédita, com um certificado de batismo, com a história da peregrinação do arqueiro e, principalmente, com uma seção para os torcedores acenderem as suas velas e deixarem suas mensagens –compartilhando-as nas redes sociais.

O goleiro Marcos ainda não sabe da sua “igreja”. “Como se trata de uma homenagem, queríamos muito que ele soubesse logo”, afirma Elton Reale.

Por que duvidam da evolução?

Marcelo Gleiser, na Folha de S.Paulo

Ao menos nos EUA, a evidência é indiscutível. Em uma pesquisa do grupo Gallup na véspera do aniversário de 200 anos do nascimento de Charles Darwin, no dia 12 de fevereiro de 2009, apenas 39% dos americanos responderam que “acreditam na teoria da evolução”.

Não há dados semelhantes no Brasil, mas imagino que os números sejam semelhantes ou piores.

A mesma pesquisa relaciona o resultado com o nível educacional dos respondentes. Apenas 21% das pessoas com ensino médio completo ou menos acreditam na evolução. O número sobe para 53% nos graduados e 74% em quem tem pós-graduação.

Outra variável investigada foi a relação do resultado com frequência à igreja. Dos que acreditam em evolução, 24% vão a igreja semanalmente, 30% ao menos uma vez por mês e 55% nunca vão. Quanto mais crente, maior a desconfiança em relação à teoria de Darwin.

Por outro lado, a evidência em favor da evolução também é indiscutível. Ela está no registro fóssil, datado usando a emissão de partículas de núcleos atômicos radioativos. Rochas de erupções vulcânicas (ígneas) enterradas perto de um fóssil contêm material radioativo. O mais comum é o urânio-235, que decai em chumbo-207.

Analisando a razão entre o urânio-235 e o chumbo-207 numa amostra de rocha ígnea e sabendo a frequência com que o urânio emite partículas (em 704 milhões de anos, a quantidade de urânio numa amostra cai pela metade), cientistas obtêm uma medida bastante precisa da idade do fóssil. Por exemplo, os dinossauros desapareceram há 65 milhões de anos.

A evidência em favor da evolução aparece também na resistência que bactérias podem desenvolver contra antibióticos. Quanto mais se usam antibióticos, maior a chance de que mutações gerem bactérias resistentes. Esse tipo de adaptação por pressão seletiva pode ser investigado no laboratório, sujeitando populações de bactérias a certas drogas e monitorando modificações no seu código genético.

Posto isso, pergunto-me por que a evolução causa tanto problema para tanta gente. Será que é tão ofensivo assim termos tido um ancestral em comum com outros primatas, como os chimpanzés?

A nossa descendência é ainda muito mais dramática: se formos mais para o passado, todos os animais que existem descenderam de um único ancestral, o Último Ancestral Universal Comum (na sigla Luca, em inglês), que provavelmente era um ser unicelular.

Essa desconfiança do conhecimento científico é muito estranha, dada a nossa dependência dele no século 21. (De onde vêm os antibióticos e iPhones?) O problema parece estar ligado ao Deus-dos-Vãos, a noção de que quanto mais aprendemos sobre o mundo, menos Deus é necessário. Os que interpretam a Bíblia literalmente veem nisso uma perda de rumo. Se Deus não criou Adão e Eva e se não nos tornamos mortais após a “queda do Paraíso”, como lidar com a morte?

Uma teologia que insiste em contrapor a fé ao conhecimento científico só leva a um maior obscurantismo. Mesmo que não acredite em Deus, imagino que existam outras formas de encontrar Deus ou outros caminhos em busca de uma espiritualidade maior na vida.

Marcelo Gleiser é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de “Criação Imperfeita”

charge via 8:32

Luiz Felipe Pondé: “Exus não são demônios”

Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo

Conversava eu com um exu numa festa num terreiro de candomblé quando, de repente, ele começou a falar de mulher. Grande especialista. Para quem é “consumidor” do sexo frágil, exus são grandes mestres. Você já conversou com um exu?

Recomendo conversar. Pura sabedoria popular, daquelas que marxistas menos obcecados chamariam de espírito menos alienado porque mais “orgânico”. No caso, a palavra “espírito” tem duplo sentido, e um deles é espírito como “fantasma incorporado”.

Não, exus não são demônios, são mais uma espécie de orixá que media as relações entre nós e os deuses. Alguns os relacionam a Hermes (Grécia), Mercúrio (Roma) e Thot (Egito), todos os três deuses mensageiros entre os homens e os deuses.

Como ele está em meio ao nosso mundo, é “melado” com ele, claro. Ocupa-se de nossas demandas e, por isso, são famosos por “trancarem ou abrirem as encruzilhadas da vida”.

Claro que existe aí um sincretismo, porque este exu também tem um nome próprio de “quando viveu na Terra”, e orixá africano “puro” nunca “viveu na Terra” como um encarnado.

As parceiras dos exus são as “pombagiras”, mulheres que gostam de falar de amor e sexo, que, quando vivas, tiveram muitos amantes e que representam, assim como os exus, a dimensão mais carnal e erótica da vida.

Quando elas “descem” e começam a dançar, é bonito de ver e de escutar suas músicas de lamento de amor e de desejo de sexo.

Incrível como também nessa religião de origem africana, as mulheres são especialistas em amor e sexo e só pensam “naquilo”.

Ingenuidade masculina pensar que somos mais obcecados por sexo do que elas. Se um dia você, meu caro leitor, tiver a chance de ouvir um papinho entre mulheres, você provavelmente vai se sentir um santinho inexperiente.

Então me dizia “Seu Catatumba”, o nome que ele escolheu para si mesmo depois de assumir sua função na “falange” dos exus: “Não dá para entender as mulheres!”. Imagine só: o cara é um deus numa religião africana e me disse isso num papo em que ele e eu fumávamos charutos cubanos e bebíamos cerveja.

Até os deuses sabem disso, menos elas. As mulheres são incompreensíveis. Mas essa incompreensibilidade não as atinge prioritariamente quando atuam como profissionais, mas principalmente quando relações de afeto estão envolvidas.

Dizia “Seu Catatumba”: “Quando você está dizendo a verdade, ela não acredita; quando você está mentindo, ela acredita; quando chora, é porque ri por dentro; quando ri, é porque está triste; quando você acha assim, ela acha assado, quando você acha assado, ela acha assim; quando você vai para cá, ela vai para lá; quando você vai para lá, ela vem para cá; quando diz sim, é não; quando diz não, é sim”.

Ríamos juntos, o “sobrenatural” e eu. Uma delícia levar um papo sobre mulher com o “sobrenatural”, fumando legítimos cubanos (presente meu para ele) e cerveja, e ver que nem ele sabe nada sobre o que as mulheres querem.

Meu caro Freud, você está perdoado: nem deuses africanos sabem o que a mulher quer.

“Seu Catatumba”, pelo que me disse, “morreu de mulher” (por causa de mulher). Aliás, morte bem dramática e digna de ópera: esfaqueado pelas costas. Como se dizia antigamente, “crime passional”, hoje seria apenas “crime de gênero”.

Teoria de gênero é a teoria segundo a qual não existe mulher e homem, mas sim “construções sociais” a serviço da opressão, assim como o mito do Papai Noel está a serviço das lojas de brinquedos. Para os tarados da teoria de gênero, um exu é apenas mais um machista.

Continuava “Seu Catatumba”: “Morri de mulher; passei a vida atrás delas; tentei sempre fazer o que elas queriam; sempre amei as mulheres; sempre no meio delas, atrás delas; coisa gostosa é mulher; a gente homem é bicho bobo por mulher, e sempre acaba morrendo por causa de uma”.

Não é novo o que me disse o exu, mas é encantadora a ideia de que mesmo ele, meio homem, meio deus, aliás, como uma espécie de Eros platônico em versão africana, confirma: não dá para entender as mulheres.

Você pergunta se eu acredito em exus? “Yo no creo en las brujas pero que las hay las hay.”

foto: Exu, Mola de Jeep, escultura em aço 1953 – Parque do Ibirapuera

Ordem de capitão para comandante de navio vira camiseta na Itália

Ordem de capitão da Guarda Costeira para comandante do Costa Concordia, que tinha abandonado o navio

Publicado originalmente na Folha.com

Uma ordem da conversa entre o capitão da Guarda Costeira de Livorno, Gregorio Di Falco, e comandante do navio Costa Concordia, Francisco Schettino, durante o naufrágio da embarcação na sexta-feira (13) virou bordão de camisetas.

Após a discussão ser revelada na terça, apareceram nesta quarta-feira na internet imagens de pessoas na Itália usando camisetas com a frase “Vada a bordo, cazzo!”.

A camiseta com a expressão, que em português significa “Volte a bordo, caralho”, foi vista na cidade de Nápoles. A expressão ainda apareceu entre uma das mais comentadas no microblog Twitter.

“Cazzo” é um palavrão em italiano que faz referência ao órgão sexual masculino, mas que é mais comumente usado como interjeição para enfatizar uma ideia no final de frases, assim como “porra” no Brasil.

ACIDENTE

O acidente com o Costa Concordia aconteceu na noite de sexta-feira, próximo à ilha de Giglio, no mar Tirreno, na Itália. O navio levava cerca de 4.000 turistas. Pelo menos 11 pessoas morreram e outras 22 ainda estão desaparecidas. A embarcação está naufragando na região e há risco de acidente ambiental pelo combustível armazenado no tanque.

O comandante Schettino abandonou o navio nos primeiros minutos do resgate. A conversa com Di Falco aconteceu quando o capitão já estava em terra.

foto: Ciro de Luca/Reuters

A dor na face

Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo

Muitas vezes apenas gostaríamos de dizer “não”. Coisa difícil dizer “não”, porque o “sim” é civilizado na sua condição de hipocrisia necessária para a vida em grupo.

Não dizer bom-dia, não dizer que gostou, não dizer que quer ir, não dizer que ama, dizer apenas “não”.

Na ordem capitalista em que vivemos, onde tudo circula na velocidade do vento que nos constitui como miserável mercadoria que somos, o “não” aparentemente vende mal.

Mas não é verdade. O “não” é a alma do luxo. “Não quero” pode ser a diferença entre sua banalidade e sua sofisticação não afetada. Mas como tudo que é luxo, o “não” é difícil de achar, de cultivar, de sustentar.

Vende-se muito livro de autoajuda por aí. O leitor que me acompanha sabe como detesto autoajuda. Uma indústria que cresce na mesma proporção em que tudo perde o valor. Mas com isso não quero dizer que não precisemos de ajuda na vida. Somos uns coitados. Mas tem coisa melhor do que esse lixo.

Outro problema é que umas das maiores contradições da vida é que o cotidiano das relações quase sempre inviabiliza afetos espontâneos e nos arremessa a convivência estratégica que apenas “lida” com problemas.

Em resumo, quase sempre os membros da nossa família não são nossos melhores amigos e não é gente em que podemos confiar nossos desesperos porque sempre esperam de nós soluções para as demandas do dia a dia.

Maridos, esposas, filhos, irmãos, pais, quase sempre não servem para ouvir nossos segredos, mas apenas servem para constatar nossas misérias secretas.

Não há relação evidente entre família e paixões alegres (como diria, mais ou menos, o filósofo do século 17 Baruch Spinoza).

As responsabilidades são muitas, as expectativas excessivas, o que era amor se transforma em exigência de sucesso material e segurança previdenciária.

Comumente ataco manifestações de jovens e do povo. Não porque ache que a vida como está seja grande coisa, mas porque considero a infelicidade eterna e atávica do homem a razão final de todo desconforto político, moral e afetivo.

Quem diz que a solução do homem é política é sempre um mau caráter que gosta de política. Seja na universidade, seja em Brasília. A vida é uma prisão e não gosto de rotas de fuga falsas.

No fundo, sou mais “anos 60″ do que aqueles que dizem ser “anos 60″, mas que viraram “ambientalista de terno e gravata”, “defensores da qualidade de vida” ou “roqueiros que cantam para as crianças da África”. Para mim vale sempre uma regra básica: não confio em nada em que departamentos de recursos humanos confiam.

Nutro profunda simpatia por dois pensadores utópicos, Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, ambos do século 19, representantes do movimento libertário americano.

Há uma dor característica causada por sorrisos falsos. Os músculos da face doem por conta do sorriso mentiroso, que é sempre o mais comum em nosso cotidiano, dizia Emerson, autor de “Self-Reliance” (“Autoconfiança”), de 1841, um clássico do movimento libertário.

Os homens em sua maioria vivem uma vida de sereno desespero, dizia Thoreau, autor de “Walden” (1854), narrativa de um período de sua vida em que se isolou numa casa num bosque.

Thoreau ficou mais conhecido como o criador do conceito de “desobediência civil”, quando disse que o melhor governo é o que governa menos ou de forma nenhuma.

Hoje o pensamento público tornou-se monótono porque todo mundo quer agradar e salvar o mundo. Eu não quero salvar ninguém, nem aspiro a um mundo melhor.

Como dizia Emerson, existem grandes vantagens em sermos mal compreendidos (“misunderstood”).

A mania de sermos completamente compreendidos nada mais é do que o desejo de agradar a todos o tempo todo, uma das pragas típicas de um mundo marcado pelo marketing de tudo.

Em 2012 espero ser muito mal compreendido por todos aqueles que quiserem fazer de mim seu ídolo, positivo ou negativo, supondo que sabem exatamente o que eu penso ou o que sou.

Espero, acima de tudo, como dizia Thoreau, que não tenha que ir a lugar nenhum para o qual eu precise comprar uma roupa nova.

imagem: Autopoder