Às vésperas da Copa, Fortaleza fecha os olhos para prostituição ao lado do Castelão

Garotas de programa chegam à Avenida Juscelino Kubitschek praticamente ao mesmo tempo em que os operários pegam suas enxadas nas obras do entorno do Castelão

Os programas são feitos à luz do dia, com mulheres de todas as idades (foto: Marcella Ruchett/Tribuna do Ceará)
Os programas são feitos à luz do dia, com mulheres de todas as idades (foto: Marcella Ruchett/Tribuna do Ceará)

Roberta Tavares, na Tribuna do Ceará

Elas chegam ao local de trabalho praticamente ao mesmo tempo em que os operários pegam suas ferramentas nas obras do entorno do Castelão, palco da Copa do Mundo em Fortaleza. A diferença é que o material de trabalho dessas mulheres é o próprio corpo. Às 9h, em plena luz do dia, já estão encostadas em postes e muros, que servem de vitrine da prostituição na avenida pela qual milhares de estrangeiros passarão para assistir ao Mundial.

A menos de 1 quilômetro da Arena Castelão, na Avenida Juscelino Kubitschek (antiga Avenida Padaria Espiritual), no Bairro Passaré, diversas meninas com o corpo ainda em formação são abordadas, em toda a extensão da via, por homens em carros e em motocicletas. As roupas são curtas e apertadas. Dia após dia, a rotina é a mesma: ter de lidar com os diversos tipos de pessoas e se “entregar”, mesmo sem vontade. Faltando um mês para o megaevento esportivo, a cidade mostra que ainda não superou a fragilidade quanto à exploração sexual.

Há oito anos, a mulher de corpo farto, cabelos pretos, pele morena e unhas postiças amarelas sai de casa para se prostituir. Para apurar um bom dinheiro, a jovem de 28 anos trabalha quase 9 horas por dia, de segunda a sábado. É mais barato “comprar” uma mulher que assistir, da arquibancada mais em conta, a um jogo de Copa do Mundo no Castelão, ali próximo. A média é de apenas R$ 50, mas algumas vezes cobra mais, “dependendo do cliente”, explica Valéria.

Cerca de 65 mil estrangeiros devem visitar a capital cearense durante o evento, conforme dados do Ministério do Turismo. Mas, especificamente naquela avenida, o movimento será menor, de acordo com a ex-doméstica. A via será interditada, impedindo o acesso de carros e facilitando apenas a passagem de pedestres. “A Copa tá vindo pra cá e acabou com a gente. Eu creio que vá ficar bom só em agosto. A polícia vai fechar os dois lados da avenida. Se a gente não sair, eles ‘coisa’ (sic). Não vou debater com a polícia não. Tem policial ruim, né? Tem policial cruel”.

Segundo Valéria, na Copa das Confederações o movimento foi fraco, devido à presença da Cavalaria e do Batalhão de Choque. “Eles não aceitam prostituição durante o evento, por uma parte eles estão até certos, porque aqui realmente tem muita menina que rouba. Tem certas meninas que usam ‘Boa Noite, Cinderela’ quando tem gente de fora, mas eu não uso nada disso não, prefiro trabalhar honestamente. É por isso que a polícia vai tirar a gente daqui, tá entendendo? Quando tiver jogo no Castelão, não pode ficar aqui”, explica.

Fora do período do Mundial, a polícia, entretanto, passa com pouca frequência pelo local. E, quando passa, parece ignorar a presença das garotas. De acordo com a jovem, “eles respeitam e não dizem nada”. Nenhum responsável por órgão da prefeitura tenta reprimir o trabalho das meninas. “Só quem perturba são os evangélicos. Eles reclamam, e todo mundo sai de perto, porque ninguém tá nessa vida pra pedir ajuda a Jesus”, diz.

Valéria está há tanto tempo no local que aparece inclusive no Google Maps (serviço de pesquisa e visualização de mapas e imagens de satélites). Ela começou se prostituir por iniciativa própria, quando tinha 18 anos. Os pais foram morar em São Luís, e a garota resolveu continuar em Fortaleza e entrar na ‘difícil vida fácil’. “Eu queria conseguir as coisas e nada tinha quando era empregada doméstica. Eu pensei: ‘quer saber de uma coisa? Vou sair dessa vida’. Aí comecei a me prostituir e veio tudo muito fácil. Na vida de prostituição as coisas é fácil (sic)”.

Mas há disputa por território. Ela não passou por esse problema, porque é antiga no local. Agora, se chegar uma pessoa nova no ponto, “a gente bota pra correr mesmo”, enfatiza. “Mês passado, chegou uma menina de 11 anos, que não tinha nem peito, aquela menina não tinha nada, mas ela tava totalmente drogada. Aí eu peguei pelos cabelos, arrodeei a avenida com ela e mandei ir embora”, revela.

Mesmo conseguindo juntar, em média, R$ 300 por dia, Valéria não economiza o dinheiro apurado. “Dinheiro de prostituição não é abençoado”, como ela própria afirma. Dá para pagar o aluguel, as contas e comprar roupas, para manter a aparência que a sustenta. A esperança está em algum cliente que porventura apareça e queira lhe dar mais que o valor do programa. “Eu já me sinto cansada, sei que um dia vou ter que parar. Quem sabe apareça um homem bom e me tire dessa vida”. Os clientes, em sua maioria, são mais velhos. Empresários ou advogados. Dificilmente atende estrangeiros.

A alguns quarteirões dali, Rebeca se maquia à espera de um cliente. Quando o carro diminui a velocidade, ela exibe o corpo e se aproxima. A travesti prefere não se identificar por medo de ser descoberta. “Tenho um caso, e ele não sabe que estou aqui”. Só a mãe aceita a escolha.

Com vestido de estampa de oncinha colado, batom vermelho e salto altíssimo, a jovem, de 25 anos, se prostitui há 9 e consegue por dia R$ 200. A falta de dinheiro em casa levou a jovem a sair da escola e ficar na rua. Começou ainda menor de idade, após abandonar os estudos. Com a infância interrompida, perdeu a expectativa de futuro. Não se sente bem fazendo programas, só faz para sobreviver porque não tem outra profissão.

A Copa do Mundo afetará diretamente o trabalho de Rebeca, assim como o de Valéria, em razão da interdição da avenida. “Piora o movimento. Eu vou ficar em casa vendo o jogo. Só quem vai trabalhar serão as viciadas”.

Crianças e adolescentes são exploradas sexualmente Jovens fazem ponto a poucos metros da Arena Castelão (foto: Marcella Ruchet/Tribuna do Ceará)
Crianças e adolescentes são exploradas sexualmente
Jovens fazem ponto a poucos metros da Arena Castelão (foto: Marcella Ruchet/Tribuna do Ceará)

Medo de descobrirem

Casada e com quatro filhos, Tatiana, de 32 anos, tenta manter segredo quanto ao trabalho, iniciado há quatro meses como tentativa de apurar dinheiro extra. Ganha menos de um salário-mínimo na profissão de costureira. A situação é cruel, mas é a única solução encontrada por ela para sustentar a casa. A escolha da avenida para fazer programas deu-se pelo fato de ser conhecida por quem deseja usufruir do trabalho das garotas. “Se você perguntar onde faz programa, todo mundo fala dessa avenida. Aqui é melhor do que a Beira-Mar”, lembra Tatiana, referindo-se a um dos cartões-postais da capital.

Durante a Copa, ela pretende ficar com a família, para aproveitar o tempo livre ‘perdido’ durante os meses de trabalho. “Ainda não conheço ninguém por nome. Eu até me sinto bem, por causa do dinheiro, mas, por outro lado, é ruim por causa dos meus filhos e do meu marido”, se entristece. “O meu medo é que a minha filha mais velha, que tem 16 anos, descubra e queira fazer a mesma coisa. Aí quem vai ser eu para julgar?”.

Mesmo tendo começado há pouco tempo, Tatiana já consegue mais de R$ 400 por dia, na rua. O começo, segundo disse, não foi difícil. Apenas chegou ao local, ficou no ponto e esperou os clientes. “Não tive nenhum problema, e tenho clientes fixos. Atendo médicos, advogados e promotores. Não tem um dia que eu não faça nenhum programa, sempre faço mais de três”, comemora.

A Copa não será cancelada, como elas desejam. Durante o evento, todas sumirão da avenida. Quando o Mundial for embora, entretanto, o cenário de prostituição e tristeza voltará a imperar, a poucos metros do palco que o mundo viu brilhar.

Durante a apuração, o Tribuna do Ceará flagrou menores de idade fazendo ponto na Avenida Juscelino Kubitschek. Desconfiada, uma delas se recusou a falar, afirmando que não trabalhava no local. A outra não foi entrevistada, porque entrou em um carro para fazer um programa no momento em que a reportagem se aproximava.

A falta de dinheiro em casa levou Rebeca a sair da escola Começou a fazer programa ainda adolescente, após abandonar os estudos (foto: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)
A falta de dinheiro em casa levou Rebeca a sair da escola
Começou a fazer programa ainda adolescente, após abandonar os estudos (foto: Roberta Tavares/Tribuna do Ceará)

O que fazer?

É fácil ver o problema no entorno do Castelão. Para Magnólia Said, do Comitê Popular da Copa em Fortaleza, a situação é super visível e faz parte de um pacote para servir ao turista. “Meninas disponíveis estão nesse pacote, de forma até escancarada, e o Poder Público fecha os olhos para isso”, afirma.

Segundo ela, as garotas saem do interior em busca do príncipe encantado que esperam encontrar durante a competição. Por trás disso, há sonho de melhores oportunidades. “Como vem muito turista, a Copa é um convite para as mulheres solteiras de 12 a 30 anos. É nesse momento que ela espera encontrar o príncipe”, destaca.

Magnólia revela que não há nenhuma campanha de fato contra a exploração sexual ou o tráfico de mulheres. Em uma ida ao Aeroporto Internacional Pinto Martins, na capital cearense, a integrante do Comitê teve dificuldade de encontrar algum folheto explicativo de combate às práticas. “Consegui encontrar um serviço de apoio ao imigrante, no fim do aeroporto, abri uma porta, tive um acesso a um corredor, e só depois de perguntar, consegui um material em português, que estava estocado. Ou seja, não tinha material em inglês, em alemão ou espanhol. O foco era mostrar aos brasileiros como se comportar lá fora”.

A sugestão é que o Poder Público e a sociedade trabalhem juntos para combater a exploração. A ideia seria criar campanhas televisivas, que não fossem veiculadas apenas durante o Carnaval, mas sim em todo o ano; aumentar o número de conselhos tutelares, de seis para 25; e ampliar o atendimento da Delegacia da Criança e do Adolescente para os domingos e feriados. “Se o governo quisesse, daria tempo de minimizar o problema ainda antes da Copa”, enfatiza. “As casas de prostituição vão ferver agora. E a violência doméstica também”, completa.

De acordo com a presidente da Fundação Municipal da Criança, Tânia Gurgel, haverá uma central de atendimento específica para denúncias durante os 30 dias de competição. Serão 120 educadores nas ruas para conversar com turistas e moradores, como parte do plano de ação de combate à exploração sexual. “Existem parceiros fundamentais e que precisam compreender isso. Taxistas, vendedores do Centro e da Beira-Mar, esse pessoal todo precisa ser motivado a defender essa questão”, diz Tânia.

Prostituição infanto-juvenil

O Código Penal diz claramente: pagar para fazer sexo ou praticar ato libidinoso com menores de 18 anos é crime de favorecimento à prostituição de vulnerável. A pena, prevista no artigo 218-B, vai de quatro a dez anos de prisão.

Já era assim desde 1990, quando foi aprovado o Estatuto da Criança e do Adolescente. Mas divergências jurídicas sobre o texto levaram o Congresso a mexer no Código Penal em 2009, explicitando que a punição vale para cafetões, clientes e donos de motéis. Em Fortaleza, porém, cenas de prostituição infanto-juvenil continuam se repetindo.

Para denunciar casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, é preciso ligar para o Disque 100 – Central de Atendimento da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência.

Leia Mais

Restaurante britânico aceita foto no Instagram como pagamento por comida

restaurante-fornece-jantar-gratis-para-que-publicar-fotos-dos-pratos-no-instagram-facebook-ou-twitterPublicado no UOL

O restaurante The Picture House, localizado no Reino Unido, passou a aceitar imagens no Instagram como forma de pagamento por seus pratos. O usuário que for ao local precisa tirar uma foto do que está comendo e publicar no Instagram com a hashtag #BirdsEyeInspirations para comer de graça.

Não há informações se o internauta precisa ter uma quantidade mínima de seguidores para que a promoção tenha valor. Além da comida grátis, três usuários foram escolhidos para fazer um workshop de culinária com Marie Marte (@marte_marie_forsberg), que é famosa por suas fotos de comida no Instagram.

Essas iniciativas são ações para divulgar os novos produtos da marca Birds Eye, que comercializa alimentos congelados. As novidades da empresa incluem peixes e frangos. Outros restaurantes já tiveram ações parecidas, como o Kellogg’s Special K em Estocolmo, Suécia, e o Comodo, em Nova York, EUA.

Leia Mais

A fé move montanhas: as mais belas igrejas e monastérios esculpidos na rocha

Publicado no Brasil Post

Muito embora grande parte das igrejas mais impressionantes do mundo apresentem tetos elevados e torres altas, às vezes você precisa percorrer os subterrâneos para encontrar verdadeiras preciosidades arquitetônicas. Jesus chamou o apóstolo Pedro e disse, “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”, mas estas igrejas são construídas (literalmente) dentro da rocha.

Mosteiros da caverna e igrejas subterrâneas existem desde o início da igreja, muitas vezes como uma forma de buscar socorro espiritual em um lugar remoto e solitário. Escavadas nas rochas, ou posicionadas dentro de cavernas, elas têm um aspecto bruto que muitas vezes contrasta com catedrais urbanas e seus vitrais.

Conheça aqui uma lista delas:

Uma visão geral da Igreja Ortodoxa Sérvia subterrânea em 5 de maio de 2009, na região de Coober Pedy, na Austrália. (Foto: Quinn Rooney / Getty Images)
Uma visão geral da Igreja Ortodoxa Sérvia subterrânea em 5 de maio de 2009, na região de Coober Pedy, na Austrália. (Foto: Quinn Rooney / Getty Images)
Vista panorâmica da pequena capela construída em caverna, na região oeste do Syros, Cyclades, na Grécia. (V. paravas / Getty)
Vista panorâmica da pequena capela construída em caverna, na região oeste do Syros, Cyclades, na Grécia. (V. paravas / Getty)
O eremitério de Santo Antônio e sua capela subterrânea, localizado na parte inferior das gargantas Galamus. O desfiladeiro é a fronteira entre o Aude e Pyrénées-Orientales, Languedoc-Roussillon, França, Europa (P. Eoche / Getty)
O eremitério de Santo Antônio e sua capela subterrânea, localizado na parte inferior das gargantas Galamus. O desfiladeiro é a fronteira entre o Aude e Pyrénées-Orientales, Languedoc-Roussillon, França, Europa (P. Eoche / Getty)
Igreja subterrânea de São Pedro, Hatay, Turquia
Igreja subterrânea de São Pedro, Hatay, Turquia
Capela do Rei Santíssimo, Mina de Sal Wieliczka, Cracóvia, Polônia
Capela do Rei Santíssimo, Mina de Sal Wieliczka, Cracóvia, Polônia
A Igreja na caverna de Goreme, Turquia
A Igreja na caverna de Goreme, Turquia
Igreja subterrânea de Santo Estevão, Budapeste, Hungria
Igreja subterrânea de Santo Estevão, Budapeste, Hungria

Leia Mais

Pesquisadores desenvolvem fórmula para ‘popularidade de fotos’ na web

Segundo pesquisadores, fotos que mostram biquínis têm um 'forte impacto positivo'
Segundo pesquisadores, fotos que mostram biquínis têm um ‘forte impacto positivo’

Publicado na BBC Brasil

Os especialistas analisaram a cor, textura, conteúdo e contexto de mais de 2 milhões de fotos no site de compartilhamento Flickr e então contaram o número de vezes que as fotos foram vistas para descobrir quais fatores levam as fotos à fama.

Aditya Khosla, estudante do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Atish Das Sarma, do eBay Research Labs e Raffay Hamid, do DigitalGlobe, divulgaram no mês passado o estudo “O que torna uma imagem popular?” em uma conferência sobre internet.

Segundo os especialistas, fotos que mostram armas, como um revólver, minissaias, maiôs, biquínis, sutiãs e xícaras têm “um forte impacto positivo” na popularidade de uma foto.

Entre os objetos e animais que tiveram um “impacto positivo médio” estão pandas gigantes, basquete, joaninhas, lhamas e arados.

As fotos com impacto positivo baixo são as que mostram guacamoles, catamarãs, javalis, carroças e placas solares. E há também as fotos com impacto negativo, que mostram espátulas, laptops, carrinhos de golfe e desentupidores.

Eles também descobriram quais as cores em fotos que mais atraem as pessoas.

“Observamos que, em média, as cores mais azuladas e esverdeadas tendem a ter importância menor quando comparadas à cores mais avermelhadas. Isto pode ocorrer pelo fato de as imagens conterem mais cores chamativas (que) tendem a atrair o olhar do observador, levando a um número maior de views”, escreveram os pesquisadores.

Recomendações e teste

Os pesquisadores também dão algumas sugestões para aumentar a popularidade das fotos, entre elas está a opção por colocar figuras humanas na imagem ou, pelo menos, um ponto de foco bem definido.

“Podemos observar que objetos semanticamente importantes, como pessoas, tendem a contribuir positivamente para a popularidade de uma imagem. Notamos ainda que cenas abertas com pouca atividade tendem e não ser populares (com muitas exceções, é claro)”, escreveram os especialistas.

Além de avaliar o que torna uma foto popular, Khosla e os colegas também lançaram uma ferramenta online que permite que os fotógrafos testem as chances de uma imagem ganhar popularidade na web antes de a foto ser postada no Flickr.

A pontuação pode chegar ao nível mais baixo, 0,8 ou ao máximo, sete. Se a foto ficar com uma pontuação média, de quatro, ela poderá conseguir 16 views por dia.

Mas, como a avaliação não é exata, o próprio Khosla aconselha que as pessoas analisem as pontuações relativas de várias imagens antes de escolherem a que vão postar.

Talvez a falta de exatidão ocorra devido ao fato de o algoritmo ser limitado e reconhecer apenas mil objetos, além de não medir o impacto das imagens de celebridades. E isto pode explicar os baixos resultados de algumas imagens muito populares como o selfie da apresentadora Ellen DeGeneres durante a cerimônia do Oscar, que conseguiu apenas uma pontuação de 4.158 com a ferramenta dos especialistas.

 

Leia Mais

Contra padrão de beleza irreal, revista do Chile bane retoques em fotos

atrizes-de-novela-do-chile-posam-para-foto-sem-photoshop-de-revista-ya-ulises-nilo-1398279932162_615x300
Atrizes de novela do Chile posam para foto sem Photoshop de revista “Ya” Ulises Nilo

Publicado no UOL

Em janeiro deste ano, a revista “Ya”, do jornal El Mercurio, a publicação feminina mais lida do Chile, resolveu parar de retocar as fotos de modelos com a ajuda do programa Photoshop. A seguir, a editora de revistas do jornal, Paula Escobar, explica as razões da mudança e as reações provocadas por ela:

“Uma contradição passou a rondar as reuniões de pauta da revista ‘Ya’.

Por um lado, queríamos falar de temas relevantes sobre a mulher moderna e com pés no século 21, como prova nossa cobertura de assuntos da atualidade, de questões sociais e de entrevistas com mulheres influentes, como a empresária e ativista Sheryl Sandberg, a presidente Michelle Bachelet, várias ministras e reitoras de universidades, economistas e empreendedoras.

Mas as páginas de moda e beleza –as seções mais tradicionais de uma revista feminina– iam contra esse princípio: com frequência, exibiam modelos muito jovens e magras que eram assim de verdade ou, pior, que eram rejuvenescidas ou ‘perdiam peso’ com as técnicas do Photoshop, que alguns de nossos fotógrafos externos usavam, apesar de pedirmos para não fazerem isso.

Começamos a persuadir esses fotógrafos e as agências a nos enviar modelos mais velhas e com corpos mais saudáveis e que suas fotos não fossem alteradas digitalmente. Mesmo assim, não funcionou completamente, porque muitos têm uma visão de estilo e beleza que está ligada aos corpos mais jovens e andróginos.

A ideia de beleza, por assim dizer, é sem curvas, sem rugas, sem carne ou sem marcas do tempo. Sem humanidade.

Que liberdade é essa?
Ao mesmo tempo, tanto no Chile quanto em outras partes do mundo, duas epidemias avançam: os problemas alimentares e a cirurgia plástica, ambos consequências desta cultura que impõe um ideal de beleza tão inalcançável quanto irreal e, muitas vezes, perigoso para a saúde.

Se não se pode nem comer ou envelhecer, qual é a liberdade que estamos propondo para essas mulheres?

É paradoxal que o século 21, época em que as mulheres têm mais direitos do que nunca, seja o século em que prevaleça a ideia de que, para ser bela, é necessário ter um determinado tipo de corpo que não o seu próprio e, além disso, um tipo que requer privação de alimentos.

Por esse motivo, os corpos anoréxicos dizem muito sobre nossa sociedade, que diz que mulheres têm uma liberdade sem limites, e ao mesmo tempo impõe essa rejeição de seu próprio corpo.

Exemplos internacionais
Depois de muito buscar, nos inspiramos em várias iniciativas internacionais. Primeiro, estudamos o projeto de 2008 da deputada francesa Valerie Boyer, que, mesmo não tendo sido promulgado, deu início ao debate. Roselyne Bachelot, então ministra da Saúde da França, assinou a ‘Carta de Compromisso voluntário sobre a imagem corporal e contra a anorexia’.

Alguns anos antes, o governo havia começado um movimento parecido na Itália para regular a idade e o peso da participação de modelos nos eventos em Milão, a capital da moda italiana, e recomendar que não fossem contratadas jovens com um índice de massa corporal (IMC) inferior a 18,5 –determinado por uma proporção entre o peso e a altura– ou menores de 16 anos.

Também foi muito útil a recente lei aprovada em Nova York que estende a modelos menores de 18 anos os benefícios de qualquer outra criança que trabalha no mundo dos espetáculos. Essa lei impõe limites rígidos de tempo e horário de trabalho e cria um processo burocrático que busca desestimular o uso de meninas como modelos.

Mudança cultural
Tendo em vista esses exemplos e nosso compromisso com nossas milhares de leitoras, criamos a Campanha de Boas Práticas.

Em uma iniciativa de autorregulação inédita no Chile, nos comprometemos, em nossas páginas editoriais, a contratar modelos maiores de 18 anos e com um índice de massa corporal acima de 18,5, que é o estabelecido internacionalmente como um peso normal, certificado por um médico; a não usar o Photoshop para alterar a imagem real de uma pessoa; e a promover a reflexão sobre a imagem da mulher nos meios de comunicação, por meio de um seminário anual e fóruns com mulheres líderes nos meios de comunicação de nosso país.

Foi a nossa maneira de resolver essas contradições entre o discurso a favor da mulher e certas práticas da fotografia de moda e beleza.

Tem sido um caminho complexo, com vários obstáculos, mas também com aliados. A principal dificuldade é cultural: é preciso pensar as reportagens por outra lógica e, especialmente, romper com a ideia de que o corpo mais bonito é magro e jovem.

Desconstruir, de certa forma, a própria ideia do que é belo e dar a ela um novo significado, de acordo com a realidade chilena. E também evitar o tom de regra aos conselhos de beleza: fugir da armadilha de dizer que as mulheres ‘devem’ consumir certas coisas para ‘serem’ aceitas.

Nas revistas de estilo masculinas, o tom é mais lúdico e divertido. Estão orientadas ao prazer, não ao ‘dever ser’. Aí está outra inspiração.

Mesmo que alguns fotógrafos tenham me considerado exagerada ou dogmática, muitos se uniram com gosto à nossa campanha, porque estavam fartos do excesso de retoques digitais, que, ao serem mal usados, fazem com que a fotografia verdadeira seja criada no computador e não na realidade.

Por fim, várias agências de modelos quiseram participar e enviar suas modelos a uma consulta médica para obterem o certificado de idade e peso normal. Muitas mulheres influentes e formadoras de opinião também apoiaram nossa campanha.

Agora, estamos próximos de realizar nosso primeiro seminário sobre o tema. Convidaremos a uma reflexão sobre as mulheres e sua representação nos meios de comunicação. Não só nos jornais e nas revistas, mas também na televisão, no cinema e outros.

Sabemos que é só o começo, mas isso nos enche de esperança de que seja possível ajudar para que nossas filhas deixem de sonhar em ser bonecas quando crescerem e se aceitem como são.”

* A jornalista Paula Escobar Chavarría é editora de revistas do El Mercurio e autora de três livros. Em 2006, foi eleita uma das 100 mulheres líderes do Chile e nomeada Jovem Líder Global pelo Fórum Econômico Mundial.

Leia Mais