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Metade dos brasileiros é favorável à realização da Copa do Mundo, diz Ibope

Apesar disso, 39% dos entrevistados declaram que estão ‘frios’ quando questionados sobre seu envolvimento com o torneio

Moradores de Teresópolis já estão em clima de Copa do Mundo: metade dos brasileiros é favorável a realização do evento (foto: Marcelo Piu / Agência O Globo)

Moradores de Teresópolis já estão em clima de Copa do Mundo: metade dos brasileiros é favorável a realização do evento (foto: Marcelo Piu / Agência O Globo)

Leonardo Guandeline, em O Globo

Pesquisa realizada pelo Ibope divulgada nesta segunda-feira mostra que 51% dos brasileiros são favoráveis à realização da Copa do Mundo no país ante 42% contrários. Em fevereiro, 58% dos entrevistados eram a favor do Mundial no Brasil e 38%, contra.

No levantamento divulgado nesta segunda-feira, 36% acreditam que a Copa tem grandes chances de ser bem-sucedida. Outros 28% creem serem médias as possibilidades de êxito e 31% acham que o Mundial está fadado ao fracasso.

Apesar disso, 71% dos entrevistados dizem torcer para que dê tudo certo e 11%, para que o Mundial seja um fiasco. Os indiferentes somam 14% e os que preferem não responder ou não sabem, 4%.

Quando questionados se os brasileiros, no geral, torcem para que a realização do Mundial dê tudo certo, 59% deram respostas positivas ante 22% que acreditam que a população espera que a Copa dê errado. Outros 12% creem ter a percepção que os brasileiros estão indiferentes nesse aspecto e 7%, não sabem ou preferem não responder.

De acordo com o Ibope, os sentimentos negativos em relação ao torneio prevalecem sobre os positivos. Os mais citados são preocupação (para 30% dos entrevistados) e desperdício (29%). Positivamente, os entrevistados citaram alegria (26%) e esperança (para 18% dos entrevistados).

No levantamento, quando questionados sobre o grau de envolvimento com o torneio, tomando por base um termômetro, 39% declaram que estão ‘frios’ e 18%, ‘gelados’. Outros 30% indicam que estão bastante envolvidos e apontam as temperaturas mais ‘quentes’ no termômetro, mas somente 7% e 5% desses, respectivamente, mencionam ‘fervendo’ e ‘muito quente’. Outros 28% disseram que seu envolvimento com o Mundial é ‘morno’.

O Ibope entrevistou 2.002 eleitores de 16 anos ou mais, em 140 municípios do país, entre os dias 15 e 19 de maio de 2014. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos para mais ou para menos.

Um tributo à vida

pet-kid15Ricardo Gondim

Estou vivo. Penduro bandeirolas virtuais para alegrar o meu dia. Estou vivo. Revisto-me de poeta. Quero compor um hino. Estou vivo. Faço um banquete da mesa posta. Quero festejar cada um dos próximos 365 dias com se fossem, todos, o dia do meu aniversário. Quero ter o poder de, soberanamente, decretar feriado qualquer dia. Estou vivo.

O que amo na vida? O imponderável. Para mim, viver é dançar na beira de abismos. Adoro desafiar despenhadeiros. O futuro, feito corda bamba, me excita. Choro ao esperar o tiro na largada da maratona – como fascina não saber se vou terminá-la. Fico deliciosamente nervoso de saber que nunca me antecipo às notícias que o telefone traz quando se intromete no meu sono. Como descrever o medinho infundado que antecede os exames laboratoriais?  Não há como. Ele provoca outro frio na barriga: pensar que este medinho um dia vai se transformar no grande pavor. Creio que lutarei com bravura quando tiver de enfrentar a dama da foice, que se esforçará para me sequestrar rumo ao improvável horizonte. Como é bom dizer que cada dia é suficiente em seu próprio mal. Não pretendo fugir de mim mesmo ou dos becos em que me meti. No cenário mais cruel ainda posso renascer das cinzas.

O que amo na vida? Gente. Gosto da diversidade humana. A sempre inédita íris dos olhos é mágica. No olhar se escondem encantos e degradações. Em cada um de nós vivem os diferentes personagens que povoam a terra. Somos possuídos por depravados e santos. Nossa complexidade preencheria páginas, capítulos, tomos inteiros. As muitas versões que nos habitam conhecem os segredos de Pandora e simpatizam com a sordidez de Lúcifer. Todos são essenciais e todos participam do teatro existencial. Não fossem os porões macabros da ambiguidade de homens e de mulheres não haveria enredo para Shakespeare, Dante, Eça de Queiroz ou Machado de Assis.

Para escrever, eu igualmente preciso deles. Mas, minhas pupilas também são policromáticas. Meus olhos multicoloridos captam as réstias da luz divina que sobram em meio à sordidez humana. Gosto de ler biografias. Com elas vejo a complexidade da alma e construo um panteão de princesas e príncipes. O encanto existe. Me familiarizo com suas histórias e me curvo: o legado que deixaram me ajuda a reconhecer a insignificância dos castelos de areia que moldei na maré baixa. Desaprendo a vaidade e murcho meu ego depois de caminhar ao lado de gente como Priscila e Áquila, Francisco de Assis, Mahatma Ghandi, Nelson Mandela, Martin Luther King e Madre Tereza de Calcutá. Estes nunca se contentaram com as cercas altas ou com os apertados quintais onde nasceram.

O que amo na vida? A singeleza das crianças que beijam roçando o nariz duas vezes; o altruísmo de quem abriga a prostituta doente; o empenho do enfermeiro no plantão gratuito ao lado de um moribundo; a resiliência da mulher lavando o marido com Alzheimer; a doçura da filha empurrando a cadeira de rodas da mãe enquanto passeiam pelo parque.

O que amo na vida? Sua formosura sutil. Gosto de meditar. Mirar peixes coloridos no baile em câmara lenta do ribeiro. Ler. Ouvir o tamborilar preguiçoso da chuva fina. Pensar em Deus. O momento breve em que a noite engole o sol e some com o dia. Me sentir acorrentado na frente de um Van Gogh. Recitar Vinicius. Fechar os olhos e deixar que Bach me possua por inteiro. Textos pungentes. A melancolia da bossa nova do Jobim. A nostalgia do fado português. Estradas bucólicas.

Estou vivo! Ainda hoje brindarei a vida com um cálice de Merlot chileno. Degustarei D. H. Lawrence. Quero dormir abraçado com a amada de minha mocidade. Não esquecerei de cochichar para Deus: Muito Obrigado.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Quem foi que disse que o silêncio não mata

silencio

Graça Taguti, na Revista Bula

Já parou pra ouvir? Volta e meia, o silêncio tenta nos dizer tantas coisas, sussurrar segredos lá dentro dos nossos ouvidos, mas estamos ocupados demais para prestar atenção. Ou então tagarelando, jogando conversa fora, linguarudos toda a vida. Só um zíper pra fechar nossa boca maldita. Que, aliás, nem sempre funciona.

Há silêncios de todos os jeitos, tonalidades, inflexões, cores e propósitos. Silêncios poéticos. Teatrais.  Os discretos discursos da alma. Silêncio dos interrogatórios, dos assassinos, na acareação; do padre no confessionário; da audiência, em um espetáculo de música clássica, orquestrada em um teatro de arquitetura imponente.

Silêncios de práticas terapêuticas, como as de algumas vertentes da Ioga. Das meditações em centros de autoconhecimento. Os silêncios graves e carregados de sentido dos psicanalistas, ponderando frente às aflições de seus pacientes.

Os silêncios saltam dos provérbios, dos ditados, dos tácitos acordos amorosos, nos quais apenas os olhos se comunicam. Há os que brotam dos gestos tão genuínos de quem já nasceu mudo. Emergem dos atos contritos de refletir durante o sermão na missa dominical. Ou manter-se atento à preleção do pastor, no caso dos cultos evangélicos.

Há o silêncio dos ateus, que se consideram donos do próprio destino e responsáveis únicos no enfrentamento das batalhas cotidianas. Silêncio da vergonha, que busca um pano preto para se encobrir, depois de fatos desvendados, porém infelizmente não encontra. Silêncio dos prisioneiros políticos, que tentam preservar sua honra na oferta da delação premiada. Quantos mártires, apóstolos ferrenhos de seus ideais definharam e foram apagados em salas escuras, úmidas e implacáveis?

O silêncio frio das mentiras. Que calam por consentir no deslize, no roubo. Que adotam a permissividade no lugar da ética, a promiscuidade atitudinal em detrimento da paz. Silêncio nas falácias dos governantes, discursos vazios de propostas, em torno  dos quais, com frequência, a sociedade permanece perplexa. Em calado desalento.

Silêncio da pré-adolescente, flagrada pela bronca do pai ao provar toda serelepe, ao lado do namoradinho, uma caipirinha no bar da esquina próxima de casa.

O silêncio está em jogo.  Filho legítimo de situações absurdas, bizarras, impensáveis em sua barbárie. Silêncio de quem assiste a injustiças e se flagra de mãos atadas, impotente para reagir.

A covardia explícita no ditado: quem cala consente. O sábio conselho embutido em: falar é prata, ouvir é ouro. A propósito, o seu vizinho, que fala como um papagaio se resolvesse parar pra se ouvir, certamente atiraria dezenas de frases inúteis no lixo.

Em boca fechada não entra mosca! — adverte a professora de português do ensino médio ao aluno que teima defender a conquista dos suados e almejados pontos de sua redação sobre “A Gula”, cá entre nos muito indigesta e mal redigida.

A cena costumeira observada das namoradas carentes reclamando por incessantes  declarações de amor do tolerante parceiro, em alto em bom som. Mas quem disse que o silêncio não traz às costas uma mochila pesada, repleta de afetos enormes?

No filme “O Silêncio dos Inocentes” de 1991, a agente do FBI (Jodie Foster) é destacada para encontrar um assassino que arranca a pele de suas vítimas. Para entender como o ele pensa, a moça procura um perigoso psicopata (Anthony Hopkins), encarcerado sob a acusação de canibalismo.

“O Silêncio” — filme sueco de 1963, escrito e dirigido por Ingmar Bergman, foi considerado bastante controverso, apresentando temas como masturbação feminina, sugerindo lesbianismo e incesto, além de nudez e sexo.

Em “A Tortura do Silêncio” uma das obras-primas de Alfred Hitchcock, de 1953, o padre Michael Logan (Montgomery Clift), aparentemente um exemplo de piedade religiosa, escuta a confissão de um assassino. Tarefa árdua testemunhar o ocorrido, a partir do ponto de vista do matador e as normas da igreja que impedem Logan de se pronunciar.

Escritora filigranada, Clarice Lispector anunciou sem reservas: “Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio”.

Jack Kerouac, emblemático romancista da geração beat, sublinhou: “Porque o silêncio em si é como o som dos diamantes que podem cortar tudo”.

Nosso Tom Jobim, sempre movido por especial delicadeza, alinhavou irretocável metáfora, segundo a qual a música é o silêncio que existe entre as notas.

Por fim, o eterno Leminski num de seus versos registrou, recorrendo à sua habitual e extrema agudeza: “Repara bem no que não digo”.

Então. Talvez esta seja uma boa ocasião para tentarmos decifrar a sutil conversa das plantas. O significado de certas tempestades, dentro e fora do corpo. Os humores da natureza.  Contemplarmos também alguns sorrisos que dançam imersos na quietude dos olhos. As mensagens impregnadas em longos e profundos  suspiros.

E, naturalmente, a inquestionável cumplicidade de dois amantes, denunciada pela força de silenciosos apertos de mãos.

Síndrome do F5

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Mariana Bernardes, no Resultado Desastroso

O mundo de hoje é todo virtual. São smartphones conectados 24 horas por dia, redes sociais para todos os gostos, jornais online, revistas online, petições online, tudo é online. No meio desta loucura creio que venho desenvolvendo uma síndrome cada vez mais comum: a Síndrome do F5.

Há algumas semanas troquei meu celular. Eu, que tinha um celular simples, com toque polifônico, ganhei um iPhone bonito e com um plano de 3G de dar inveja. Percebi aos poucos que aquele pequeno aparelho era um mundo de possibilidades. E-mails a qualquer momento, Facebook, Twitter, fotos, vídeos e um pequeno bloco de notas que não ocupava todo o espaço da minha bolsa. Esse foi o momento em que comecei a entender o fascínio da sociedade moderna para com os telefones sempre conectados: tudo muito prático.

Não demorou muito para que eu me tornasse uma daquelas pessoas insuportáveis que, no meio de uma conversa, puxa o celular para ver o que acontece na vida alheia. Porém isso não é tudo. Quando esse presente divino veio parar em minhas singelas mãos tatuadas, eu estava começando a me comunicar com editoras, para ver se o meu projeto de livro, que venho tentando fazer dar certo há dois anos, finalmente sairia. Enviar manuscritos e esperar repostas é algo muito tenso, uma ansiedade começava a crescer dentro de mim e então o pior aconteceu: adquiri a Síndrome do F5.

Trabalhar escrevendo pode ser algo estressante. Você tira uma coragem que você não tem de algum lugar dentro de si que você ainda não conhece, manda alguns e-mails para revistas, jornais e editoras, na esperança de que alguém irá publicar seu trabalho, mas enquanto o e-mail de resposta não chega (às vezes ele nunca chega) você se encontra em uma crise de atualizar seu correio eletrônico de segundo em segundo. Minhas mãos tremem e suam frio quando meu celular perde a conexão com a internet ou quando a bateria ameaça acabar. Corro para casa checar meu laptop, e assim fico, durante horas a fio, atualizando, atualizando e atualizando.

Tentei conversar sobre a síndrome com meu terapeuta dia desses, porém ele me disse que ainda não é uma doença reconhecida pela OMS. Fico no aguardo de um tratamento apropriado e, obviamente, dos e-mails, que pelo que chequei antes de começar a escrever esta crônica, ainda não chegaram.

Direitista e esquerdista

direita e esquerda

Direitista e esquerdista – os dois são perfeitos idiotas. O direitista padece da doença senil do capitalismo e o esquerdista, como afirmou Lênin, da doença infantil do comunismo.

Frei Betto, no Brasil de Fato

Nada mais parecido a um esquerdista fanático, desses que descobrem a nefasta presença do pensamento neoliberal até em mulheres que o repudiam, do que um direitista visceral, que identifica presença comunista, inclusive em Chapeuzinho Vermelho.

Os dois padecem da síndrome de pânico conspiratório. O direitista, aquinhoado por uma conjuntura que lhe é favorável, envaidece-se com a claque endinheirada que o adula, como um dono ao seu cão farejador. O esquerdista, cercado de adversários por todos os lados, julga que a história resulta da sua vontade.

O direitista jamais defende os pobres e, se eventualmente o faz, é para que não percebam quão insensível ele é. Mas nem pensar em vê-lo amigo de desempregados, agricultores sem terra ou crianças de rua. Ele olha os deserdados pelo binóculo de seu preconceito, enquanto o esquerdista prefere evitar o contato com o pobre e mergulhar na retórica contida nos livros de análises sociais. O esquerdista enche a boca de categorias teóricas e prefere o aconchego de sua biblioteca a misturar-se com esse pobretariado que nunca chegará a ser vanguarda da história.

O direitista adora desfilar suas ideias nos salões, brindado a vinho da melhor safra e cercado por gente fina que enxerga a sua auréola de gênio. O esquerdista coopta adeptos, pois não suporta viver sem que um punhado de incautos o encarem como líder.

O direitista escreve, de preferência, para atacar aqueles que não reconhecem que ele e a verdade são duas entidades numa só natureza. O esquerdista não se preocupa apenas em combater o sistema, também se desgasta em tentar minar políticos e empresários que, a seu ver, são a encarnação do mal.

O direitista posa de intelectual, empina o nariz ao ornar seus discursos com citações, como a buscar na autoridade alheia a muleta às suas secretas inseguranças. O esquerdista crê na palavra imutável dos mentores do marxismo e não admite outra hermenêutica que não a dele.

O direitista considera que, apesar da miséria circundante, o sistema tem melhorado. O esquerdista vê, no progresso, avanço imperialista e não admite que seu vizinho possa sorrir, enquanto uma criança chora de fome na África.

O direitista é de uma subserviência abjeta diante dos áulicos do sistema, políticos poderosos e empresários de vulto, como se em sua cabeça residisse a teoria que sustenta todo o edifício de empreendimentos práticos que asseguram a supremacia do capital sobre a felicidade geral. O esquerdista não suporta autoridade, exceto a própria, e quando abre a boca plagia-se a si mesmo, já que suas minguadas ideias o obrigam a ser repetitivo.

O direitista é emotivo, prepotente, envaidecido. O esquerdista é frio, calculista e soberbo.

O direitista irrita-se aos berros, se encontra no armário a gola da camisa mal passada. O esquerdista é dedicado às grandes causas, e as pequenas coisas são o seu calcanhar de Aquiles.

O direitista detesta falar em direitos humanos, e é condescendente com a tortura. O esquerdista admite que, uma vez no poder, os torturados de hoje serão os torturadores de amanhã.

O direitista esbraceja, por ver tantos esquerdistas sobreviverem a tudo que se fez para os exterminar: ditaduras militares, fascismo, nazismo, queda do Muro de Berlim, dificuldade de acesso aos media etc. O esquerdista considera o direitista um candidato ao fuzilamento.

Direitista e esquerdista – os dois são perfeitos idiotas. O direitista padece da doença senil do capitalismo e o esquerdista, como afirmou Lénin, da doença infantil do comunismo.

Embora mineiro, não fico em cima do muro. Sou de esquerda, mas não esquerdista. Quero todos com acesso a pão, paz e prazer, sem que os direitistas queiram reservar tais direitos a uma minoria, e sem que os esquerdistas queiram impedir os direitistas de acesso a todos os direitos – inclusive o de expressar suas delirantes fobias.

imagem: internet