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Ira santa

mulher rezando 2Marília César

Acordei
Com um grito de guerra no peito
Um clamor antigo
Contra o abuso,
Inimigo de infância.

Toda forma de abuso
Deve ser desmacarada
Deve ser denunciada
Deve ser exterminada
Toda forma de dominação disfarçada de zelo
Toda armadilha mental diabólica, que prende em vez de libertar
Todo silêncio que inferioriza
A falta de resposta que no fundo é menosprezo
Porque toda pergunta tem direito a uma resposta

Contra o abuso de um ser humano contra outro ser humano
Não deve restar
Pedra sobre pedra.
Tudo tem que cair.
E é hoje.

A mulher que escraviza o marido pela culpa.
O marido que a enreda pela violência – e ela, coitada, ainda acha que  violência é amor disfarçado.
O filho que desconta no pai a própria incapacidade de lidar com o fracasso.
O pai que desconta no filho o ódio que sente da mulher.
O casal que destrói a auto-estima do filho ao fazê-lo suportar um relacionamento marcado pelo desamor – e o coitado ainda tem que enfrentar a culpa ao ouvir que eles estão juntos por causa dele.

Toda forma de abuso deve ser desmascarada.
Por esta causa nesta manhã eu elevei os decibéis.
Eu gritei, no meu quarto, a portas fechadas, como manda a Escritura.
Eu chorei pela miséria da minha própria história e pela miséria daqueles que me cercam.
Eu derramei diante de Deus toda a minha ira.
Eu ofereci a Deus uma oração aflita e descompensada. Como Ana, desfaleci de tanta tristeza. Como Davi, soei desequilibrada e louca.

Mas alguma coisa me faz sentir que Ele, de seu trono, na verdade se agradou de mim.
Ele, na verdade, bateu palmas para mim e falou baixinho: yes!
Ela acordou! É minha filha, tem o meu caráter!
Ela também se indigna contra o abuso de um ser humano contra outro ser humano!
Eu me deleito nela nesta manhã.
Filhinha amada, me junto a você nesta manhã
E também levanto
um grito de guerra.

No fundo, evangélicos são fanáticos sexuais, diz Gregório Duvivier

Publicado na Folha de S.Paulo

O colunista da Folha Gregório Duvivier fala sobre o sexo entre evangélicos. “Eu acho que tudo é sexo, religião é sexo, é erótico. E a proibição do sexo banal gera um sexo espetacular”, afirma.

Duvivier faz parte do grupo de humor “Porta dos Fundos” criticado pelo deputado Marco Feliciano (PSC-SP) após publicar um vídeo, disponível no YouTube, em que faz piada com um médico que vê a figura de Jesus Cristo na vagina de uma mulher durante exame ginecológico.

“Ele disse que ia processar a gente, até agora não processou”, afirma. “No fundo, ele gosta.”

Salmos chilenos

Catedral_of_stgoLuiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo

Dias atrás entrei na catedral de Santiago do Chile. Minha mulher, discípula de Guimarães Rosa, para quem “quanto mais religião melhor”, adora todo e qualquer santo.

Eu, mais miserável nesse assunto, apesar de não religioso, sou facilmente capturado pelo aspecto estético e sublime de templos sagrados. Foi um prazer ver e ouvir aquela missa “en chileno”.

A catedral silenciosa, discreta e com pouca luz, com sua altura gigantesca, nos ajudava a lembrar nosso lugar no mundo -que não me venham os inteligentinhos fazer o blá-blá-blá da crítica à religião, porque a conheço desde o jardim da infância.

Sentir-se “em seu justo lugar no mundo” é parte clássica de toda boa espiritualidade, contra esse narcisismo dos “direitos do Eu total” de hoje, essa coisa “ninja brega”.

Este “justo lugar no mundo” é parte daquilo que o historiador das religiões Mircea Eliade chama de perceber que não somos o “axis mundi” (o eixo do mundo). Toda verdadeira espiritualidade deve nos ajudar a vivenciar este “descentramento” de nosso próprio valor.

O mistério me encanta e me faz sentir menos banal. A sensação da banalidade de tudo me esmaga continuamente. Sou um peregrino da falta de sentido. Uma testemunha da noite escura da alma de San Juan de la Cruz e Terrence Malick. Não levo a sério ateus militantes que ainda acham que ateísmo é “evolução espiritual”. Para mim, ateísmo é, apenas, o modo mais óbvio de ser e um estágio elementar em filosofia.

Fiquei ateu com oito anos. Alguém poderia dizer que com os anos me tornei um ateu encantado pelo “personagem” Deus e pela possibilidade de existir o perdão no mundo, justamente porque, no fundo, não o merecemos. Sou cego, mas pressinto o espaço à minha volta.

O padre em sua homilia falava da alegria da vida. O papa Francisco quando cá esteve tocou neste tema, falando da “religião da alegria”. Não se trata de autoajuda, como pode parecer aos desinformados, mas da mais fina teologia moral cristã (e judaica também). O que é essa alegria? Vejamos.

A vida é precária. A pobreza (material, espiritual, psicológica) é como a gravidade, na hora em que relaxamos, ela nos consome. É uma questão de tempo. Nosso caminho é “para baixo”. Não é à toa que tomamos antidepressivos o tempo todo, cada um se vira como pode. A solidariedade na melancolia devia nos unir a todos. O que não perdoo na autoajuda é que ela mente para nosso justo desespero dizendo que ele é mera questão de incompetência.

É aqui que começa a consistência da teologia da alegria a qual se refere o papa Francisco: temos todas as razões “materiais” do mundo para sermos tristes, o milagre é não sermos tristes todo o tempo.

Confiar na vida é quase impossível. A fé na vida é um mistério e um dom. Muito mais caro do que a inteligência e a cultura -não as desprezo, porque inclusive elas são quase tudo que tenho.

Este é o sentido de fé como “estar acompanhando” em sua encíclica “A Luz da Fé”.

A alegria da qual falava o padre chileno e o papa Francisco é a “alegria teologal”, aquela que nasce das três virtudes teologais básicas: a esperança, a fé e a caridade (o amor).

Ter esperança, crer na vida e amar são experiências que separam a infância espiritual da maturidade d’alma. O desespero é o caminho mais curto entre dois momentos na vida. A esperança é que é o milagre para quem enxerga o mundo como ele é. Por isso, toda literatura espiritual séria começa pelo vale das sombras.

Dizer que uma virtude é teologal é dizer que ela é fruto da graça de Deus, não uma dedução a partir dos fatos do mundo. Dos fatos, apenas deduzimos o desespero. Mas, por isso mesmo, esta alegria, quando nos visita, tem o hálito divino, por sua própria quase total impossibilidade de ser, para quem reconhece o vale das sombras à nossa volta. Na mística, esta alegria pode nos levar às lágrimas. Este é o conhecido “dom das lágrimas”, marca de quem vê a beleza do mundo em meio ao véu absoluto do desespero.

Nada a ver com religião como muleta, mas sim com uma espiritualidade de quem caminha só, eternamente, entre sombras.

Comercial não-autorizado mostra Crocs tentando ser sexy

M. Medina, na Exame

São Paulo – A Crocs tem se esforçado para se livrar da má-fama de calçado feio, como já mostramos aqui. Esconder o tradicional clog no fundo da loja e divulgar novos sapatos são algumas das estratégias da empresa.

Para fazer piada da tentativa de reposicionar a marca entre os consumidores, a agência londrina Compulsory criou um comercial falso em que a empresa se arrisca a fazer o que parece (quase) impossível: ser sexy.

O vídeo busca provar que até mesmo um clog verde-limão pode ser sensual pelo simples fato de ser facilmente retirado dos pés na hora H, um diferencial em relação a alguns calçados da concorrência.

Em comunicado oficial, a Crocs esclarece que o vídeo não foi produzido pela marca e que a sua exibição não foi autorizada. “O conteúdo não reflete os valores da Crocs, uma marca global de estilo de vida”, afirmou a empresa.

dica da Rina Noronha