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Valesca Popozuda fala em preconceito após ser chamada de pensadora em prova

Publicado no UOL Música

Valesca Popozuda usou seu perfil no Facebook, na manhã desta terça-feira (8), para comentar a polêmica causada depois que um professor de filosofia do Distrito Federal elaborou uma questão em uma prova em que os alunos deveriam completar um trecho da música “Beijinho no Ombro”. O enunciado ainda dizia que a letra é de “uma grande pensadora contemporânea”.

“Eu acho uma bobagem isso tudo, talvez se ele tivesse colocado um trecho de qualquer música de MPB ou até mesmo de qualquer outro gênero musical que não fosse o Funk, talvez não tivesse gerado tal problema”, escreveu Valesca em seu perfil.

A questão foi elaborada pelo professor Antonio Kubitscheck, que trabalha uma escola pública de Ensino Médio do Distrito Federal. Surpreendidos com a questão, alguns alunos fotografaram a prova e publicaram nas redes sociais.

No depoimento, ela ainda escreve que gostaria de agradecer ao professor por se sentir honrada pela homenagem, mas se recusou a aceitar o título de pensadora. “Diva, Diva sambista, Lacradora, essas coisas eu já estou pronta, ok, mas PENSADORA CONTEMPORANEA ainda não ( mas prometo que vou trabalhar isso)”, escreveu.

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Ela ainda critica os que se julgam capazes de criticar o professor. “É todo mundo perfeito, o funk não presta e a Popozuda não pode ser pensadora contemporânea. Então vamos tacar pedra na professora (sic) porque o resto vai continuar da mesma forma”.

Para a cantora, o que mais espanta é o fato das pessoas se preocuparem com isso sem analisar o que há por trás. “E se o professor colocou a questão dentro do contexto da matéria? E se o professor quis ser irônico com o sucesso das músicas de hoje em dia? E se o professor quis apenas distrair a turma e fez a questão apenas pra brincar?”.

Funkeiro ataca Edir Macedo no “Cidade Alerta”

Keila Jimenez, na Folha de S.Paulo

O programa “Cidade Alerta” do Espírito Santo causou um enorme desconforto na Record na última sexta-feira (7).

O noticiário policialesco recebeu o funkeiro MC Jefinho Faraó como convidado especial em homenagem ao Dia da Mulher.

O rapaz, famoso por seus funks de conteúdo erótico, cantou vários de seus sucessos no programa, tudo com direito a coreografia e gracinhas do apresentador de plantão, Ricardo Martins. O problema é que um dos sucessos é um ataque direto ao dono da emissora, Edir Macedo, Líder da Igreja Universal do Reino de Deus.

A confusão ocorreu quase no final do programa, quando o âncora do noticiário, que falou durante vários momentos que estava com “dor de barriga”, deixou o programa na mão do funkeiro, que seguiu cantando no ar.

Em uma dessas escapadas do apresentador para ir ao banheiro, Mc Jefinho cantou no “Cidade Alerta” um funk com rimas pesadas contra os pastores evangélicos.

O refrão da música : “Oooo Pastor Marginal, da Igreja… foi quem pegou nosso dinheiro, pega ele e dá um pau”

E seguiu: “Lembro dele no Maracanã, à toa ele sorria, ele ficou rico da noite para o dia”.

Na música original, Jefinho fala claramente sobre o líder da Igreja Universal, Edir Macedo.

Nos bastidores da Record, o ocorrido gerou uma enorme confusão, que pode acarretar em demissões.

Segue a participação de Mc Jefinho no “Cidade Alerta”. A música “Pastor Marginal” surge aos 9 minutos do vídeo.

Mineiro e evangélico, Tom Rodrigues assina os principais clipes do funk ostentação no Rio

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O diretor de 25 anos é casado e pai de dois filhos e já foi vidraceiro, servente e camelô

Roberto Kaz, em O Globo

RIO – O diálogo abaixo — entre um empresário de funk e um diretor de videoclipes — deve ser lido tendo em mente o seguinte cenário: uma casa, uma sala sem móveis, um painel de LED ocupando metade da sala sem móveis; dez mulheres (ou dez pares de perna), dez garrafas de vodca, 12 de espumante, uma penca de agregados; um homem descamisado, forte e depilado usando short e gravata borboleta.

— Quero ver se a gente pega o Porsche para filmar a Britney chegando na porta da casa — diz o empresário.

— E a Range Rover? — pergunta o diretor, com a câmera na mão.

— A Rover vou deixar para o clipe de amanhã. Mas enche o Porsche aí com as meninas.

A conversa ocorreu numa sexta-feira quente e ensolarada, dez dias atrás, num condomínio de luxo no Recreio dos Bandeirantes. O empresário era Eduardo Basílio — mais conhecido como DJ Napô —, que definia, em detalhes, como queria o clipe de “Na casa do Seu Zé”, última aposta sua para a cantora MC Britney. Já o diretor era Washington Rodrigues — ou apenas Tom — que, em cinco anos de trabalho, filmou mais de 200 clipes de funk ostentação. Sua página no YouTube, seguida por 1,2 milhão de pessoas, já foi visitada 220 milhões de vezes. Aos 25 anos, ele é o grande nome do ramo no Rio de Janeiro.

Casado, evangélico, pai de dois filhos, Tom tem a fala mansa de quem nasceu e foi criado em Minas Gerais. Estudou até a sétima série. Trabalhou como vidraceiro, servente e chaveiro até conseguir um emprego no camelódromo de Santa Luzia (que está, para Belo Horizonte, como o da Uruguaiana para o Rio). Começou vendendo tênis. Depois, já dono de sua própria banquinha, migrou para o comércio de DVDs.

Foi então que conheceu os MCs Michel e Tucano. A dupla — que durante o dia vendia celular na banca vizinha e à noite se apresentava em bailes da periferia — queria lançar seu próprio vídeo. Tom foi incumbido de gravar e editar.

— Nem tinha câmera — ele lembra. — Tirei foto com o meu celular, um Nokia N73. Deu resultado, e aí eu montei um segundo DVD com vários funks conhecidos de Belo Horizonte. Se a letra falava de sangue, morte, eu buscava imagem disso no Google e montava. Tinha feito um curso de computação de seis meses. Usava o (software) Nero ainda.

Entrada no Rio se deu há dois anos

O disco, que fez relativo sucesso, foi pirateado e acabou por virar seu cartão de visitas. Tom criou uma firma — a Tom Produções — e uma página no YouTube. Depois, com a ajuda da mãe, comprou uma câmera Sony de R$ 1.100 “dividida em 12 vezes”, como faz questão de frisar. Passou a filmar outros funkeiros de Minas Gerais até ser procurado, dois anos atrás, por um empresário do Rio. O primeiro clipe que fez na cidade — “Amor proibido”, do MC Fininho — chegou a 11 milhões de visualizações. Como se diz no dialeto do funk, Tom bombou, formou o bonde, esquentou a chapa, abalou as estruturas.

Dali em diante, filmou e editou vídeos do Mr. Catra, do Menor do Chapa e do grupo os Lelek. O clipe “Os caras do momento”, do Nego do Borel, foi visto 27 milhões de vezes. “Bigode grosso”, da MC Marcelly, 13 milhões. “Aquecimento das maravilhas”, do Bonde das Maravilhas, 11 milhões (a título de comparação, o sucesso “Beijinho no ombro”, de Valesca Popozuda, está com quatro milhões de views no YouTube).

Tom ainda mora em Barreiro, bairro onde foi criado em Belo Horizonte. Hoje é dono orgulhoso de duas câmeras T3I (R$ 4 mil), uma 6D (R$ 7 mil) e outra 7D (R$ 8 mil), todas da Canon. Vem ao Rio de mês em mês; cobra entre R$ 2 mil e R$ 5 mil por dia de filmagem. Edita e posta no YouTube por conta própria. Para filmar, tem auxílio de um primo.

De relógio dourado no pulso e corrente igualmente dourada no pescoço, o DJ Napô — que empresaria a MC Britney e o Bonde das Maravilhas — diz escolher Tom “pela amizade e pelo canal no YouTube’’.

— Em time que está ganhando não se mexe — explica. — O primeiro clipe da Britney, bem básico, teve seis milhões de visualizações. Nesse eu investi mais. Tem painel de LED, um monte de menina, até um transexual.

Corrigiu-se:

— Quer dizer, não chega a ser transexual. É menino que gosta de menino.

Nascido na Baixada Santista e aprimorado na cidade de São Paulo, o funk ostentação é, a grosso modo, um “proibidão” carioca com uma letra que, em vez de exaltar o crime, faz loas ao consumo. Um clipe típico deve incluir cinco elementos: carro, bebida, dinheiro, mansão e, principalmente, mulher. O expoente do gênero é o cantor MC Guimé, autor de “Plaquê de cem”, filmado pelo diretor Konrad Dantas, visto por 42 milhões de pessoas no YouTube. Aos 21 anos, ele faz 40 shows e chega a ganhar R$ 1 milhão por mês. Seu último clipe, “País do futebol”, tem patrocínio de uma marca de energético e participação do jogador Neymar.

Originalmente restrito à periferia, o funk ostentação veio à tona, no último mês, com a onda de rolezinhos que assolou a capital paulista. A razão: os primeiros rolés, organizados pela internet, surgiram justamente para que os ídolos do gênero pudessem ser abordados por fãs em shopping centers. No Rio, o principal nome da área é o MC Nego do Borel, autor de “Os caras do momento” (“E o bonde de Tommy, Lacoste e de Oakley / Tem a Lamborghini e a Land Rover”). Com o dinheiro ganho na música, o funkeiro trocou o barraco por um casarão, erguido no alto do próprio morro que o batiza.

Tom — que leva o nome da mãe tatuado num braço, e o da produtora no outro — também mudou de vida. Já filmou em São Paulo, Porto Alegre e Vitória. Está produzindo um show com 18 artistas, em Belo Horizonte, para a gravação de um DVD. Na última vinda ao Rio, com a filha, ficou uma semana e fez quatro videoclipes. Ainda que a produção fosse simples (mansão e Porsche emprestados pelo dono de uma marca de boné; uísque, vodca e espumante cedidos por um colecionador de garrafas gigantes), o resultado não deve ser. Houve cenas filmadas numa lancha na Marina da Glória e num helicóptero sobre o Recreio. A edição deve ficar pronta em um mês.

Religioso, Tom diz que a exaltação à riqueza e à luxúria que retrata em seus vídeos são apenas trabalho.

— Não perguntei para o pastor se pode. Melhor não saber — ri.

 

Com 10 milhões de fãs, funk é hino de identidade para jovens brasileiros da periferia

Batidão é muitas vezes música vulgar, e há até funkeiros que exaltam o crime. Mas gênero representa como nenhum outro aspirações das classes C, D e E

MC Guimê

MC Guimê

Sérgio Martins, na Veja

Tchudum, tchá, tchá, tchá, tchá, tchudum, tchá, tchá, tchá, tchá, tchudum… São 2 horas da manhã numa casa noturna de São Paulo e os frequentadores estão dançando uma batida eletrônica repetitiva. Dali a uma hora e meia, MC Guimê, o principal nome do funk ostentação, fará seu show, acompanhado de um DJ e de duas dançarinas, e com a participação especial do rapper Emicida. No clube vigora uma saudável mistura social, mais rara em São Paulo, onde centro e periferia são muito distantes, do que no Rio. Encontram-se ali jovens de bairros suburbanos — os meninos com correntes douradas, as meninas com saia bem curtinha, e todos com roupas de grife — e também os chamados “playboys”. Quando Guimê finalmente sobe ao palco, a temperatura da casa parece subir. Por quarenta minutos, ele intercala canções de seu repertório com sucessos de outros funkeiros, canta o rap do quarteto Racionais MC’s e cita o Salmo 23 (“O senhor é meu pastor / Nada me faltará”). Nada falta mesmo: suas letras carregam uma tal profusão de marcas — carros, roupas, perfumes, bebidas — que até se poderia suspeitar de vultosos contratos de merchandising. Não é o caso. Para Guimê, natural da periferia de Osasco, cidade da Grande São Paulo, falar desses objetos de consumo — e, acima de tudo, adquiri-los — é uma aspiração realizada, uma senha para a entrada na sociedade. O público não só entende como compartilha o sonho de Guimê: muitos fãs, no meio da dança, erguem garrafas de uísque escocês como se fossem troféus. Festas e shows assim se repetem por outras cidades e clubes. Como tantos gêneros musicais que vieram das áreas urbanas mais pobres, o funk já conquistou parte da classe média. Mas é sobretudo entre a garotada da periferia que ele tem a ressonância de uma Marselhesa: um hino de cidadania e identidade para os jovens das classes C, D e E.

Segundo estudo do Data Popular, instituto especializado em pesquisas de opinião nos estratos emergentes do país, a “comunidade funk” hoje congrega 10 milhões de brasileiros com mais de 16 anos, a maioria das classes C e D. É um público fiel: 77% deles escutam funk todos os dias e 50% vão a um baile funk pelo menos uma vez por mês. Esse público se divide quando perguntado sobre o sentido que a música tem em sua vida: 22% consideram que o funk é apenas diversão, um ritmo bom de dançar. Mas 26% acreditam que os MCs convidam a ambições que não cabem na pista de dança: o funk seria uma forma de superação. Em bom momento comercial, o funk representa uma possibilidade de carreira para quem sonha em se tornar MC (sigla em inglês de Master of Cerimonies, o cantor do funk e do rap). Uma única canção de sucesso pode garantir boa base financeira, ainda que, como sempre aconteceu no showbiz, existam promessas de estrelato que acabam em fracasso (leia o quadro ao fim da reportagem). Mesmo sem o status de um Naldo ou de um Mr. Catra, um funkeiro de algum talento pode garantir mais do que a subsistência. “Um MC pode fazer trinta bailes por mês ao cachê de 1 000 reais. Em seis meses, terá condições de montar um negocinho na favela, comprar uma casa e um carro”, calcula o DJ Marlboro, um dos precursores do batidão. O sonho de todos, claro, é chegar às alturas. MC Guimê fez fama e dinheiro — ganha em torno de 1,4 milhão de reais por mês e o vídeo de seu Plaquê de 100 tem mais de 42 milhões de visualizações no YouTube — sem comercializar discos. Mas as gravadoras descobriram que o funk é rentável. Naldo Benny e Anitta trocaram o ritmo mais pesado dos “batidões” pelo funk melody — versão, digamos, pacificada do funk da periferia carioca — e com isso alcançaram públicos mais amplos. Naldo produz os próprios discos, mas tem um contrato de distribuição com a Sony Music. Anitta é do cast da Warner, que mais recentemente contratou MC Ludmilla (ex-MC Beyoncé). A Universal tem MC Gui, outro exponente do funk ostentação. Casas de shows como o Barra Music, no Rio, incluíram o funk entre as atrações frequentes. “Hoje existe um cuidado maior do funkeiro com a produção”, diz Marcos Júnior, diretor artístico do espaço.

Há diferenças entre o funk carioca, mais malicioso e sexual (ou mais bandido), e o paulista, que tem mais influência do hip-hop. O chamado “funk ostentação”, que celebra o consumo e o luxo, é um produto paulista: suas raízes estão na Baixada Santista, no litoral de São Paulo, com as produções do DJ Baphaphinha e com artistas como MC Boy do Charmes. Como tantos gêneros populares — axé, sertanejo, tecnobrega —, o funk, em qualquer lugar, irrita ouvintes que se pretendem mais sofisticados. Agora que o purismo nacionalista caiu de moda, ataca-se o funk brasileiro por não ser similar à sua matriz americana. Realmente, não há quase nada de James Brown no funk brasileiro de agora. Mas suas origens estão nos bailes do Rio de Janeiro dos anos 70, onde se tocavam funk e soul, americanos e brasileiros. Com o tempo, a batida sofreu alterações. A princípio, o ritmo mais comum era o chamado Miami Bass, batida acelerada que surgiu na cidade americana da qual recebeu o nome. Hoje, o funk ganhou um batuque brasileiro, que parece saído dos terreiros de umbanda. A essa invenção rítmica se deu o nome de tamborzão. Não, não é uma contribuição para a música popular internacional da estatura da bossa nova — mas tem lá sua originalidade. “Lá fora, o funk é reconhecido como a música eletrônica brasileira”, defende o cantor Mr. Catra. Muitos MCs não têm a mínima noção de tempo, mas há criatividade nas suas produções, sobretudo na conjugação inusitada de samples, que vão do grupo americano Talking Heads ao tema do desenho animado Tom e Jerry. Mais pertinente, ainda que às vezes tingido de moralismo estreito, é o ataque ao conteúdo sexual do funk. Muitas letras são incontestavelmente grosseiras. “Se as pessoas gostam de falar sobre sexo, por que eu não posso cantar a respeito?”, justifica-se Mr. Catra. Ele é o cantor de Negolossauro rex, cuja letra é até publicável: “Vem você, a sua prima, pode chamar a sua amiga / Instinto de leão, pegada de gorila”.

Os bailes funk, por seu caráter improvisado, também configuram um problema urbano. Em São Paulo, a prefeitura proibiu os bailes de rua com carro de som, pela boa razão de que eles perturbavam a paz — as pessoas na periferia, afinal, trabalham e desejam dormir à noite. Ainda mais complicada é a intersecção do funk com a bandidagem, que vigora sobretudo no Rio. Nos anos 90 surgiram nas favelas os chamados “proibidões”, bailes protegidos ou patrocinados por facções criminosas. O “proibidão” tornou-se quase um subgênero do funk, com letras que exaltam criminosos e, de tão recheadas de gíria, parecem falar em código. Um exemplo é “a balinha do Salgueiro” de que fala uma das canções do repertório do Nego do Borel: trata-se de ecstasy. O elogio aberto ao crime arrefeceu com a tomada de favelas pelas Unidades de Polícia Pacificadora. Em alguns casos, a UPP reprimiu bailes funk. Mas muitos sobrevivem, como o Emoções, na favela da Rocinha, que voltou à atividade após um ano parado.

A despeito da profissionalização de suas maiores estrelas, o funk ainda é uma atividade informal. Os MCs gravam em estúdios caseiros e divulgam músicas e clipes em redes sociais e sites de vídeo. Muitos empresários não têm o mínimo tino para negócios. “Geralmente, o primeiro empresário de um funkeiro é o taxista ou o motorista que o leva para os shows”, diz Kamilla Fialho, empresária de Anitta — responsável por configurar a música de sua cliente em um formato mais pop, o que rendeu uma vendagem de 200 000 discos. Leandro Gomes, empresário de Valesca Popozuda, também faz seus cálculos para agradar ao mercado de classe média. Mas não cogita suavizar o batidão pesado de sua cliente: “Hoje o funk reflete a cultura do carioca com muito mais propriedade do que o samba”, diz Gomes. De fato, o samba já não traduz a alma da periferia como faz o funk. MC Guimê fala de marcas, mas também de autoafirmação. MC Smith, que já cantou o “bonde” do crime no Complexo do Alemão, faz retratos tão rea­listas da periferia carioca que parecem roteiros de filme. MC Ludmilla e Valesca Popozuda assumem uma posição de confronto junto aos homens, sem queimar sutiãs. E, como já fez o samba, o funk tece o elogio ufanista da brasilidade. Em País do Futebol, que começa com “um salve à nossa nação”, o paulista Guimê reza ao Cristo Redentor, símbolo carioca. E proclama: “A rua é nossa, e eu sempre fui dela”. A rua hoje é do funk.

QUINZE MINUTOS DE FAMA - Os intérpretes de Passinho do Volante (“ah lelek lek lek”) e a hoje professora de academia Vanessa Pikachu: carreira empacada

QUINZE MINUTOS DE FAMA – Os intérpretes de Passinho do Volante (“ah lelek lek lek”) e a hoje professora de academia Vanessa Pikachu: carreira empacada

O bonde do quase lá

A mitologia do pop não pode passar sem artistas de sucesso que caem no ostracismo. Não é diferente com o funk. Hoje com 32 anos, a mulher que um dia foi conhecida como MC Vanessa Pikachu voltou a ser Vanessa Ferreira. Pikachu despontou no início dos anos 2000 com um funk que comparava o insuportável monstrinho do desenho Pokémon com certa parte da anatomia masculina. Mas suas músicas seguintes não emplacaram. “O azar de Vanessa foi surgir num período em que funkeiro fazia show apenas em clubes de subúrbio ou na favela. Nunca tocou em boates, como a Anitta e o Naldo fazem hoje”, diz o DJ Tubarão, radialista e produtor. A desilusão de Vanessa com a carreira chegou ao limite quando ela se viu preterida por outra funkeira na gravação do DVD do MC Bola de Fogo, no qual cantaria Atoladinha. Ela hoje dá aulas de educação física em uma academia (embora sua mãe sonhe com o retorno da filha ao batidão). Diz que foi mal assessorada: “Meu empresário era o DJ que me deu a primeira chance num palco. Ele não tinha experiência”. O trio Os Originais não desistiu do funk, mas está com a carreira emperrada em uma disputa judicial. Com outro nome — MC Federado e os Leleks —, eles estouraram com Passinho do Volante (aquela do “ah lelek lek lek”). Edmar Santana, o MC Dieddy, o primeiro empresário dos Originais, e Rômulo Costa, proprietário da equipe de som Furacão 2000, disputam na Justiça os direitos sobre o Passinho do Volante. Enquanto o caso se arrasta, Paulo Victor, Alan Johnson e Alex Junior estão impedidos de cantar seu maior sucesso (hoje no repertório de outro grupo, que assumiu o nome MC Federado e os Leleks). Rebatizados de Os Originais, eles lançaram a canção Desloca, que esperam ver estourar na Copa do Mundo. O caso de Vanessa e o dos Originais não estão entre os mais dramáticos do funk. Goró, da dupla Márcio e Goró, suicidou-se em 2000 porque não conseguia repetir o sucesso de A Distância. MC Naldinho, de Um Tapinha Não Dói, largou o funk pela religião evangélica, trajetória que não é incomum entre artistas dessa vertente lasciva. “A igreja evangélica é a psicanálise da favela”, diz Julio Ludemir, autor de 101 Funks que Você Tem que Ouvir Antes de Morrer.

Sem álcool nem pegação, baladas gospel adotam funk e axé para varar madrugada

balada

Publicado no Último Segundo

Três mil jovens se reúnem para dançar ao som de batidão no Rio de Janeiro até as 6h. Em São Paulo, música eletrônica bomba na pista agitando seis mil pessoas, a maior parte delas com idade entre 16 e 26 anos. As baladas investem também em funk, axé, hip hop, black music e forró. Tudo gospel. Versos como “Graça Maravilhosa” ou um remix de “Paz do Senhor” são entoados pelo público. Eles não rebolam até o chão, não ingerem álcool e, quando formam casais, não podem “se amassar” na pista. A ideia é curtir a noite sem ferir os preceitos cristãos.

Para beber, refrigerante, energético e coquetel sem álcool. Pegação, nem pensar. A equipe da chamada “Operação Desgrude” fica de olho nos casais mais assanhados. “Se beijar, a gente vai lá e separa.” conta o DJ Marcelo Araújo, do Ministério Voz de Deus. Pioneiro deste tipo de balada, ele organiza há 15 anos a Gospel Night, que acontece de três em três meses no Melo Tênis Clube, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. “A proposta é se divertir sem se corromper. Não se embebedar, não ter que dançar até o chão, nem ter que andar com roupa sensual para chamar a atenção de alguém e ter um encontro naquela noite. Não precisa ficar com 500 pessoas na noite só para se animar.”

Passinho do Abençoado

O som é pop e não poupa ninguém. A banda de axé DOPA, por exemplo, foi fundada em 2007 e contou com a produção de um dos percussionistas de Ivete Sangalo. Músicos do Parangolé e Harmonia do Samba também já participaram das gravações do grupo. As letras, no entanto, têm sempre conteúdo religioso. O hit “Vai se converter” traz os versos “Tira onda de crentão/ quem vê pensa que ele é santo” e investe no refrão “Vá se converter/ senão o inimigo envergonha você”.

No funk, um dos hits é o “Passinho Abençoado”, de Tonzão, ex-integrante do grupo Os Havaianos, que aposta na versão gospel da dança: “O mistério é profundo/acho bom ficar ligado/quando ver o pretinho mandando/o passinho do abençoado. Qual é o cumprimento do crente? Paz do senhor”. No mesmo estilo, Adriano Gospel Funk fala de paquera: “A embalagem é bonita/ Mas tenho que analisar/ Se for de Deus, eu abraço/ Se não for, chuta que é laço”. O DJ Emerson MK, de Campo Grande, aposta no eletrônico como meio de conquistar a juventude. Um dos remixes do álbum recém-lançado “Jesus é Vida” traz entre as batidas uma forte crítica ao consumo de drogas ilícitas: “O diabo é maconheiro e o inferno é um gigantesco bagulho aceso.”

“DJ Pastor na área”

Além do cardápio musical gospel, mesa de bilhar, fliperama, torneio de basquete de rua e competição de videogame esquentam a noite na Comunidade Evangélica Crescendo na Graça, no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo. Todo último sábado do mês, o DJ Pastor comanda as picapes há 13 anos, com uma coleção de canções que chega perto dos 4 mil hits nacionais e internacionais.

Quem criou a igreja há mais de dez anos foi o próprio DJ, que atende também por Anderson Dias Barbosa. Ele é de família evangélica, mas se afastou da vida religiosa na juventude justamente para poder sair para dançar. É isso o que ele oferece hoje.

O custo de R$ 5 ajuda a financiar o projeto Rei das Ruas, criado há três anos para ajudar no tratamento de dependentes de drogas que frequentavam a festa – e eram proibidos de consumir drogas no local. Segundo o pastor, mais da metade dos frequentadores não são evangélicos. “A balada não tem o intuito de convertê-los, mas de levá-los a pensar”, diz ele.

“Em um determinado momento, tem uma palavra. ‘Olha bróder, vou falar para você hoje de uma parada, um cara que morreu por você, pela sua mãe’, e acaba atingindo um objetivo nosso que é fazer o cara refletir sobre a palavra de Deus”, conta Barbosa. Depois da pregação, a pista continua aquecida. A festa vai das 23h até as 4h. Para o ano que vem, o plano é organizar a primeira rave gospel, com 22 horas de som sem parar e criar a radioweb Balada Gospel.

Micareta gospel

É também uma igreja que abriga a maior balada gospel do Brasil. Seis mil pessoas participaram da Sky na sede da Renascer, na Mooca, zona leste de São Paulo. A festa rola há seis anos e também agita pistas de Jundiaí e Guarulhos há dois e pode ser levada para o Nordeste. A balada costuma contar com três bandas e tocar todos os estilos. “Nosso foco principal é trazer essa galera que não é evangélica para curtir o evento”, conta Alexandre Ricardo Pereira, um dos organizadores. Este junho deste ano, a Renascer organizou, também na sede da Mooca, a primeira Moocareta, uma micareta gospel que deve ter mais uma edição em 2014.

Críticas

Ainda que haja controle rígido em relação ao consumo de álcool e os próprios frequentadores evitem trajes e danças sensuais, este tipo de evento é alvo de críticas de grupos religiosos e fiéis tradicionais. “Há uma certa repressão. Tem pastores que proíbem os membros de participar”, diz Pereira. Ao ouvir uma crítica, o DJ Marcelo Araújo, do Ministério Voz de Deus, costuma convidar o autor para sua festa. “A gente encara a música como louvor a Deus. Eles passam a olhar com outros olhos quando ouvem as letras. Todas têm mensagens totalmente evangélicas”, conta o pastor Neto Marotti, baixista e líder da banda DOPA. “Vai pecar por quê?”, diz o hit “Quem Ama Espera”, parte da campanha da Renascer contra o sexo antes do casamento.