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Sétima arte na roça

Família do norte paranaense transformou um antigo paiol de milho em um cinema rural que exibe, além de clássicos, filmes caseiros produzidos por eles mesmos

Ruth Steidle (à dir.), ao lado do filho Daniel (à esq.) e dos netos Erê e Endí: o clã da “Rolandia-wood”

Ruth Steidle (à dir.), ao lado do filho Daniel (à esq.) e dos netos Erê e Endí: o clã da “Rolandia-wood”

Bruna Komarchesqui, na Gazeta do Povo

Um cinema montado em um antigo paiol de milho tem levado dezenas de pessoas todos os domingos à Fazenda Bimini, na zona rural de Rolândia (22 quilômetros de Londrina). Montado há cerca de dois meses, além de produções consagradas, o “Cine Paiolzão” exibe curtas produzidos pela família alemã Steidle, proprietária do local. Com uma câmera fotográfica simples, Daniel Steidle, o “papai”, Ruth Steidle, a “vovó”, e os pequenos Erê e Endí, de 8 e 11 anos, são responsáveis pelos filmes da “Rolandiawood”. “Não tem roteiro, muitas vezes, a tomada é única”, explica Daniel, 44 anos, que tem mestrado na área de meio ambiente. Além de figurantes nas produções, a matriarca Ruth e os filhos de Daniel também atuam atrás das câmeras. “O Endí fotografa melhor que eu. Esses dias, as imagens dele ficaram melhores e eu fiquei levemente deprimida”, brinca Ruth, nascida na fazenda há 75 anos.

SLIDESHOW: Confira algumas fotos do Cine Paiolzão

A ideia do cinema surgiu quase por acaso, quando Daniel foi à cidade e comprou dois bancos de uma igreja em demolição, para que a família pudesse se acomodar durante as tardes, enquanto observa um casal de quatis criados na fazenda. “Acabou que o banco não coube ali e em nenhuma outra parte. Foi quando tivemos a ideia de colocar no paiol, que era usado como galeria de arte. E ficou tão bom que ele voltou à cidade e comprou mais três”, conta Ruth. “Aí pensamos que ficaria bom colocar o telão e o projetor, que estavam na biblioteca, e nasceu o Cine Paiolzão.”

Embora as exibições dominicais sejam recentes, os filmes começaram a ser produzidos há bem mais tempo. “Não sei quantos são, são muitos”, diz Ruth.

Comunidade

“Ao se ver na tela, um senhor de 85 anos chorou”

Em uma antiga fábrica de carroças em ruínas, a voz infantil indaga: “Por que abandonaram esse lugar?” A câmera sobe lentamente e mostra, no topo, uma figueira abraçando a construção. Uma imagem que vale mais que mil palavras, na opinião de Daniel Steidle. A tomada abre a produção mais recente da família: um documentário de 18 minutos, com depoimentos de produtores rurais vizinhos da fazenda (personagens, aliás de outras produções), moradores de Rolândia e especialistas, para tentar barrar a instalação de uma indústria de chumbo na cidade. Exibido na Câmara de Vereadores, no final de março, o curta envolveu a população. “Ao se ver na tela, um senhor de 85 anos chorou. Depois da exibição, muita gente quis falar no microfone. Um funcionário que trabalha lá há 20 anos, disse que isso nunca tinha acontecido”, conta Daniel.

Com o sotaque alemão carregado – Daniel nasceu na Alemanha e veio ao Brasil com 11 anos –, durante a conversa, ele deixa escapar algumas referências para suas produções: do filme Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio De Sica, vem a ideia de “cada segmento ser uma história em si”; de Vermelho como o Céu (2006), de Cristiano Bortone, ideias para a sonoplastia e sonorização. “Estou lendo sobre Fellini, e o cinema perdeu a função social. Defendo o poder do vídeo amador na construção do desenvolvimento sustentável.” A ideia é levar a produção de vídeo às escolas, para tornar “a aula menos chata”. “O interessante é dar a câmera na mão da criança, para que ela faça os filmes, porque ela tem um olhar próprio sobre a realidade”, defende Daniel.

O antigo terreirão de café está vazio. Ao lado, o grande barracão equipado com biblioteca e materiais educativos, recebe crianças de escolas municipais e particulares de toda a região. A concordância da família, segundo Daniel, é fundamental para que o projeto exista, já que tudo é oferecido gratuitamente à população. “Se todos quisessem ir para a Disney, não daria para fazer isso.” A renda, explica Ruth, vem do arrendamento da propriedade. “O que recebemos investimos aqui. Dessa forma, podemos nos dedicar ao que gostamos. Nem sabemos se vai dar certo no futuro, mas estamos fazendo”, resume Ruth.

Arte

Há 15 anos, a Fazenda Bimini recebe caravanas escolares para passeios educativos, inclusive, com exibição dos filmes. Mas a história da família com a arte e a educação ambiental começou por volta de 1968, quando o avô de Daniel fundou uma escola em Rolândia. “A ideia era usar a arte como uma maneira de união. A imagem pode ser compreendida por uma criança, um universitário, um sem-terra, um com-terra. O cinema pode ser usado nessa promoção das pessoas. Uma pessoa da roça falando, com poucas palavras, pode promover mais o desenvolvimento sustentável do que as grandes conferências, como Rio +20, onde um público apático mal se entende.”

A ausência de salas de cinema na Rolândia de 58 mil habitantes e colonização alemã torna o Cine Paiolzão ainda mais atrativo à população. As exibições são gratuitas e abertas, às 15h30 dos domingos. Na porta, em tinta branca, a única exigência ao público: “Entre, sinta com seus pés descalços as tábuas de peroba rosa”. “Não é crime entrar de sapato. Só tiramos para não sujar, porque tem poucos bancos, e muitas pessoas acabam se acomodando no chão, com travesseiros”, explica Ruth Steidle.

Em uma das sessões recentes, conta Daniel, o francês O Urso (1988), de Jean-Jacques Annaud, foi exibido antes de uma produção própria sobre um vizinho da fazenda que era caçador de cobras e, hoje, trabalha pela preservação delas. “Precisa de um mais consagrado da mesma temática para chamar a atenção. Até porque acho que ninguém viria se fossem só os nossos”, brinca Daniel. Após a sessão, o público se reúne no barracão ao lado, para comer pipoca e discutir o filme. “Já chegamos a receber 55 pessoas, mas tem dias que vêm bem menos. Independente do número, sempre tem filme.”

Família do norte paranaense transformou um antigo paiol de milho em um cinema rural Roberto Custódio/Gazeta do Povo

Família do norte paranaense transformou um antigo paiol de milho em um cinema rural Roberto Custódio/Gazeta do Povo

Família de Rolândia que transformou um antigo paiol de milho em um cinema rural Roberto Custódio/Gazeta do Povo

Família de Rolândia que transformou um antigo paiol de milho em um cinema rural Roberto Custódio/Gazeta do Povo

Todos os domingos, dezenas de pessoas vão à Fazenda Bimini, na zona rural de Rolândia, para assistir a filmesRoberto Custódio/Gazeta do Povo

Todos os domingos, dezenas de pessoas vão à Fazenda Bimini, na zona rural de Rolândia, para assistir a filmesRoberto Custódio/Gazeta do Povo

Erê e Endí, de 8 e 11 anos, também são responsáveis pelos filmes da Rolandiawood Roberto Custódio/Gazeta do Povo

Erê e Endí, de 8 e 11 anos, também são responsáveis pelos filmes da Rolandiawood Roberto Custódio/Gazeta do Povo

Há 15 anos, a Fazenda Bimini recebe caravanas escolares para passeios educativos, inclusive, com exibição dos filmesRoberto Custódio/Gazeta do Povo

Há 15 anos, a Fazenda Bimini recebe caravanas escolares para passeios educativos, inclusive, com exibição dos filmesRoberto Custódio/Gazeta do Povo

A ausência de salas de cinema na Rolândia de 58 mil habitantes e colonização alemã torna o Cine Paiolzão ainda mais atrativo à populaçãoRoberto Custódio/Gazeta do Povo

A ausência de salas de cinema na Rolândia de 58 mil habitantes e colonização alemã torna o Cine Paiolzão ainda mais atrativo à populaçãoRoberto Custódio/Gazeta do Povo

Bóson de Higgs, a repercussão

Reprodução autorizada / www.umsabadoqualquer.com /

Marcio Campos, na Gazeta do Povo

Anteontem, afirmei que ficaria de olho na internet para ver que tipo de repercussão o anúncio da descoberta do bóson de Higgs teria entre os que dedicam a estudar a relação entre ciência e fé. Para ser honesto, não veio muita coisa até agora. Não encontrei nada, por exemplo, vindo de John Polkinghorne, que é físico.

No blog Gleanings, da revista Christianity Today, Sarah Bailey aborda mais a questão do apelido que a descoberta em si. Ela entrevistou alguns cientistas, que afirmaram detestar o termo “partícula de Deus”, ainda que em público não sejam tão enfáticos a respeito disso, até porque, queiram ou não, o apelido popularizou a busca pelo bóson a ponto de muito mais pessoas estarem informadas a respeito dele do que ocorreria em outras circunstâncias, e tudo que ajude a popularizar a ciência é bem-vindo.

Mas o autor anônimo de um texto publicado no site uCatholic.com é mais crítico em relação ao termo “partícula de Deus”. Para ele, trata-se de um “sensacionalismo que presta um desserviço tanto a esses brilhantes físicos quanto aos crentes”. Eu tenho lá minhas dúvidas quanto a isso. O autor fala de ateus militantes trombeteando por aí que a descoberta derruba a noção judaico-cristã da divindade, ou mostra que Deus não tem nada a ver com a criação. É verdade que isso ocorreu, basta ir ao Facebook. Mas isso não é culpa do apelido; esse tipo de ignorância apareceria ainda que o bóson de Higgs tivesse apenas um nome insosso.

O autor do texto lembra que o bóson não tem absolutamente nada a ver com a existência ou inexistência de Deus, e é verdade; que os cientistas não gostam do apelido (o que só reforça o post de Sarah Bailey); e que, para os católicos, fé e razão andam sempre juntas. Tudo isso é correto, mas acho que o autor está fazendo meio que tempestade em copo d’água com a questão do apelido, como se ele realmente carregasse um conteúdo teológico em vez de ser o que realmente é, um belo golpe de marketing (o frade Guy Consolmagno, do Observatório Vaticano, captou melhor o espírito da coisa). De qualquer maneira, o fim do texto é digno de menção: “Por uma perspectiva religiosa, sua descoberta [do bóson] nos permite conhecer mais sobre a fecundidade e a mente criativa de Deus. Então, quando você ouvir o termo ‘partícula de Deus’, não pense que ela tem qualquer implicação religiosa sobre a existência de Deus.”

No Huffington Post, Philip Clayton comentou como é que, das primeiras reações puramente científicas à descoberta, a coisa degringolou para o uso ideológico do anúncio da existência do bóson de Higgs. O texto é bem interessante, tem até um passo a passo de como a confusão se instala. O problema não são os cientistas do Cern, afirma Clayton; o problema são os defensores e os detratores da religião, que pensam poder usar o anúncio de quarta-feira para seus próprios propósitos, acrescenta.

Um desses “encrenqueiros” é Peter Atkins, que na BBC afirmou que “o bóson de Higgs é outro prego no caixão da religião” e que a ciência estava fazendo mais progresso que a religião para explicar o mundo. Uma mulher não identificada que participa da discussão rebate, dizendo que a religião não está exatamente tentando descobrir como as partículas adquirem massa, então a comparação não procede. E Atkins não explica (talvez pelo pouco tempo disponível) como é que a descoberta de uma partícula que é observada depois do momento do Big Bang vai dizer algo sobre a criação em si ou a necessidade de um criador.

Também no rádio, Rodney Holder, do Instituto Faraday para a Ciência e Religião*, da Universidade de Cambridge, cita o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, para quem Deus está presente nas coisas que sabemos, e não nas coisas que ignoramos, para afirmar que a descoberta do bóson de Higgs nos faz entender mais (e não menos) sobre Deus. Holder diz que, no fundo, no fundo, toda partícula é “de Deus” por refletir Sua criatividade, e o trabalho dos cientistas do Cern tem o efeito de nos fazer conhecer mais e mais sobre a riqueza da criação.

Enfim, essa foi a repercussão do bóson de Higgs no debate sobre ciência e religião que eu encontrei e considerei que valia a pena comentar. Espero que ao longo dos próximos dias tenhamos mais comentários a respeito dessa descoberta realmente espetacular.

tirinha: Um sábado qualquer

Universidade de Curitiba barra TCC voltado à inclusão de pessoas com deficiência

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Rafael Bonfim, na Gazeta do Povo

Nesse mês uma aluna do último ano de Administração me procurou para conversar sobre o seu trabalho de conclusão de curso. Ela teve a ideia de desenvolver o projeto de um bar completamente preparado para receber pessoas com deficiência e que use desse preparo como diferencial para atrair a clientela. O projeto foi barrado e impedido de continuar, pelos seguintes motivos:

• O empreendimento não teria mercado. Pessoas com deficiência não frequentam casas noturnas, bares e afins.

• As pessoas com deficiência não dispõem de recursos financeiros para usufruir desse serviço.

• As pessoas sem deficiência se sentiriam desconfortáveis em um estabelecimento voltado para deficientes.

Alguém mais, além de mim e dessa aluna, discorda completamente disso?

O bar iria contar com rampas de acesso, cardápios em braile, um profissional com domínio de Libras, banheiros adaptados e as mesas seriam dispostas visando a boa circulação de cadeira de rodas. Era nesse conjunto de medidas que a aluna estava apostando para apresentar um negócio inovador, requisito pontuado pela orientação.

Além disso, a aluna trabalharia com a norma NBR-9050, da ABNT, que estabelece critérios e parâmetros técnicos a serem observados quando do projeto, construção, instalação e adaptação de edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos às condições de acessibilidade.

É espantoso ver que uma postura como essa está dentro de uma universidade, sendo transmitida para futuros administradores. Dizer que deficiente não sai. Afirmar que um projeto que visa inclusão é uma perda de tempo. Reafirmar preconceitos.

Que tal olhar o projeto como algo sim inovador, que visa atender uma clientela ainda não contemplada? Se a pessoa com deficiência não freqüenta estabelecimentos noturnos, por se sentir mal acolhida, podemos propor um espaço que mude esse conceito, não podemos?

Eu debati recentemente aqui no blog o aumento do número de pessoas com deficiência no Brasil, tendo duas referências principais: o IBGE e o DPVAT. De acordo com o Censo do IBGE 2010, o Brasil tem hoje cerca de 45 milhões de pessoas que apresentam algum tipo de deficiência. Em 2000 esse grupo chegava 24,5 milhões.

Casos de invalidez permanente, entre pessoas vítimas de acidentes de trânsito se multiplicaram por quase cinco entre 2005 e 2010, passando de 31 mil para 152 mil por ano. E esse número não parou de aumentar. Até setembro de 2011, já eram 166 mil casos, segundo o DPVAT, seguro obrigatório pago por proprietários de automóveis. Os dados revelam que a maioria dos acidentados (mais de 70% dos casos em 2011) usava moto e está em plena idade economicamente ativa, entre 18 e 44 anos.

O dado mais pontual que eu encontrei em relação ao poder econômico de pessoas com deficiência veio da Reatech, a segunda maior feira de acessibilidade e reabilitação do mundo, que acontece anualmente em São Paulo.

A expectativa de movimentação de recursos na última edição foi de R$ 550 milhões em negócios, só durante a Feira. Ainda de acordo com a Reatech, o setor de produtos e serviços para reabilitação movimenta cerca de R$ 1,5 bilhão no País, ao ano, sendo R$ 200 milhões só com vendas de cadeiras de rodas e R$ 800 milhões em automóveis e adaptações veiculares.

Público para o empreendimento existe sim e dinheiro também. Temos bares em diferentes bairros, para diferentes classes, com diferentes preços. E tem bolso para tudo também.

Desenvolver um bar que fosse modelo em adaptação e atendimento à pessoa com deficiência tem a ver com cumprimento de normas técnicas, com sustentabilidade (uma vez que ele contempla o pilar social e o pilar cultural), apresenta oportunidades legais de marketing e comunicação com o público e agregaria valor ao bairro e à cidade. É um ótimo exercício e poderia perfeitamente ser aceito.

Mas não, ao invés disso, o profissional que tem como função fomentar ideias para o futuro foi conservador e tolheu uma proposta diferente, vinda de uma estudante com vontade de quebrar um paradigma, de arriscar.

Você, empreendedor, o que achou dessa proposta?

Nem Deus socorre Dawkins

Marcio Campos, na Gazeta do Povo

Parece que um dos assuntos do momento (na Inglaterra, não aqui) é o olé que o reverendo anglicano Giles Fraser deu em Richard Dawkins durante um programa de rádio na BBC. Para encurtar a história, Dawkins estava falando de uma pesquisa feita por sua fundação com pessoas que se declararam cristãs no último censo britânico. Um dos dados mostrava que dois terços dos autodeclarados cristãos não sabia qual era o primeiro livro do Novo Testamento. Fraser interveio e disse que esse não era um modo confiável de avaliar a religiosidade das pessoas, e para comprovar isso perguntou a Dawkins qual era o nome completo de A origem das espécies. Depois de um punhado de “ums” e “ers”, e até um “oh, God”, o biólogo não conseguiu se lembrar (mas chegou perto). Para quem quiser ouvir, está aqui (o trecho em que Fraser pergunta sobre o livro está perto de 3:30). O diálogo, transcrito pelo Huffington Poste traduzido por mim, é o seguinte:

Fraser: Richard, se eu lhe perguntasse qual o título completo de A origem das espécies, tenho certeza de que você seria capaz de me dizer.
Dawkins: Sim, seria.
Fraser: Então vamos lá.
Dawkins: Sobre a origem das espécies… hm, com, oh, Deus. Sobre a origem das espécies… e tem um subtítulo referente à preservação de raças favorecidas na luta pela vida.
Fraser: Você é o sumo sacerdote do darwinismo. Se você perguntasse essa questão a pessoas que acreditam na evolução e voltasse dizendo que somente 2% acertaram, seria muito fácil para mim dizer “então, eles não acreditam nisso”. Não é justo perguntar esse tipo de questão. As pessoas se autoidentificam como cristãos e eu acho que você deveria respeitar isso.

(Em português, o título original seria Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida)

O episódio vale mais a pena como anedota. Sim, o reverendo Fraser tem um bom argumento quanto à identificação entre boa memória para livros e filiação religiosa (ou “científica”), mas essa foi apenas uma das muitas perguntas da pesquisa. O conjunto dos dados é bem sombrio, para o leitor que se considera cristão. Mas não é surpreendente, porque a mesma coisa acontece aqui no Brasil. Que objeções o reverendo Fraser poderia levantar ao dado de que boa parte dos autodeclarados cristãos não reza, não vai à igreja (exceto em casamentos, funerais, batizados, e quem sabe na Páscoa e no Natal, como na piada dos esquilos), e nem mesmo crê na divindade de Cristo e na sua ressurreição física?

Só lamento que não haja na pesquisa (pelo menos no que foi publicado até agora) questões sobre como os autodeclarados cristãos veem temas de ciência e fé. Espero que esse conteúdo esteja nas 20 questões cujas respostas a fundação promete publicar em um futuro próximo.

foto: Shane Pope/Wikimedia Commons