Nunca esquecer de ser grato

Obrigado

Ricardo Gondim

Dizem que à medida que envelhecemos, melhor lembramos o passado. Não é verdade. Embora não esteja tão perto da terceira idade, posso constatar: muitos eventos se perdem irremediavelmente sob os escombros do vento corrosivo do tempo.

Gostaria de lembrar o dia exato em que eu e meu pai saímos para colher cajus em algum matagal. Se cravasse a data, decretaria feriado. Eu elegeria como uma ocasião mais importante que o natal ou a páscoa. Esse evento faz parte de minha memória mais remota. Não consigo registrar nada anterior à nossa aventura de colher frutas juntos.

Vivíamos em um bairro ermo com um nome peculiar: Cocorote. Só depois de adulto, numa conversa informal, aprendi o significado de Cocorote. Durante a II Guerra, os americanos usavam Fortaleza como base de apoio e reabastecimento para alcançar a costa da África. Na cabeceira da pista de decolagem, corria um ribeiro chamado Cocó. Os aviões decolavam na rota do Cocó, daí the Coco Route. Anos depois, denominaram aquelas redondezas Cocorote – obviamente em “cearensês”. O bairro virou a atual Aerolândia. Ali, armado com uma vara de bambu, meu pai e eu colhemos inúmeros cajus em minha primeira bravura pelo mundo selvagem.

Gostaria de lembrar algumas estórias da vovó Maria Cristina quando ela me punha para dormir. Vovó me embalava na rede e eu me embriagava de sono. Ela me encantava com as travessuras de Pedro Malazarte, figura do folclore nordestino. Há pouco, bisbilhotando uma livraria, achei um Pequeno Dicionário de Lendas, Fábulas e Contos Populares Nordestinos. Vários capítulos tratavam do peralta imaginário, aprontador de estripulias. Não consegui associar nenhum dos relatos aos resíduos que guardo daquelas histórias fabulosas da infância. Com elas, fui iniciado no mundo da ficção e do romance. Com a voz doce de minha avó, viajei por mundo imaginários onde gatos falam, botas papam léguas e o final sempre guarda alguma lição. Quanta saudade.

Gostaria muito de lembrar a primeira música que ouvi em um ambiente religioso. Nos corredores da Liga Evangélica de Assistência da Igreja Presbiteriana em Fortaleza – que abriga idosos e idosas – um hino me marcou. Um cego, negro e com uma deformidade na pele, cantava sobre os personagens que muito padeceram na Bíblia. A letra dizia que mesmo não possuindo nada neste mundo, todos eram amados por Deus. Por isso, a letra dizia: eles eram mais que milionários. Se pudesse repetiria a música nos meus aniversários como o hino da minha história. Não quero jamais esquecer: comecei a minha carreira cristã em um asilo de velhos, ouvindo um cego negro e doente cantar que era mais que milionário.

Gostaria muito de lembrar vários outros eventos, eles me ajudariam a sempre ser grato.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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Um tributo à vida

pet-kid15Ricardo Gondim

Estou vivo. Penduro bandeirolas virtuais para alegrar o meu dia. Estou vivo. Revisto-me de poeta. Quero compor um hino. Estou vivo. Faço um banquete da mesa posta. Quero festejar cada um dos próximos 365 dias com se fossem, todos, o dia do meu aniversário. Quero ter o poder de, soberanamente, decretar feriado qualquer dia. Estou vivo.

O que amo na vida? O imponderável. Para mim, viver é dançar na beira de abismos. Adoro desafiar despenhadeiros. O futuro, feito corda bamba, me excita. Choro ao esperar o tiro na largada da maratona – como fascina não saber se vou terminá-la. Fico deliciosamente nervoso de saber que nunca me antecipo às notícias que o telefone traz quando se intromete no meu sono. Como descrever o medinho infundado que antecede os exames laboratoriais?  Não há como. Ele provoca outro frio na barriga: pensar que este medinho um dia vai se transformar no grande pavor. Creio que lutarei com bravura quando tiver de enfrentar a dama da foice, que se esforçará para me sequestrar rumo ao improvável horizonte. Como é bom dizer que cada dia é suficiente em seu próprio mal. Não pretendo fugir de mim mesmo ou dos becos em que me meti. No cenário mais cruel ainda posso renascer das cinzas.

O que amo na vida? Gente. Gosto da diversidade humana. A sempre inédita íris dos olhos é mágica. No olhar se escondem encantos e degradações. Em cada um de nós vivem os diferentes personagens que povoam a terra. Somos possuídos por depravados e santos. Nossa complexidade preencheria páginas, capítulos, tomos inteiros. As muitas versões que nos habitam conhecem os segredos de Pandora e simpatizam com a sordidez de Lúcifer. Todos são essenciais e todos participam do teatro existencial. Não fossem os porões macabros da ambiguidade de homens e de mulheres não haveria enredo para Shakespeare, Dante, Eça de Queiroz ou Machado de Assis.

Para escrever, eu igualmente preciso deles. Mas, minhas pupilas também são policromáticas. Meus olhos multicoloridos captam as réstias da luz divina que sobram em meio à sordidez humana. Gosto de ler biografias. Com elas vejo a complexidade da alma e construo um panteão de princesas e príncipes. O encanto existe. Me familiarizo com suas histórias e me curvo: o legado que deixaram me ajuda a reconhecer a insignificância dos castelos de areia que moldei na maré baixa. Desaprendo a vaidade e murcho meu ego depois de caminhar ao lado de gente como Priscila e Áquila, Francisco de Assis, Mahatma Ghandi, Nelson Mandela, Martin Luther King e Madre Tereza de Calcutá. Estes nunca se contentaram com as cercas altas ou com os apertados quintais onde nasceram.

O que amo na vida? A singeleza das crianças que beijam roçando o nariz duas vezes; o altruísmo de quem abriga a prostituta doente; o empenho do enfermeiro no plantão gratuito ao lado de um moribundo; a resiliência da mulher lavando o marido com Alzheimer; a doçura da filha empurrando a cadeira de rodas da mãe enquanto passeiam pelo parque.

O que amo na vida? Sua formosura sutil. Gosto de meditar. Mirar peixes coloridos no baile em câmara lenta do ribeiro. Ler. Ouvir o tamborilar preguiçoso da chuva fina. Pensar em Deus. O momento breve em que a noite engole o sol e some com o dia. Me sentir acorrentado na frente de um Van Gogh. Recitar Vinicius. Fechar os olhos e deixar que Bach me possua por inteiro. Textos pungentes. A melancolia da bossa nova do Jobim. A nostalgia do fado português. Estradas bucólicas.

Estou vivo! Ainda hoje brindarei a vida com um cálice de Merlot chileno. Degustarei D. H. Lawrence. Quero dormir abraçado com a amada de minha mocidade. Não esquecerei de cochichar para Deus: Muito Obrigado.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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Timão lança plano funerário para quem é ‘torcedor do início ao fim’

Corintiano poderá ter no velório com coroa de flores, vestuário, cenário, bandeiras e hino do clube, além da garantia de que não haverá nada verde

Slogan da campanha publicitária evoca fanatismo corintiano (foto: Reprodução)
Slogan da campanha publicitária evoca fanatismo corintiano (foto: Reprodução)

Publicado originalmente no Globo Esporte

O Corinthians lançou um plano funerário destinado aos seus torcedores. Em parceria com uma empresa do ramo, o Timão dará a possibilidade ao “fiel” de personalizar a cerimônia funerária em todos os aspectos. Coroa de flores, vestuário, cenário, bandeiras, hino do clube… e sem folhas verdes!

– O Corinthians conta com mais de 30 milhões de torcedores espalhados pelo país, e também notamos que nos cerimoniais do grupo, o hino do clube é uma das músicas mais pedidas – afirmou Iris Franco, gestora de cerimônias do grupo que age em parceria com o Timão nesta medida.

Tudo pode ser planejado nos mínimos detalhes. A coroa de flores, por exemplo, não conta com folhas verdes, cor do arquirrival Palmeiras. Todas são pretas e brancas. A cerimônia de despedida proposta pelo plano ainda contra com um painel de parede do Corinthians, um caixão com o símbolo do clube e uma bandeira do Timão. Até mesmo o carro funerário é personalizado com o escudo alvinegro.

As cerimônias podem ser realizadas tanto na estrutura do grupo que age em parceria com o Corinthians como em local à escolha da família. O plano custa R$ 27 reais por mês (individual) ou R$ 35 (familiar). Inicialmente, é possível promover a despedida personalizada apenas no estado de São Paulo. A tendência é que atinja todo o Brasil a partir de janeiro de 2014.

É possível incluir itens adicionais ao velório, como mesa de homenagens para registrar passagens importantes da vida do torcedor, bem como distribuição de lembranças aos presentes, entre outros elementos. O torcedor falecido também ganhará uma homenagem no Memorial Virtual do site “Corinthians para Sempre”.

dica do Guilherme Massuia

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