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Casais discutem 104 vezes por ano por bagunça, diz pesquisa

Bagunça na casa pode ser motivo até de separação

Bagunça na casa pode ser motivo até de separação

Publicado originalmente no Terra

Uma pesquisa constatou que casais britânicos discutem 104 vezes por ano por causa da bagunça em suas casas. Segundo o site do jornal Daily Mail, as discussões afetam a vida sexual e ainda faz com que alguns se separem.

O estudo descobriu que 67% das mulheres se recusam a ter relações sexuais quando estão cheias de roupas para dobrar, pendurar ou passar.

Segundo a pesquisa, um em cinco casais briga uma vez por semana sobre quem fez a bagunça na casa.

As maiores reclamações das mulheres são quanto a roupas jogadas no chão pelos parceiros. Cerca de 36% se irrita com isso. E quanto aos homens, 18% dos entrevistados acreditam que é função das parceiras cuidar da organização da casa. Eles ainda disseram se irritar com a quantidade de produtos que a mulher tem espalhado pela casa.

As discussões por organização podem até resultar no fim de um relacionamento. Na pesquisa, 13% das mulheres disseram que terminariam a relação se o homem se recusar a mudar os hábitos.

Foto: Getty Images

Um homem fiel

Ilustração de Bebel Franco

Ilustração de Bebel Franco

Danuza Leão, na Folha de S.Paulo

As mulheres são curiosas. Outro dia ouvi de uma amiga a seguinte pérola: “não é nem que eu esteja assim tão apaixonada, mas estou com XXX porque ele é incapaz de me trair”.

A certeza com que ela disse isso –e a felicidade–, me levaram a pensar: será que essa é mesmo a maior qualidade que se pode querer de um homem? Que ele seja incapaz de nos trair? É um caso a pensar.

Naturalmente nenhuma mulher está querendo que o homem com quem pretende compartilhar a vida saia atrás da primeira mulher que passar pela frente; mas é preciso que o homem que se ama seja capaz de quase tudo, e nesse quase tudo está incluída a capacidade de achar graça em muitas mulheres; aliás, em quase todas. E é essa capacidade que põe a mulher louca –por ele.

Está-se falando de amor, claro, e qual a mulher que consegue amar sabendo que o homem que ama é incapaz de traí-la, que ela pode passar a vida fazendo qualquer coisa –ou nada– que vai ser amada da mesma maneira?

O que conserva o amor em altíssima temperatura é a incerteza, é a dúvida. Será que ele foi mesmo a um jantar de trabalho? Será que foi mesmo ao futebol? E quando o celular tocou e ele disse que não podia falar, que ligava depois, não seria uma mulher? Claro que era, ela vai pensar. E vai viver no fio da navalha, sem certeza alguma do que está se passando, razão mais do que suficiente para não conseguir dormir, para viver atenta, prestando atenção a tudo, sobretudo aos silêncios.

Viver à beira do precipício é o maior combustível para uma paixão, e muitos confundem insegurança com sentimentos mais profundos.

Uma mulher que não tem muita certeza da fidelidade do seu parceiro nunca será vista precisando pintar a raiz dos cabelos ou sem pelo menos um pouquinho de maquiagem. Ela sabe que vive sempre por um fio, e nada melhor para alguém se sentir viva do que saber que a qualquer momento pode ganhar –ou perder– a vida, o dinheiro, o homem amado.

Estabilidade? E alguém tem estabilidade em alguma coisa? Se alguém achar que tem, além de ser um ingênuo, vai perceber que é a morte em vida.

Que você seja a pessoa mais rica do mundo, mais bonita, mais poderosa, pode acontecer de um dia, em um minuto, perder tudo.

Se houver uma revolução, o mais rico de todos pode ficar pobre –e até ser preso; se a mais linda tiver a pouca sorte de passar num desses bueiros que no Rio às vezes explodem, corre o risco de ir para o hospital para cuidar de suas queimaduras, e dizem que dor maior não há; e o poder– bem, basta ler os jornais, qualquer um, de qualquer país, para ver que se trata de uma gangorra.

Faça um exercício de memória e lembre dos nossos governantes do passado, que saíram debaixo de escândalos, e onde eles estão agora, poderosíssimos de novo; nesse ramo, mais do que em qualquer outro, tudo acontece, inclusive o impossível.

É essa certeza de não poder saber nada sobre o futuro que pode, às vezes, trazer uma notícia maravilhosa –embora seja raro–, ou acabar com suas ilusões e até com seu mundo.

Complicado, mas esse talvez seja o sal da vida.

Quem são os diferentes?

Paula Abreu, no Papo de Homem

A sociedade não quer que você goste de si mesmo. A sociedade não quer que você confie em si mesmo. Quanto mais você gostar de si mesmo e confiar em si mesmo, mais perigoso você é para a sociedade na forma em que ela está organizada hoje. Porque você vai ser mais livre, mais independente, e você só vai fazer qualquer coisa se houver uma ressonância com o seu coração, com aquilo em que você acredita, com você mesmo.

“Confia em mim: você é feia, gorda e encalhada.”

Observe uma criança. Ela curte e muito ser ela mesma. Meu filho, quando se olha no espelho, vê um leão, um astronauta, um tubarão, o Homem-Aranha e todas as outras coisas que ele gosta de imaginar que é. Ele não fica analisando se está muito magro ou muito gordo, não fica pensando que seu cabelo black power poderia/deveria ser mais liso. A auto-estima das crianças ainda está – relativamente, dependendo da idade – intacta. Por isso mesmo, as crianças são meio imprevisíveis. E a sociedade não quer indivíduos imprevisíveis.

E, assim, uma meia-dúzia no poder usa de todas as artimanhas possíveis e imagináveis para convencer toda a humanidade de que todo mundo é errado, inadequado, defeituoso, problemático.

Em um texto sobre suas amigas gordinhas e seus amigos homens que gostam de gordinhas, e por que esses dois grupos não se encontram, o escritor Alex Castro explica:

“Minhas amigas gordinhas não querem ser amadas por homens que amam gordinhas: elas querem ser MAGRAS. Ponto. Sofreram uma lavagem cerebral tão intensa e tão perversa que não conseguem nem mesmo lidar com esse tipo de homem. (…) um louco tarado (…) que as ame logo por seu defeito”

Nos comentários, vários leitores complementam que as gordinhas sofrem preconceito não só por parte dos homens, mas da sociedade como um todo (e não só as gordinhas, mas os gordinhos também). Outro leitor levanta que não só a gordura, mas qualquer “diferença” costuma ser tratada com preconceito.

É verdade.

Um dos grandes instrumentos geradores de preconceito são as revistas femininas, que impõem um padrão de magreza e gostosura praticamente inatingível para as reles mortais. Eu vou mais longe e digo que as revistas masculinas não fazem diferente, afinal o que se vê nelas são exatamente as mulheres “magras e gostosas” que as revistas femininas ensinam que as mulheres precisam ser.

Ou seja, de um lado, as mulheres são ensinadas que são feias/inadequadas porque são muito gordas, ou muito magras, ou muito baixas, ou muito altas, ou têm lábios muito finos, ou não têm cílios longos o bastante, ou, ou, ou. De outro, os homens são treinados a achar bonito um tipo bastante específico – e diga-se de passagem raro, na vida real – de mulher.

A meu ver, gera infelicidade para todos. A auto-estima da mulher cai porque ela não é quem ela “deveria” ser, e a do homem – que nunca ou quase nunca pegará a mulher que “deveria” estar pegando – também não deve ficar das melhores.

Mulher… você não precisa disso!

Mulher… você não precisa disso!

Mas a base de toda a propaganda – e do consumo em si – é justamente que você é ou está inadequado porque não tem ou usa determinado produto ou serviço. É assim que surge a necessidade por novas coisas.

Para usar um exemplo recente, há alguns anos toda a mulher fazia sua higiene íntima no banho com água e sabão. Assim vinha sendo por dezenas e dezenas de anos, e estava todo mundo satisfeito. Até que um belo dia surgiu o sabonete íntimo. E, de repente, aquela mulher que sempre se sentiu limpa começou receber a mensagem – publicitária, nas entrelinhas, nas revistas, nas propagandas – de que estava fazendo uma higiene inadequada. De repente, talvez-quem-sabe, ela não estivesse assim tão limpa quanto sempre havia se sentido.

(E, depois do sabonete íntimo, já surgiu o desodorante íntimo feminino também. E a mulher que adotou o sabonete íntimo e estava achando que estava limpa, agora está de novo ouvindo que está inadequada porque, ao longo do dia, aquela limpeza toda “vence” e, portanto, ela precisa também usar o desodorante.)

(Aguardo agora com uma certa ansiedade a criação do penisil e desodorante peniano. Não duvido mais de nada.)

O quê? Você não lava suas bolas com um produto próprio e cientificamente testado?!

O quê? Você não lava suas bolas com um produto próprio e cientificamente testado?!

Ou seja, não é novidade que encontraremos nas revistas e meios de comunicação a mensagem de que somos de alguma forma inadequados. Então, se sabemos onde está pelo menos uma das fontes do problema, por quê não fazemos nada?

Vou pegar emprestado de mim mesma um trecho que escrevi em um texto sobre estupro para o Papo de Homem.

“A propósito do 11 de setembro, lembro que na época do atentado uma das coisas que mais se falava era que eram tantos passageiros contra apenas uns poucos terroristas que, se tivessem se unido, o desfecho poderia ter sido tão diferente. Uma tragédia poderia ter sido evitada.”

Afinal, quem está em maior número? Quem impõe os padrões inatingíveis de beleza ou nós, os inadequados, os gordinhos, os de cabelos cacheados, os baixinhos, os diferentes? Aliás, quem são os diferentes, pensando bem?

O que aconteceria se os “inadequados” resolvessem reagir, em vez de ficar sentados quietinhos nos seus assentos assistindo a tragédia ser orquestrada por uma meia-dúzia?

Campanha no Facebook: “Eu preciso de… [marca de alisante]“

Campanha no Facebook: “Eu preciso de… [marca de alisante]“

Recentemente, uma marca de alisantes de cabelo publicou no Facebook fotos de uma feira de beleza em que visitantes posavam com perucas black power e seguravam placas dizendo que precisavam do produto alisante de cabelo. A mensagem implícita era que os cabelos afro eram…inadequados, claro.

A reação do público foi negativa: os consumidores (negros ou não) se incomodaram com o preconceito e falta de respeito e botaram a boca no mundo. A fundadora da empresa, que inicialmente declarou que tudo se tratava de uma “brincadeira”, acabou cedendo à pressão dos consumidores e publicou na página da empresa um pedido de desculpas e retratação.

(E desconfio que ela vai pensar um tantinho melhor da próxima vez em que for lançar uma ação social ou peça publicitária…)

Mas parece que nem todo mundo acha que precisa alisar o cabelo!

Mas parece que nem todo mundo acha que precisa alisar o cabelo!

Eu acredito que a reação se dá em duas camadas. Na primeira, começamos a nos aceitar como somos e aceitar o outro como ele é, e suspendemos todo julgamento injusto tanto de nós mesmos quanto do outro. Passamos a nos curtir e confiar em nós mesmos. E curtir nos outros e confiar neles.

Não é fácil não. É extremamente difícil. É um trabalho diário, é nos olharmos no espelho a cada manhã e aceitarmos humildemente que somos o que somos, qualidades e “defeitos”. É entender que somos únicos, e essa sim é a nossa maior beleza. É voltarmos a nos ver com nossos olhos de criança, nos olharmos no espelho e vermos a bailarina, o bombeiro, a princesa, o super-herói.

(E, ao entendermos isso, entendemos por tabela também qual é a beleza do próximo, porque ele também é único. E aprendemos a respeitá-lo como gostamos de ser respeitados.)

Depois, levantamos dos nossos assentos, pegamos a faca das mãos dessa meia-dúzia de agressores e tomamos conta desse avião desgovernado.

Professorinha Helena nua na internet ainda preocupa os pais de fãs Carrossel

Rosanne Mulholland em pôster de Concepção e em Carrossel - Divulgação - Reprodução/SBT

Rosanne Mulholland em pôster de Concepção e em Carrossel – Divulgação – Reprodução/SBT

Valter Vanir, no Virgula

Quando os diretores da versão brasileira da novela infantil Carrossel, do SBT, escalaram a intérprete da Professorinha Helena, nunca imaginaram que o passado artisticamente corajoso da atriz Rosanne Mulholland iria causar tanto constrangimento e até mesmo esbarrar numa polêmica sobre formação pedagógica.

Em Carrossel, ela é uma professora bondosa, doce e ética, idolatrada pelos seus alunos, uma heroína quase mitificada, mas fora da novelinha há um vasto material disponível na internet que exibe a protagonista nua ou em situações sensuais, fruto de trabalhos anteriores da atriz.

No filme de José Eduardo Belmonte, A Concepcão (2005), ela aparece fazendo sexo com dois homens e em um beijo lésbico. Em Falsa Loura (2007), dirigido por Carlos Reichenbach, a moça se mostra em um nu frontal logo após ir para a cama com um menino de 14 anos.

Essas cenas estão disponíveis no Google e acabam criando situações embaraçosas para os pais das crianças fãs da novelinha, que usam com exaustão esse mecanismo de busca. A dona de casa Luciana Ezarani, 31 anos, confessou ao Virgula Famosos que descobriu as fotos da atriz nua, impressas da internet, dentro do álbum de figurinhas da novela Carrossel que ela havia dado ao seu filho G.S.E., de 7 anos. Janaina Carla Damasceno, 27 anos, uma professora do ensino fundamental na vida real, admitiu temer a “falta de respeito” a ela pelos alunos que descobrirem a “vida dupla” da professorinha Helena.

Ao depararmos com essas questões, conversamos com a psicóloga Eunice Albano, 51 anos, com o intuito de desvendar o quanto a imagem de uma “professora” que aparece nua na internet vai interferir negativamente na formação da criança. “A imagem da professora na visão infantil funciona como um mito e os mitos ajudam a dar a maturidade necessária para enfrentar os desafios futuros”, afirma a psicóloga. E continua: “Depende de como essa criança está sendo preparada para lidar com a nudez nesta família, se como tabu será sim um problema, se como parte natural da vida, a criança passará incólume a isso”.

Já sobre o respeito em sala de aula, entre “aluno e professor”, o Virgula Famosos buscou o parecer da pedagoga Camila Del Dono, 29 anos, que nos disse: “Por ainda necessitar de alguns elementos concretos para desenvolver suas aprendizagens, as crianças acabam sim por associar as imagens da professora que lhe dá aula, com a imagem da professora Helena de Carrossel. É importante estabelecer com as crianças uma relação entre aquilo que é real e aquilo que elas veem na televisão”. Apontando uma solução para a polêmica, a pedagoga sugere: “Talvez seja interessante a escola e a família realizarem um painel para os alunos conhecerem as profissões e quais atividades são realizadas dentro de cada uma delas, e assim explicar quais são as funções de uma atriz”.

Na reta final da novela com seus altos índices de audiência e esta instigante discussão relembra que Silvio Santos, 82 anos, o dono do SBT (portanto quem dá o aval para a escolha de seus funcionários), sabia do risco, pois ao receber a atriz Rosanne Mulholland em seu programa Jogo das Pistas, assim que ela foi escolhida para viver o papel de Helena fez a pergunta em tom de piada: “Você fez 11 filmes, e nesses filmes você já fez alguma cena muito ousada?” E ela responde “Já!” Então ele completa: “E como é que agora você vai ser a Professorinha Helena?” com os risos do auditório. Silvio encerra: “Olha só, com vocês a nova Professorinha Helena!” e segue seu programa.

O que se sabe é que Carrossel é a telenovela do SBT de maior audiência nos últimos 11 anos, e que Rosanne foi alçada ao estrelato com um trabalho elogiado e que por uma ou outra razão as crianças adoram: a Professorinha Helena. “Eu [a] amo muito e gostaria de ter uma [professora] igual. Na minha escola não existe ninguém tão linda e tão amorosa como ela” encerra nossa reportagem especial a menina A.L.D., de 9 anos.

A missionária nua

Helen Hunt e John Hawkes no filme 'As sessões' (Foto: Divulgação)

Helen Hunt e John Hawkes no filme ‘As sessões’ (Foto: Divulgação)

Ivan Martins, na Época

Eu a conheci na faculdade. Baixinha, sorridente, era muito sensual sem ser bonita. Gostava de mim, mas também gostava de outro sujeito, mais velho, e provavelmente de mais alguns, de quem eu nunca soube. Era generosa. Aguerrida. Uma vez, conversando sobre sexo, me disse que, num mundo sem preconceitos, seria prostituta. Não apenas pelo prazer de transar, que era enorme nela, mas pela possibilidade de ajudar. “Tem tanto homem triste por aí”, ela me disse. “Gente feia, doente, mas que é bonita por dentro. Essas pessoas precisam de carinho.” Ela achava que seu corpo poderia ser usado para reduzir as dores do mundo.

Ontem, vendo As sessões – o filme em que Helen Hunt interpreta a terapeuta que ajuda um homem paralisado a perder a virgindade – eu acho que entendi, 30 anos depois, o que a minha amiga queria dizer. E que tipo de pessoa era ela.

A terapeuta do filme, inspirada numa mulher de verdade, ajuda as pessoas com dificuldade sexuais a descobrir o prazer. Conversa com elas, toca e se deixa tocar, transa. Trabalha em conjunto com uma psicóloga, discutindo as necessidades e dificuldades do paciente. Uma dessas profissionais, que ainda hoje atua na Califórnia, deu entrevistas recentes à imprensa brasileira e disse já ter atendido mais de 900 pessoas, homens em sua maioria. Não deve ser gente particularmente bonita. Muitas nem serão agradáveis. Mas a terapeuta se despe e se deita com elas do mesmo jeito. É um trabalho, mas também uma missão.

Há um pouco da minha amiga nessa terapeuta do sexo, mas talvez haja um pouco dela em cada mulher.

As mulheres fazem sexo porque gostam, mas fazem também porque nós, homens, precisamos disso desesperadamente. Fazem por carinho e às vezes por pena. Fazem para ver – eu já ouvi isso – os nossos olhos brilharem de satisfação. Elas nos dão de presente seus corpos macios e nós, muitas vezes, abrimos o pacote com pressa, famintos, sem sequer perceber que há um bilhete com dedicatória. Ao contrário do paralítico do filme, que entende o tamanho da graça que recebe, nós não choramos felizes e comovidos. Mas talvez devêssemos. Assim como na profissional descrita pelo filme, há um quê de santa (e de puta, naturalmente), em cada mulher que nos recebe entre as suas pernas – com as nossas dores e os nossos medos, com as nossas vaidades e injustificadas aspirações.

Por essas razões, e por outras que não entendo inteiramente, o filme me deixou terrivelmente comovido.

Talvez porque eu ainda sinta, como um garotinho impúbere, que as mulheres que se deixam despir, tocar e penetrar realizam um ato de profunda e impagável generosidade para com os homens. Talvez porque eu me perceba, como o paralítico do filme, como todos os homens que eu conheço, assustadoramente dependente da atenção, do corpo e do afeto femininos. Talvez, ainda, porque, assim como personagem do filme, e como todos, homens e mulheres, eu seja capaz de antever, no momento mesmo em que o prazer explode, a iminência da perda e a profundidade da separação que se insinuam. O sexo que acabou nunca é o bastante, nunca é suficiente, nunca é exatamente o que buscávamos. Queremos amar e ser amados. Queremos tudo.

Minha amiga, aos 20 e poucos anos, intuía isso tudo. Por isso sonhava em colocar o seu corpo a serviço das almas e dos corpos doentes. Se vivesse em outro país, talvez isso virasse uma carreira. Aqui, é provável que essa vocação tenha simplesmente adormecido, como tantas coisas que a gente sufoca na juventude para nos tornarmos adultos produtivos. Mas, onde quer que esteja, tenho certeza que se minha amiga vir o filme reconhecerá, naquela mulher que goza com o corpo sofrido de um bom homem, a possibilidade de sentimentos que estão muito além do hedonismo e do moralismo. Tomara que ela veja o filme – e que o papa Bento XVI veja também. Nunca é tarde para se perceber certas coisas.