Seres-ameba

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Caio Fábio

Quando se trata de pensar, por exemplo, no que nós estamos fazendo, participando e falando tão intensamente nos últimos meses e quase sempre tem a ver com nossas escolhas políticas, eu olho para isso sob muitas perspectivas.

Primeiro aquela histórica, imediata, como uma pessoa da sociedade, um partícipe do mundo concreto no espaço-tempo no período curto da minha existência sobre a terra.

Isso me faz buscar escolher aquilo que, com consciência limpa e sinceramente, sem compromissos de nenhuma natureza e nem olhando para o meu umbigo, eu creia que, em meio a toda relatividade de como as coisas acontecem na história humana, possa ser uma opção de melhoria ou de atraso do que fosse aceleradamente muito pior. Então ou eu voto e escolho pensando no que seja melhor, ou, outras vezes, naquilo que seja menos ruim. Eu nunca estarei na condição de escolher e votar, nesse planeta, naquilo que seja o ideal. Não existe esse lugar ideal na terra, a não ser na cabeça dos fanáticos.

O que me faz olhar para isso tudo de modo apenas assim, não mais do que assim, são algumas coisas.

A primeira é o fato de que aqui, na história, eu tenho consciência da relatividade de todos os projetos humanos. Todos. Todos são absolutamente relativos. E nós estamos apenas melhorando relatividades ou ‘despiorando’ relatividades. É o máximo que nós fazemos. Em relação a isso, o meu olhar também é assim porque eu só tenho um absoluto. Eu não tenho nenhum compromisso com nenhuma natureza de ideologia ou filosofia planetária. Podem ter certeza disso. Por isso é tão difícil para algumas pessoas me definirem e por isso cometem idiotices enormes porque não percebem o conjunto da minha percepção.

Mas o que me faz olhar e ver também tudo relativizado é o fato de que eu tenho um só Absoluto, um só Senhor, uma só mente a fazer minha cabeça e um desejo de alinhamento com esse único espírito, com nenhum outro espírito, nenhum outro principado, nenhuma outra potestade, com nenhuma expressão de ideologia e de poder humanos. Para mim, eles são meras circunstancialidades que precisam ser usadas na tentativa de melhoramento ou na interferência, na tentativa de se interromper o que seja o fluxo de pioras.

Também me faz olhar para essa circunstância toda e vê-la na sua mais absoluta relatividade, e até idiotice, o simples fato de eu pensar no que é esse lugar e essa arena onde esse embate está se travando. Nós estamos no Brasil, na América do Sul, na América Latina, no hemisfério sul, no lado ocidental do planeta terra, no sistema solar, entre tantos outros sistemas formando galáxias, que é uma poeirinha galáctica em meio a bilhões de outras galáxias, tão maiores do que a nossa, que a nossa se torna apenas um detalhe de algo absolutamente maior, crescente, invasivamente crescente, indefinível, habitando um ambiente que não se sabe qual seja a natureza dele porque se sabe apenas que, para além do espaço-tempo, há outras camadas e possibilidades de paralelismos multiversos.

No meio disso tudo, voltando à escala mais básica, está aí: luta política na arena do Brasil. O que significa isso? Significa que nós, meros fungos, ou vírus, ou bactérias, o que quer que você queira, estamos travando batalhas em um corpo, que para nós parece ser algo absoluto no seu significado e que nada mais é do que uma briga de vermes no intestino grosso da latrina americana deste planeta ‘enlixado’ e que tem esse poder, essa capacidade, no curso da civilização, de olhar para o horizonte imediato e para o momento presente e fazer daquilo o absoluto-absoluto.

Assim nascem todos os fanáticos, todos os cegos, todos os obcecados, todos os diminuídos e todos os que se tornam apenas seres-ameba.

fonte: site do Caio Fábio

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Malafaia diz que Justin Bieber é um ‘mau exemplo’ para a juventude

Publicado no F5

Cresce cada vez mais o time de gente que não gosta de Justin Bieber.

O pastor Silas Malafaia, inimigo declarado da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transexuais (ABGLT), descascou o cantor teen em entrevista a Raul Gil que

“Ele é um mau exemplo para a juventude do Brasil e do mundo”, declarou Malafaia.

Sobre a briga com a associação gay, Malafaia se defendeu dizendo que “não é contra os gays, só contra a Associação”.

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“Eles querem implantar uma ideologia no Brasil. Eles estão trabalhando para uma coisa que chama ideologia de gênero, é para destruição da família”, definiu o pastor.

Questionado sobre sua idoneidade financeira, Malafaia disse que “não deve nada a ninguém”.

“Dou um relatório de tudo o que acontece na minha igreja, falo tudo o que vamos fazer com o dinheiro”, conta.

A entrevista vai ao ar neste sábado (22), às 14h15, no “Programa Raul Gil” (SBT).

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Como pensa um sujeito típico da classe média

Fonte: Google Imagens
Fonte: Google Imagens

Publicado por Sóstenes Lima

1. Considera-se um entendido de tudo[1] porque fez uma faculdade qualquer[2] e porque fala inglês;

2. Julga ser uma pessoa cosmopolita porque viaja com certa frequência para o exterior[3];

3. Fala de boca cheia que os Estados Unidos são o país mais civilizado do mundo;

4. Vive dizendo que gostaria de morar num país como os EUA ou outros países da Europa, em especial França, Alemanha e Inglaterra;

5. Acredita piamente que tudo que é de fora do Brasil[4] é necessariamente melhor do que as coisas daqui;

6.  Adora falar mal do Brasil, bancando o vira-lata, e acha que está arrasando;

7.  Acredita que corrupção e jeitinho são vícios exclusivamente brasileiros;

8. Tem ódio mortal do governo da Venezuela, Argentina e Cuba porque lê constantemente na VejaFolha de S. Paulo e O Globo que esses países estão sendo governados por um socialismo totalitário;

9. Adora a revista Veja; na verdade, considera essa revistinha como uma bíblia, em matéria de jornalismo;

10. Considera Arnaldo Jabor um grande intelectual, talvez o homem mais inteligente da televisão brasileira;

11. Considera Rui Barbosa o maior intelectual que o Brasil já teve, embora ignore completamente o fato de que Rui Barbosa jamais escreveu alguma obra de grande relevância acadêmica;

12. Adora falar que o Brasil tem de seguir o exemplo da Coreia do Sul[5], que conseguiu realizar uma revolução incrível em seu sistema educacional nos últimos 30 anos, embora não faça ideia de como isso aconteceu;

13. Diz que o programa do governo bolsa família serve só para estimular a pobreza, a procriação e a preguiça;

14. Diz que o sistema de cotas é uma injustiça contra quem estuda, e algo que vai acabar deteriorando a qualidade das universidades públicas;

15. Leu um ou dois clássicos da literatura brasileira e, em razão disso, se julga um crítico literário erudito, capaz de sentenciar, a partir de uma análise refinada, que Paulo Coelho produz qualquer outra coisa, menos literatura;

16. Diz que o Brasil é definitivamente um país de terceiro mundo, um caso perdido, e ficou mais perdido depois do governo Lula;

17. Odeia o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como se odeia o diabo;

18. Aguarda com ansiedade e delírio o dia em que o Supremo Tribunal Federal (STF), sob a liderança do estupendo, magnífico, santo, divino ministro Joaquim Barbosa[6] conseguirá colocar Lula na cadeia;

19. Tem um preconceito perverso, embora não admitido, contra pobre, negro e nordestino;

20. Lamenta que o Brasil tenha sido colonizado pelos portugueses e não pelos ingleses, pelos holandeses, pelos franceses ou pelos escambau;

21.  Diz que um dos grandes erros que o Brasil cometeu, em termos de infraestrutura, foi ter optado pelo sistema rodoviário em vez do ferroviário, embora não faça ideia de quem (ou qual classe social) foi responsável por essa decisão histórica;

22. É excessivamente moralista, em especial no que diz respeito a questões relacionadas à sexualidade;

23. Etc.

24. Etc.

25. Etc.

Para mim, o sujeito brevemente descrito acima constitui uma figura emblemática de nossa classe média pseudoerudita, pseudoescolarizada, pseudopolitizada, pseudoetc. Embora pudesse ter dito de outro modo, concordo plenamente com o que uma pessoa disse no twitter: “Nossa classe média não passa de uma elite de bosta”. Numa palestra recente, Marilena Chauí encerrou sua fala com uma descrição exuberante: “a classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante”. E é para (in)formar essa elitizinha que a grande mídia fala, escreve, vomita.

Se você conhece muita gente com as características que apresentei acima, significa que Globo, Veja, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, entre outras espeluncas jornalísticas, estão trabalhando bem.

[1] Esse sujeito se acha uma espécie de erudito anônimo que ainda não foi descoberto pela grande mídia e pelo mercado editorial pseudoerudito.

[2] A coisa piora muito quando o sujeito fez um curso que garante ao alienado a ilusão de que é doutor.

[3] Os EUA são o destino principal de viagem desse sujeito, onde ele se empanturra de compras.

[4] Entenda-se por fora do Brasil as seguintes localidades: EUA, Canadá, Europa, Austrália e Japão.

[5] Ele adora falar sobre isso porque já leu uma matéria magnífica, inesquecível na revista Veja sobre o assunto. 

[6] É preciso informar que a canonização de Joaquim Barbosa é a primeira realizada por Veja depois da canonização de FHC no início dos anos 2000.

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“Senhorita Christina”

Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo

Há algumas semanas, eu escrevia sobre “exus” e sua “ciência das mulheres”. Muitos leitores estranharam a conversa entre o niilista e uma entidade sobrenatural. Lamento dizer que também já conversei com (supostos) “extraterrestres”.

Sempre nutri um interesse específico por almas penadas. Não por acaso, tornei-me, entre outras coisas, um estudioso de religião.

Para alguém como eu, dado a uma sensibilidade monotonamente cética, espanta como há 300 mil anos (desde o Paleolítico), mais ou menos, a humanidade crê em e vive cercada de seres sobrenaturais atormentados que nos atormentam.

As almas que padecem como se fossem vivas me encantam. Uma amiga minha costuma dizer que o mundo do além é pior do que este em que vivemos. Esta forma de crença em espíritos me apetece.

A forma segundo a qual, como apresenta o horroroso filme “Nosso Lar”, espíritos desfilam seus modelitos batas hippies à la Roma antiga e suspiram ares de amor por toda a humanidade me entendia profundamente.

Portanto foi a agonia do sobrenatural, o possível desespero sem fim da alma humana nas suas variadas formas, desde o pecado original judaico-cristão até o abismo sem fundo de espíritos condenados às paixões humanas mais baixas e eternas (enfim, o mal na sua forma encarnada) o que me levou ao estudo das religiões, e não qualquer forma de fé em divindades ou ódio ideológico (comum em especialistas em religiões) contra as religiões.

Sou imune à dependência ou necessidade psicológica que caracterizam a maioria dos crentes. Tampouco partilho da falsa virtude intelectual que alimenta o orgulho infantil de muitos ateus.

Parece ter sido algo semelhante que levou o romeno Mircea Eliade (1907-1986) a se tornar um dos maiores historiadores da religião.

Eliade começou sua carreira escrevendo, junto com seu doutorado, sobre mística hindu, ficções de terror, e o título desta coluna tem a ver com uma boa notícia para quem aprecia a obra desse grande intelectual romeno.

A editora Tordesilhas acaba de publicar entre nós, numa edição muito bem-acabada, o romance gótico “Senhorita Christina”, de 1936, de Mircea Eliade (“Domnisoara Christina”, em romeno).

A edição traz um excelente posfácio analítico assinado por Sorin Alexandrescu (especialista em literatura romena e sobrinho de Mircea Eliade). Para Alexandrescu, Eliade descreve um mundo entre a carne, a morte e o diabo. E seu romance nos leva para esse mundo.

Senhorita Christina, a personagem principal do romance que carrega seu nome, é uma “strigoi”.

“Strigoi”, em romeno, significa um ser sobrenatural maldito, meio humano, meio monstro, um morto-vivo. O famoso vampiro é uma forma de “strigoi”.

A cultura ancestral romena é saturada de narrativas de “strigoi”.

O pessimismo na Romênia brota do solo dos Cárpatos e da Transilvânia. Vem junto com o leite materno. Basta lermos outros romenos ilustres da mesma geração de Eliade, como o filósofo Cioran e o dramaturgo Ionesco.

“Strigoi” são sedentos de sangue humano, assim como da vida dos mortais, que são consumidos por esses infelizes atormentados para quem o fardo maior é saber que a morte pode não ser um descanso.

Christina, uma mulher linda, sensual e rica, morta aos 20 anos por um amante, depois de uma vida devassa, atormenta a propriedade onde vivia e que, agora (quase 30 anos após sua morte), é habitada por sua irmã e duas filhas.

Igor, um pintor famoso, apaixonado por uma das sobrinhas da vampira Christina, se hospedará na propriedade. A infeliz vampira se apaixonará por ele e tentará desesperadamente seduzi-lo.

A obra foi considerada por muitos um livro pornográfico, devido às cenas eróticas entre a morta Christina e o pintor Igor.

Ao contrário do que se espera, Christina sofrerá como qualquer mulher apaixonada devorada pelo desejo erótico negado. Suas habilidades monstruosas emudecem diante do amor impossível pelo mortal Igor.

O livro é uma história de amor e desejo como maldição eterna, por isso é uma obra romântica que fala da alma sempre presa entre o corpo e o mal. Sem a esperança da morte, Christina sofrerá.

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Sobre manipular antônimos

As freiras nos ensinaram que há dois caminhos: o caminho da natureza e o caminho da graça. Você tem de escolher que caminho seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Aceita ser menosprezada, esquecida, escanteada. Aceita insultos e ofensas. A natureza só quer agradar a si mesma. Obriga os outros a agradá-la também. Tem prazer em controlar, em impor sua vontade. Encontra motivos para ser infeliz quando o mundo inteiro está resplandecendo ao seu redor, e o amor está sorrindo através de todas as coisas.

A narração inicial de Árvore da vida, de Terrence Malick

Paulo Brabo

É sabido que critérios de classificação são coisa sempre arbitrária e artificial, pouco importando o que está sendo classificado, e que portanto as classificações prestam-se com facilidade a servir de ferramentas ideológicas de manipulação. Colocar rótulos sobre as coisas é simplificá-las, e simplificá-las é em si mesmo evitar uma discussão mais profunda (e possivelmente incômoda) sobre a natureza das coisas, do estado das coisas e do que é desejável e legítimo.

Mas não é só classificando, definindo e rotulando que se manipulam ideias e portanto pessoas; outro modo de sustentar uma ideologia é controlando-se os polos, manipulando-se artificialmente os antônimos de conceitos que são fundamentais para a manutenção do estado de coisas. “Qual é o contrário de [determinada coisa]” é uma pergunta que tem quase sempre uma resposta política.

Qual é o contrário de governo? Qual é o oposto de religião? Qual é o contrário de democracia1? As respostas ao mesmo tempo muito vagas e muito definidas que tendemos a imaginar para perguntas dessa natureza testemunham por si só o status de vaca sagrada de cada um desses conceitos, e explicam também porque é tão raro que nos façamos esse tipo de pergunta. “Qual é o contrário disso?” pode também significar “existirá uma alternativa a isso?”, e uma resposta não-determinada para questões desse tipo pode representar um risco muito real para o sistema.

Sendo assim, determinar-se em regime artificial o antônimo de um conceito pode equivaler a garantir que jamais se encontrará uma alternativa ideológica legítima para ele. É certificar-se que a reflexão não ameace o estado de coisas. Dizer-se, por exemplo, “o contrário de capitalismo é socialismo” é assegurar que grande parte da sociedade entenda que os horrores atribuídos ao segundo garantem que não há verdadeira alternativa para o primeiro.

Se digo tudo isso é só para declarar o óbvio, que o oposto de capitalismo não é socialismo. O oposto de capitalismo é vida, gentileza, liberdade e convivência – aquilo que em outro tempo se convencionava chamar de cristianismo.

NOTAS

  1. Ou, ainda, qual é o contrário de heterossexual? O termo oposto preferencial tem sido “homoafetivo”, que alia à baixeza do politicamente correto as vergonhas da simplificação e da incorreção. Porque os heterossexuais, em especial os homens, são em geral grandes homoafetivos – no sentido de que sentem-se mais à vontade para demonstrar verdadeiro afeto a outros homens do que a mulheres, e (sem contar os confortos ou as esperanças da cama) tendem a procurar mais a companhia de outros homens do que a de mulheres.

fonte: A Bacia das Almas

arte: Paulo Brabo

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