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O que me espanta

CloudsMind
Caio Fábio

O que mais me espanta a cada dia […] são duas percepções.

A primeira é a incomunicável realidade de Deus. Pois, mesmo quando se fala de Jesus com simplicidade e clareza, se não houver a Luz do Espírito iluminando o nosso espírito, não há meios de uma mente humana chegar a Deus. Ele é inalcançável por nós. Não existe para nós sem Sua própria revelação; embora as coisas criadas gritem aos nossos sentidos acerca da divina complexidade dos universos criados, a maioria já nem sabe o que é exposição e imersão no significado da vida como um ente natural.

Sim, isso de um lado do meu aturdimento. Pois, de outro lado, ponho-me crescentemente perplexo com a minha e a nossa ignorância. A nossa estupidez é assombrosa. Nossas limitações de intuição e nossa crescente morte interior, por mais tecnológico que alguém se imagine, são de incomparável perda humana.

Assim, do ponto de vista de minha mera observação humana [e, portanto, mais que limitada], digo que quanto mais assim […] for ficando o ser humano […] mais profunda tem que ser a ação divina que penetre essa crosta grossa […] que blinda a condição humana até em sentimentos e exposições que a humanidade tinha […] no que concernia a nutrir uma existência interior [...] hoje morrente entre nós.

Para quase todos os humanos a Natureza morreu como possibilidade de imersão nela; e, para dentro do ser [...] o que se percebe é um estado de devastação da natureza humana nas bases de sua sobrevivência mais significante: as da alma e do espírito.

Sinto, todavia, que a devastação de dentro é muito mais profunda!

A primeira percepção me quebranta. A segunda me angustia.

Entretanto… “assim gememos em nossos corpos… aguardando a adoção de filhos”.

fonte: site do Caio Fábio

“Tomo pílula, não pego HIV”: os jovens “invencíveis” vão viver para sempre


Famosa estátua de Bruxelas ‘Manneken Pis’ antes e depois de ser coberta por ‘camisinha’ no Dia Mundial de Luta contra a Aids.

Leonardo Sakamoto, no Blog do Sakamoto

Perdoem-me, de antemão, aqueles que lerão um certo moralismo neste texto. Não foi essa a intenção, até porque sou – orgulhosamente – um pervertido e um depravado. Mas é incrível o que a gente, como professor, não escuta na mesa do bar, de orelhada nos corredores e mesmo através de bizarras pegadinhas da vida, que transforma docente em vigário confessor, como se tivesse eu o poder para absolver alguém. De fato, falta diálogo e informação em algumas casas para que alguém prefira conversar com o seu professor do que com o pai ou a mãe.

O fato é que me assusta a quantidade de casos de jovens que, ainda, transam loucamente sem proteção. As justificativas são as mesmas de sempre: “não deu tempo”, “ele disse que não tem pereba nenhuma, “eu não vi nada de errado com ele”, “ela pareceu tão limpinha”, “imagina, uma mina, como ela, de família, não tem nada”, “ele não gozou dentro” e, uma das minhas preferidas, “eu tomo pílula”.

Além do machismo idiota que cria frases como “ah, mas se eu não fizer dessa forma, ele vai me trocar por outra”, “não quero que ele pense que eu desconfio dele” e “helloooo, o cara é o máximo! Você acha que ele vai me fazer isso”. Sim, vai sim.

Gostaria de lembrar que o sentimento de invencibilidade presente em “eu sou fodão! Nada me atinge!” e o velho e bom “isso acontece só com quem pega mina/mano trash” encurta a vida e funciona como instrumento de seleção natural, inclusive. Tem o mesmo DNA presente em declarações de orgulho de macho-besta (“prefiro morrer do que deixar alguém enfiar o dedo onde não é bem-vindo!”), ou seja, nada vai me acontecer nunca porque tenho um impávido pênis. Jovens invencíveis vivem para sempre – na memória de seus amigos.

Descobri, recentemente, as desculpas que usam justificativas de classe social e dados estatísticos com legitimidade duvidosa, como em “você sabe, a gente é de classe média alta. A incidência de HIV entre a gente é muito baixa, então não tem com que se preocupar”. Tipo, roleta russa não pega quem tem dindim na conta bancária?

Ou os argumentos nonsense de quem parece ter vivido longe da civilização até agora: “ah, se der problema, posso abortar e se for doença é só tomar um remédio e sara” e “HIV só pega de homem para mulher e não o contrário”.

Não quero adentrar em uma seara comportamental que é competentemente tocada pelo Jairo Bouer e o Xico Sá, mas hoje é o Dia Mundial de Luta contra a Aids. E há uma tendência de crescimento de novas infecções pelo HIV em quem tem entre 15 a 29 anos. Nessa faixa, há 44,35 registros para cada 100 mil habitantes, enquanto a média nacional é de 20,2 para cada 100 mil.

De acordo com a pesquisa “Juventude, Comportamento e DST/Aids” realizada pela Caixa Seguros com o acompanhamento do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana de Saúde e divulgada pela Agência Brasil e o UOL, 40% dos jovens entrevistados não consideram o uso de camisinha um método eficaz na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis ou gravidez.

Teoricamente, o grau de escolaridade influencia nas práticas adotadas pelos jovens. Por isso, espanta um pouco que alguns dos estudantes de onde dou aula pensem assim. Na minha humilde opinião, o problema não reside apenas no acesso à informação, mas de como ela chega até eles. Muita coisa é percebidas como “coisa chata” e blá blá blá que não lhe diz respeito.

Interessante, portanto, é que relatar histórias de conhecidos, com uma vida igual a deles e contraíram o vírus, choca bem mais do que os programas de conscientização tradicional. Provavelmente porque a percepção de que isso só acontece com o “outro”, o “distante”, o “diferente” se rompe quando o problema bate à porta. Fazer fluir essa informação, com uma troca de quem vive com a doença e quem não, é um trabalho lento, mas essencial,

Lembrando que não é fácil alguém mais jovem, que sente o mundo pulsando no peito, dar ouvidos a alguém mais velho em questões de comportamento. Sem contar a parte desta geração que foi criada pelos pais em um mundo de fantasia e “não gosta de notícias triste”.

Prevenir é fundamental. Mas vale lembrar que contrair HIV não é o fim do mundo. Conviver com a doença é difícil, mas possível, como milhares de pessoas fazem todos os dias por aqui. Duro é ter que aguentar o preconceito de uma sociedade que transforma quem carrega o vírus em pária.

“Sakamoto, deixa de ser idiota. Não existe esse tal preconceito.” Sim, claro, até temos amigos amigos “aidéticos” e “contaminados pela Aids”, não é mesmo? Da mesma forma que temos amigos gays, negros, índios, nordestinos…

É idiota e tosco ostentar qualquer forma de segregação a quem possui uma doença que não é contagiosa através do contato social. Pior ainda ouvir as justificativas esfarrapadas dadas por empregadores que barram uma promoção ou a contratação de alguém porque descobrem que a pessoa vive com HIV, apesar de proibido.

Os locais de convivência coletiva, como o trabalho e a universidade, podem ser usados para o diálogo, a acolhida e o apoio e a troca de informações. Ou serem vetores de disseminação do medo, ajudando a manter o véu de ignorância que ainda cobre o assunto, e garantindo que a epidemia se espalhe ainda mais.

foto: Francois Lenoir/Reuters

“Tinha que ser preto mesmo!” e a nossa ignorância diária

Leonardo Sakamoto, no Blog do Sakamoto

Tinha que ser preto mesmo!

Preto quando não faz na entrada faz na saída.

Sabe quando preto toma laranjada? Quando rola briga na feira.

Amor, fecha rápido o vidro que tá vindo um escurinho mal encarado.

Olha, meu filho, não sou preconceituoso, não. Até tenho amigos negros.

Ouviu aquele batuque? É um terreiro de macumba. Logo aqui na nossa rua! Mas o João Vítor vai dar um jeito nisso, ele conhece uma pessoa na subprefeitura que vai tirar essa gente daí. Essas coisas do diabo me dão arrepios.

Eu adoro o Brasil porque é um país onde não existe racismo como nos Estados Unidos. Aqui, brancos e negros vivem em harmonia. Todos com as mesmas oportunidades e desfrutando dos mesmos direitos.

Se eu deixaria minha filha casar-se com um negro? Claro! Se ela conhecer um, poderá sem sombra de dúvida.

Tá tão difícil encontrar uma empregada decente ultimamente. Ainda bem que achei a Maria. Ela é de cor, mas super honesta.

Quilombolas são pessoas indolentes. Erra o governo ao mantê-los naquele estado de selvageria.
 A terra poderia estar sendo usada para produzir algo, sabe? Ainda mais com tanta gente vivendo apertada em favelas! É o Brasil…

Vê se me entende que eu vou explicar uma vez só. A política de cotas é perigosa e ruim para os próprios negros, pois passarão a se sentir discriminados na sociedade – fato que não ocorre hoje.

É aquele ali, ó. Sim, o “moreninho”.

Meu filho não vai fazer um projeto de escola sobre coisas da África. A gente é evangélico e queremos que ele leia a bíblia e não esses satanismos como… como…como era o nome daquele livro mesmo que a professora passou? Sim! Macunaíma.

Cotas ameaçam o princípio de que todos são iguais perante a lei, o que temos conseguido cumprir, apesar das adversidades.

Ele é um exemplo. É negro e, mesmo assim, virou ministro do Supremo Tribunal Federal sem ajuda de ninguém.

No 20 de novembro, quando se rememora a morte de Zumbi dos Palmares, é celebrado o Dia da Consciência Negra em várias cidades do país. Um momento de reflexão e de resistência sobre os frutos da escravidão, de um 13 de maio incompleto (que significou mais uma mudança na metodologia de exploração da força de trabalho do que uma abolição de fato), sentido no dia a dia. Dia que deveria ser aproveitado por todos aqueles que têm seus direitos fundamentais rasgados para uma análise mais profunda do que têm feito para sair da condição de gado.

Alguns vão dizer que o tema é repetido neste blog. Mas era preciso.

Porque a nossa idiotice não tem limites. E a ignorância é um lugar quentinho.

imagem: Grupo Escolar

dica do Sergio Luiz

O câncer de Lula me envergonhou

Gilberto Dimenstein, na Folha.com

Senti um misto de vergonha e enjoo ao receber centenas de comentários de leitores para a minha coluna sobre o câncer de Lula. Fossem apenas algumas dezenas, não me daria o trabalho de comentar. O fato é que foi uma enxurrada de ataques desrespeitosos, desumanos, raivosos, mostrando prazer com a tragédia de um ser humano. Pode sinalizar algo mais profundo.

Centenas de e-mails pediam que Lula não se tratasse num hospital de elite, mas no SUS para supostamente mostrar solidariedade com os mais pobres. É de uma tolice sem tamanho. O que provoca tanto ódio de uma minoria?

Lula teve muitos problemas –e merece ser criticado por muitas coisas, a começar por uma conivência com a corrupção. Mas não foi um ditador, manteve as regras democráticas e a economia crescendo, investiu como nunca no social.

No caso de seu câncer, tratou a doença com extrema transparência e altivez. É um caso, portanto, em que todos deveriam se sentir incomodados com a tragédia alheia.

Minha suspeita é que a interatividade democrática da internet é, de um lado um avanço do jornalismo e, de outro, uma porta direta com o esgoto de ressentimento e da ignorância.

Isso significa quem um dos nossos papéis como jornalistas é educar os e-leitores a se comportar com um mínimo de decência.

imagem: LaRepublica