Brutamonte da barra de ferro, vascaíno era saxofonista na banda da igreja

Leone com um pedaço de pau com prego na ponta, em Joinville (foto: Giuliano Gomes / Folhapress)
Leone com um pedaço de pau com prego na ponta, em Joinville (foto: Giuliano Gomes / Folhapress)

Wilson Mendes, no Extra

Leone preso na Delegacia de Joinville (foto: Terceiro / Divulgação Polícia Civil de SC)
Leone preso na Delegacia de Joinville (foto: Terceiro / Divulgação Polícia Civil de SC)

Para os moradores de Austin, em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, as cenas de selvageria protagonizadas pelo vascaíno Leone Mendes da Silva, de 23 anos, não combinam com o descontraído e pacato barbeiro do bairro, ex-saxofonista da banda da igreja evangélica local.

— Ele sempre torceu pelo Vasco, mas esse fanatismo aumentou com o tempo. Eu sempre falando: “Meu filho, larga isso de jogo, de torcida”. Mas nunca pensei que ele faria uma coisa dessas. Eu preciso que ele me explique o que aconteceu lá. Ele é um rapaz bom — avaliou, entre lágrimas, Cleuza Mendes da Silva, de 48 anos, mãe de Leone. Eles ainda não se falaram depois da prisão.

Cleusa, mãe de Leone, sofre com a prisão do filho (foto: Paulo Nicolella / Extra)
Cleusa, mãe de Leone, sofre com a prisão do filho (foto: Paulo Nicolella / Extra)

Solteiro e filho único, é o barbeiro quem sustenta a casa, construída no mesmo terreno utilizado por outros parentes. A braçadeira de capitão do lar foi transferida em definitivo há cerca de três anos, depois que ele terminou o Ensino Médio e Cleuza sofreu um derrame.

— Ele ajudou muito a mãe nessa época. Tantos remédios que comprou! — defende a tia, que não se identificou. Os vizinhos jogam no mesmo time da tia, numa tática de defesa calçada em rápidos elogios anônimos.

— Eu estou realmente surpresa. Ele foi aluno do meu marido, frequentou a minha casa e sempre foi uma ótima pessoa. Não sei o que aconteceu — diz a moradora da esquina.

O grupo de vizinhos da frente, incluindo um jovem devidamente uniformizado com a camisa da torcida organizada, garante que Leone nunca criou problemas nas partidas que acompanhou.

— Ele ia mais a jogos no Rio e São Paulo. Acho que longe assim esse foi o primeiro. Nunca ouvi dizer dele envolvido em briga. Nem machucado ele voltava — relatou um homem.

A mãe reclama de jogo sujo, e diz que fará de tudo para que as partidas com a Justiça seja disputadas em casa, no Rio de Janeiro.

— Eu não tenho dinheiro agora, mas se for preciso vendo até a casa. Eu quero que saibam que tenho ciência que o que ele fez foi errado. Não estou passando a mão na cabeça dele, mas ele tem 23 anos, emprego, carro e um salão. É trabalhador — desabafou Cleuza.

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David Ellefson: eu estou devolvendo o dom que Deus me deu

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Publicado no Whiplash

O baixista do MEGADETH, David Ellefson, falou recentemente com a Yahoo! Music sobre como a música o ajudou a se reconectar com a religião.

“A igreja começou a me chamar: ‘Ei, nós precisamos de um baixista, esta semana. Você pode vir e tocar?’”, disse Ellefson. “É como se Deus soubesse que se ele me convidasse para ir com meu instrumento, eu provavelmente iria. Então é assim que eu comecei a me envolver em qualquer tipo de trabalho da igreja. Isso não era como aquelas coisas banais espirituais ou algo assim. Eu sou apenas um cara que toca baixo no Megadeth e um dia na igreja. Eu realmente gosto disso. E eu percebi que esses caras, com quem eu toco nos finais de semana, são como guerreiros que provavelmente tinha outras bandas quando eles eram jovens, então, eventualmente, precisaram crescer, cortar os cabelos e ter empregos de verdade. Mas agora eles têm dinheiro, porque eles conseguiram empregos de verdade e eles podem pagar bons equipamentos, e eles gostam de tocar. Isso me faz apreciar pessoas que não são músicos profissionais também, porque existe uma grande quantidade de pessoas que tocam muito bem por aí, e por qualquer motivo, a vez deles não chegou e eles não tiveram uma carreira como a minha. Mas isso não significa que eles não são músicos, artistas e cantores talentosos. Então, essas são as pessoas que eu conheci na igreja.

“Assim, a música através da igreja é o que realmente me inspira a me envolver com isso. Eu me sinto muito bem. Eu saio do palco e (eu fico tipo), ‘Cara, eu estou flutuando agora. Isso é o mais alto que eu já pude chegar. Eu estou mais alto do que várias coisas, eu estou bem alto no momento. Isso é ótimo’. É aquele momento quando seu espírito é movido e era tão legal. Eu só queria mais.

“É bom saber que eu usei um dom que Deus me deu para entregá-lo de volta. E não foi apenas sexo, drogas e rock and roll, eu, eu, eu, eu, eu, como eu posso querer mais? Porque quando eu levava minha vida assim, eu vivia me dando mal. Mas quando eu comecei a usar a música para alguma utilidade, para ajudar as pessoas, para levantá-las e inspirá-las, e eu comecei a usar o que é conhecido por G.O.D – good orderly direction – quando eu comecei a ser adepto disso, as bênçãos vieram em minha vida e eu nunca imaginei isso. Para mim, essa é a direção certa”.

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Eu, Hegel e o Espírito Santo. Entrevista com Slavoj Žižek

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Publicado no IHU

Em certo ponto, Slavoj Žižek faz uma pausa, como se quisesse recuperar o fôlego. Ao contrário, fixa seriamente o interlocutor e intima: “Nunca subestime Chaplin“. Sobre si mesmo, o filósofo esloveno quase se limita a dizer “nasceu, escreve livros, morrerá”. O último evento é inevitável; o primeiro ocorreu em Lubliana, em 1949. Com a frenética atividade que se desenrola em meio a isso, é difícil manter o ritmo.

A reportagem é de Alessandro Zaccuri, publicada no jornal Avvenire, dos bispos italianos, 03-12-2013. A tradução é deMoisés Sbardelotto.

Nestes dias, o autor está na Itália, onde recém-chegaram às livrarias o desafiadorLa visione di parallasse (il Melangolo, 564 páginas), a nova edição do não menos encorpado In difesa delle cause perse(Ponte alle Grazie, 638 páginas) e, finalmente, a primeira parte daquele que o próprio Žižek considera como o seu estudo mais importante, uma atualização do pensamento de Hegel intitulado Meno di niente (Ponte alle Grazie, 700 páginas).

“Eu me considero um materialista teológico – afirma –, mas as minhas convicções não têm nada a ver com as de ateus difíceis como Christopher Hitchens ou Richard Dawkins. Ao contrário, estou convencido de que as questões postas pela teologia são imensamente importantes. Como acontece na música, aliás”.

Eis a entrevista.

Na música?

Sim, claro. Precisamos nos livrar do preconceito de que o pensamento seria uma prerrogativa da filosofia, e a arte se limitaria a expressar emoções. A arte também pensa, mas nos termos que lhe são próprios. Tomemos um compositor como Olivier Messiaen. Grande musicista, grande teólogo. As suas Visions de l’Amen são uma obra de extrema intensidade corpórea e, ao mesmo tempo, de absoluta profundidade espiritual. Messiaen representa para a música o que Krzysztof Kieślowski representa para o cinema.

Ambos são artistas religiosos.

De fato, é por isso que me interessam. Assim como me interessa Paul Claudel, o poeta que mais do que ninguém foi ao centro do mistério cristão. A questão, para ele, não é se o ser humano pode ou não confiar em Deus, mas sim a descoberta de que Deus mesmo, de algum modo, é impotente sem os seres humanos. Tudo gira em torno do escândalo quase monstruoso constituído pelo sacrifício de Cristo. Aliás, você sabe qual é a primeira verdadeira crítica da ideologia?

Eu diria Marx, mas com certeza está errado.

Muito errado. A Bíblia, o Livro de Jó. Deus em pessoa rejeita as leituras ideológicas da dor sugeridas pelos amigos do homem sofredor. E também o discurso final, no qual Deus se dirige a  perguntando-lhe onde ele estava enquanto se desdobrava a obra da Criação, não tem o valor de requisitória arrogante que geralmente lhe é atribuído. A minha interpretação de referência é a de Chesterton, que entrevia nessas palavras uma tentativa de mitigar as penas de . Vê?, lhe diz Deus, todo o mundo sofre, no cosmos se esconde um caos que até o Todo-Poderoso custa a governar.

Desculpe-me, mas você não seria um marxista?

Comunista, mas sem nenhuma nostalgia pelo que foi o comunismo no século XX. Para mim, o primeiro ato de libertação na história da humanidade está na afirmação de Paulo na Carta aos Gálatas: não há mais judeu nem grego, nem escravo nem livre. Hoje está na moda criticar Paulo. Acusam-no de ser o Lenin do cristianismo, o normalizador que oculta a pureza original do Evangelho. Tudo bobagem. O cristianismo nunca foi uma utopia, sempre teve uma concreta dimensão comunitária. Em sentido igualitário, porque essa é a dimensão do Espírito Santo. Mas a Igreja nunca foi uma sociedade de perfeitos. No máximo, é o lugar onde as desigualdades não são mais aceitas. Um espaço socialmente organizado, mas distinto do Estado. Sem organização, aliás, não existe liberdade.

Em que sentido?

Agora, a esquerda ocidental está enfeitiçada pelo mito das pequenas comunidades em escala local. Mas tudo isso, para funcionar, precisa de um poder central bem reconhecível, que garanta eficiência e segurança. Se faltam esses requisitos, a liberdade é apenas uma ilusão.

Hegel tem alguma coisa a ver com isso?

Hoje, Hegel é mais atual do que Marx. Para os parâmetros atuais, o proletariado que encontramos no Capital é quase um privilegiado. Ele se mata trabalhando, eu concordo, mas ao menos tem um posto fixo, está inserido em uma hierarquia social que prevê um mínimo de mobilidade. É em Hegel que encontramos a reflexão sobre a plebe, isto é, sobre aquela parte da humanidade excluída de todo benefício. Não sei se nos damos conta, mas no imaginário popular está cada vez mais difundido o dispositivo da cúpula: uma barreira intransponível, que separa os eleitos dos excluídos. Ele se encontra em Stephen King, nos episódios de Os Simpsons, em um filme nem tão bem sucedido como Elysium. Mais do que qualquer outra coisa, ele se encontra na nossa realidade, só que não o percebemos.

Você se considera um filósofo pós-moderno?

Mas nem sonhando. Os pós-modernistas são aqueles que reduzem tudo à análise formal, a reconhecimento histórico. Eu me interesso por uma filosofia que volte a se fazer as perguntas fundamentais.

Quais?

Acima de tudo, a reflexão sobre os bens comuns, que estava na origem do pensamento de Marx. Hoje, a fronteira é ainda maior: desemprego, proteção da natureza, desigualdades sociais, manipulações genéticas. Não é por acaso que o Papa Francisco aborda essas questões cada vez mais frequentemente. Você sabe a quais conclusões a CIAchegou quando começou a estudar seriamente a América Latina?

Não, me diga.

Esqueçam Marx, disseram. Quem vai dar voz aos pobres é a Igreja.

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Pontífice prega uma coisa e fez outra, afirma desafeto do papa

papa-francisco-en-angelusPedro Ivo Tomé, na Folha de S.Paulo

“O cão.” Esse é o apelido do jornalista e colunista político argentino Horacio Verbitsky, 71, conhecido pela investigação sobre a ditadura militar em seu país (1976-83).

Na semana passada, o jornalista veio a São Paulo para participar de uma audiência da Comissão da Verdade.

Verbitsky também é autor de “O silêncio”, no qual afirma que o jesuíta Jorge Mario Bergoglio, hoje papa Francisco, foi cúmplice da ditadura argentina ao denunciar sacerdotes aos militares.

O papa e mesmo alguns ativistas de direitos humanos negam a acusação. À Folha o jornalista fez uma análise das propostas de mudança na igreja feitas pelo papa e questiona se serão profundas ou apenas “cosméticas”.

“No discurso de Bergoglio, tudo é maravilhoso e eu aplaudo com entusiasmo. Mas há uma contradição entre o que ele fez na Argentina e o que ele diz estar planejando hoje para a igreja”, afirma.

Para Verbitsky, há apenas uma mudança de tom nos discursos do principal representante da igreja, mas não uma pretensão real de alteração em seus fundamentos.

“No tema da abertura aos homossexuais, a doutrina da igreja é muito clara a respeito: há de ser compreensiva com os que buscam se aproximar de Deus. Mas, nos termos da igreja, isso significa deixar de ser homossexual.”

Quando se discutiu na Argentina a lei que permite aos homossexuais casar e adotar filhos, Bergoglio encabeçou a oposição à lei e escreveu uma carta a uma congregação religiosa instando-a a resistir, afirmando que essa lei era “parte do plano do diabo para destruir a igreja.”

No mês passado, o papa divulgou um documento escrito só por ele. “Não há mudança de doutrina. A posição da Igreja não muda a respeito do aborto e do celibato sacerdotal”, diz o jornalista, que também questiona a posição de Bergoglio nos casos de pedofilia envolvendo sacerdotes.

“Na Argentina, há o caso do sacerdote Julio César Grassi, condenado a 15 anos de prisão por pedofilia e preso em setembro. Bergoglio o defendeu permanentemente e contratou um dos juristas mais renomados do país para defendê-lo. Até agora, Grassi, mesmo preso, não perdeu o estado sacerdotal.”

Apoiador dos governos de Néstor Kirchner (2003-07) e de Cristina, atual presidente argentina, o jornalista diz acreditar que as políticas de combate à pobreza dos dois “implicaram no mesmo fenômeno de luta contra pobreza que o de Lula no Brasil”.

“Bergoglio questionava essas políticas, dizendo que eram clientelistas, questionava os modos autoritários de [Néstor] Kirchner, quando ele, Bergoglio, sempre foi autoritário em toda sua vida.”

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