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Cristianismo encarnado: o ‘evangeliquês’ e a Igreja suja de lama

Elton Roney Carvalho

Observo que existe uma subcultura evangélica que se comporta de uma maneira estranha na sociedade. Eles afirmam sempre quando encontram um com o outro: “a paz do Senhor!”, e, o outro, sem demora, responde: “Amém!”. Isso é legal. Desejar a paz ao nosso próximo. O estranho é quando vira um clichê barato, típico do evangeliquês. Um padrão de comportamento imposto como uma regra que deve ser seguida por quem se diz evangélico.

Na verdade eu penso que esse tipo de comportamento, com expressões e pensamentos do tipo música do mundo e música de Deus, deturpa o verdadeiro sentido do Evangelho de Cristo, dificulta a evangelização, forma cristãos hipócritas e uma Igreja alienada; dificulta o Mandato Cultural e impede o crescimento do cristão na essência da Mensagem de Cristo.

Nossa mensagem tem tido dificuldade de responder as questões de nosso tempo, por esse distanciamento da cultura que não é “caída” em 100% de sua constituição. Existe, hoje, a tendência de amaldiçoar tudo o que está fora das paredes do templo. Uma espécie de “pré-julgamento evangeliquês”, onde a coisa se torna má por não ser tratada na Bíblia ou por estar sendo usada por incrédulos. Um ponto de vista onde a Coisa é ruim, e não o sentido que dão a ela.

No Gênesis observamos que o Espírito de Deus pairava sobre a face do abismo, e a terra, que era sem forma e vazia, se alinhou no processo de criação. Do Caos para o Cosmos, através do Sopro de Deus, a coisa que era “sem forma”, se fez e se organizou, se tornando “em forma”. No processo de criação existe a mão santificadora de Deus. Aquele que transforma do mal, do pecado, das trevas, e nos transporta para Sua maravilhosa luz.

Jesus Cristo, Filho de Deus e Caminho, Verdade e Vida, ao se fazer Carne, interfere na Cultura e transforma a História. Caminha entre os pecadores e interage com o excluído, sem pecar, sem condenar, mas, afirmando a verdade e a realidade do estado mal da alma daqueles que se encontravam em tal situação. Ele não julgava o contexto, mas, o transformava. Ele se fez carne e habitou entre nós.

O Cristo é o Ungido com uma missão: trazer o Reino de Deus. Resignificar o lugar, trazer santidade e paz. Ele entra na História, na Cultura e transforma o significado da Coisa, não o contrário, ao se entranhar de humanidade, não se transforma em pecador ou se “contamina” no ambiente, mas, o toca. Andando entre os piores, não para julgá-los, mas, para abrir os seus olhos.

A Igreja, assembleia que representa o Cristo Encarnado, deve andar por aí. Andar aonde o “santo” não vai, vagar pelas vielas do escândalo para salvar o perdido. Ousar renovar expressões para se colocar entre a mensagem de salvação e o perdido. Tem que se sujar de lama. Guardar a tradição e os pilares da fé como expressão pessoal e singular, respeitar a diversidade e pregar a salvação, a justiça, o pecado e o juízo. A Igreja é o aglomerado de sujos que buscam limpeza. Uma Igreja com os pés sujos por andar em ruas com lama.

Meu desejo é que eu possa ter um cristianismo mais encarnado, mais vivo e relevante, que traga significado para o perdido e seja capaz de, por Cristo e através do Espírito, transformar a Coisa em santa e não o santo em Coisa.

Elton Roney Carvalho é membro da Diocese do Recife; Ministro Local e faz parte da Equipe Pastoral da Paróquia Anglicana Comunhão, no Arcediagado Paraíba.

Aprovada na Câmara Municipal de BH venda de ruas para Igreja Batista da Lagoinha

Trecho da  rua Ipê com ruas Samuel Salles e Serra Negra, na Região Nordeste,  que deve dar lugar a um novo templo da Igreja Batista da Lagoinha. (Jair Amaral/EM/D.A Press)
Trecho da rua Ipê com ruas Samuel Salles e Serra Negra, na Região Nordeste, que deve dar lugar a um novo templo da Igreja Batista da Lagoinha.

Alice Maciel, no Estado de Minas

Os vereadores de Belo Horizonte autorizaram a venda de trechos de três ruas no Bairro São Cristóvão, na Região Nordeste, para dar lugar a um novo templo da Igreja Batista da Lagoinha. Com 23 votos favoráveis, a proposta foi aprovada na Câmara Municipal em segundo turno e caberá agora ao prefeito Marcio Lacerda (PSB) sancioná-la. Se o projeto virar lei, duas casas localizadas da Rua Ipê ficarão ilhadas com a construção da igreja. O autor da matéria, que recebeu 21 assinaturas, vereador João Oscar (PRP), lavou as mãos e jogou para a prefeitura a responsabilidade de definir a situação dos moradores, contrariando o compromisso que havia assumido de só colocar o texto em votação depois de resolvida essa questão.

A intenção é construir no trecho da Rua Ipê e nas ruas não implantadas Serra Negra e Samuel Salles Barbosa um novo templo da Igreja Batista da Lagoinha, com capacidade para 30 mil pessoas. Na justificativa do texto, João Oscar alega que as ruas “estão totalmente inseridas no perímetro de área particular de propriedade da Igreja Batista da Lagoinha”, ignorando, no entanto, a existência dos imóveis de número 514 e 498, localizados na Rua Ipê. “Esse é um projeto autorizativo. A prefeitura é que terá de resolver com os moradores, caso ache conveniente”, ressaltou o parlamentar, justificando que foi informado da possibilidade de os imóveis terem saída para outra rua.

O engenheiro Raickson Costa, que há 51 anos mora na via, ficou surpreso ao saber da aprovação da matéria. “É um absurdo. O vereador se comprometeu com a gente a não votar”, ressaltou. Ele e seu primo Edvaldo Costa, que mora na casa ao lado, já sofrem com a invasão da igreja. O fato é que o espaço público – onde há inclusive postes demonstrando a existência de ruas – já virou estacionamento da igreja antes mesmo de ser vendido. Raickson nasceu na casa da Rua Ipê, onde morava com o pai, artista plástico. Para Edvaldo, que foi para lá com 21 anos, o imóvel tem um significado ainda mais especial: ele faz do espaço ateliê para a confecção de peças sacras.

O projeto de lei que vai beneficiar os evangélicos estabelece o parcelamento do pagamento, com correção pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), e juros de 1% ao mês. A proposta de João Oscar também autoriza o município a receber como pagamento pelo terreno ocupado um imóvel de valor menor, desde que a diferença em relação ao preço da área vendida seja paga pelo comprador.

Apesar de a Lei Orgânica da capital prever que cabe ao prefeito a administração dos bens municipais, tendo suas decisões apenas endossadas pelo Legislativo, um projeto parecido com o do vereador João Oscar já passou na Casa. De autoria do vereador Silvinho Rezende (PT) e de cinco colegas, o projeto que virou lei em 2011 doou um terreno da prefeitura para a Matriz de Santo Antônio, em Venda Nova. Na justificativa, Silvinho destaca que a instituição “apresenta um núcleo de formação cristã, humanística e de cidadania”.

dica do Thiago Ferreira de Morais

Igreja: ser e pertencer

Imagem: Google

Ed René Kivitz

Os resultados do Censo Demográfico 2010 mostram o crescimento da diversidade dos grupos religiosos no Brasil. O crescimento da população evangélica, que passou de 15,4% em 2000 para 22,2% em 2010, foi um dos destaques do cenário religioso. A pesquisa indica também o aumento dos que se declararam sem religião, que chegam a 8%, ou 14 milhões de pessoas. O fato curioso foi que número de evangélicos que não mantêm vínculo com nenhuma igreja cresceu. Segundo o IBGE, passaram de 4% do total de evangélicos em 2003 para 14% em 2009, somando agora 5,4 milhões de pessoas. Parece que vivemos dias quando o velho ditado “Cristo, sim, Igreja não”, embora uma contradição de termos, volta a ganhar popularidade.

A palavra grega “ekklesia”, traduzida como “igreja”, aparece 114 vezes no Novo Testamento. Destas, 5 vezes indicam o que alguns teólogos chamam de “igreja universal”, o corpo de Cristo que reúne todo o povo de Deus na história, desde Abraão aos nossos dias; 95 vezes fazem referência à igreja local (que está em Corinto, na casa de Áquila e Priscila, por exemplo); outras 9 vezes, em Efésios, que podem referir os dois sentidos, tanto universal quanto local; eoutras 5 vezes sem qualquer sentido religioso. Isso significa que as referências do Novo Testamento à igreja,é quase totalmente no sentido de uma comunidade cristã localizada no tempo e no espaço, a comunhão histórica de cristãos de determinada região.

Isso faz sentido, pois o exercício de viver em comunidade se constitui não apenas um dos maiores desafios para todas as gerações de cristãos, como também e principalmente indica a essência do propósito de deus revelado em Jesus Cristo. Podemos construir a compreesnão do significado e revelevância da expressão “igreja: ser e pertencer” a partir de seis eventos narrados na Bíblia: a criação do homem, a Torre de Babel, o chamado de Abraão, o advento de Jesus Cristo, o Pentecoste, e a visão do louvor ao Cordeiro no Apocalipse.

Quando Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, os criou macho e fêmea destinados a expressar o relacionamento da Santíssima Trindade, isto é, a viverem uma “unidade plural”, pois são três as pessoas, mas um único Deus. Adão considera Eva uma expressão de si mesmo: “osso dos meus ossos e carne da minha carne”, sendo, na verdade, duas as pessoas, mas uma só carne (Gênesis 1.26,27; 2.18-25).

A história da Torre de Babel registra o surgimento das nações – antes, um só povo com uma só língua, isto é, uma unidade plural, agora, muitas etnias, espalhadas por toda a terra (Gênesis 11.1-9). Mas Deus continua a insistir no seu propósito eterno para a raça humana, a saber, criar para si mesmo uma outra “unidade plural”, expressão de sua imageme e semelhança, com quem repartir sua comunhão de amor. Essa é a razão porque chama Abraão, com a promessa de fazer de sua descendência uma só nação, para sejam abençoadas todas a famílias da terra (Gênsis 12.1-3).

A descendência de Abraão é Jesus Cristo (Gálatas 3.16), que com seu sangue comprou homens e mulheres de todas as raças, tribos, línguas e nações, e fez deles um só reino (Apocalipse 5.9,10). Por isso é que o apóstolo Paulo diz que “os que são da fé (no Cristo) é que são filhos de Abrãao” (Gálatas 3.7), pois são estes os que receberam o Espírito Santo, derramado sobre toda a carne, isto é, sobre todas as famílias da terra, no dia do Pentecoste (Atos 2.17; Gálatas 3.14).

O Pentecoste é o oposto de Babel. A obra de Jesus Cristo, descendente de Abraão, possibilita o derramar do Espírito Santo de Deus sobre todos os povos, para que a unidade da raça humana seja restaurada e se cumpra o eterno propósito de Deus: “Ora, assim como o corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo muitos, formam um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um único Espírito” (1 Coríntios 12:12-13). Assim, “todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão” (Gálatas 3:26-29).

A conversão a Cristo, portanto, implica necessariamente a conversão ao próximo, e o comprometimento com o propósito eterno de Deus de criar para si um povo que expresse sua imagem e semelhança, isto é, seja uma unidade plural, que reflete em sua fraternidade universal a comunhão de amor que existe eternamente nas três pessoas divinas: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito. Essa foi a oração de Jesus: “Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste” (João 17:20-23).

Igreja: ser e pertencer. Cristo sim, Igreja sim. Pois é na comunidade dos cristãos que o sonho do Cristo se torna visível.

fonte: Blog do Ed René Kivitz

Qué isso mermão?

Tuco Egg, no A Trilha

De vez em quando ainda aparece alguém com aquele papo: “Rapaz, tu tá é lôko. Que pira é essa de ficar falando mal da igreja, da bisparada, dos pastores e pastoras, dos apóstolos e apostilas. Que lance é esse de falar que os evangélicos formam um forrobodó caótico sem significado? Qué isso mermão? Não é membro de igreja nenhuma. Cuidado, bróder. Abre o olho. Se cuida que sei lá onde cê vai parar com essa onda”.

E eu fico aqui pensando, não sei se respondo, se não respondo. Abaixo a cabeça, testa franzida, vagando o olho pro lado e pra cima, imaginando a poeira da palestina passando, carregada pelo vento quente que sopra do mar de Tiberíades. Quase consigo sentir o calor do sol queimando o lombo dos discípulos enquanto eles vão levantando as paredes daquela nova espécie de sinagoga.

Mateus, que tem a pele das mãos finas, os músculos frouxos por estar há tempos afastado do trabalho braçal, acostumado a contar moedas no seu escritório, foi incumbido de pintar a placa: “Ministério do Cordeiro de Deus”. A sugestão do nome veio de João Batista, que às margens do Jordão panfletava os passantes. “Convém que a sinagoga dele cresça e a minha diminua”, dizia o Batista.

Pedro, Tiago, João e Judas acompanhavam o mestre nas suas andanças, quando reunia multidões para falar de seu projeto visionário. Tiago e João, que com sua voz de trovão pareciam o Pavarotti e o Plácido Domingo, abriam os encontros conduzindo o louvor.

Jesus vinha em seguida com uma mensagem, lembrando de frisar a importância de contribuir com a obra que estava em andamento e abençoaria muitas vidas, sempre com Pedro ao seu lado. Vez ou outras Jesus pedia que Pedro desse um testemunho do que Deus vinha fazendo em sua vida através do “Ministério do Cordeiro de Deus”.

Judas passava em seguida pelo povo juntando os dízimos e ofertas, sempre repetindo, “contribuam pra construção da nossa sede”.

Bartolomeu, desconfiado que era, cumpria muito bem o papel de gerenciar a construção nos arredores de Cafarnaum. Só tinha trabalho com Tomé, sempre do contra: “Essa viga não vai aguentar Bartolomeu”, “vai sim, Tomé”, “hum, só acredito vendo…”.

E lá vão eles, pelos outeiros da Galiléia, entre figueiras, tamareiras e oliveiras, ladeados pelas delicadas colinas da Jordânia, levantando fundos para construção, abrindo franquias por toda Israel, convidando o povo a tornar-se membro do Ministério e, consequentemente, estar presente em todas as reuniões, encontros, retiros e campanhas, sem falta. Caso contrário, cuidado bróder. Abre o olho.

dica do João Marcos