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Estado da Geórgia, nos EUA, aprova lei que permite armas em igrejas

Legislação simboliza fracasso dos esforços do governo Obama por controle de armamento após ataque de atirador em escola primária

O presidente americano, Barack Obama, abraça mãe de criança assassinada no ataque à escola Sandy Hook: esforço federal para conter armas não funcionou (AP / 17-4-2013)

O presidente americano, Barack Obama, abraça mãe de criança assassinada no ataque à escola Sandy Hook: esforço federal para conter armas não funcionou (AP / 17-4-2013)

Publicado em O Globo

LOS ANGELES — Por um breve momento após a chacina na escola primária Sandy Hook, em dezembro de 2012, parecia que os Estados Unidos endureceriam suas leis sobre armas. Na época, o presidente Barack Obama anunciou um grupo de trabalho liderado pelo vice Joe Biden.

Um ano depois, estados americanos aprovaram 39 leis para reforçar o controle de armas. Mas, segundo o “New York Times”, no mesmo período, passaram outras 70 leis para enfraquecer esse controle.

A maré parece favorável ao lobby pró-armas. Na terça, a Câmara da Geórgia aprovou por 112 votos a 58 uma lei que permite aos cidadãos portar armas em bares, restaurantes, igrejas, aeroportos e salas de aula em escolas primárias. A ONG Americanos por Soluções Responsáveis (ARS), fundada pela ex-deputada Gabrielle Giffords — baleada em um tiroteio no Arizona em 2011 —, descreveu o texto como “a mais extrema lei sobre armas nos EUA”. O governador da Geórgia, o republicano Nathan Deal, deve sancioná-la.

A lei diz que líderes religiosos serão responsáveis por decidir se permitirão armas dentro de templos. O mesmo vale para donos de bares e seus estabelecimentos.

Por outro lado, nas escolas primárias, a direção poderá nomear funcionários para portar armas. A lei também permitirá, segundo críticos, que criminosos e pessoas sem porte de arma as usem sob a justificativa do “Stand Your Ground”, lei que permite a qualquer cidadão se defender caso se sinta ameaçado.

— O governador Deal precisa decidir se quer permitir armas nas filas do aeroporto mais movimentado do país, forçar conselhos escolares a debates amargos sobre a presença de armas nas salas de aula, e expandir a possibilidade de porte a pessoas que cometeram crimes com armas —disse Pia Carusone, diretora executiva da ARS.

Já para Jerry Henry, diretor do grupo pró-armas Georgia Carry, comemorou a nova lei e anunciou que a organização vai pedir mais relaxamento da legislação. A Associação Nacional do Rifle (NRA) também celebrou a aprovação como uma “vitória histórica”.

O estado da Geórgia é um dos vários que reagiram no sentido contrário às cobranças do governo federal. A maioria se concentra no Sul e no Oeste dos EUA, e tem Legislativos dominados por republicanos. A Carolina do Sul permitiu armas em bares e restaurantes. Oklahoma e Idaho têm novas leis autorizando a posse de armas em universidades. No Indiana, deputado analisam texto que daria o direito de manter armas em carros trancados dentro do terreno de escolas.

Outros estados, por sua vez, tomaram outro rumo. Em outubro, o governador da Califórnia, Jerry Brown, sancionou dez leis de controle de armas. Connecticut — onde aconteceu a tragédia da escola Sandy Hook — classificou sua legislação antiarmas aprovada ano passado como a mais dura dos EUA. A lei da Geórgia foi criticada pela polícia estadual e associações de restaurantes, assim a TSA, agência federal responsável pela segurança nos aeroportos.

A lei na Geórgia foi aprovada nos últimos instantes de uma sessão legislativa, impedindo a discussão sobre um projeto para permitir o uso de maconha como tratamento médico por crianças que sofrem de graves ataques epilépticos.

— Não fizemos nada pelas crianças, mas aprovamos uma lei sobre armas — disse o senador estadual Fran Millar, republicano.

dica do Ailsom Heringer

Doleiros usam igrejas para ‘lavar’ dinheiro

Doleiros usam imunidade tributária conferida por lei a templos religiosos para lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e sonegação fiscal.

André Guilherme Vieira, no Valor Econômico [via Unisinos]

foto: internet

foto: internet

As igrejas contam com uma condição fiscal privilegiada no Brasil. A Constituição estabelece no artigo 150 que é vedado à União, Estados, Distrito Federal e municípios, instituir impostos sobre templos de qualquer culto. A proibição compreende patrimônio, renda e serviços relacionados às finalidades essenciais das entidades nelas mencionadas. O Supremo Tribunal Federal (STF) já definiu que “templo” não está restrito ao espaço físico do culto religioso, compreendendo o conjunto de bens da organização religiosa, que devem estar registrados como pessoa jurídica.

“O uso de ‘templos de fachada’ ou ‘igrejas-fantasma’ está se disseminando no país”, alerta o desembargador federal Fausto Martin de Sanctis, especializado no combate a crimes financeiros e à lavagem de dinheiro. O magistrado, autor de livros sobre o tema no Brasil e nos Estados Unidos, destaca que a condição tributária singular franqueada às igrejas tornou-se um expediente eficaz para abrigar recursos de procedência criminosa, sonegar impostos e dissimular o enriquecimento ilícito: “É impossível auditar as doações dos fiéis. E isso é ideal para quem precisa camuflar o aumento de sua renda, escapar da tributação e lavar dinheiro do crime organizado. É grave”, conclui Sanctis.

Doações de organizações religiosas a partidos políticos são proibidas pela legislação. Elas podem significar cassação do diploma ou indeferimento da candidatura. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) firmou convênio com a Receita e a Polícia Federal (PF), para agilizar punições quando detectadas operações de caixa dois e outros ilícitos: “Sempre nos preocupamos com essa forma de doação, porque, além de criminosa, desequilibra a corrida eleitoral”, diz o juiz assessor da presidência do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), Marco Antonio Martin Vargas. “Agora há maior facilidade de aferição de recursos, por conta do cruzamento com dados das declarações de imposto de renda”, assinala Vargas. Ele salienta que a colaboração da sociedade é fundamental para reprimir o fluxo de valores não contabilizados e a lavagem de dinheiro. ” A doação ilegal existe, claro. E aquele que recebe por caixa 2 corre por fora da declaração de arrecadação e gasto”.

Na opinião do procurador da República em São Paulo, Silvio Luís Martins de Oliveira, que investigou e denunciou criminalmente responsáveis pela Igreja Universal do Reino de Deus por lavagem de dinheiro, evasão de divisas, formação de quadrilha e estelionato, é preciso refinar a fiscalização sobre atividades financeiras de entidades religiosas: “Eu acho que se a igreja cumpre um papel social, tudo bem quanto ao tratamento fiscal diferenciado. Mas quando começa a virar empresa de telecomunicações, fazer doações a políticos, aí é preciso refrear”. Segundo o procurador, o mecanismo utilizado em templos destinados à lavagem de dinheiro continua sendo o sistema paralelo conhecido como dólar-cabo, embora, algumas vezes, também envolva a compensação bancária: “Costuma ser um doleiro de confiança que busca ajuda de casas de câmbio, pois a quantidade de cédulas é enorme. É o que chamam de ‘dinheiro sofrido’, porque o fiel costuma pagar o dízimo com notas amassadas”, esclarece.

Uma das lideranças mais polêmicas da bancada evangélica na Câmara dos Deputados, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), discorda que falte fiscalização às doações realizadas às igrejas: ” Essa citada falta de fiscalização é questão de ponto de vista. Se o legislador após longo debate na Assembleia Nacional Constituinte isentou as instituições religiosas de impostos, nada mais fez do que atender aos anseios da maior parte da sociedade”, pondera.

O número de igrejas e templos abertos no país segue em crescimento, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação. São 55.166 organizações religiosas em atividade em 2014, contra 54.402 no ano passado e 46.010 em 2012. Crescimento de 18,24% na variação entre 2012 e 2013, e de 1,4% na comparação deste ano com 2013. O número de entidades religiosas já é maior que o de sindicatos (33.837) e que o de cooperativas (40.196).

O estudo “Religião e Território” (2013), dos pesquisadores Cesar Romero Jacob, Dora Rodrigues Hees e Philippe Waniez, indica expansão exponencial dos chamados “evangélicos não determinados”. Eles passaram de 580 mil no ano 2000 para impressionantes 9,2 milhões em 2010. Os evangélicos de missão cresceram de 6,9 milhões para 7,6 milhões no mesmo período, enquanto os evangélicos pentecostais passaram de 17,6 milhões para 25,3 milhões em dez anos.

Seguiu engessado por quase um ano na Comissão de Finanças e Tributação (CFT) da Câmara dos Deputados, Projeto de Lei Complementar (PLP) que suspenderia a imunidade tributária de templos de qualquer culto, partidos políticos, sindicatos e de instituições educacionais e de assistência social sem fins lucrativos. Mas a proposta foi retirada pelo próprio autor, deputado Marcos Rogério Brito (PDT-RO): “Foi o partido que me pediu para reapresentar o projeto, que originalmente teve outro deputado como autor, Gustavo Fruet (PDT) [atual prefeito de Curitiba]. Mas demandaria modificar a Constituição, então teria de ser pela via da emenda constitucional. Por isso retirei”, explica.

O parlamentar nega ter havido pressão para o descarte da proposta e afirma considerar a possibilidade de reconfigurar a ideia nos moldes de uma PEC. Mas diz que o estudo ainda não foi concluído pela área técnica da Câmara. No entanto, Brito diz que, pessoalmente, é favorável à imunidade tributária “para igrejas, partidos políticos, jornais e revistas”.

A manutenção da condição ímpar de isenção fiscal a que as entidades religiosas foram alçadas pela Constituição, é defendida intransigentemente pela bancada evangélica da Câmara dos Deputados, que conta com 73 parlamentares eleitos em 2010 e vem ganhando representatividade a cada nova legislatura. O deputado Marco Feliciano declara-se “visceralmente” a favor da imunidade fiscal aos templos, em nome da ‘liberdade religiosa’. Sobre o uso das casas religiosas para práticas de moral e legalidade questionáveis, Feliciano faz uma alusão indireta a entidades católicas: “Se partirmos do pressuposto que uma entidade não deve ter tratamento especial pela possibilidade de malfeitores se aproveitarem, por analogia o mesmo princípio se aplicaria às Santas Casas e Universidades mantidas por Fundações sem fins lucrativos”.

dica do Gerson Caceres Martins

Nanda Costa fala de novo papel: ex-prostituta que vira evangélica

“Não tenho problema em me despir”, diz Nanda Costa sobre nudez em série

Nanda Costa marca presença na coletiva de imprensa da série "O Caçador" (foto: Alex Palarea e Felipe Assumpção / AgNews)

Nanda Costa marca presença na coletiva de imprensa da série “O Caçador” (foto: Alex Palarea e Felipe Assumpção / AgNews)

Marcela Ribeiro, no UOL

Nanda Costa está de volta à tela da Globo na pele da ex-prostituta Marinalva, que vira evangélica e casa com um pastor na série “O Caçador”, que estreia dia 11 de abril às 23h30.

Apesar de exibir um visual simples, com roupas fechadas, cabelos presos e pouca maquiagem, ao longo da trama, Nanda aparecerá com pouquíssima roupa e em cenas ousadas em flashbacks da personagem da época que ainda era garota de programa.

“Sou uma atriz que se joga no trabalho, adoro desafios. A Marinalva está totalmente sem sex appeal, entrou para a igreja e está ali, toda coberta, mas já teve um passado de garota de programa. Em cena procuro sempre dar o meu melhor, me surpreender comigo mesma. Gosto de desafios”, contou ela durante apresentação da série à imprensa na última quarta-feira, 19, no Rio de Janeiro.

Para viver Marinalva, que só aparece a partir do sexto capítulo, a atriz frequentou cultos de igrejas evangélicas e pegou dicas com uma prima evangélica.

Sobre as cenas de nudez, ela garante que não vê problema em fazê-las. “Visto a roupa da personagem, não tenho problema em me despir, para mim, a arte não tem limites”, destaca ela, que ainda completa:

“A gente tem que saber onde está a sensualidade, a fragilidade, a beleza, a feiura. A minha vaidade maior é estar contando a história da forma mais verdadeira possível. Se ele estará sexy ou não, isso não tem problema”.

Em “O Caçador”, Marinalva tem um papel importante para ajudar André (Cauã Reymond) a provar que ele foi preso injustamente por um crime que não cometeu. Ela é filha de um policial envolvido no esquema que o botou na cadeia, que morreu, por isso, é a única pessoa que pode ajudá-lo a confirmar sua inocência.

No elenco, além de Nanda e Cauã, estão Alejandro Claveaux, que será Alexandre, policial irmão de André que vive um triângulo amoroso com Katia, papel de Cleo Pires. Jackson Antunes e Ailton Graça também estão na série, de Fernando Bonassi e Marçal Aquino com direção de José Alvarenga.

Igrejas: resistência e colaboração durante a ditadura militar

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Publicado em O Globo

Cinco anos após o golpe militar de 1964, o padre italiano Bruno Costanzo desembarcou no Rio. Assumiu a paróquia de Vila Aliança, na Zona Oeste, recebeu ordem para rezar missa pelo aniversário do golpe e ignorou. Meses mais tarde, nova carta de militares foi entregue. Dessa vez, para que celebrasse missa pela Independência do Brasil.

— O Brasil não era livre, não tinha por que celebrar missa em comemoração ao Dia da Independência. Nem no aniversário do golpe — lembra padre Bruno, hoje com 71 anos: — Outros religiosos também fingiam não ter recebido as cartas e nunca rezaram as missas. Agora, a gente agia sem pensar muito. Se pensasse, não ia agir assim.

Durante a ditadura, por todo o Brasil, alguns religiosos criaram grupos de resistência, deixaram de aceitar imposições do governo, denunciaram torturas, foram perseguidos e até ajudaram a tirar pessoas do país. Essa parte da História vem sendo contada há anos. Difícil, segundo pesquisadores, é reunir material sobre o colaboracionismo das igrejas Católica e protestantes. Por conta disso, na Comissão Nacional da Verdade (CNV), um grupo específico sobre esse papel reúne histórias sobre a resistência e tenta identificar os religiosos que colaboraram com os governos militares, ficaram em silêncio ou se omitiram.

— Naquela época, prevaleceram o silêncio e a omissão das igrejas, mas mesmo hoje as pessoas têm dificuldade de falar sobre colaboracionismo — diz Magali Nascimento Cunha, pesquisadora que faz parte do grupo da CNV, lembrando que as igrejas repetiam o que acontecia no Brasil: — Elas absorveram a tendência da sociedade em geral, que se omitia e se negava a se preocupar com o que ocorria. Os evangélicos, em geral, preocupavam-se em ir para o céu, como se a igreja estivesse fora do mundo. Os católicos, por conta da ligação que sempre tiveram com o poder, preferiram a cautela, mesmo depois dos questionamentos sobre o que acontecia. Já os que ajudavam, muitas vezes, nem tinham afinidade ideológica. Faziam por ter consciência das vidas em risco.

Coordenador do grupo da CNV, Anivaldo Padilha explica que a comissão tem encontrado documentos que comprovam o que já se sabia em relação à oposição ao regime, mas que, em relação ao colaboracionismo, conta principalmente com o testemunho de algumas pessoas. Mesmo ele, preso em 1970, quando, além de fazer parte da Aliança Popular, era diretor do Departamento Nacional da Juventude da Igreja Metodista, levou mais de 30 anos para ter a confirmação de que um bispo e um pastor deram seu nome aos militares.

— Os dois que me delataram, os irmãos Isaías Sucasas, que era bispo, e José Sucasas, pastor, já mortos, eram pessoas que eu conhecia. Numa das primeiras sessões de tortura, eu neguei ser comunista, e o torturador gritou: você quer que acredite em você ou no pastor? Achei que era um jogo, que era para quebrar minha moral. Como eram pastores, eu achava que isso (o cargo) exigia deles outra postura.

Padilha reúne casos sobre a época, mas reconhece a dificuldade de ter provas.

— Ainda há uma cortina de silêncio. Mesmo quando encontramos indícios fortes, há tentativa de negação. Entre o clero, há quase uma relação mística, uma barreira muito difícil de ser superada. Em relação aos protestantes, a barreira é menor — diz Padilha, lembrando que documentos sobre colaboracionismo foram encontrados no Centro de Informação do Exército:

— Um deles traz dados sobre um padre infiltrado, que esteve em reuniões no Rio e em São Paulo. E relata que, por conta da expectativa da expulsão de Dom Pedro Casaldáliga, Dom Paulo Evaristo Arns faria uma minibiografia sobre ele. E a comissão ouviu o relato de uma família que buscou ajuda no Convento dos Dominicanos, no Rio, e de lá foi encaminhada para a Nunciatura, uma espécie de embaixada. No entanto, ouviu que devia sair imediatamente porque a polícia seria chamada.

Controvérsias

Ainda que tenha havido colaboracionismo, a História aponta que o pastor presbiteriano Jaime Wright e bispos como Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Hélder Câmara, Dom Adriano Hypolito, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Clemente Isnard e Dom Waldyr Calheiros foram incansáveis na luta contra a ditadura.

Dom Eugênio, que viria a ser arcebispo do Rio, é, segundo pesquisadores, uma figura controversa. Conservador, apoiou o regime, mas em alguns momentos chegou a interceder por militantes de esquerda, a visitar presídios e até a receber perseguidos políticos do Brasil e de outras ditaduras da América Latina no Palácio São Joaquim, na Glória, conforme O GLOBO revelou em 2008.

Na Baixada Fluminense, na Região Serrana e no Sul Fluminense, um grupo de bispos debatia nas missas e nas pastorais ações do governo militar, violações dos direitos humanos e a luta pela terra. Chamados pelos militares de bispos vermelhos, eles foram perseguidos. Dom Adriano Hypolito, de Nova Iguaçu, foi sequestrado por agentes da repressão em setembro de 1976. Ele foi abandonado sem roupas e pintado de vermelho. Na Catedral de Santo Antônio, onde celebrava missas, um atentado destruiu o Santíssimo. O sequestro, que motivou uma passeata contra o regime, aconteceu três meses depois de o 1º Comando do Exército impedir a conferência sobre direitos humanos proposta por Dom Adriano. O evento aconteceria no Centro de Formação de Líderes da Igreja Católica, que foi cercado por militares. No mesmo dia seria criada a Comissão de Justiça e Paz, instituída no ano seguinte.

— Dom Adriano não era comunista, mas defensor dos direitos humanos. Deu abrigo e apoio a perseguidos políticos. O ministro-chefe da Casa Civil, Gilberto Carvalho, foi um deles — conta o diretor do Acervo Dom Adriano Hypolito, Antônio Lacerda: — Ele usava como instrumento de luta o jornal “A Folha”, utilizado nas missas e que colocava em discussão o Brasil. Depois, foi adotado em arquidioceses contrárias à ditadura.

Guardadas no Acervo Dom Adriano Hypolito, cartas inéditas às quais O GLOBO teve acesso comprovam a rotina de luta de bispos contra a ditadura. O material inédito inclui correspondência entre Dom Adriano e Dom Waldyr, na época em Volta Redonda, cidade com forte movimento operário. As cartas relatam ainda torturas, pedidos de ajuda e até trazem notícias sobre os padres e bispos que respondiam a inquérito policial militar.

“Aqui (em Volta Redonda) continua a fúria contra a denúncia de torturas que fizemos por alguns prisioneiros”, escreve Dom Waldyr em 15 de outubro de 1969. “Os primeiros dias que se sucederam ao Ato Institucional 5 foram acompanhados de várias detenções e prisões que as autoridades competentes julgaram que deviam fazer. (…) O coronel Armênio Pereira, comandante do 1º BIB, sediado em Barra Mansa, chama católicos e pessoas de minha confiança ao seu quartel para apresentar uma suposta documentação a fim de provar aquilo de que tenta se convencer a si mesmo: ser um comunista e agitador”, diz Dom Waldyr em 19 de janeiro de 1969.

O bispo colaborou com a fuga de perseguidos políticos e foi protagonista de um dos poucos casos de punição a militares envolvendo tortura na época. Seu relatório sobre a morte de quatro soldados levou à expulsão de quatro militares das Forças Armadas. “Mexer com bispo dá azar,” dizia o religioso.

— Dom Alberto Trevisan, capelão no Exército, nos defendia nos momentos mais difíceis. Ele tinha informações privilegiadas e sabia que eu e outros padres éramos visados — lembra padre Bruno.

Ferrenho na luta contra o regime, Dom Hélder estava à frente da Arquidiocese de Olinda e Recife quando houve o golpe. Perseguido, foi chamado de “demagogo” e “comunista”. Em 1969, o padre Antônio Henrique, um de seus assessores mais próximos, foi torturado e morto. Na época, outros 20 colaboradores foram presos e torturados. Dom Hélder não se calou: em 1970, fez um discurso contundente em Paris sobre o que acontecia no Brasil.

dica do Ailsom Heringer

Você é um filho da “geração que dançou”? – Uma análise

1Livan Chiroma, no Pólis Centro

Prometiam uma “Nova Unção”. Há cerca de 20 anos o campo religioso evangélico brasileiro estava praticamente estático. O costumeiro declínio numérico das igrejas históricas e o crescimento quantitativo das igrejas neopentecostais, ambos inevitavelmente demonstrado nas estatísticas.

Era inicio dos anos 2000 e os movimentos do tabuleiro evangélico dos próximos anos já pareciam definidos: Caio Fabio, fundador da AEVB (Associação Evangélica Brasileira) havia se retirado do Brasil. Durante muito tempo ele foi o opositor ideológico da IURD (1977). A Associação foi soerguida para criar polaridade às organizações neopentecostais, que ganhavam poder político e econômico e inseriam a Teologia da Prosperidade nas igrejas brasileiras. No entanto, Caio foi acusado de envolvimento com o “Dossiê Cayman”, além de cometer o “pecado abominável número 1″ dos evangélicos, o pecado moral de um relacionamento extra conjugal. Foi execrado pela opinião pública evangélista. A AEVB se fragmentou. Isto aconteceu em 1998.

No início dos anos 2000, na mesma Igreja Batista que catapultou o cisma na Convenção Batista Brasileira (CBB) (nascendo a Convenção Batista Nacional – 1965), emergiu uma “nova unção” para o Brasil. Márcio Valadão, pastor da Igreja Batista Lagoinha, havia enviado seus filhos para uma temporada no instituto Christ For The Nation, Ana e André foram treinados teologicamente como avivalistas e no movimento da “Chuva Serodia”. O movimento carismático Later Rain afirmava que a geração contemporânea seria uma “geração escolhida”, portanto receberia uma “chuva fora do tempo”. Chuva de bençãos, de prosperidade e do avivamento.

Aos que viveram o protestantismo nos anos de 1990, só o advento do grupo Vencedores Por Cristo havia provocado tamanha onda transformadora cultural, sobretudo na área musical. O VPC rompeu barreiras musicais, inserindo o rock e ritmos brasileiros no protestantismo evangélico e apresentou às igrejas brasileiras um louvor congregacional destoante dos hinos do séc XVI-XIX até então padrão na maioria dos cultos evangélicos. Mas isso foi nos anos 70. Como o retorno de Ana Paula Valadão ao Brasil, a cantora e filha do pastor principal da Igreja da Lagoinha passa a liderar os momentos musicais junto à uma das bandas que conduziam adoração nos cultos da Igreja Batista da Lagoinha. Conforme seu relato, tem uma visão: durante um banho, envolta à água e as espumas do chuveiro, antevê, em sua profecia particular, que  o Brasil seria banhado por uma onda de despertamento espiritual. Este evento fundante alavanca a gravação do primeiro CD da banda, que até então era simplesmente um grupo que entre outros que ministravam os momentos litúrgicos nos cultos da IBL.  Produzido e masterizado no exterior por Randy Adams, o CD explodiu em vendas. A escolha de Adams foi certeira e trouxe um padrão sonoro e de masterização de alta qualidade dificilmente encontrada nas produções evangélicas nacionais. A compra dos direitos da canção “Shout to the Lord“, composta por Darlene Zschech, líder do ministério cristão australiano “HillSong” impulsionou a fama do grupo. “Shout to the Lord” era um sucesso garantido e o grupo “Diante do Trono”, já em seu primeira investida fonográfica, alcança destaque nacional.

Liderado por Ana, o grupo “Diante do Trono”, vendeu mais de 10 milhões de CDs e, concomitante à atuação fonográfica, impulsionou diversas novas linhas teológicas e eclesiologias pelo Brasil. Este ministério evangélico não só foi o maior catalisador musical do movimento gospel durante os anos 2000 como protagonizou uma segunda onda cultural na música cristã evangélica brasileira. Os protestantes históricos, urbanos e pós modernos, não vivenciavam outros horizontes litúrgicos por décadas. Agora seria diferente. As igrejas pentecostais e históricas estavam culturalmente estáticas, sem grandes alterações morfológicas e gramaticais e, apesar de certas tentativas para alterar o desenho das igrejas protestantes como a “Igreja com propósito”, “Rede Ministerial”, estes sistemas eclesiásticos soavam, para a maioria do grande público, gerenciais e americanizadas demais – tais fiéis históricos tinham um novo paradigma – a “nova unção”, operando principalmente através da música gospel e o sistema de igreja em células, que disciplinava os membro das igrejas à “ganhar, consolidar, treinar e enviar”.

Na carona do DT veio o G12 – sistema de células – criado 10 anos antes, em Bogotá. No inicio da década passada foi uma enxurrada de pastores históricos e pentecostais aderindo ao sistema, nem sempre com respeito à suas denominações e membresias. Os crentes tradicionais ficaram confusos. O que estaria acontecendo quase que “do dia pra noite”?

Em dez anos o deslocamento cultural foi efetivado – os antigos grupos musical das igrejas locais protestantes realizaram uma repaginação estética e estrutural/teológica. Igrejas perdiam membros e o solo se moveu de maneira sem precedentes, uma verdadeira hemorragia e circulação dos membros, em direção às igrejas “avivadas”. Ouvi-se sobre “a igreja onde as pessoas caem no chão, em êxtase” (fenômeno “reciclado” dos anos de 1960. Porém o fenômeno, que em um período anterior, era experimentado em esfera privada, discretamente, a partir de sua versão contemporânea, era exposto midiaticamente pelos famosos artistas gospeis durante suas apresentações, virou “hit”). Em um Brasil pós ditadura militar e com o amadurecimento do neoliberalismo, cuja transversalidade influenciava outros setores estruturantes para além da economia, os sujeitos agora podiam operar suas próprias escolhas. A liberdade religiosa possibilitou o intenso trânsito das saberes do sagrado – sair de suas denominações familiares para outras (ou até, migrar para outras religiões não herdadas), mais modernas e conveniente, não era mais considerado como tabu ou afronta à religião dos pais.

Nesta onda surgiram novos grupos, novas teologias, novas “moveres”. Toneladas de novas bandas e pastores midiáticos. Também neste movimento o líder de adoração foi elevado ao status de um pastor. Considerados “levitas” que podiam “ministrar” ou seja, antecediam casa canção com uma pequena pregação. Antes o estreitamento com as escrituras era condicionado ao Pastor protestante (Para o pós moderno a experiência proporcionado pela arte e pelos sons pode ser mais interessante que ouvir um sermão explicativo da bíblia ou frequentar um classe de catequização – a catarse emocional como elemento de transcendência, que era comum ao pentecostal desde o início do século XX, penetrava o culto do protestante histórico, em uma espécie de “pentecostalização tardia”, o êxtase tornava-se também régua na mensuração da espiritualidade do protestante comum/histórico). A experiência emocional cúltica definitivamente tornou-se sobrepujante à reflexão racional.  O que os crentes assistiam no DVD ou no show gospel precisava ser repetido em suas igrejas locais e nem sempre a cultura eclesiástica  local suportava tamanha e rápidas mudanças de paradigmas. Hoje praticamente todas as denominações não católicas, tem em seus repertórios, ao menos rabiscos desta Cultura Gospel, tornando-se quase dominante à todos os viéses evangélicos.

Dificilmente alguém, sendo evangélico nos anos 2000, não ter ouvido sobre os grupos musicais Filhos do Homem, Casa de Davi, Santa Geração, Vineyard, David Quilan, Ludmila Ferber e muitos outros. Nesta mesma época muitos acessaram novos arsenais espirituais para eu cardápio: Vigílias no Monte, “mantras gospel”, unção com óleo, cânticos espontâneos, shofares (uma espécie de “berrante”), batalha espiritual, demônios territoriais, etc; anteriormente esses elementos eram observadas em redutos específicos, a partir desta virada, popularizaram-se e, em muitos casos, tornaram-se fundamentais na experiência comunitária do culto cristão. Falava-se em uma “judaização do cristianismo brasileiro”.

Costumes como “cair na unção”, atos proféticos, ser “pai de multidões”, surgiram no léxico do campo religioso protestante. Uma interpolação do antigo e novo testamento. Era um movimento tectônico poderoso de carga simbólica intensa. Para se entregar ao “novo mover”, os crentes precisavam transformar suas próprias biografias religiosas. A entrega ao “irracional”, ao “sobrenatural” era necessária e muitos “históricos” (batistas, presbiterianos, metodistas, …) “desde o berço”, através da inserção de suas comunidade aos novos vetores, realizavam estas metamorfoses ou, pelo menos, simulavam.  Era preciso para “estar na visão”, embora muitos “lá no fundo” relutavam em entrar na onda,  no entanto, com a adesão de suas igrejas e pastores ao neo carismatismo protestante, abdicaram da teologia conservadora, do estudo da bíblia como padrão de fé e confiaram suas pertenças religiosas à estas “novas visões”, principalmente adquiridas em congresso, CDs e literaturas que se espalhavam pelo Brasil.

Muitos se decepcionaram com estas promessas. Milhares, talvez milhões. Nesta movimentação, diversas comunidade resistiram à tentação do crescimento rápido, da evangelização fast food, propostas pelas novas técnicas. Muita gente bem intencionada, pastores e lideres mais conservadores, equilibrados, souberam realizar esta transição cultural com respeito. Outros não. Muitos dos quais decidiram fechar os olhos e lançarem-se aos novos movimentos, forçados pela pressão de grupos à “falarem em línguas”, ser “líder de multidões”, etc; hoje, após o desgaste dentro destes movimentos, optaram pelo desligamento, junto a muitos de seus membros. Recentemente ouvimos falar sobre os desigrejados, evangélico sem igreja, aumento do número daqueles desafeitos às lógicas evangélicas. Também, pessoas com sérios problemas psicológicos propiciados por abusos de pastores e lideres gananciosos. A lista é grande…

Há de se discernir o “joio e o trigo”. Algumas comunidades “decantaram” todo o movimento, assimilaram coisas e descartaram excessos. Além disso a onda diminuiu e formarem-se algumas ilhas, regiões do “avivamento”, como Belo Horizonte (sede do ministério Diante do Trono) e Manaus (“capital” do G12, sede do ministério de Renê “TerraNova”). Também as igrejas afins formaram redes e alianças, mais fios e traços dentro do complexo mapa religioso brasileiro. Concluo sugerindo que a geração que dança está passando, os jovens e adolescentes à época, tornaram-se adultos, com maior senso crítico e de avaliação de significados. Ainda não há sinais de uma nova onda tão significativa, ou então, tornou-se a grande onda fracionada em diversas outras vagas?

E 10 anos depois? Como estão os filhos da “Geração que dança”?

dica do Fabio Martelozzo Mendes