Nem tudo são flores no movimento evangélico

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Ricardo Gondim

Entrei em um salão de snooker sentindo náuseas. Uma vertigem diferente invadiu meu corpo. As mesas verdes espalhadas pelo largo espaço me lembravam um necrotério. Eu estava na Inglaterra.

Por que um necrotério? Eu explico. Aquele salão havia sido a nave de uma igreja. Porém, a congregação definhou através dos anos e o prédio precisou ser vendido. O pastor que me levou na insólita visita relatou que na Inglaterra um grande número de igrejas, iguais aquela, minguaram. Devido aos altos custos de manutenção, só restou ao remanescente negociá-las. Os maiores compradores, segundo ele, são muçulmanos, donos de lojas de antiguidades e bares e boates. Duro para um pastor ver um púlpito transformado em bar. Triste ler, entre bêbados, inscrições de textos bíblicos talhados em pedra – Pregamos a Cristo crucificado – O sangue de Cristo nos purifica de todo pecado.

Procurei voltar no tempo. Lembrei: aquela igreja, fundada durante o avivamento wesleyano, já tinha experimentado vitalidade espiritual. As placas de granito e mármore, ainda fixadas nas paredes, ostentavam o nome de pastores ilustres que pregaram no altar – agora, balcão de servir whisky. Eu estava ali, em um sábado, e o espaço estava cheio de homens vazios. Perguntei a mim mesmo: o que matou essa congregação? Em meu solilóquio, pensei no Brasil.

Semelhante ao avivamento wesleyano, o movimento evangélico cresce com taxas surpreendentes. Não há como negar a efervescência religiosa que toma o país. As periferias das grandes cidades estão apinhadas de templos evangélicos, todos repletos. Grandes denominações compram estações de rádio e televisão. Cantores evangélicos gravam e vendem mais que cantores seculares. Publicam-se centenas de revistas e incontáveis títulos de livros. Livrarias comercializam bugigangas religiosas. Por outro lado, talvez bem diferente do que aconteceu na Inglaterra, o desgaste do movimento é assombroso. Entre os formadores de opinião – jornalistas, blogueiros, acadêmicos – a credibilidade ética fica na redondeza do zero.

Essa realidade produz desdobramentos preocupantes. Se, com toda a rigidez doutrinária do protestantismo inglês, ética do metodismo e a própria disciplina anglo-saxônica aquelas igrejas morreram, o mesmo não pode acontecer no Brasil? Infelizmente, sim. Insisto: as razões que implodiram inúmeras congregações europeias são diferentes, óbvio. Lá, a reação anticlerical alicerçada na filosofia naturalista apressou os processos de secularização. Universidades fomentaram enorme antipatia a tudo o que não cabia no esquema lógico e racional. Sem penetração popular, o liberalismo teológico ainda procurou avenidas de diálogo, mas não foi muito longe. No Brasil, o que ameaça o movimento evangélico? A própria estrutura teológica e institucional que o sustenta e expande.

Quem visita uma igreja evangélica no Brasil tem a oportunidade de perceber o culto a uma divindade bem tribal. O Deus paroquial cultuado na maioria das igrejas se molda aos contornos teológicos da comunidade. A divindade ajuda a ascender com upgrade financeiro, com cura e com solução imediata de problemas. Deus não passa de um ajudador celestial, que se acessa e que se conquista, cumprindo obrigações. Devidamente adulado, ele resolve tudo. O divino selvagem fica tão domesticado que o pastor parece ser o único a ter medo: talvez a oferta não cubra as despesas da igreja e os planos de expandir a obra de Deus fiquem comprometidos. Essa habilidade de manejar o divino fomenta uma atitude displicente e descomprometida quanto ao sagrado. O Deus a serviço do povo para lhes cumprir desejos se distancia tanto da tradição judaica, que identificava Javé como fogo consumidor, como da tradição cristã – católica e protestante -, que sempre cantou o Aleluia de Handel em pé.

O tom de voz exigente e determinante dos neo-apóstolos deixa uma dúvida: quem é o senhor de quem? O culto no movimento evangélico é antropocêntrico. Enquanto prevalecem as catarses coletivas com testemunhos mirabolantes de milagre, fica uma pergunta: Deus é mais um estimulante químico? Pastores não se incomodam de transgredir o mandamento de tomar o nome de Deus. Juram falar em seu nome — só para serem contraditos por suas próprias profecias. Os milagres, inflados pela manipulação, revelam falta de reverência. Descaso com o sagrado é faca de dois gumes. Se, por um lado, demonstra a familiaridade do sacerdote, por outro, gera complacência entre o povo.

Complacência e enfado são sinônimos. Acostumado com o Mistério Tremendo, o crente trivializa o divino. O espaço religioso se profana e acaba no mesmo patamar dos encontros corriqueiros, aqueles que podem ser adiados ou não, dependendo das conveniências.

O movimento evangélico mostra pouco cuidado com jargões e clichês. Frases de efeito são copiadas e repetidas sem muita preocupação com seus conteúdos. Algumas, vazias, servem apenas para criar o frenesi ou para demonstrar as certezas do líder. Em alguns redutos, vinhetas repetidas ad nauseum escondem despreparo teológico. Nada como uma frase pronta para legitimar a preguiça. Existe um interesse claro de elevar a temperatura emotiva do culto, mas não de desenvolver senso crítico. Gera-se triunfalismo, mas não se fornecem ferramentas para transformar realidade social. Hannah Arendet, filósofa do século XX, comentou sobre o fato de Eichmann, nazista e braço direito de Hitler, responder com evasivas às interrogações do tribunal de guerra: Clichês, frases feitas, adesões a condutas e códigos de expressão convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos.

As afirmações tempestivas que infestam o movimento evangélico agem como uma droga pesada. Além de alienar, em cada picada ou cheirada, o narcótico cria mais dependência por dar a sensação de que o próximo efeito será maior do que o anterior.

Quais perspectivas teológicas se desenham no futuro do movimento evangélico? A mistura de meios e fins deve agudizar-se. A ideia de que os fins justificavam os meios já foi devidamente desmerecida – a premissa justifica qualquer comportamento antiético. Tomado por um pragmatismo exacerbado, o movimento evangélico tende a confundir o que é meio e o que é  fim.

Grave, não saber se a igreja existe para levantar dinheiro ou se o dinheiro é mero instrumento de continuar com a igreja. A música cultua ou diverte? Publicam-se livros como negócio ou para divulgar ideias? Os programas de televisão visam popularizar determinado ministério ou proclamar uma mensagem? A resposta deixou de ser fácil. Jesus não virou a mesa dos cambistas por discordar do serviço que eles prestavam aos peregrinos que adoravam no templo. Jesus detectou que ali, meios e os fins se tornaram confusos. Já não se discernia com clareza se o templo existia para mercadejar ou se o negócio ajudava o culto. A obsessão por dinheiro, a corrida desenfreada por fama e a paixão por títulos escancaram realidades complicas: muitas igrejas já não sabem se existem para faturar ou se faturam para existir; não gastam energia em busca de um auditório que os ouça; agora, procuram uma mensagem que segure o auditório. A confusão de meios e fins já começou e o processo de implosão do movimento fica próximo. Vale tudo para manter o show da fé.

O fato de crescer, numericamente, não imuniza o movimento evangélico dos perigos que o rondam. O contrário é mais temerário. Quanto mais um movimento cresce, mais vulnerável à cultura que o rodeia; e quanto mais parecido com cultura, menos ousado em tentar transformá-la. Esses pequenos desvios podem se tornar abismos amanhã. Imaginar que um imenso templo pode virar um bar de snooker pode parecer exagero. Todavia, eu testemunhei na Inglaterra: pesadelos acontecem.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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Alckmin ora com pastores e defende parcerias com entidades religiosas

Geraldo Alckmin durante culto na Igreja El Shaddai, associada ao Ministério Internacional da Restauração (foto: Danilo Verpa/Folhapress)
Geraldo Alckmin durante culto na Igreja El Shaddai, associada ao Ministério Internacional da Restauração (foto: Danilo Verpa/Folhapress)

Gustavo Uribe, na Folha de S.Paulo

Em busca do apoio evangélico na disputa eleitoral deste ano, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), subiu nesta quinta-feira (11) no altar de uma igreja neopentecostal e defendeu a manutenção das parcerias do governo estadual com entidades religiosas para a reabilitação de dependentes químicos.

Em discurso a uma plateia de 400 pastores, no qual pregou os princípios cristãos e o fortalecimento da família, o tucano disse que o consumo de crack no país se tornou uma “epidemia” e defendeu a importância do trabalho social das igrejas evangélicas.

“Eu vim pedir as orações de vocês. Nós somos parceiros e iremos trabalhar juntos no trabalho social das igrejas, procurando apoiar quem mais precisa”, garantiu.

Na disputa estadual deste ano, a ampliação das parcerias com entidades religiosas em programas para dependentes químicos é uma das principais reivindicações de lideranças evangélicas, que dialogam com quase um quarto dos paulistas.

A Secretaria da Justiça de São Paulo possui atualmente convênios com 31 comunidades terapêuticas, com ou sem vínculos religiosos, nas quais oferece 787 vagas. O valor médio pago por mês por vaga ocupada é de R$ 1.350.

No palco da Igreja El Shaddai, associada à denominação Ministério Internacional da Restauração e com 850 templos no Estado, o tucano orou de olhos fechados e recebeu a bênção dos pastores.

“Não há nada mais importante, mais bonito na vida, que evangelizar e levar a palavra de Deus às pessoas”, pregou o governador.

Em discurso de tom religioso, o tucano defendeu a unidade familiar como a “primeira célula da nação” e elogiou a atuação da igreja evangélica em São Paulo.

“Eu vim aqui para agradecer: quanto mais vocês trabalharem e levarem sua mensagem, melhor para São Paulo e para o Brasil”, disse o tucano, sob gritos de “aleluia” dos pastores presentes na plateia.

No final do encontro, o apóstolo Fábio Abbud, presidente da Igreja El Shaddai, pediu o apoio dos pastores presentes ao tucano.

A última pesquisa Datafolha, divulgada nesta quarta-feira (10), mostrou que a expectativa de voto de Alckmin entre os eleitores que se declaram evangélicos pentecostais é de 49%. Em agosto, no entanto, ela chegava a 63%.

CONFIDENCIAL

A participação do tucano na reunião com evangélicos não foi divulgada pela assessoria de imprensa do governo ou da campanha.

Desde o início da disputa estadual, em julho, o governador tem participado de agendas religiosas, em igrejas católicas e evangélicas, que são tratadas por sua equipe como “confidenciais”.

De acordo com tucanos, elas não são informadas para que a presença de jornalistas não atrapalhe os cultos e para que a divulgação da visita não cause atritos com outras igrejas que ainda não foram visitadas pelo tucano.

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ONG evangélica lança campanha contra o “voto de cajado”

Contra o Voto de Cajado

Alessandra Mello, no Estado de Minas

Contrária ao mercado do voto religioso, a Rede Fale, uma organização não governamental que congrega evangélicos de diferentes igrejas, lançou  nessa quarta-feira uma campanha contra essa prática, muito comum em tempos de campanha. E não é para menos. Os evangélicos hoje, segundo o mais recente censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estática (IBGE), representam 22% da população brasileira, ou 42,2 milhões de pessoas, um contingente expressivo que pode decidir uma eleição. Além disso, na atual disputa presidencial, dois dos 11 candidatos a presidente, Marina Silva (PSB) e Pastor Everaldo (PSC), são evangélicos.

Batizada de “Diga não ao voto de cajado” – referência ao instrumento cartilhausado pelos pastores para tocar animais –, o objetivo da campanha é qualificar a participação evangélica nas eleições, estimulando a discussão de temas relacionados ao pleito, e combater o uso da religião como instrumento para obtenção de votos, afirma a secretária-executiva da Rede Fale, Morgana Boostel, 27 anos, psicóloga e fiel da Igreja Batista. “Nosso foco é trabalhar para combater a estratégia de angariação de votos dos membros da igreja como curral eleitoral.”

Segundo ela, a Rede Fale defende o direito a manifestação de fé, garantido pela Constituição, mas também que o espaço religioso não seja usado como trampolim eleitoral. Morgana lembra que essa prática, além de não ser um exemplo da “melhor tradição cristã de participação política”, também é vedada pela legislação eleitoral. Pastores, bispos e também padres são proibidos de fazer propaganda eleitoral em igrejas e templos. Também não é permitida a fixação ou distribuição de material de campanha dentro desses ambientes.

Na avaliação da Rede Fale, um dos perigos para o cristão que deseja atuar politicamente é achar que, por ser “crente”, está abençoado para a política. “Essa é a concepção que leva milhões de brasileiros a votar no ‘pastor’ ou no ‘irmão’ abençoado pelo pastor. Como consequência, muitos parlamentares são eleitos sem compromisso com a justiça ou a democracia, e sem coerência partidária, programática ou ideológica, e se tornam ‘despachantes de igrejas’ – gente que vota sempre para a expansão do poder de suas igrejas, associações, rádios e empresas”, afirma um dos trechos do manifesto divulgado ontem pela organização.

Para Morgana, isso acontece principalmente nas eleições para os cargos proporcionais (deputado e vereador) , mas não tem muito apelo nas disputas presidenciais. Além disso, de acordo com ela, há um mito de que o eleitorado evangélico vota do mesmo jeito e sempre de acordo com as lideranças religiosas. “Isso é bobagem. Tem cristão mais progressista, tem uns mais conservadores, não é uma massa que pensa igual, a reboque dos pastores”, garante. De acordo com Morgana, a campanha contra o voto de cajado está sendo feita nas redes sociais e todo o material de divulgação pode ser acessado na página da entidade, que pretende até o dia das eleições realizar atos em todos os estados.

dica do Thiago Ferreira de Morais

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Malafaia rejeita influência e diz que Marina não é candidata evangélica

James Cimino, no UOL

foto: Paula Giolito/Folhapress
foto: Paula Giolito/Folhapress

Apontado como pivô de uma mudança no programa de governo da candidata Marina Silva (PSB), o pastor Silas Malafaia negou sua influência sobre a ex-senadora, que também é evangélica.

Após Marina lançar seu programa de governo com uma ampla plataforma de defesa dos direitos dos LGBT (Lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros), houve uma manifestação de repúdio por parte do pastor no Twitter. A campanha da candidata então suprimiu diversos itens da pauta como o casamento igualitário e o projeto de lei que pune a homofobia.

“Marina não é candidata dos evangélicos. Marina é a candidata do brasileiro que quer mudança no país. Tem evangélico que vai votar em Aécio. Tem evangélico que vai votar na Dilma. Ela é a candidata de todo mundo que está de saco cheio do PT”, disse o pastor em entrevista exclusiva ao UOL.

Na maior parte da entrevista –que durou quase uma hora–, Malafaia parecia estar pregando. Repetia diversas frases de efeito em voz alta e começava a responder às questões antes de a reportagem terminar de formulá-las, sempre com tom de voz elevado. Diz ser defensor do estado democrático de direito, mas quando questionado por que gays e evangélicos não podem coexistir na mesma sociedade tendo os mesmos direitos, ironiza: “Que coexistir?!”

Ao ser questionado em que dar direitos aos LGBT prejudica os evangélicos ou que solução daria à questão caso fosse presidente, negou-se a responder: “Ora, eu não tenho que te convencer de porcaria nenhuma! Eu não sou presidente e não posso responder isso pra você e nunca vou poder responder.”

Menor que Edir Macedo

Embora não seja político nem nunca tenha se candidatado a nenhum cargo, Silas Malafaia se tornou uma figura política ruidosa.

Atualmente, ele tem uma base de cerca de 13 mil fieis na igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, segundo dados do site da entidade, 784 mil seguidores no Twitter, além de ser vice-presidente do Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil, entidade que agrega mais de 8.500 pastores brasileiros.

Mesmo assim, Malafaia está longe de ser uma unanimidade no meio. A reportagem entrevistou os pastores Ricardo Gondim, da igreja Betesda (5.000 fieis em SP e 50 igrejas pelo Brasil), e o pastor Egon Kopereck, presidente da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (240.855 membros e 532 paróquias), que criticaram seus métodos e questionaram sua influência entre cristãos.

Kopereck diz que, embora Malafaia diga aquilo que muitos pastores gostariam de dizer, seu posicionamento é radical e cria uma imagem negativa do evangélico.

“Não é assim que se implanta a fé cristã. Gostaria que o país todo fosse cristão, mas uma coisa é querer. Não posso voltar às Cruzadas e obrigar as pessoas a seguirem uma religião.”

Além disso, diz que, em sua igreja, se um pastor resolve seguir a carreira política, é encorajado a deixar o ministério. “Não apoiamos nenhum pastor que queira exercer a política partidária.”

Já Gondim, autor do artigo “Deus nos Livre de um Brasil Evangélico” e cuja igreja se distancia do “evangélico fundamentalista por questões éticas”, diz que a ideia de democracia propagada pelo pastor tem um viés ditatorial, já que despreza a inclusão das minorias.

Para ele, Malafaia tem bem menos influência que gosta de propagar.

“Ele não tem toda essa força que alardeia. O Edir Macedo tem bem mais cacife político. Já elegeu ministro e agora pode até eleger um governador, o bispo Crivella, no Rio de Janeiro. Além disso, se ele tivesse tanta influência a ponto de mudar as eleições, seu candidato não teria apenas 1% das intenções de voto.”

Durante a entrevista ao UOL, o pastor Silas Malafaia minimizou as críticas dos outros pastores dizendo que eles representam “0,000001% do pensamento evangélico”. “E esses caras aí [os pastores] falam isso de mim porque têm dor de cotovelo e porque tomam o maior sarrafo da minha teoria teológica. Só um idiota babaca pra falar o que essas caras falaram. Nunca falei que sou melhor que os outros. Não me dou essa importância.”

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Vídeos com ofensas a candomblé e umbanda se multiplicam na internet

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Devoção atacada: na imagem, adepta da umbanda acende vela em reverância a orixás. Culto às entidades africanas é associado ao demônio em vídeos na web – Domingos Peixoto / Agência O Globo

Publicado em O Globo

O roteiro é quase sempre o mesmo: numa igreja lotada de fiéis, o pastor informa que há ali uma alma atormentada. O anúncio é seguido pela entrada de um homem em espasmos, agarrado por um grupo de funcionários do templo. Ele se apresenta como Exu e responde a uma série de perguntas feitas por outro homem, que se identifica como pastor. Diz que quer destruir a vida do incorporado, frequentador de terreiros de candomblé. Mas admite ser fraco e acaba subjugado pela força divina.

A cena se repete em milhares de vídeos encontrados na internet. “Macumbeiro desafia pastor e se converte a Jesus”, “Expulsando 500 demônios e arrancando a macumba” e “Testemunho de ex-macumbeiro” são os títulos de alguns deles. Ainda que tenham sido removidos os filmetes ofensivos que deram início à controvérsia envolvendo o juiz da 17ª Vara de Fazenda Federal do Rio de Janeiro Eugênio Rosa de Araújo – que afirmou que candomblé e umbanda não se configuram como religiões -, insultos parecidos continuam a proliferar na rede.

– A internet tem sido usada de forma deliberada. As pessoas acham que a rede é terra de ninguém, então, atualmente, esse é um dos principais meios de disseminação das ofensas – afirma o delegado Henrique Pessoa, designado pela Polícia Civil para acompanhar os casos de intolerância religiosa no Rio. – Esse tipo de ação tem dificultado muito o trabalho de conter a discriminação. Há sites com insultos hospedados no exterior. E, mesmo quando os vídeos são retirados, pouco tempo depois, outros são colocados no ar.

ma busca rápida no YouTube indica as proporções do problema. A combinação dos termos “candomblé” e “demônio” resulta em 7.290 ocorrências. “Umbanda” e “Lúcifer”, em 4.610. Já a expressão “Ex-pai de santo” está associada a 13.600 vídeos da plataforma. Além de rituais de exorcismo, o material encontrado na web mostra um festival de ofensas às religiões de matriz africana, associadas erroneamente ao demônio. Em um deles, um pastor diz que uma mulher incorporada por Iansã – orixá das tempestades e ventanias na mitologia do candomblé – faz sexo com o diabo. Outro mostra a viagem de um pastor que vai à Bahia com a missão de desenterrar um despacho. Em um terceiro, um religioso diz que um jovem que “vive no homossexualismo” está incorporado por Lúcifer, mas agora fará “um pacto com Deus”.

A polêmica sentença do juiz do Rio se referia a 15 vídeos com conteúdo similar. Um deles mostrava uma “ex-macumbeira” relatando sua conversão a uma religião neopentecostal. Em outro, é exibida uma “entrevista com o encosto”. Havia ainda a apresentação de um “jovem ex-pai de santo manifestando um demônio na hora da reconciliação”. A ação que levou à retirada do material foi movida em fevereiro pela Associação Nacional de Mídia Afro (ANMA). O grupo pedia ao Ministério Público Federal que acionasse a Justiça para solicitar ao Google, proprietário do YouTube, a remoção dos filmetes, postados por pastores ou representantes de igrejas evangélicas. Depois de despertar a ira de adeptos do candomblé e da umbanda, Eugênio Rosa de Araújo reviu os fundamentos da sentença e admitiu o erro. Em junho, uma decisão liminar da 2ª Região da Justiça Federal determinou a retirada dos vídeos do ar.

PASTOR: ‘A IGREJA OFERECE A PORTA DE LIBERTAÇÃO’

Diretor da Associação dos Pastores e Ministros Evangélicos do Brasil, Carlos de Oliveira diz que as cerimônias mostradas pelos vídeos são usuais em igrejas evangélicas neopentecostais e que o ritos não configuram desrespeito às religiões afro-brasileiras.

– Vivemos em um país democrático, e o lindo do país democrático é liberdade de religião. Há pessoas que adoram Satã. Elas sabem que o diabo sai pra fazer coisas ruins, mas resolvem adorá-lo. Mas nós consideramos que alguns personagens da religião africana não fazem o bem. Se a pessoa quer continuar com aquele ser, tudo bem. Mas, se procura ajuda, a igreja evangélica oferece a porta de libertação. O que não significa que o candomblé não tenha legitimidade de existir – opina o pastor da Assembleia de Deus.

Já o Google explica que não exerce censura prévia dos conteúdos do YouTube. Quando usuários do site sinalizam vídeos que podem violar diretrizes, a equipe revê o material para avaliar se deve removê-lo. “Não cabe aos responsáveis por plataformas digitais o papel de balancear direitos fundamentais, como liberdade de expressão e liberdade religiosa, para determinar quais conteúdos devem ou não ser removidos. Tal papel é exclusivo do Poder Judiciário. Se houver uma ordem judicial determinando a retirada do conteúdo, o Google irá cumpri-la”, acrescenta a empresa.

A importância da ação do Estado no controle da discriminação religiosa é destacada pelo advogado Hédio Silva Junior, que representou a ANMA no caso dos vídeos retirados do ar:

– O Brasil tem uma sociedade diversa do ponto de vista cultural e religioso. Em um contexto como esse, o Estado tem o papel de fomentar a convivência pacífica e garantir que todas as religiões sejam respeitadas – afirma o advogado. – Entendo que o país precisa de uma lei que discipline a liberdade de crença, que faria com que grupos minoritários se sentissem mais protegidos. O que o ocorre hoje é que as religiões chamadas majoritárias, sobretudo as que preservam uma proximidade com Estado, têm também suas decisões mais respeitadas.

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