10 fotografias raras e reais de escravos brasileiros há 150 anos

Publicado no Somente Coisas Legais

Estas imagens, tiradas há mais de 150 anos, são registros únicos de uma das épocas mais cruéis da sociedade brasileira. Quando estudamos sobre a escravidão no Brasil, temos acesso a ilustrações, encenações e, é claro, descrições do período na literatura. Desta vez, poderemos observar imagens que mostram realmente pessoas da época que eram submetidas à escravidão.

Quando nos deparamos com o post do blog História Ilustrada e nos surpreendemos com a qualidade das imagens, decidimos também mostrar aqui esse conteúdo tão importante – e lamentável – da história brasileira.

O que tornou possível tamanha riqueza de imagens de época, segundo o site, foi o interesse do Imperador Pedro II pela fotografia, o que tornou o Brasil um dos países em que primeiro se desenvolveu esta prática.

Todas as fotos são do período entre 1860 e 1885 e têm como fonte o Acervo Instituto Moreira Salles, de onde ainda pretendemos escrever alguns posts sobre outros assuntos históricos. :)

Senhora na liteira (uma espécie de "cadeira portátil") com dois escravos, Bahia, 1860 (Acervo Instituto Moreira Salles)
Senhora na liteira (uma espécie de “cadeira portátil”) com dois escravos, Bahia, 1860 (Acervo Instituto Moreira Salles)
Primeira foto do trabalho no interior de uma mina de ouro, 1888, Minas Gerais. (Marc Ferrez_Acervo Instituto Moreira Salles)
Primeira foto do trabalho no interior de uma mina de ouro, 1888, Minas Gerais. (Marc Ferrez_Acervo Instituto Moreira Salles)
Negra com uma criança branca nas costas, Bahia, 1870. (Acervo Instituto Moreira Salles)
Negra com uma criança branca nas costas, Bahia, 1870. (Acervo Instituto Moreira Salles)

 

Negra com o filho, Salvador, em 1884 (Marc Ferrez_Acervo Instituto Moreira Salles)
Negra com o filho, Salvador, em 1884 (Marc Ferrez_Acervo Instituto Moreira Salles)

 

Foto da Fazenda Quititi, no Rio de Janeiro, 1865. Observe o impressionante contraste entre a criança branca com seu brinquedo e os pequenos escravos descalços aos farrapos (Georges Leuzinger_Acervo Instituto Moreira Salles)
Foto da Fazenda Quititi, no Rio de Janeiro, 1865. Observe o impressionante contraste entre a criança branca com seu brinquedo e os pequenos escravos descalços e aos farrapos (Georges Leuzinger_Acervo Instituto Moreira Salles)
Escravos na colheita do café, Rio de Janeiro, 1882 (Marc Ferrez_Acervo Instituto Moreira Salles)
Escravos na colheita do café, Rio de Janeiro, 1882 (Marc Ferrez_Acervo Instituto Moreira Salles)
Escravos na colheita de café, Vale do Paraíba, 1882 (Marc Ferrez_Colección Gilberto Ferrez_Acervo Instituto Moreira Salles)
Escravos na colheita de café, Vale do Paraíba, 1882 (Marc Ferrez_Colección Gilberto Ferrez_Acervo Instituto Moreira Salles)
Quitandeiras em rua do Rio de Janeiro, 1875 (Marc Ferrez_Acervo Instituto Moreira Salles)
Quitandeiras em rua do Rio de Janeiro, 1875 (Marc Ferrez_Acervo Instituto Moreira Salles)
A Glória, vista do Passeio Público, Rio de Janeiro, 1861 (Revert Henrique Klumb_Acervo Instituto Moreira Salles)
A Glória, vista do Passeio Público, Rio de Janeiro, 1861 (Revert Henrique Klumb_Acervo Instituto Moreira Salles)

Veja no vídeo uma compilação de várias imagens tiradas do Acervo Instituto Moreira Salles.

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Conheça a história da ‘santa feia’ que perderá o lugar no interior gaúcho

santa feia

Publicado na Folha de S. Paulo

Santa de devoção do ex-técnico da seleção Luiz Felipe Scolari, Nossa Senhora de Caravaggio está no meio de uma polêmica em Farroupilha, cidade da serra gaúcha.

Fiéis que visitam o santuário da cidade, o maior do país dedicado à santa, não escondem: a imagem da padroeira que adorna a entrada do município é feia demais.

Apresentada ao público em 2008, a imagem ajuda a atrair turistas –o santuário recebe cerca de 2 milhões por ano. Mas o fato é que a aparência da figura de sete metros, de espuma e fibra de vidro, não agrada –devotos afirmam que o rosto é desproporcional, para dizer o mínimo.

Por isso, ainda naquele ano, a santa foi submetida a uma “plástica” pelo autor da obra, Roberto Chiaradia, que afinou partes da imagem, como o nariz. “Falam que ela é feia. Cada um tem um gosto”, diz o escultor, sugerindo contrariedade com o encargo.

Como o tratamento estético emergencial não adiantou muito, a solução foi encomendar uma nova imagem.

O santuário promove uma vaquinha na internet para custear a empreitada –fiéis solidários à causa da santa já doaram R$ 25,4 mil dos R$ 100 mil necessários.

SANTA ESCONDIDA

A nova imagem –com seis metros, 20 toneladas e toda de concreto– substituirá a antiga na rótula da RS-453. A rodovia é conhecida como estrada dos romeiros, já que liga a estátua, num das entradas de Farroupilha, ao santuário.

O destino, porém, da imagem rejeitada é incerto.

“A santa é deles, eles fazem o que querem. Não tem problema nenhum desde não estraguem a minha”, afirma um resignado Chiaradia.

O secretário de Turismo do município, Fabiano Picolli, diz que a santa “feia” deverá ir para dentro da cidade, porém mais longe dos olhos do público. “O objetivo é colocá-la em local visível, mas que guarde distância. Se passar perto, você consegue ver os motivos da substituição”, diz.

O culto à Nossa Senhora de Caravaggio começou em 1432 na cidade italiana que leva o nome da santa. Já popularizada, a devoção chegou à serra gaúcha com os imigrantes italianos no início da colonização, a partir de 1875.

A romaria realizada todos os anos entre 24 e 26 de maio reúne cerca de 200 mil fiéis. A maioria se desloca a pé, cumprindo promessas.

BONECA DE OLINDA

“Como devoto me sinto ofendido com a estátua que está ali. Sofro muito”, diz o secretário Picolli. Segundo ele, a santa já foi apelidada de “boneca de Olinda” e até de “biscoito Trakinas”, aquele do rosto na bolacha.

O mais famoso devoto da santa e frequentador do santuário é o novo técnico do Grêmio, Luiz Felipe Scolari, que vai ao local desde os tempos de jogador, no final dos anos 60. Fez promessas à santa antes da Copa de 2002, quando a seleção comandada por ele foi pentacampeã, e agora, em 2014, antes da campanha no Mundial marcada pelos 7 a 1 contra a Alemanha.

Neste ano, até o goleiro titular da seleção, Júlio César, posou na capa da revista “Caras” com uma miniatura da santa depois de ele ter defendido pênaltis na classificação do Brasil contra o Chile.

O padre reitor do santuário, Gilnei Fronza, diz que a mudança segue a vontade da comunidade. “O protótipo já agradou. Ela é uma formosura. E os detalhes são muito ricos”, comemora, aliviado.

O trabalho de construção ocorre num pavilhão dentro do santuário, aberto à visitação. E a santa só sairá de lá com “aceitação total” da comunidade, afirma um precavido padre Fronza.

O artista incumbido de dar vida à nova santa promete fazer jus à responsabilidade. “As imagens sacras são símbolos que nos aproximam de Deus. Por isso ela tem que ser bonita, ter leveza, delicadeza”, diz Gilmar Pocai.

Para ele, a estátua antiga “ficou muito caricaturada” e “não transmite a figura de mãe que as pessoas gostariam de ver”.

Há, no entanto, quem defenda a imagem rejeitada. “A devoção vai além [da estátua]. É desnecessário trocar”, diz a comerciante Elizabete Ramires Ribeiro, 37.

Ironicamente, quem procura a imagem pelo serviço Street View do Google encontra o rosto da santa antiga desfocado. O Google diz, contudo, que se trata de um ajuste automático, feito por um programa que desfoca as imagens ao detectar rostos. Nada a ver, portanto, com a polêmica estético-religiosa da “santa do Felipão”.

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Enfim, um homem sensível

O zagueiro David Luiz não deu show de bola, mas mostrou como se comporta um novo homem de verdade

dlchoroIvan Martins, na Época

Se eu pudesse escolher uma imagem para representar a Copa de 2014, seria a de David Luiz deixando o estádio do Mineirão com lágrimas nos olhos, pedindo desculpas à multidão nas arquibancadas. Minha impressão é que esse rapaz veio a simbolizar, nos últimos dias, por seu comportamento e por suas atitudes, algumas novidades positivas a respeito dos homens brasileiros. Nos momentos de alegria e de tristeza, ele fez com que a gente se orgulhasse dele – e, por extensão, de nós mesmos. Não se pode pedir mais que isso de um herói.

Ontem, ao final daquele jogo terrível com a Alemanha, que encheu de vergonha os que gostam de futebol, David Luiz não tentou inventar explicações que salvassem a sua pele ou a de seus colegas de time. Ele simplesmente chorou diante das câmeras, depois de ter lutado em campo, reiterando, de uma forma que parecia muito sincera, o quanto era importante para ele “dar alegria ao povo sofrido do Brasil” e como lhe doía haver falhado de forma tão miserável nessa missão. Numa profissão dominada por milionários consumistas, desconectados das pessoas que lhes garantem a fama e a fortuna, me comoveu ver um sujeito com os sentimentos tão próximos aos dos torcedores. David Luiz, como nós, estava triste e envergonhado, e teve a grandeza de expor isso em público, sem subterfúgios.

Muitos dirão que ele teve culpa no gol sofrido pelo Brasil e na debacle que conduziu ao placar de 7 a1 a favor da Alemanha. A esses eu diria que não há nada pior do que ser o capitão de um general incompetente. David Luiz, como os demais jogadores, entrou em campo totalmente despreparado para enfrentar o que veio pela frente. O time estava mal escalado, mal orientado e mal treinado. Quando a partida começou, ficou evidente que jogávamos um futebol obsoleto e ultrapassado, enquanto os alemães se moviam pelo campo de forma eficiente e harmoniosa. Parecia haver no Mineirão equipes de duas épocas diferentes, ou praticantes de dois esportes distintos. Era cruel e doloroso ver como uns sobrepujavam os outros com tanta facilidade, a ponto de os alemães parecerem constrangidos. Eles tinham um time, nós éramos um bando que rapidamente se desfez, inclusive emocionalmente. Os jogadores, no entanto, tiveram de continuar em campo, desorientados, entregues à própria sorte e às vaias, construindo, ao longo de 90 minutos, memórias que irão persegui-los pelo resto de suas vidas, injustamente.

O verdadeiro responsável pelo desastre, o general incompetente, deu outro tipo de entrevista ao final do jogo. Sem lágrimas, sem pedidos sinceros de desculpas – a palavra “desculpas” escapou no meio de uma frase comprida, sem muita ênfase – Luiz Filipe Scolari assumiu a responsabilidade pela derrota numa frase ambígua (“o time dirá que eles são responsáveis, mas o responsável sou eu”) e, assim que pôde, sacou a imagem da “pane” da equipe, como se a derrota monumental, espetacular, medonha fosse um mero acidente mecânico, um mau funcionamento imprevisível e inexplicável. Felipão não entendeu porque foi derrotado, (ele parece não ter as ferramentas profissionais para isso), mas tenta fazer parecer que a culpa não é dele. Nada mais distante da humildade de David Luiz do que a arrogância do general derrotado que não perde a pose. Um pede desculpas com sinceridade. O outro deixa claro que a culpa não é realmente dele.

Vocês percebem a diferença? De um lado está o velho clichê da masculinidade: você agride para impedir as críticas, você não admite erros e nem exibe vulnerabilidade, seu objetivo é prevalecer, não dizer a verdade ou ser feliz. Faz parte disso a teimosia – que garante que o sucesso é apenas seu – e a insinceridade, que permite manipular os sentimentos do outro. No trabalho ou nas relações pessoais, esse é um modelo antigo e ainda muito utilizado. Do outro lado, há um modelo novo, mais tocado pela lógica feminina, que admite culpa, que inclui a sensibilidade e a opinião do outro, que desabafa, que deseja expor e conversar. No modelo velho, antigo, as relações pessoais e profissionais são uma farsa manipulativa com o objetivo de vitória. A derrota tem de ser escondida e negada, porque enfraquece. A auto-ilusão e a negação são a regra. Qualquer outra coisa é sinal de fraqueza. Diante disso tudo que o Felipão representa, David Luiz me parece uma imensa novidade. Sai de cena o macho gaúcho e manipulador e entra o homem sensível.

O jovem cabeludo de Diadema é um cara capaz de lutar como um leão, como fez em todas as partidas, mas doce o suficiente para abraçar o adversário e consolá-lo na derrota, como aconteceu ao final do jogo com a Colômbia. É um sujeito capaz de se emocionar, de chorar, de pedir desculpas. Ele assume responsabilidades difíceis, como bater o primeiro pênalti, mas brinca e ri com os colegas como um igual. Tem liderança natural, É um cara que exibe o raro sentimento de empatia, a qualidade de quem consegue se colocar no lugar do outro. Num mundo agressivo e egoísta, em que as pessoas são ensinadas a impor os seus desejos e evadir-se dos erros e das responsabilidades, as atitudes públicas do David Luiz me parecem um exemplo sensacional. Até a namorada dele, a modelo portuguesa Sara Madeira, não tem muito a ver com as loiras de corpo voluptuoso que os atletas vencedores exibem por aí. A moça é linda, mas normal. Não parece outro item no catálogo de ostentação de um jovem milionário.

Seria uma injustiça se David Luiz entrasse para a história como representante de uma geração de perdedores estigmatizados, como aquela da Copa de 1950 no Maracanã. Eu acredito sinceramente que ele não tem culpa. Ninguém avança numa competição dessa sem bons líderes, sem uma sólida orientação. Acabou-se a época dos improvisos. O caráter de David Luiz e de seus colegas de time não bastou para enfrentar o preparo superior dos alemães. Por causa disso eles foram humilhados diante de centenas de milhões de pessoas no mundo inteiro, e nós com eles. Foi um aprendizado terrível. Tomara que ele traga algum fruto ao futebol e à consciência do país. Quanto ao David Luiz, que ele possa andar por aí de cabeça erguida, cabelos crespos ao vento, rindo e chorando quando tiver vontade. A era dos gaúchos durões acabou.

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Decisão da Arquidiocese de proibir uso da imagem do Cristo em filme causa indignação

O Cristo Redentor visto de Botafogo - Fernando Quevedo / Agência O Globo
O Cristo Redentor visto de Botafogo – Fernando Quevedo / Agência O Globo

Prefeito do Rio condena censura ao uso da imagem: ‘Tudo tem limite’

Publicado em O Globo

RIO — Todo carioca, e mesmo o turista, está acostumado com Ele no alto do Corcovado. O Cristo Redentor está nos postais, nas cangas de praia, nos chinelos de dedo, por toda a parte. Símbolo maior da cidade, uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno e parte inexorável da geografia escolhida como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, o monumento, contudo, não pôde aparecer no episódio “Inútil paisagem”, do cineasta José Padilha, parte do filme “Rio, eu te amo”. A Arquidiocese do Rio vetou o uso da imagem na história, onde o ator Wagner Moura dialoga com a estátua, por considerar que “o filme atentaria contra a fé católica”. A decisão provocou, nesta terça-feira, uma avalanche de críticas de autoridades, artistas, representantes da indústria de turismo e de entidades da sociedade civil, que enxergaram na proibição uma censura à produção cultural.

Entre os que questionam o veto, o prefeito Eduardo Paes disse que vai conversar com Padilha para saber sobre as razões alegadas pela Igreja. Paes afirmou que, eventualmente, vai intervir junto ao arcebispo do Rio, cardeal dom Orani Tempesta:

— Não é possível que haja esse veto ou censura. O Cristo é um patrimônio da Arquidiocese, mas é um ícone do Brasil e do Rio. Não pode haver exagero. Tudo tem limite.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Rio (ABIH-RJ), Alfredo Lopes, vai enviar carta a dom Orani, pedindo que o cardeal reconsidere o veto. Para Lopes, a imagem do Cristo não pode ser dissociada da cidade:

— O Cristo é um ícone da cidade, por sua beleza e seu apelo religioso. Não se fala no Rio sem se remeter ao Redentor.

Lopes defende que, mesmo que o texto do filme seja considerado negativo na esfera religiosa, ele não deveria ter peso para vetar parte de uma obra cultural. Ele afirma que esse juízo de valor deveria ser feito pelo espectador e não, por antecipação, pela Igreja:

— Mesmo que xingasse a estátua, eu deixaria o julgamento para o espectador.

Para o cineasta Miguel Faria Jr., soa mal que, para filmar um símbolo da cidade, seja preciso pedir autorização e, muitas vezes, pagar por isso à Igreja Católica:

— O Cristo Redentor é um símbolo religioso, associado à imagem da cidade. Virou patrimônio do Rio. A Cúria tem o direito de achar o que quiser, mas vivemos num país laico.

PARA CINEASTA, IGREJA AGE COMO CENSORA

Miguel Faria Jr. diz ainda que a decisão da Igreja faz retomar a discussão sobre o direito autoral e de imagem, um assunto tão debatido há meses, quando aflorou a polêmica sobre a necessidade de as biografias serem autorizadas pelos biografados ou por suas famílias para serem publicadas:

— Estamos voltando à censura por causa de um direito abstrato. O direito autoral é inalienável. Acredito que não possa ter sido transferido pelo arquiteto que projetou e construiu o monumento do Cristo Redentor para a Igreja. Essa questão precisa ser discutida.

O cineasta observa ainda que não é primeira vez que a Igreja age com censura num filme, citando “Je vous salue, Marie”, de Jean-Luc Godard, lançado na década de 1980 e proibido em vários países.

O arquiteto e urbanista Miguel Pinto Guimarães também ficou indignado com o veto e defende que a prefeitura questione judicialmente a propriedade da Igreja sobre a estátua.

— O Cristo é da cidade. É meu, é seu, é do Zé Padilha, é do Wagner Moura, é do Joãosinho Trinta. A prefeitura e os cidadãos deveriam mover ação popular de retomada do Cristo.

O secretário estadual de Turismo, Cláudio Magnavita, sustenta que um ícone como o Cristo tem que ter um gerenciamento de imagem para evitar abusos. Mas acredita ainda num consenso:

— Dom Orani é aberto à comunicação.

O diretor do Rio Convention & Visitors Bureau, Paulo Senise, prega a criação de um código de uso da estátua, que mostre claramente as regras a serem obedecidas por produtores culturais, agentes turísticos e mídia, para evitar polêmicas:

— Sentimos falta de uma disciplina do uso da imagem do monumento.

Dom Orani não se pronunciou, mas a coordenadora-jurídica da Arquidiocese, Claudine Milione Dutra, emitiu nota. Segundo o comunicado, “a utilização da imagem do Cristo deve ser autorizada pela Arquidiocese, detentora dos direitos patrimoniais de autor sobre o monumento, que não só é um símbolo do Rio e do Brasil, mas é um santuário que comporta uma capela”. A Arquidiocese informou ter sido consultada pela produtora do episódio e respondido “ter constatado que as cenas produzidas, acaso exibidas ao público, atentariam contra a fé católica, caracterizando crime de vilipêndio, razão pela qual recomendou fortemente a exclusão da cena que considerou atentatória”. O teor das cenas, no entanto, não foi divulgado pelos produtores do filme nem pela Arquidiocese.

PADRE ACHA QUE LIMITES DEVEM SER RESPEITADOS

O padre Jesús Hortal Sánchez, o ex-reitor da PUC-RJ — ressalvando que falava em tese, uma vez que não viu o filme e não teve acesso ao texto das cenas — considera que a liberdade de expressão não poderia transpor a barreira do respeito à religiosidade:

— Em linhas gerais, a liberdade de expressão não pode ofender o sentimento religioso das pessoas, no caso dos católicos. Eu não posso fazer um filme xingando negros. Existe um limite.

Também ressaltando que falava em tese, a professora Maria Clara Bingemer, do departamento de Teologia da PUC-RJ, afirma que o caso passa pelo respeito à religiosidade da população, independentemente do credo envolvido na polêmica.

ESPECIALISTAS VEEM ABUSOS DA IGREJA

Embora a Arquidiocese do Rio tenha argumentos jurídicos para permitir ou não o uso da imagem do Cristo Redentor — possui uma escritura, na qual o construtor Heitor da Silva Costa transfere os direitos autorais à Mitra —, advogados afirmam que a questão extrapola prerrogativas legais. Alegam que o monumento passou a fazer parte da paisagem da cidade.

— Pelos dispositivos do Código Civil que tratam do direito patrimonial, a Igreja poder usar, fruir, gozar e dispor da estátua. Mas o Cristo está encravado no relevo da cidade. O seu uso deveria entrar em domínio público, desde que preservadas as regras — diz o advogado Durval Fagundes, especialista em direito de imagem.

Para Fagundes, a própria Mitra deveria criar as regras:

— O monumento é muito assediado e os critérios de censura da Arquidiocese são subjetivos, porque não estabelecem as regras para o uso da imagem. Ela deveria, então, criar os critérios.

O presidente da Comissão de Direito Autoral da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RJ), Fábio Cesnik, lembra que a Lei 9610/1998 (Lei dos Direitos Autorais) trata do direito patrimonial, que pode ser transferido, e moral, que é sempre do autor. Para obras instaladas em logradouros públicos, no entanto, a legislação permite que a imagem delas seja exibida, desde que não tenham protagonismo.

— Não sendo o filme em questão focado no Cristo, parece se tratar de um caso de limitação de direito autoral. Em tese, não haveria nem a necessidade de autorização. A única defesa, sendo cem por cento legalista, é que o local (onde está a estátua) não é um logradouro público, porque pertence à Igreja (foi cedido pela União). Mas seria um exagero. Trata-se, sim, de uma área pública, que faz parte da cidade — observa.

Especialista em direito autoral, o advogado Helder Galvão avalia como “abusiva” a posição da Arquidiocese. Segundo ele, não havia sequer necessidade de pedido de autorização:

— Há uma política de submissão. Não tem que pedir autorização. A lei

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Arquidiocese notifica TV italiana por usar imagem do Cristo Redentor

Imagem do Cristo Redentor foi utilizada em propaganda de TV italiana - Ivo Gonzalez / Agência O Globo
Imagem do Cristo Redentor foi utilizada em propaganda de TV italiana – Ivo Gonzalez / Agência O Globo

A propaganda termina com o Cristo vestido com a camisa azul número 10, do craque italiano Antônio Cassano

Deborah Berlinck, em O Globo

BOLONHA – A Arquidiocese do Rio está pedindo entre 5 e 7 milhões de euros (entre R$15 e R$21 milhões) de indenização à maior rede de televisão da Itália, a RAI, por a emissora ter “vestido” o Cristo Redentor com uma camisa da seleção italiana de futebol, num filme para promover sua programação na Copa do Mundo. Além de desrespeito religioso, a Arquidiocese acusa a rede italiana de exploração “ilitica” da imagem do Cristo, lembrando que é dona exclusiva dos direitos autorais, materiais e morais do monumento.

- A Arquidiocese se sente ultrajada. É como se uma TV brasileira promovesse sua programação colocando mulatas com gladiadores no Coliseu de Roma. É um insulto a um simbolo nacional – disse Alexandro Maria Tirelli, o advogado italiano que enviou notificação a Rai, a pedido de Rodrigo Grazioli, advogado paulista contratado pela Arquidiocese.

Tirelli disse que entrou em contato com a direção da Rai na sexta-feira e que, aparentemente, a propaganda foi retirada. Agora faltam as indenizações. Na notifição por escrito que enviou a Rai, a Arquidiocese não menciona o montante da indenização. A entidade eclesiástica diz que tomou conhecimento da publicidade no dia 30 de abril através da rede social Youtube, e pede a retirada “imediata” do anúncio. A carta acaba com uma ameaça de entrar na Justiça caso não haja acordo que “englobe a indenização pela utilização indevida ja consumada”.

O advogado italiano disse que a Arquidiocese quer usar a indenização para obras caritativas da igreja.

- A motivação não é para fins lucrativos. Uma marca mundial de artigos de esporte propôs pagar à Arquidiocese US$ 2 milhões para vestir o Cristo Redentor com suas camisas. A Arquidiocese se recusou – disse Tirelli.

A Copa do Mundo no Brasil virou uma dor-de-cabeca inesperada para a Arquidiocese. Com o Cristo Redentor sendo o maior cartão-postal do Brasil, a Arquidiocese também ameaça comprar uma briga com a casa de apostas inglesa Landbroke. Numa publicidade, a Landbroke nao apenas vestiu o Cristo Redentor com uma camisa de futebol, como cobriu seu rosto. Um pedido de informação feita pelo GLOBO por email à assessoria de imprensa da Rai não foi respondido.

A propaganda da Rai, de cerca de 30 segundos, reúne todos os clichês do Rio: crianças, futebol, favelas. E termina com o Cristo vestido com a camisa azul número 10, do craque italiano Antônio Cassano.

Ancelmo Gois, em sua coluna desta sexta-feira, publicou uma foto do perfil no Instagram do jogador italiano Mario Balotelli. O craque italiano aparece de braços abertos no alto do Corcovado, como o Cristo Redentor, com a camisa da Azurra.

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