Religiões usam samba e boy band para converter torcida em jogo do Brasil

Evangelistas carregam cartazes para tentar converter torcedores em jogo do Brasil (foto: Luiza Oliveira/UOL)
Evangelistas carregam cartazes para tentar converter torcedores em jogo do Brasil (foto: Luiza Oliveira/UOL)

Luiza Oliveira, no UOL

O jogo da seleção brasileira em Brasília não foi só palco das estrelas de Felipão que venceram Camarões por 4 a 1 e se classificaram para as oitavas de final da Copa do Mundo. O estádio Mané Garrincha também foi o local escolhido por diversas religiões para tentar converter torcedores.

Antes e durante o jogo do Brasil, o estádio e seus arredores viraram palco de diversos grupos religiosos que queriam angariar novos fiéis. Evangélicos e muçulmanos distribuíram panfletos e usavam cartazes para chamar a atenção de torcedores que iam assistir ao jogo.

As igrejas Presbiteriana e Batista, por exemplo, usaram a dança como forma de chamar a atenção. Na Feira de Artesanato ao lado da arena, uma ‘boy band’ chamada King’s Kids dançava ao ritmo da música gospel ao lado de uma caixa de som poderosa.

“Tivemos tempo para ensaiar”, disse o missionário Rodrigo Fraga Silva. Segundo ele, a intenção era levar os ensinamentos de Jesus para as pessoas, e nada melhor que um lugar com gente do mundo inteiro para passar a mensagem. Bem preparados, eles tinham até um material de divulgação em diversas línguas como português, espanhol, inglês e francês.

“Viemos falar do amor de Deus através dessas mensagens. É uma concentração boa de pessoas, ninguém está aqui de passagem. Algumas pessoas param, especialmente os estrangeiros que se interessam mais pela cultura”, disse.

A receptividade foi considerada boa, mas apenas entre os gringos. “Os estrangeiros são mais interessados. Os brasileiros só querem saber de farra e de tomar cerveja”, lamentou Laura Vieira.

Logo ao lado do grupo de dança, estavam os missionários da Igreja Batista Filadélfia. Eles conversavam com todas as pessoas que passavam e seguravam cartazes com os dizeres: “Quer Jesus na sua vida? Pergunte-me como” e “Salvation for Free”.

“Queremos evangelizar. Aqui tem uma grande aglomeração de pessoas e quanto mais gente, maiores as chances. Queremos falar de Jesus e converter as pessoas. Ainda não conseguimos ninguém, mas acreditamos que podemos plantar ao menos uma semente”, disse a evangelista Lívia Amorim.

Quem usou o mesmo discurso foram os evangélicos de Formosa-GO. Para conseguir converter os torcedores, eles foram para a porta do estádio com um grupo de pandeiro que chamava a atenção. Com o ritmo afinado, cantavam: “Rei, rei, rei, Jesus é nosso rei”. “Nós viemos falar da palavra do senhor, viemos evangelizar o nome do senhor Jesus”, afirmou uma das integrantes.

foto: Luiza Oliveira/UOL
foto: Luiza Oliveira/UOL

No quesito barulho, foram vários os movimentos que se destacaram mesmo no meio de torcedores animados. Um senhor passou quase todo o primeiro tempo da partida circulando pela porta do estádio em uma bicicleta. Com a ajuda de um alto-falante, ele fez diversas orações com a Bíblia na mão e convidava todos ao redor a fazer o mesmo.

Um outro grupo de quase 30 pessoas carregava uma grande faixa com os dizeres ‘Jesus te ama’ e atraía a atenção da imprensa que fazia a cobertura da partida entre Brasil e Camarões.

Até o islamismo, religião que é seguida por uma minoria no Brasil, teve seus representantes. O muçulmano André Lara distribuiu para os torcedores um material de divulgação e um livrinho que explica um pouco mais sobre o islã. Ele disse que a intenção não era converter, mas fazer com que as pessoas aprendam um pouco mais sobre a religião e percam seus preconceitos.

“As pessoas têm uma ideia muito errada sobre o islamismo, confundem com árabes, com países da Arábia Saudita. Não pregamos que mulheres não podem dirigir, por exemplo. A minha esposa vai para a praia de biquíni e para mim tudo bem. Eu não a privo de nada. A gente quer que as pessoas conheçam um pouco mais e percam essas ideias prontas”, disse.

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Sudanesa condenada à morte por conversão ao cristianismo é libertada

Publicado na Folha de S.Paulo

Um tribunal de Cartum, a capital do Sudão (norte da África), anulou a condenação à morte de Meriam Ibrahim, 27, por apostasia –renúncia a uma fé, no caso dela o islamismo. Ibrahim foi libertada nesta segunda-feira (23), segundo seu advogado e a mídia estatal sudanesa.

Segundo a agência de notícias Suna, a Corte de Apelações anulou a sentença contra a jovem depois de os advogados dela apresentarem sua defesa. Um dos defensores de Ibrahim, Eman Abdul-Rahim, declarou à agência Associated Press que ela já deixou a prisão e está na companhia do marido e de seus dois filhos pequenos, que estavam com ela na cadeia.

AFP
Meriam Ibrahim na prisão em maio, após o nascimento da filha
Meriam Ibrahim na prisão em maio, após o nascimento da filha

De pai muçulmano, mas criada pela mãe cristã, Ibrahim foi condenada por se casar com um cristão do Sudão do Sul numa cerimônia em 2011. Desde 1983, o Código Penal sudanês criminaliza a conversão de islamitas a outras religiões, que é punível com a pena capital. No país, homens seguidores do islamismo podem se casar com mulheres de outras religiões, mas o casamento entre mulheres muçulmanas e homens não muçulmanos é proibido.

O caso de Ibrahim gerou comoção internacional e provocou pressão diplomática sobre o governo sudanês -países como o Reino Unido instaram o Sudão a cumprir obrigações internacionais no que diz respeito à liberdade de religião. No final de maio, a jovem, que estava grávida ao ser sentenciada à morte, deu à luz seu segundo filho –uma menina– na prisão.

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Grupo multirreligioso de juristas é criado para combater intolerância

Contra o preconceito. Durante encontro, representantes religiosos decidem pela criação de novo grupo. - Divulgação
Contra o preconceito. Durante encontro, representantes religiosos decidem pela criação de novo grupo. – Divulgação

Advogados irão agir conjuntamente em casos de denúncias de discriminação

Juliana Prado, em O Globo

RIO – Representantes de várias religiões decidiram criar um grupo de juristas para defender fieis das mais variadas matizes de casos de preconceito e intolerância. A decisão foi anunciada por integrantes de Igreja Católica, Umbanda, Candomblé, Budismo, Islamismo e Judaísmo. O grupo foi recebido num templo de candomblé, localizado no Bairro de Bonsucesso, na Zona Norte, nesta segunda-feira. A ideia surgiu depois que o juiz Eugênio Rosa, da Justiça Federal, afirmou, em sentença emitida a um pedido de liminar, que umbanda e candomblé não são religiões.

A polêmica ainda não se encerrou, já que está em andamento um processo em que a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa e a Associação Naconal de Mídia Afro pedem a retirada da internet de 16 videos ofensivos à umbanda e ao candomblé. Na última sexta-feira, o grupo teve uma vitória parcial, depois que o desembargador Roy Reis Friede determinou, via liminar, que o Google retire o material do ar sob pena de pagamento de multa de R$ 50 mil diários. No entanto, a decisão final sobre o mérito do processo cabe ao mesmo juiz, que já negou esse pedido no início do processo.

O interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, Ivanir dos Santos, representante do candomblé, celebrou o caráter “inédito” da criação do grupo de advogados para defender os direitos das manifestações religiosas – tenham elas o cunho que tiverem. Ele conta que a ideia surgiu de uma conversa com representantes da Igreja Católica e começou a ganhar força nas últimas semanas. O grupo também irá acompanhar o desenrolar do atual processo na Justiça Federal.

- Vamos manter a mobilização e nossa ofensiva junto ao Judiciário. Com o grupo, começaremos a monitorar outras agressões e casos de preconceito que possam surgir. Finalmente, poderemos agir de forma unida – afirma Ivanir, emendando, ainda, que a investida de se reunir juristas em torno de várias crenças é inédita “no mundo”.

A tentativa das lideranças é mais ambiciosa e terá um obstáculo pela frente: trazer para o debate sobre intolerância religiosa representantes dos evangélicos, que ainda não sinalizaram positivamente neste sentido. Alguns dos vídeos acusados de desrespeitar umbanda e candomblé – e alvos do processo judicial em curso – têm como cenário, justamente, templos neopentecostais. Ivanir dos Santos declarou que já se abriu uma porta ao diálogo com algumas lideranças, mas ainda não houve avanço em definitivo. Ele sustenta que, com a decisão liminar do desembargador, as esperanças de uma vitória final na justiça aumentam.

- Com a decisão do desembargador uma luz se acendeu. Mesmo com o processo voltando para o mesmo juiz, acreditamos que temos uma chance grande de sairmos vitoriosos. Não somos contra a liberdade de expressão, mas contra o ódio e o preconceito (que seriam expostos nos vídeos).

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O dia em que visitei o Egito

patriarca coptaRicardo Gondim

Há 4 anos visitei o Egito. Andei pelas ruas de Cairo. Tudo me chamou a atenção. As mulheres, escondidas sob véus negros, pareciam monjas reclusas. Os homens, magros em sua grande maioria, caminhavam pela ruas de mãos dadas.

Rodopiei. Um tornado cultural me deixou tonto. Tentei decifrar uma história milenar, que jamais entenderei completamente. Islam, quase onipresente, prevalece por todo o Egito. Notei que era minoria – de novo. Eu não conseguia me esconder, destaquei no meio da multidão. Me senti frágil. Tive medo. Nas alamedas estreitas de Cairo, notei a força da paranóia que a mídia ocidental passa. A propaganda imperial de que o Oriente médio é inimigo gruda na gente. Eu pressentia – erroneamente – que uma bomba estava prestes a explodir na próxima esquina. Cheguei a ver terroristas onde não existia nenhum.

Me perdi no árabe. Eu simplesmente não conseguia decifrar duas letras de um alfabeto que poderia ajudar a saber em que esquina eu estava. Em outra cultura vemos como somos provincianos. É difícil lidar com cheiros, paladares e paisagens novos. Em uma cultura em que tudo espanta, tudo choca, tudo fascina, a gente consegue avaliar a estreiteza da própria mente.

Compareci a uma Igreja Ortodoxa Copta. O padre era um velhinho, mistura de Frei Damião com pastor evangélico.  A igreja, iniciada no aterro de lixo da cidade, virou centro de romaria. O padre copta conduz uma paróquia que luta para mudar a sorte de centenas de milhares que vivem nos arredores do lixão de Cairo. Seu trabalho visa aliviar a miséria mais abjeta. Seu ministério oferece espaço de esperança e reconstrução para mulheres e crianças. No Brasil, entretanto, uma igreja que atrai tantos pobres e sincretiza vários perfis religiosos jamais seria tolerada pelo status quo evangélico. No Egito, aquela igreja é tida como uma renovação dentro da ortodoxia copta.

Fui ao Egito para participar de uma reunião de pastores e líderes evangélicos de países do sul do Equador. Éramos 40. Por acontecer no Egito, a reunião ganhou ares de conspiração. Como há muito abandonei a ambição de ganhar o mundo, eu me senti fora das aspirações do grupo. Querer ganhar o mundo desestabiliza a alma. Megalomania mina o dia a dia despretensioso e sufoca as relações desinteressadas. Me preocupei sobremaneira em notar um ambiente belicoso e intolerante entre os pastores. Em determinado momento ouvi de um deles: o islamismo é o último gigante a ser abatido antes da volta de Cristo. Minha reação imediata foi: em que essa atitude difere dos terroristas que odeiam os ocidentais, e os tratam como irmãos de satanás?

Anos depois da viagem, medito. O que significa ser cristão no mundo atual? Quem poderia amenizar tanta hostilidade? Um neo-ateísmo destila rancor contra a religião. Religiosos se estapeiam em nome da verdade que acreditam possuir. Palestinos sofrem horrores, acossados pela miséria e por um poder militar portentoso. O Islam cresce com taxas vertiginosas em diferentes regiões do mundo. Séculos depois, os mouros retomam a Europa. A França impactada pelo Iluminismo não se conforma em conviver com tanta burca, mesquista monumental e tapete estendido para reza.

Noto os líderes evangélicos assustados. Com todo o planejamento gerencial, com todo o discurso triunfalista de que Deus é por nós, pastores não entendem como os seguidores de Maomé se multiplicam como cogumelo. Enquanto os evangélicos se perdem com cultos ensimesmados e tentam provar a autenticidade da mensagem com milagre, o fenômeno religioso islâmico continua forte. Ficam as perguntas: até quando a brecha entre cristianismo e islamismo favorecerá interesses geopolíticos? Quando ortodoxos russos, gregos, coptas, armênios, católicos romanos e protestantes – junto com os longínquos evangélicos – começam a dialogar?

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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A religião dos outros

gregorioGregorio Duvivier, na Folha de S.Paulo

Sério, gente, vocês têm que parar de rir da religião dos outros. A fé das pessoas é uma coisa sagrada. Não, macumba é diferente. Vocês têm que fazer um vídeo sobre macumba.

Macumba não é religião, macumba é magia negra. Macumba, umbanda, candomblé, vudu, tudo a mesma coisa de preto velho. Misifi põe uma galinha preta na encruzilhada que eu trago a pessoa amada em três dias.

Por favor, faz um vídeo sobre isso. Desculpa, gente, mas é que macumba é muito engraçado. Espiritismo também é uma piada pronta. Sabe o que vocês podem dizer? Que quem conversa com gente morta é esquizofrênico e tem que ser internado.

Budismo não é religião, é moda. Tem seis gatos pingados no Tibet e o resto é tudo socialite e ator em início de carreira. Fora que aqueles monges são muito gordos pra quem é vegetariano. Ninguém me convence que quando ninguém tá olhando eles comem uma picanha.

Mas pelo menos eles não pintam a cara igual hare krishna. Aquilo não é religião, aquilo é pretexto pra não tomar banho. Vocês não entenderam: quando eu digo religião, eu tô falando das religiões sérias.

Não, islamismo já é sério demais. Aí tem que zoar. Aquelas mulheres de burca parecem um apicultor. E os terroristas que acham que vão se encontrar com 30 virgens? Isso dava um vídeo. Quando eu digo religião, eu tô falando das religiões da Bíblia.

Não, judeu pode zuar também, claro. Judeu por acaso lê Bíblia? Estranho, foram eles que mataram Jesus.

Vocês têm que rir daquele bando de mão-de-vaca. Por que é que não fizeram nenhum vídeo de judeu? Tem que fazer.

Eu tô falando da Bíblia de verdade, completa, sem cortes. A escritura sagrada, que fala da vinda do Deus vivo à Terra.

Acho que é isso: quando eu digo religião, eu tô falando das religiões que envolvem Jesus. Não, não tô falando do Inri Cristo. Gente, eu tô falando sério. Quando eu digo religião, eu tô falando das religiões que envolvem Jesus, Maria, José, as que têm multidões de fiéis.

Tem que rir das religiões menores, as religiões de preto, de judeu. Não tem graça rir da fé da maioria do povo brasileiro. Acho que é isso: quando eu digo religião, eu tô falando a religião da maioria. Aí é que perde a graça.

Sim, por acaso essa é a minha religião. Tá bom. Quando eu digo que não pode brincar com religião, eu tô falando da minha religião. A minha religião não tem a menor graça.

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