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‘Deixo meus exercícios como padre’, diz sacerdote envolvido em polêmica

Em resposta ao pedido de retratação, padre Beto deixará a Igreja. 
Diocese de Bauru, SP, tomou atitude após divulgação de vídeos na web.

A partir de segunda-feira, padre Beto deixa de celebrar missas, casamentos e outros rituais da igreja católica (Foto: Ana Carolina Levorato/G1)

A partir de segunda-feira, padre Beto deixa de celebrar missas, casamentos e outros rituais da igreja católica (Foto: Ana Carolina Levorato/G1)

Publicado originalmente no G1

Após declarações polêmicas acerca de temas como a homossexualidade, fidelidade e necessidade de mudanças na estrutura da Igreja Católica nas redes sociais que causaram um pedido de retratação por parte da Diocese de Bauru (SP), Roberto Francisco Daniel, conhecido como padre Beto, anunciou neste sábado (27), que deixará de exercer suas funções como padre a partir de segunda-feira (29).

Essa era a data limite para “confissão humilde de que errou quanto a sua intepretação e exposição da doutrina, da moral e dos bons costumes ensinados pela igreja”, como exigia a nota assinada pelo Bispo Dom Caetano Ferrari na última terça-feira (23), que pedia a retratação e retirada do conteúdo, contrário aos dogmas da Igreja, publicados na internet. “Eu não tenho do que me redimir. Muito menos a quem ou do que pedir perdão de tudo aquilo que eu fiz e declarei nas redes sociais. Se refletir é um pecado, eu sou um pecador e sempre serei. Não vou negar ser uma pessoa reflexiva e uma pessoa que pensa”, declarou o padre que, com sua decisão, deixa de celebrar casamentos, missas e outro rituais religiosos.

Na entrevista coletiva realizada na manhã deste sábado, o sacerdote afirmou aos jornalistas que sua decisão foi tomada após várias reflexões, entre elas, a de não aceitar que seja possível seguir um modelo que não respeita a liberdade de reflexão e expressão por parte dos fiéis e membros do clero.

“Acho impossível seguir o evangelho de Jesus Cristo em uma instituição que, no momento, não respeita a liberdade de reflexão e de expressão. O modelo que nos temos que seguir se chama Jesus Cristo e esse modelo viveu plenamente essa liberdade e fez com que as pessoas refletissem”, explica.

“Além disso, acredito que não é possível ser cristão em uma instituição que cria hipocrisia. Nós estamos em um momento em que a igreja faz questão de manter regras morais que são totalmente ultrapassadas para a nossa época e também em frente à ciência”, diz o padre irá entregar a carta de pedido de afastamento para o bispo na segunda-feira. Ele também divulgou uma nota no seu perfil em uma rede social, onde explica a decisão para o seus mais de 2.500 seguidores.

Até logo?
Apesar da decisão do sacerdote de deixar de celebrar os rituais católicos, padre Beto afirma que continua sendo padre e que sua saída do cenário católico de Bauru não é definitiva e que pode voltar à igreja se alguns pensamentos forem mudados.

“Não vou deixar de ser padre. Uma vez padre, sempre padre e vou viver na integridade de um padre. O que vou deixar de fazer é exercer os meus ministérios dentro da igreja católica como missas, casamentos, etc., mas permaneço como sacerdote, consciente de que fui ordenado e como um cristão que pensa”.

Questionado, padre Beto alega que não pretende fundar outras religiões e que a sua saída não tem nenhuma pretensão política, mas que também não pretende atuar em outras Dioceses por enquanto. Segundo o sacerdote, o clero sabe que impõe regras que as pessoas não vivem e fecha os olhos para as mudanças do mundo. “Eu não acredito que a marioria dos casais que frequentam a igreja não usam métodos contraceptivos. Nós temos regras que não são exercidas e isso precisa ser refletido”.

O padre também se referiu à uma omissão da igreja a respeito de problemas sociais graves como educação, saúde e comunicação. “A igreja como instituição forte que é deveria ter uma postura muito mais firme em frente ao congresso nacional. Os professores são mal pagos, o sistema penitenciário é péssimo e temos um código penal ultrapassado”, desabafa. ‘Deixo meus exercícios como padre e permaneço com a minha coerência de como atuaria Cristo no mundo em que vivemos hoje, um mundo contemporâneo’, diz o sacerdote.

Decepção
Padre Beto é conhecido na cidade por suas publicações em diversos meios, mas em entrevista concedida ao G1 na quinta-feira (25), Dom Caetano diz que apesar de existir um público que compartilha e segue suas opiniões, há uma grande parte dos fiéis que não concorda com as palavras do padre. “Ele gostaria que eu como bispo o apoiasse, mas digo a ele ‘Beto, coloque-se no seu lugar, quem te deu essa inspiração para uma missão profética de revolucionar a teologia, a doutrina e a moral da Igreja?’, argumenta o bispo.

Sobre a declaração do bispo, padre Beto afirma ter recebido a posição de Dom Caetano com certa decepção. “Recebi as declarações dele por um lado com decepção. Eu esperava que ele diante de criticas feitas à minha reflexão, que pensasse que tem um padre que reflete e que a igreja que precisa de alguém assim”, conta. “O que eu falei são reflexões e não um embate à Igreja Católica. Não atinjo a ordem da instituição de forma alguma”, completa.

De acordo com a assessoria imprensa da Diocese, o bispo só irá se manifestar oficialmente sobre o pedido de afastamento de Padre Beto na segunda-feira, quando a carta do sacerdote foi entregue a instituição.

Pedido de retratação
A nota oficial foi divulgada no site da Diocese na terça-feira (23) e pedia retratação do sacerdote até dia 29 de abril. Dom Caetano afirma que essa foi a primeira retratação formal pedida pela Igreja ao padre e que vídeos publicados na internet recentemente se tornaram a “gota d’água” para que uma atitude fosse tomada. Nas publicações, o padre discute temas como fidelidade, bissexualidade, divórcio e a necessidade de mudanças na estrutura da Igreja Católica.

Na página oficial da Diocese de Bauru em um site de relacionamentos,  internautas se manifestaram com comentários de apoio e repúdio à decisão de Dom Caetano. A discussão sobre as opiniões do padre não só partiram de Bauru, mas também de fieis de outras partes do Brasil e, ainda de acordo com a assessoria da Diocese, foi um dos motivos que levou a decisão de pedir a retratação.

Com um camisa preta com os dizeres 'não obrigado' em espanhol, padre decidiu deixar a igreja (Foto: Ana Carolina Levorato/G1)

Com um camisa preta com os dizeres ‘não obrigado’ em espanhol, padre decidiu deixar a igreja (Foto: Ana Carolina Levorato/G1)

 

Jesus Cristo vira hipster em anúncios de diocese norte-americana

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publicado no Adnews

A Diocese Católica do Brooklyn resolveu inovar na maneira de se comunicar. A entidade decidiu criar anúncios que exibem os pés de Jesus Cristo calçados com Converse’s All Stars, seguidos da frase “O Hipster Original”.

Segundo a própria diocese, os anúncios fazem uma referência a uma piada de Seth Meyers. Ele disse, durante o programa Saturday Night Live, que os tênis da marca “Converse” (Uma das traduções para “Conversão” em inglês) são responsáveis por muitos católicos estarem retornando à Igreja Católica.

No mesmo comunicado, a diocese diz que os anúncios mostram um lado mais “legal” e receptivo da Igreja Católica.

“A vida é muito mais fácil quando você tem senso de humor. Claro que estamos zombando de nós mesmos, mas também estamos deixando claro que nas Igrejas Católicas do Brooklyn e Queens, todos são bem-vindos”, diz monsenhor Kieran Harrington, porta-voz da diocese.

À CNN, ele explicou que um Hipster, na sua visão, nada mais é que alguém que vai contra a cultura vigente, o mainstream. Segundo Herrington, Jesus se posicionava contra a cultura da maioria em sua época.

Confira o anúncio:

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As falsas prioridades da Igreja Evangélica Brasileira

Feliciano saiu pelos fundos da igreja em Salvador para fugir de protesto e do assédio da imprensa (foto: Fernando Amorim | Ag. A TARDE)

Feliciano saiu pelos fundos da igreja em Salvador para fugir de protesto e do assédio da imprensa (foto: Fernando Amorim | Ag. A TARDE)

André Tadeu de Oliveira, no Facebook

Já cansou! Não quero analisar aspectos biológicos, psicológicos, sociológicos, antropológicos e teológicos da sexualidade humana. O tema é complexo demais e não tenho tempo para tal tarefa.

Apenas quero dizer algo: parte da igreja evangélica brasileira perdeu seu foco! E falo justamente de seu segmento mais engajado e militante. Tempo e dinheiro são jogados na lata do lixo a fim de impor uma agenda sexualizante no discurso cristão.

É claro que a Bíblia fala – e muito- sobre sexo. Mas o texto sagrado não possui uma visão única sobre o assunto, tampouco faz do sexo seu assunto primordial.

Mas essa parcela da igreja converteu a temática sexual, em sua forma mais repressora, como tema principal de sua agenda.

Não escuto mais pregações sobre o Cristo Salvador, Graça Salvadora, Pecado (na sua concepção integral), arrependimento, amor ao próximo e etc… Tudo virou sexo!

Não vejo comportamento profético diante das mazelas sociais que mantém o Brasil como um dos países mais injustos do mundo! Os profetas do AT, Jesus Cristo e os cristãos primitivos não se calaram diante da injustiça.

Agora, há um detalhe curioso. Parte dessa igreja bitolada na questão sexual, desejando impor seu padrão de “santidade”, é a mesma que, doutrinariamente, resvala na heresia! É o caso do senhor Marco Feliciano. Já ouviram suas pregações? Já leram algum artigo doutrinário de sua autoria? Tenho certeza que o citado pastor não poderia ser considerado um cristão ortodoxo, haja vista sua visão doutrinária baseada em aberrações como: teologia da prosperidade, confissão positiva, maldições hereditárias e etc…

Mas, estranhamente, o dito pastor se converteu em herói para cristãos fundamentalistas que se consideram “ortodoxos”. Mas a suposta ortodoxia dos fãs de Feliciano não passaria em uma sabatina teológica realmente séria.

Esta é a igreja que perdeu seu foco!

Versão freestyle da Bíblia causa polêmica e divide opiniões em MG

Pastor roqueiro de Uberlândia reescreve textos das Sagradas Escrituras.
Teólogo afirma que em alguns trechos o sentido original foi alterado.

Passagem da Bíblia Freestyle descrevendo o encontro dos primos João e Jesus, no Evangelho de Mateus (Foto: reprodução/TV Integração)

Passagem da Bíblia Freestyle descrevendo o encontro dos primos João e Jesus, no Evangelho de Mateus (Foto: reprodução/TV Integração)

Augusto Medeiros e Paulo Borges, no G1

Jesus Cristo é “o cara”. E São José, pai de Jesus, é um “cara muito joia”. Pelo menos é assim que os dois são descritos em uma releitura da Bíblia “Freestyle” – que em português significa Estilo Livre. A versão escrita por um pastor evangélico de Uberlândia está sendo publicada diariamente na internet e as novas formas de narrar as passagens bíblicas, que podem ser lidas na página do autor, já estão gerando polêmica.

O Capítulo 1 do Livro Evangelho Segundo Mateus começa assim: “Livro da geração de Jesus, o cara. Da descendência de Davi e também de Abraão. Depois de Abraão, muito sexo foi feito e muitas crianças nasceram por conta disso. Até que 41 gerações se passaram e nasceu um cara muito joia chamado José. Esse tal de José era especial porque quando a dona Maria (sua noiva) apareceu dizendo que tava grávida do Espírito Santo, ele obviamente sentiu que isso cheirava a chifre.”

Pastor diz que já esperava polêmica (Foto: Reprodução/TV Integração)

Pastor diz que já esperava polêmica (Foto:
Reprodução/TV Integração)

Até Maria Madalena também ganhou atenção especial. Na versão ela é descrita como uma mulher que “mais parecia um pudim de capeta”.

A ideia da versão jovem da bíblia foi do pastor Ariovaldo, que há dez anos fundou a Igreja Manifesto Missões Urbanas de Uberlândia, voltada ao público de roqueiros. Segundo o pastor, ele começou a escrever os textos por hobby. Ele disse ter percebido que poderia falar de forma mais profunda sobre religião, unindo humor e cultura contemporânea. “Na verdade eu escrevi alguns textos para mim mesmo, tentando contar as histórias da vida da maneira que a gente conversa no dia a dia. Quando publiquei isso na internet comecei a divulgar em redes sociais. E várias pessoas passaram a me escrever dizendo que eu devia fazer a Bíblia toda”, contou o pastor.

Mas essa liberdade de expressão rendeu polêmica na internet. Abaixo, alguns comentários de pessoas que leram a versão Freestyle das Sagradas Escrituras. Por meio de opiniões publicadas na própria página do pastor, enquanto alguns criticam, outros apoiam a atitude.

* “Infelizmente estamos perdendo a seriedade da palavra de Deus, muito triste isso”

* “a Bíblia não fala que devemos nos adequar a este mundo”

* “Eu te encorajo a continuar escrevendo, vc alcançará mtas pessoas”

Apesar de ter total apoio dos fiéis da igreja, o pastor disse que já esperava o

Manoel diz que em alguns trechos o sentido foi modificado (Foto: Reprodução/TV Integração)

Manoel diz que em alguns trechos o sentido
foi modificado (Foto: Reprodução/TV Integração)

surgimento de pessoas contra a ideia.

Nas ruas, a população também se divide. “É muito fora dos padrões, até porque o Livro da Vida é a Bíblia e este linguajar não cabe muito bem”, disse o motorista Aparecido Reis da Silva. Para a estudante Thays Silva faltou respeito. “A Bíblia é algo de respeito. E isso ficou muito vulgar”, argumentou.

Para a pesquisadora Sidneia Silva, a mudança de estilo não é bem vinda. “A Bíblia tem que ser aquilo que nós vemos, da maneira como está escrita. Se eu mudar uma palavra, uma pessoa mudar outra, como vai ficar daqui a algum tempo ?”, questionou.

Frequentador da Igreja Manifesto, o técnico em eletrônica Cássio Atestor contou que apoia o projeto. “Eu entendo que seja uma forma de atrair as pessoas a lerem o texto original”, afirmou. Já a atriz Laís Batista disse que a nova linguagem tende a alcançar públicos diferentes. “Ela alcança novas tribos”, resumiu.

Sereno, o pastor disse que já esperava que nem todos concordassem com a releitura. “A discordância vem por causa da resistência que as pessoas têm à mudança do paradigma, da maneira de se falar”, avaliou.

O teólogo Manoel Messias disse que há pontos positivos e negativos na escolha do pastor. “Em alguns textos, como o prólogo de João, o capítulo 6 de Mateus, o pastor mantém a ideia do texto, embora com uma linguagem totalmente nova e, provavelmente, adequada ao público que ele tem interesse de levar esta Palavra. Em outros lugares, ele faz uso de alguns termos que talvez sejam um pouco fortes e desnecessários. Nestes casos, talvez altere um pouco o sentido do texto original”, explicou o teólogo.

Ainda segundo o pastor, ele escreve pelo menos um capítulo por dia e o objetivo é publicar a versão completa e impressa da Bíblia até o fim do ano que vem. No entanto, mesmo com toda a polêmica, ele não pretende desistir de evangelizar neste estilo “rock and roll” . “As críticas chamam muito a atenção, fazem muito barulho. Mas a quantidade de pessoas que têm escrito e dito que têm sido abençoadas por este trabalho compensa todo o esforço”, concluiu.

Cristo e os pobres: sobre a entrevista de Clodovis Boff na Folha

clodovisboff

Jung Mo Sung, no Novos Diálogos

O jornal Folha de São Paulo publicou nesta segunda-feira, 11/03/2013, uma entrevista com Clodovis Boff (foto) criticando a Teologia da Libertação (TL) no contexto da eleição do novo papa. Sabemos que entrevistas publicadas em jornais nem sempre expressam corretamente o pensamento do entrevistado por conta da edição, tamanho reduzido da matéria etc. Porém, penso que algumas das afirmações atribuídas a ele parecem ser verdadeiras porque ele as tem manifestado também em seus escritos. Por conta dos limites do tamanho de um texto escrito para internet, vou propor algumas breves reflexões sobre 3 pontos da entrevista.

Uma das críticas que ele faz à TL é que suas correntes hegemônicas não teriam entendido “a primazia da libertação espiritual, perene, sobre a libertação social, que é histórica”, e por preferir não entender essa distinção se degeneraram em ideologia. Como essa distinção está explicitada no livro Teologia da Libertação de Gutiérrez, é difícil imaginar quais seriam essas correntes hegemônicas. Em todo caso, uma das novidades da TL não foi negar ou afirmar a primazia da libertação espiritual sobre a histórica, mas propor uma nova forma de compreender a relação entre as duas. O que os principais teólogos/as da libertação sempre afirmaram é que, em situações de tanta injustiça e morte, a fé em Jesus se torna concreta, se encarna, na experiência espiritual de encontrar na face do pobre a face de Jesus, conforme nos ensina o evangelho de Mateus, cap. 25.

Isso nos leva a outra crítica de C. Boff: “Jon Sobrino diz: ‘A teologia nasce do pobre’. Roma simplesmente responde: ‘Não, a fé nasce em Cristo e não pode nascer de outro jeito’. Assino embaixo”. Da forma como está escrito, é facilmente perceptível que há dois temas em discussão: de onde nascem a teologia e a fé. É claro que a fé cristã nasce em Cristo, mas a teologia não é fé, é uma reflexão sistêmica sobre a nossa experiência de fé e, portanto, não necessariamente precisa começar com Cristo. Eu não sou especialista no pensamento de Sobrino, mas pelo que estudei dele posso afirmar que, para ele, o ponto de partida da reflexão teológica — que é diferente da fé — é o pobre enquanto nele encontramos a face de Cristo entre nós. Em outras palavras, o ponto de partida de teologia é a relação entre Cristo e o pobre. Sobrino diz isso explicitamente: “Existe na cristologia algo de metaparadigmático? A resposta é um ‘sim’ convicto, e o seu conteúdo central é a relação entre ‘Jesus e os pobres’, entre ‘Jesus e as vítimas’” (A fé em Jesus Cristo, 2000).

Como a história da teologia nos mostra que há muitas cristologias que começam discutindo Cristo e não chegam na vida concreta das vítimas e dos pobres, não basta começar só com Cristo. Assim como há muitas reflexões sociológicas que começam com os pobres e não chegam a Cristo ou à discussão sobre Deus porque não são teologias. A TL parte da relação entre Deus/Cristo e os pobres/vítimas. Fora disso não é TL.

Pode ser que o jornalista tenha entendido mal a colocação de C. Boff, mas essa crítica tem sido algo constante nos últimos textos dele sobre a TL.

Por fim, C. Boff diz: “O ‘cristianismo anônimo’ constituía uma ótima desculpa para, deixando de lado Cristo, a oração, os sacramentos e a missão, se dedicar à transformação das estruturas sociais” e endossa a afirmação de dom Romer de que “Não basta fazer o bem para ser cristão. A confissão da fé é essencial”. Eu realmente tenho dificuldade de achar que alguém tenha usado a tese rahneriana do “cristianismo anônimo” como desculpa, mas concordo que não basta fazer o bem para ser cristão. Pois isso negaria que um budista ou um ateu pudesse fazer o bem sendo budista ou ateu, sem querer ser cristão, muito menos cristão anônimo. Aliás, na parábola do “juízo final” (Mt 25) a identidade religiosa ou ideológica das pessoas nem entra em discussão. Concordo que ser cristão é assumir uma identidade religiosa ou espiritual e isso requer menção explícita a Jesus Cristo que é nos transmitido pelos evangelhos.

A confissão de fé em Jesus Cristo que se revela hoje no rosto e clamor do pobre faz diferença? Sim! É essa fé que nos permite “ver” a Deus, não através de afirmações filosófico-teológicas de onipotência ou outras categorias “divinas”, mas através da vida e obra de Jesus. É a fé em Jesus que nos faz afirmar juntamente com o autor da 1ª carta de João: “ninguém jamais contemplou a Deus. Se nos amarmos (ágape, amor-solidário) uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é realizado” (1Jo 4.12).

E esse amor solidário aos pobres só sobrevive às frustrações, conflitos internos, vaidades e invejas que experimentamos na luta se for acompanhada de vida comunitária, oração, liturgias e sacramentos. Só assim conseguimos perseverar na nossa missão de anunciar o Reino de Deus aos pobres e vítimas das opressões e não nos perdemos ao confundir Reino de Deus com alguma instituição religiosa ou política.

Há textos considerados da TL que confundem o Reino de Deus com algum Estado ou partido? Ou que falam de pobres sem relacionar com a experiência de fé em Cristo? Ou que não conseguem articular lutas pelas libertações na história com a esperança da ressurreição? Certamente há textos que não explicitam essas relações, mas isso não quer dizer que as negam. E se negar, não é boa TL.