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‘Estudos mostram que Jesus existiu. Se ele fez milagres, é outra história’

"A Anunciação", de Tintoretto (1518-1594)

“A Anunciação”, de Tintoretto (1518-1594)

título original: Desculpaí, mas Jesus existiu: um preâmbulo

Reinaldo José Lopes, no blog Darwin e Deus

Em plena Semana Santa, achei que seria o caso de abordar a fundo aqui no blog a questão da historicidade do personagem central destes sete dias: Jesus de Nazaré, é claro. Como o papo é complicadíssimo e o tempo de todo mundo (principalmente o meu, hehehe) é limitado, o único jeito é “quebrar” a discussão em vários posts. Este, portanto, é o preâmbulo — a ideia é publicar mais um post por dia até a Sexta-Feira Santa. Allons-y (como diria um certo doutor)!

Primeiro de tudo:

POR QUE MEXER NESSE VESPEIRO?

Como o título da série de posts deixa claro, a ideia é defender que algum sujeito chamado Jesus de fato nasceu em Nazaré (ou nasceu em Belém e cresceu em Nazaré, como queiram), andou pelas estradas da Galileia e da Judeia pregando e foi crucificado em Jerusalém lá pela terceira década do século 1º d.C. A questão é que, embora a esmagadora maioria dos historiadores sérios, tanto religiosos quanto agnósticos ou ateus, defenda que esse personagem existiu, há uma pequena minoria de amadores, e um ou outro historiador sério (em geral não especialista na análise das fontes bíblicas como documentos históricos), que diz que Jesus é basicamente um mito, inventado por Paulo ou por outros membros da primeira geração de cristãos. É claro que as afirmações desse pequeno grupo se tornaram populares, viraram “virais” na internet e seduziram boa parte das pessoas que, com bons ou maus motivos, querem dar umas porradas na crença cristã tradicional.

Bem, meu objetivo é demonstrar que essa ideia, desculpaí, beira a pseudociência. Se você usar os critérios SECULARES, “não religiosos”, que todos os historiadores usam para estudar o resto da Antiguidade clássica, e for honesto e equilibrado com os dados, a tendência esmagadora da lógica é aceitar a historicidade básica de Jesus de Nazaré.

MAS DIZEM QUE O CARA ANDOU SOBRE AS ÁGUAS E VOLTOU DOS MORTOS! COMO ISSO PODE SER HISTÓRICO?

Calma, calma, não criemos pânico. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Quando digo “historicidade básica”, quero dizer exatamente isso: os documentos históricos que chegaram até nós da Antiguidade são suficientes pra estabelecer que um sujeito chamado Jesus de Nazaré existiu, morreu lá pelo ano 30 d.C. e fez algumas coisas interessantes, como atuar como pregador, reunir discípulos e se indispor com as autoridades em Jerusalém. Usar esses documentos pra “provar” que ele tinha poderes sobrenaturais é outra história, completamente diferente — aliás, não é história, é teologia. O ponto central desta série de posts é tão somente demonstrar que não é razoável negar a existência histórica da figura. O resto está aberto à discussão.

É FÁCIL PRA VOCÊ FALAR, AFINAL VOCÊ É CATÓLICO, MANÉ!

Nunca escondi de ninguém e já abordei diversas vezes aqui no blog a minha crença religiosa. É claro que isso cria um viés, ainda que inconsciente, em favor de “acreditar em Jesus” — do ponto de vista da fé, bem entendido. Minha pergunta é: E DAÍ? Se eu fosse ateu, não é improvável (ainda que não fosse garantido) que existisse um viés contrário para “desacreditar”. Viés é que nem bumbum, gente: todo mundo tem o seu. A questão não é fazer com que os vieses inexistam — isso é impossível! –, mas sim fazer todo o esforço para “colocá-los entre parênteses” (ou colchetes!), para tentar, como metodologia, enxergar os dados que temos em mãos da maneira mais desapaixonada possível, deixando as evidências falarem, em vez de torturá-las para que elas digam o que queremos que elas digam.

Só pra constar: embora seja cristão, eu sei — e não tenho problemas pra aceitar — que um sem número de narrativas da Bíblia (a Criação, o Dilúvio, o Êxodo, muito do que se diz sobre David e Salomão etc.) não tem como ser história “real” no sentido como a entendemos hoje. O caso de Jesus, porém, é diferente DO PONTO DE VISTA HISTÓRICO — e não apenas do ponto de vista da fé.

A QUESTÃO DA “INVISIBILIDADE ARQUEOLÓGICA”

É claro que, em tese, todo o debate sobre a (in-)existência do Nazareno poderia ser resolvido de uma tacada só. Bastaria que alguma escavação em Jerusalém — digamos, na área da antiga Fortaleza Antônia, a praça-forte do poderio romano na Cidade Santa — achasse uma ordem de execução assinada por Pôncio Pilatos para um certo galileu. Ou que achassem a tumba com os restos mortais do dito cujo, o que, de quebra, enterraria o “mito da Ressurreição” (não, a tal “tumba de Jesus” que acharam e puseram em documentários de TV a cabo muito provavelmente não é a dele, mas isso é tema pra outro post).

Infelizmente, a chance de uma descoberta dessas acontecer é próxima de zero. Explico.

O fato, brava gente, é que boa parte das pessoas comuns do Império Romano, em especial os camponeses de uma população conquistada como os judeus da Galileia e da Judeia, são virtualmente invisíveis para nós com base na arqueologia. Sabemos um bocado sobre suas casas, seus instrumentos de trabalho, suas sinagogas e seus utensílios de cozinha, mas não conseguimos “colocar um rosto” nesse povo todo: não sabemos seus nomes, as histórias que contavam em volta da fogueira, o que pensavam, nada — a começar pelo fato de que quase todos, se não todos, devem ter sido analfabetos. É verdade que temos monumentos funerários de padeiros, açougueiros e ex-escravos romanos, que contam um pouco da história dessas pessoas, mas é preciso lembrar que esse é o povo “que deu certo”: gente que veio de baixo e acabou conseguindo uma posição econômica de destaque, e/ou tinha patronos com mais dinheiro e poder do que eles — fazer um monumento funerário era caro, pra começar.

Nada disso parece ter sido o caso de Jesus, de sua família ou de seus discípulos, oriundos, como eram, de um vilarejo de 200 pessoas nas colinas da Galileia. É natural que eles tenham sido “invisíveis” — ou, melhor dizendo, só tenham se tornado visíveis por meio de documentos literários, criados décadas depois da morte de Jesus por discípulos que tinham nível educacional e econômico mais elevado. É, aliás, o que acontece com todos os outros camponeses da Antiguidade: suas caras e suas vozes só aparecem quando são registradas — e, inevitavelmente, alteradas — pelos textos de gente que não pertencia à camada social deles.

O fato de que os Evangelhos retratam Jesus como alguém que arrebanhou milhares de seguidores antes de ser crucificado não refresca muito as coisas. Primeiro, é claro que os Evangelhos podem estar exagerando (até sem má intenção, apenas por distância cronológica) o número de seguidores de Jesus. Mas, fora isso, é importante lembrar que profetas, pregadores e milagreiros eram um fenômeno comum na Palestina do século 1º d.C. Entre a ascensão de Herodes, por volta de 40 a.C., e a revolta judaica contra Roma em 66 d.C. — um século, portanto — há pelo menos uns dez casos registrados de rebeldes messiânicos ou profetas que bagunçaram o coreto na região. Nada indica que, para aquele momento inicial, Jesus era mais importante do que esses sujeitos.

JESUS DE NAZARÉ E LEÔNIDAS DE ESPARTA: UM ESTUDO DE CASO

Queria, agora, chegar ao cerne do nosso papo de hoje. O fato é que, se formos usar a escassez de indícios arqueológicos diretos e a falta de fontes propriamente contemporâneas, escritas por “testemunhas oculares da história”, para rejeitar a historicidade de Jesus, teríamos de rejeitar a historicidade de… bem, de uns 70% dos personagens da Antiguidade clássica, ou talvez mais. Ficaríamos só com os monarcas e os membros da alta nobreza. E olhe lá: pra quem assistiu os dois filmes “300″, é bom lembrar que não daria pra aceitar a historicidade de ninguém menos que Leônidas, um dos reis de Esparta, o sujeito que morreu defendendo a Grécia da invasão persa em 480 a.C.

Vejamos: qual a primeira e mais confiável fonte documental histórica sobre a vida de Leônidas? Os textos do historiador grego Heródoto, que escreveu sobre as guerras entre gregos e persas por volta de 440 a.C., 40 anos depois da morte de Leônidas (coincidência ou não, Marcos, o mais antigo Evangelho, foi escrito uns 40 anos depois da morte de Jesus). Parece que Heródoto entrevistou alguns dos ex-combatentes dos dois lados, mas muito do que escreve tem algum cheiro de invenção épica ou de convenção literária, como o relato sobre a luta desesperada dos espartanos para proteger o corpo de seu rei depois que ele tombou.

Tem alguma evidência arqueológica contemporânea sobre a existência do hómi? Um túmulo, um epitáfio, moedas com a cara dele? Nada. Zero. Depois de Heródoto, temos apenas os textos do historiador grego Éforo (que só chegaram até nós por fragmentos), que escreveu mais de um século depois das Termópilas, por volta de 350 a.C. E, muito mais tarde, textos da época romana, produzidos por gente como Diodoro Sículo e Plutarco.

Dá para fazer o mesmo exercício que fiz com Leônidas com uma série de personagens da Antiguidade clássica. Sob esse ponto de vista, Jesus é um personagem histórico muito mais bem documentado do que Leônidas, já que há fontes independentes cristãs, judaicas e pagãs, todas compostas de algumas décadas a um século depois da morte dele, a respeito do Nazareno.

Meu próximo post começa a abordar essas fontes, partindo de Flávio Josefo, um historiador judeu cujos textos parecem ter sido alterados por copistas cristãos posteriores — mas, ao que tudo indica, não de maneira irreparável. Até lá!

Jimmy Carter: ‘Jesus Cristo era o campeão dos direitos das mulheres’

Ex-presidente americano, que acaba de lançar mais um livro, fala de agressão às mulheres, racismo, republicanos e da atração fatal dos EUA pela guerra

título original: Carter abre o jogo

David Daley, no SALON [via Estadão]

'Nossas universidades inibem as estudantes de denunciar estupros' (foto: Navesh Chitrakar/Reuters)

‘Nossas universidades inibem as estudantes de denunciar estupros’ (foto: Navesh Chitrakar/Reuters)

O novo livro de Jimmy Carter, A Call to Action, é uma adição corajosa à biblioteca de aproximadamente duas dezenas de livros que o ex-presidente dos EUA escreveu após seus anos na Casa Branca. O livro tem por subtítulo Women, Religion, Violence and Power, e Carter aborda sem medo os assuntos mais polêmicos: agressão sexual em câmpus universitários e meios militares; líderes religiosos que usam textos sagrados para justificar a opressão; penas de prisão punitivas contra pobres e minorias sociais; guerras com drones e operações militares intermináveis americanas.

Numa conversa breve, mas abrangente, falamos sobre muitos desses tópicos – mas também sobre a guerra republicana contra as mulheres; as críticas do presidente Barack Obama que ecoam críticas de seu próprio governo; e sobre como seu neto, Jason, poderá reverter a evasão de homens sulistas brancos para o Partido Republicano. Perguntado sobre a razão para os homens brancos optarem pelos republicanos, Carter, de 89 anos, foi inequívoco: “É raça”. Sobre outros tópicos, em especial sobre a Fox News e a guerra republicana às mulheres, as repostas de Carter foram igualmente diretas, porém mais surpreendentes. Espere só para ouvir sua resposta sobre slut-shaming (expressão usada com o intuito de intimidar e perseguir mulheres de comportamento ou visual sexualmente desinibido).

O sr. diz no livro que ‘há um abismo inevitável entre os líderes que escrevem e administram as leis criminais e as pessoas que lotam as prisões’. Que papel acha que a raça desempenha na perpetuação desse abismo?

As estatísticas ainda mostram que a raça faz uma grande diferença. Afro-americanos e hispânicos não só são comparativamente mais atingidos pela pobreza como são muito mais passíveis de serem presos do que outras pessoas. Desde que saí da Casa Branca, 800% mais mulheres negras estão encarceradas. A maioria das pessoas que estão na prisão por um longo período de tempo são hispânicos, negros ou mentalmente deficientes. A conclusão é que, considerando as pessoas que escrevem as leis, administram as leis e as aplicam, as demais são excluídas de qualquer tratamento igualitário no sistema de Justiça.

Seu texto também bate duro numa cultura de agressão sexual em câmpus universitários, observando estatísticas de que 95% das estudantes sexualmente agredidas permanecem em silêncio.

É verdade. Elas não denunciam. É algo que me choca muito.

Será pela maneira como a mídia cobre a questão, a forma como o sistema judicial funciona ou o extremismo do debate político em torno do tema?

Não é extremismo. É que as mulheres são desencorajadas de denunciar. E isso é feito por bem intencionados e esclarecidos presidentes de universidades, e reitores de faculdades também. Eles não querem repercussões negativas para seus câmpus ou universidades – veja a Universidade Duke ou a Emory, onde leciono, ou Harvard ou Yale. Eles querem que a universidade tenha um atestado de saúde no que toca à agressão sexual. E advertem as garotas de que, quando a pessoa denuncia o estupro, ela será posta no banco das testemunhas e será obrigada a falar sobre as circunstâncias mais embaraçosas. “Que tipo de calcinha você usava? Você dá beijo de língua? Tem um histórico carregado de encontros com rapazes?” É muito embaraçoso. Aliás, perguntaram a uma guarda-marinha na Academia Naval no banco das testemunhas sobre a largura com que abria a boca enquanto fazia sexo oral nos jogadores de futebol americano que a estupraram. Também convencem a garota de que o rapaz, faça ele o que fizer, provavelmente não será condenado – particularmente se for branco. Ele alegará que a moça estava interessada em sexo consensual, usava roupas provocantes e parecia querer fazer sexo. Ou que estava bebendo.

O sr. é provavelmente o primeiro presidente a mencionar abertamente esse tema num livro. Está familiarizado com a expressão “slut-shaming”, que joga um papel importante na discussão sobre agressão sexual?

Já a ouvi, mas não creio que possa lhe dar uma definição exata, ou usá-la numa sentença (risos).

É um método pelo qual pessoas tentam jogar a culpa de estupro e agressão sexual na vítima. Ou uma maneira de aviltar mulheres como Sandra Fluke, que veio a público para falar em defesa da cobertura contraceptiva e saúde reprodutiva e acabou denunciada como prostituta por Rush Limbaugh no rádio, diante de toda a nação.

É o que acontece. Por isso eu menciono um relatório do Departamento de Justiça americano segundo o qual metade dos estupros em câmpus universitários é perpetrada por estupradores em série. Porque ali eles percebem que podem continuar com isso, e o fazem repetidamente. Por que alguma universidade desejaria manter esse tipo de estudante no câmpus? Eu simplesmente não compreendo. O mesmo acontece no meio militar. Estive na Marinha por muito tempo, em submarinos, por isso eu sei. Oficiais de uma companhia, de um batalhão ou de um navio não querem admitir que esse tipo de coisa ocorra sob o seu comando.

callOuvimos o ex-governador republicano Mike Huckabee falar de como as mulheres não conseguem controlar sua libido, o congressista Todd Akin falando de ‘estupro legítimo’ e o concorrente ao Senado Richard Mourdock defendendo que gravidez resultante de estupro é uma intenção de Deus. Uma posição contra a mulher parece inscrita na plataforma do Partido Republicano, é isso?

Apesar de haver extremistas nos dois lados, eu não gostaria de afirmar que os democratas são pela proteção das mulheres e os republicanos não.

Em geral, não se ouve esse tipo de conversa do lado democrata.

Há maridos democratas que abusam de suas mulheres e há presidentes de empresas democratas que pagam às mulheres 23% menos do que pagam aos homens. De modo que há abusos em ambos os lados.

O sr. claramente condena a rapidez com que os EUA recorrem à ação militar. Escreve que, ‘mais do que qualquer nação no mundo, os EUA estiveram envolvidos em conflitos armados e usaram a guerra como meio para resolver disputas’.

Isso é fato, e eu enumero algumas das guerras. Menciono 10 ou 15, mas poderia citar mais 10 ou 15.

O sr. é especialmente crítico de nossas guerras com drones, e com o fato de pessoas inocentes serem mortas quase como danos colaterais. Será que nós americanos nos vemos como realmente somos? E como o resto do mundo nos percebe?

O restante do mundo, quase unanimemente, vê os EUA como o militarista-mor. Recorremos ao conflito armado num piscar de olhos – e com muita frequência isso não só é desejado pelos líderes de nosso país como também é apoiado pelo povo americano. Também retrocedemos para um grau terrível de punição de nosso povo em vez de trazê-lo de volta à vida. E isso significa que temos 7,5 vezes mais pessoas presas do que quando deixei o governo. Somos o único país entre os membros da Otan que tem a pena de morte; e isso é mais uma mancha sobre nós no que diz respeito à violência injustificável, desnecessária e contraproducente.

John Kerry foi ao programa Meet the Press depois das ações russas na Crimeia e disseque ‘este é o século 21, não se pode mais simplesmente invadir outro país’. Penso que muitos de nós disseram que foi exatamente isso que fizemos no Iraque em pleno século 21…

Correto, Fizemos. Fazemos isso o tempo todo. Isso é Washington. Infelizmente.

Uma das críticas ao presidente Obama é também algo que foi dito com frequência sobre o governo do sr.: que ele não ‘socializa’ o suficiente em Washington, que republicanos não são convidados para coquetéis na Casa Branca, etc. As coisas seriam realmente diferentes para o presidente Obama se ele tivesse republicanos na Casa Branca?

Não creio que alguém tenha colocado mais republicanos na Casa Branca do que eu – talvez não para coquetéis, mas para ajudar a rascunhar leis, preparar ações congressionais úteis e convencê-los a votar em meus projetos de lei. Aliás, tive melhor média de resultados positivos com o Congresso, tanto democrata como republicano, do que qualquer presidente desde a 2ª Guerra, exceto Lyndon Johnson. Foi preciso um esforço heroico de minha parte para conseguir que dois terços do Senado votassem pelo tratado do Canal do Panamá. Foi a votação mais corajosa que o Senado já fez.

O sr. foi eleito governador e presidente como um democrata sulista branco, segmento da população que desertou do Partido Democrata. Em alguns Estados sulistas deve haver atualmente 30% de homens com esse perfil apoiando os democratas. É com isso que seu neto Jason lida agora, ao concorrer para governador da Geórgia. A economia se agrava, a desigualdade só piora e a resposta de homens brancos no Sul é apoiar o ‘partido do 1%’. A questão é raça? Gênero? Medo?

É raça. Raça. Isso vem prevalecendo no Sul, exceto que, quando concorri, eu consegui cada Estado sulista, menos a Virgínia. Desde que Nixon concorreu, os republicanos solidificaram seu domínio ali. E mesmo este ano, como deve saber, os republicanos fizeram uma proposta para instituir uma placa de carro da Geórgia exibindo uma bandeira confederada. É esse tipo de coisa: o apelo para pessoas mais ricas, que são quase sempre brancas, e o aviltamento das pessoas que recebem cupons de alimentação, com muita frequência pessoas pobres. Mais a alegação de que as pessoas que vão para a cadeia são simplesmente culpadas, quando elas são principalmente negras, hispânicas e mentalmente doentes. Esse tipo de coisa só exalta a classe superior, que são os brancos. Eles traçam uma linha divisória racial sutil, porém muito efetiva, por todo o Sul do país.

Que papel acha que a Fox News desempenhou na exacerbação das divisões políticas, em prejuízo de nossa capacidade de chegar a um consenso nessas questões complicadas sobre as quais o senhor falou? A Fox instiga o medo ou a animosidade racial?

A CNN foi fundada quando eu era presidente e achei que ela era a proposta mais satisfatória para o mundo todo. Agora penso que a mídia noticiosa está fragmentada. Acho que a Fox News pende muito para o lado republicano e conservador, e que a MSNBC pende muito para o outro lado – o que está muito bem para mim. Cada um assiste ao que quer. Creio que a CNN tenta ocupar uma posição intermediária e muitas vezes sofre financeiramente por isso. Mas não tenho críticas: a imprensa é livre.

E os líderes religiosos que o sr. discute, de todas as fés, que interpretam textos religiosos de maneira a encorajar a submissão e a opressão das mulheres? Acredita que essa seja uma leitura deliberadamente enganosa dos textos por parte deles ou eles chegam honestamente a essas interpretações?

Eles realmente encontram esses versículos na Bíblia. Como sabe, se percorrer o Novo Testamento, o que faço todos os domingos, posso encontrar versículos escritos por Paulo que dizem às mulheres que não deveriam falar na igreja, não deveriam ir enfeitadas à igreja, e assim por diante. Mas também encontro versículos do mesmo Paulo dizendo que todas as pessoas são iguais aos olhos de Deus. Que homens e mulheres são o mesmo: amos e escravos são o mesmo; e judeus e gentios são o mesmo. Não há diferença entre pessoas aos olhos de Deus. E também sei que Paulo escreveu o 16º capítulo de Romanos para aquela igreja e apontou cerca de 25 pessoas que haviam sido heroicas em cada igreja primitiva – e cerca da metade delas eram mulheres. Portanto, é possível encontrar versículos de vários lados, mas no que trata de Jesus Cristo, ele era unanimemente e sempre o campeão dos direitos das mulheres. Na verdade, ele foi o mais destacado defensor dos direitos humanos que viveu em seu tempo e acho que não houve ninguém mais comprometido com esse ideal do que ele.

Quando olha para o mundo e para a história, para guerras que foram travadas em nome da religião, e da subjugação e violência que continuam hoje, pesando também os heroicos líderes de direitos humanos, muitos deles figuras religiosas transformadoras, a religião tem sido, no conjunto, positiva ou negativa para o mundo?

Acredito que tem sido positiva, porque religiões básicas como islamismo, cristianismo, judaísmo e também budismo e hinduísmo, todas têm uma premissa primordial de paz, justiça, compaixão, amor, etc. Se nos prendermos a esses princípios básicos, penso que a religião é benéfica.

dica da Karen Souza

Papa pede a católicos que reflitam se são fieis a Jesus ou traidores

papa-francisco

Publicado no G1

O papa Francisco iniciou neste domingo (13) os ritos da Semana Santa com a missa do Domingo de Ramos, durante a qual pediu para que os católicos se questionem se são como os que traíram Jesus Cristo ou foram corajosos e fieis a Ele até o final.

“Onde está meu coração? A qual dessas pessoas [do Evangelho] me assemelho? Que esta pergunta nos acompanhe durante toda a semana”, afirmou o Papa em tom sério ante uma multidão congregada na Praça de São Pedro durante sua homilia.

Pouco antes, o sumo pontífice presidiu a procissão de Ramos, apoiado em um bastão esculpido para a ocasião pelos detentos do presídio de San Remo (centro-oeste da Itália), e cercado por dezenas de jovens padres e bispos.

“Quem sou eu? Quem sou eu frente a Jesus que sofre?’, questionou o papa ao iniciar seu discurso, causando uma tensão palpável entre os fieis.

“Sou como Judas, capaz de trair Jesus, ou sou como os discípulos que não entendem nada, que dormiam enquanto que o Senhor sofria? Minha vida está adormecida?”, indagou o papa argentino.

 

Análises apontam que papiro que fala da esposa de Jesus não é falso

foto: Karen L. King/Harvard University/Reuters

foto: Karen L. King/Harvard University/Reuters

Publicado por AFP [via UOL]

Um pedaço de papiro antigo que contém uma menção à esposa de Jesus não é uma falsificação, de acordo com uma análise científica do controverso texto, declararam nesta quinta-feira (10) pesquisadores americanos.

Acredita-se que o fragmento seja proveniente do Egito e contém escritos na língua copta, que afirmam: “Jesus disse-lhes: ‘Minha esposa…’”. Outra parte diz ainda: “Ela poderá ser minha discípula”.

A descoberta do papiro, em 2012, provocou um rebuliço. Pelo fato de a tradição cristã afirmar que Jesus não era casado, o documento atiçou os debates sobre o celibato e o papel das mulheres na Igreja.

O jornal do Vaticano declarou que o papiro era uma farsa, juntamente com outros estudiosos, que duvidaram de sua autenticidade baseados em sua gramática pobre, texto borrado e origem incerta.

Nunca antes um evangelho se referiu a Jesus como casado, ou tendo mulheres como discípulos.

Mas uma nova análise científica do papiro e da tinta, bem como da escrita e da gramática, mostrou que o documento é antigo.

“Nenhuma evidência de fabricação moderna (‘falsificação’) foi encontrada”, declarou a Harvard Divinity School em um comunicado.

O fragmento provavelmente remonta a uma data entre os séculos 6 e 9, mas poderia ter sido escrito até mesmo no segundo século da Era Comum, segundo os resultados do estudo publicados na Harvard Theological Review.

A datação por radiocarbono do papiro e uma análise da tinta utilizando espectroscopia Micro-Raman foram realizadas por especialistas da Universidade de Columbia, da Universidade de Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

“A equipe concluiu que a composição química do papiro e os padrões de oxidação são consistentes com papiros antigos, ao comparar o fragmento do Evangelho da Esposa de Jesus (Gospel of Jesus’ Wife – GJW, em inglês) com um fragmento do Evangelho de João”, declarou o estudo.

“O teste atual suporta, assim, a conclusão de que o papiro e a tinta do GJW são antigos”, esclareceu.

Origem desconhecida

A origem do papiro é desconhecida. Karen King, historiadora da Harvard Divinity School, o recebeu de um colecionador – que pediu para permanecer anônimo – em 2012.

King, uma historiadora do cristianismo primitivo, declarou que a ciência mostrar que o papiro é antigo não prova que Jesus era casado.

“A questão principal do fragmento é afirmar que as mulheres que são mães e esposas podem ser discípulas de Jesus – um tema que foi muito debatido no início do cristianismo, num momento em que a virgindade celibatária se tornou cada vez mais valorizada”, explicou King em um comunicado.

“Este fragmento do evangelho fornece uma razão para reconsiderar o que pensávamos que sabíamos, ao se perguntar o papel que as declarações sobre o estado civil de Jesus desempenharam historicamente nas controvérsias cristãs sobre casamento, celibato e família”.

O fragmento mede quatro por oito centímetros.

King declarou que a data do documento – escrito séculos depois da morte de Jesus – significa que o autor não conhecia Jesus pessoalmente.

Sua aparência bruta e os erros gramaticais sugerem que o escritor tinha apenas uma educação elementar, acrescentou.

Leo Depuydt, professor de Egiptologia da Universidade Brown, escreveu um artigo, também publicado na Harvard Theological Review, descrevendo por que acredita que o documento é falso.

“O fragmento do papiro parece perfeito para um esquete do Monty Python” (famoso grupo de comediantes britânicos), declarou.

Ele apontou erros gramaticais e o fato de as palavras “minha esposa” parecerem ter sido enfatizadas em negrito, o que não é utilizado em outros textos coptas antigos.

“Como um estudante de copta convencido de que o fragmento é uma criação moderna, sou incapaz de fugir à impressão de que existe algo quase engraçado no uso das letras em negrito”, escreveu.

King publicou uma refutação às críticas de Depuydt, dizendo que o fato de a tinta estar borrada era comum e que as letras abaixo de “minha esposa” eram ainda mais escuras.

dica do Ailsom Heringer

A Teologia da Missão Integral e o Marxismo

Cristo socialistaAriovaldo Ramos

Desde que ouvi falar de missão integral em 2007, enquanto fazia uma escola da JOCUM, fiquei interessado e comecei a pesquisar sobre o tema. Adquiri alguns livros, baixei artigos da internet, assinei Ultimato, enfim, quis saber quem falava sobre missão integral e o que falavam sobre missão integral. Em meio a muitas leituras e questionamentos, não sei se estou sendo tolo, mas a minha pergunta é: a teologia da missão integral dialoga com o marxismo ou mesmo se apropria de alguns pressupostos marxistas? Se sim, como articular cosmovisões contrárias uma da outra?
Filipe Reis, Parintins, AM

Bem, Filipe, nós vivemos num mundo profundamente influenciado pelo marxismo. Então, é impossível dialogar com o mundo sem dialogar com o marxismo num nível ou noutro. O marxismo mudou a face do Ocidente por, pelo menos, setenta anos. Estabeleceu-se como fato histórico, vimos surgirem blocos socialistas no mundo todo. E a grita do marxismo era a de que o capitalismo estava na contramão do que produziria felicidade humana, e que era preciso chegar a uma nova fase na história da humanidade a que eles chamaram de comunismo, que era, segundo Marx, o sucedâneo natural do capitalismo.

As experiências revolucionárias marxistas não comprovaram a tese, porque as grandes nações, que se tornaram socialistas, do ponto de vista marxista-leninista, deram ou tentaram dar um salto do feudalismo para o comunismo, já que nem uma delas havia passado pelo capitalismo propriamente dito. Mas estão aí, fizeram história, milhares de escritos, de reflexão por todo o mundo, em todas as línguas. Então, é impossível falar ao mundo sem dialogar com os que também tentam interpretar e até mesmo transformar o mundo. Neste sentido, a Teologia da Missão Integral dialoga com o marxismo assim como dialoga com A riqueza das nações de Adam Smith, com o capitalismo, porque nós estamos tentando responder a grande pergunta humana que é “qual é o sentido da vida, para o que é que nós existimos, de onde viemos, para onde vamos e como devemos viver?”. Então, nós dialogamos com todo mundo, inclusive com outras confissões de fé. Nós estamos lutando pela humanidade como todo mundo.

Agora, se o que você está perguntando é se a Teologia da Missão Integral lança mão do referencial teórico marxista, a resposta é NÃO. A TMI considera as análises marxistas, entende a validade de muitas de suas análises, mas não lança mão do referencial teórico do marxismo, porque a Missão Integral se estriba na recuperação de dois conceitos:

1- O conceito de justiça no profetismo hebraico. No profetismo hebreu você tem a noção de justiça, ela vai aparecer nos grandes profetas que vão dizer, como Amós (5.24), que a justiça deve correr como um rio que nunca seca. Todos os profetas hebreus levantaram a questão da justiça e são eles que introduzem esta noção da justiça como um critério transcendente: justiça não é mais uma relação de poder entre fracos e fortes, entre vencedores e vencidos; justiça é uma demanda divina, uma demanda de Deus; ele exige justiça, Deus exige que os pobres sejam tratados com decência, exige, de fato, que não haja pobreza, que haja libertação econômica, social e política (essa noção aparece no Jubileu e no Ano da Remissão – Lv 25; Dt 15.1-10). A justiça nasce no coração de Deus e é introduzida na história humana pelos profetas hebreus, são eles que trazem a noção de justiça para a história e trazem-na como um dado transcendente, e não como uma conclusão imanente, ou seja, não foram os seres humanos pensando sobre si, sobre a história, sobre a sociedade que chegaram à noção de igualdade, de justiça, de que não pode haver pobre; pura e simplesmente.

Foram os profetas hebreus que trouxeram este elemento para a história humana, esta visão de que há uma demanda da parte de Deus por igualdade entre os homens, por dignidade para todos os homens, pelo fim da pobreza, pelo respeito ao diferente, pelo abrigo ao estrangeiro, pela noção de direito humano. E isso vem diretamente de Deus, está espalhado por todo o Antigo Testamento, desde a lei de Moisés que é reforçada pelo profetismo hebraico que, na verdade, é um trabalho de recuperação do espírito da lei de Moisés, que clama por justiça. Este é o primeiro referencial da Missão Integral. Você verá isso nos escritos de René Padilla, nos escritos de Samuel Escobar, de Orlando Costas, de Pedro Araña e muitos outros.

2- O outro referencial da Teologia da Missão Integral é a recuperação da noção do Reino de Deus e sua justiça, a ideia de que o Reino de Deus é um outro sistema que se opõe ao sistema vigente, que se opõe ao sistema capitalista e ao sistema soviético. É um outro sistema que vem não para estar ao lado dos sistemas em pauta, mas para substituí-los, para erradicá-los. Isso aparece no profeta Daniel que, quando responde ao sonho de Nabucodonosor, fala sobre a pedra que é lançada por mãos não humanas contra a estátua.

A estátua, no sonho de Nabucodonosor, sintetiza todas as tentativas humanas de resolver o problema humano sem considerar a hipótese de Deus ou sem considerar a revelação de Deus, tudo o que os homens tentaram em todos os níveis: o feudalismo, o capitalismo, o comunismo; está tudo lá na estátua. E a pedra é o Reino de Deus, que vem e derruba a estátua, triturando-a, desfazendo todos os componentes da estátua até transformá-la em pó, pó que é varrido pelo vento de modo que da estátua não fica nem lembrança, e a pedra cresce, alarga-se e toma toda a terra, ou seja, uma nova realidade assume o controle da história e essa nova realidade é o Reino de Deus.

A Teologia da Missão Integral vai recuperar essa noção de Reino de Deus que aparece com força total no Novo Testamento, a partir da pregação de João Batista, e que é referendada e ratificada pela pregação de Jesus de Nazaré: arrependei-vos porque é chegado o Reino dos Céus. Nos quatro Evangelhos você verá que os fariseus, os saduceus, os mestres da lei, que viviam inquirindo Jesus, fizeram perguntas, de toda ordem, de todo tipo, mas nenhum deles perguntou o que era o Reino dos céus. Todos eles sabiam do que João e Jesus estavam falando, eles sabiam o que era o Reino dos Céus: a chegada da realidade definitiva, a realidade que iria se impor á história, que iria conquistar a história, que iria se estabelecer na história e iria dar o tom à história.

É isso que a Teologia da Missão Integral recupera: a noção do Reino de Deus como um sistema que engloba tudo o que afeta o homem e tudo o que o homem afeta. Engloba, portanto as questões social, política, econômica, ética, a moral, educacional, do trabalho, do direito, porque tudo isso afeta o homem e é afetado pelo homem, por isso é um sistema só, e esse sistema precisa ter um novo princípio vetor que segundo as Escrituras é o Reino de Deus. Assim, o Reino de Deus é um novo sistema onde só a vontade de Deus é feita, e é um sistema econômico, político, social, moral, ético, educacional, está tudo contido no Reino de Deus.

A Teologia da Missão Integral é uma proposta Ortodoxa, que amplia a missiologia da Igreja, portanto uma proposta de Evangelização, de proclamação da necessidade da conversão ao Cristo, na sua forma mais radical, mas não tem a pretensão de que seja a Igreja que venha a implantar o Reino de Deus, ela tem a intenção de encorajar a Igreja a sinalizar que o Reino de Deus já está presente, e trabalha para que a Igreja seja uma mostra do mundo vindouro “as primícias” do Reino de Deus, como Tiago (Tg1.18) nos advertiu.

Sendo assim, a partir da Igreja os paradigmas do Reino dos Céus devem ser vividos, e aí a Igreja, como uma das protagonistas da história, precisa ser proativa e sinalizar a presença do Reino a partir de todas as suas possibilidades, e influenciar o mundo com os padrões do Reino de tal maneira que, guardadas as devidas proporções, o mundo se torne o mais parecido possível com o Reino vindouro. E isso vai significar a chegada da paz, da igualdade, do direito, da responsabilidade moral, de uma sociedade sem classes, de uma sociedade justa, de uma sociedade igualitária, solidária, isso é a pregação da Teologia da Missão Integral.

Você pode dizer que aqui ou ali nós esbarraremos em conceitos marxistas, mas eu preciso lembrar a você de que Marx veio depois da Igreja Primitiva, veio depois de Jesus, o Cristo. Não somos nós que estamos buscando conceitos em Marx, foi Marx que buscou os conceitos dele na tradição judaico-cristã, e tentou criar um projeto de uma vida semelhante ao que a Igreja primitiva viveu. Porém o filósofo quis atingir essa realidade sem a necessidade da hipótese de Deus, e por métodos que a Ortodoxia Cristã não apoia.

Nós não trabalhamos com o referencial marxista porque o nosso referencial é anterior. Embora aqui e ali, nós possamos ter intersecções com os marxistas, se isso acontecer, será porque, como disse o Karl Jaspers, nenhuma filosofia do Ocidente foi desenvolvida sem que a Bíblia fosse o pano de fundo. E nem Karl Marx escapou disso.

Fonte: Ultimato [via fan page Ed René Kivitz]