Arquivo da tag: Jesus

Os profetas interpretam o presente e antecipam o futuro

Publicado por Leonardo Boff

Profeta Isaías, no detalhe de pintura de Michelangelo na Capela Sistina.

Profeta Isaías, no detalhe de pintura de Michelangelo na Capela Sistina.

Profeta no sentido bíblico não é em primeiro lugar aquele que prevê o futuro. É aquele que analisa o presente, identifica tendências, geralmente, desviantes, faz advertências e até ameaças. Anuncia o juízo de Deus sobre o curso presente da história e faz promessas de liberação das calamidades e aponta um rumo feliz para a história a seguir.

A partir da captação das tendências, faz previsões para o futuro. No fundo afirma: se continuar este tipo de comportamento dos dirigentes e do povo  ocorrerão fatalmente desgraças. Estas são consequências das violações de leis sagradas. E ai e projetam cenários dramáticos que possuem uma função pedagógica: trazer todos à razão e à observância do que é justo e reto diante de Deus e da natureza.

Lendo alguns profetas do Antigo Testamento e mesmo advertências de Jesus sobre a situação dos tempos futuros, quase espontaneamente nos lembramos de nossos dirigentes e de seu comportamento irresponsável face aos dramas que se estão preparando para a Terra, para a biosfera e para o eventual destino de nossa civilização.

Há dias em algumas partes do norte do mundo se rompeu a barreira tida como a linha vermelha que deveria ser respeitada a todo o custo: não permitir que a presença de dióxido de carbono na atmosfera chegasse a 400 partes por um milhão. E lamentavelmente chegou. Atingido este nivel, dificilmente o clima aquecido voltará atrás. Estabilizar-se-á e poderá  tomar um curso de alta. A Terra ficará aquecida por volta de dois graus Celsius ou mais. Muitos organismos vivos não conseguem adaptar-se, não tem como minimizar os efeitos negativos e acabam desaparecendo. A desertificação se acelerará; safras serão perdidas; milhares de pessoas deverão abandonar seus lugares por causa do calor insuportável para poder  sobreviver e garantir sua alimentação.

É num contexto assim que leio  trechos do profeta Isaías. Viveu no século VIIIº a. C. num dos períodos mais conturbados da história. Israel se encontrava exprimida entre duas potências, Egito e Assíria que disputavam a hegemonia. Ora era invadido por uma destas potências ora por outra deixando um rastro de devastação e de morte.

Neste contexto dramático Isaías escreve um inteiro capítulo, o 24º, todo numa linha de devastação ecológica. As descrições  se assemelham ao que pode acontecer conosco se as nações do mundo não se organizarem para deter o aquecimento global, especialmente, aquele abrupto já advertido por notáveis cientistas e que poderá ocorrer antes do final deste século. Se ele efetivamente ocorrer, a espécie humana correrá grande risco de dizimação e de destruição de grande parte da biosfera.

Devemos tomar a sério os profetas. Eles decifram tendências numa perspectiva que vai para além do espaço e do tempo. Por isso também a nossa geração poderá estar incluída em suas ameaças. Transcrevo alguns trechos do capítulo 24 como advertência e material de meditação:
“O mesmo acontecerá ao credor e ao devedor: a Terra será totalmente devastada. Ela foi profanada pelos seus habitantes porque transgrediram as leis, passaram por cima dos preceitos, romperam a aliança eterna. Por esta razão, a maldição devorou  a Terra e são culpados os que nela habitam…A Terra se quebra, é abalada violentamente e é fortemente sacudida. A Terra cambaleia  como um bêbado, é agitada como uma choupana…A lua sera confundida e o sol terá vergonha”.

Jesus, o derradeiro e maior de todos os profetas, adverte:”uma nação se levantará contra outra e um reino contra outro. Haverá fome e peste e terremotos em diversos lugares”(Mateus 24, 7). “Na Terra angústia tomará conta das nações perturbadas pelo bramido do mar e das ondas. As pessoas desmaiarão de medo e de  ansiedade pelo que virá sobre toda a Terra pois as  forças do céu serão abaladas( Lucas 22, 25-27).

Não ocorrem cenas semelhantes nos tsunamis do sudeste da Ásia, em Fukushima no Japão, nos grandes tornados e tufões como o Kathrina e o Sandy nos Estados Unidos e em outros lugares do planeta? As pessoas não são tomadas de pavor ao assistir a devastação  e ao ver os solos cobertos de cadáveres? Estas catástrofes não ocorrem por acaso mas acontecem porque rompemos a aliança sagrada com a Terra e seus ciclos. São sinais e analogias que nos chamam à responsabilidade.

Curiosamente, apesar de todos os cenários de dizimações, a palavra profética sempre termina com a esperança. Diz o profeta Isaias:” Deus tirará o véu de tristeza que cobre todas as nações. Ele enxugará as lágrimas de todas as faces… Naquele dia se dirá: este é o nosso Deus; nós esperamos nele e ele nos salvará”(25,7.9). E Jesus arremata  prometendo:”quando começarem a acontecer estas coisas, tomai ânimo  e levantai a cabeça porque se aproxima a libertação”(Lucas 21,28).

Depois destas palavras proféticas não cabe  comentário; apenas o silêncio pesaroso e meditativo.

“Como cristãos, unimos nossas vozes em favor da Justiça”

bh1

título original: Carta Pública sobre manifestação em BH: Rede FALE e Aliança Bíblica de Profissionais de BH

Caio Marçal, no Blog do Fale

Nós, cristãos evangélicos do grupo da Rede Fale e da Aliança Bíblica  de Profissionais  de Belo Horizonte, estamos muito atentos ao atual momento que tem mobilizado milhares de cidadãos em nossa cidade. Há uma evidente descontentamento no seio de parte da sociedade civil brasileira ante a problemas como a falta de  mobilidade urbana, custo do transporte público ou dos males da corrupção em diversos níveis da política brasileira, por exemplo.

Não podemos deixar de registrar que bandeiras como essas são extremamente justas e necessárias. Nosso país ainda não conseguiu superar problemas estruturais ou vícios no âmbito dos poderes públicos. Celebramos profundamente ver jovens preocupados com os problemas da coletividade. Como cristãos,  unimos nossas vozes em favor da Justiça, valor essencial do Evangelho de Jesus. Porém é preciso lembrar que mais do que ir as ruas, é primordial qualificar com maior profundidade o debate sendo propositivo. Embora seja válido dizer que se é contra a corrupção, por exemplo, é preciso se apropriar de discussões como reforma política e fortalecimento de mecanismos de transparência pública. Esperamos que esse novo momento inspire a todos a ter maior envolvimento  e acúmulo sobre as pautas da cidade a posteriori. Tais pautas inclusive já mobilizam movimentos e organizações sociais em Belo Horizonte.

É com pesar que vemos atos de violência em alguns manifestos. Pedimos encarecidamente que a polícia e manifestantes tenham zelo quanto a construção de uma cultura de paz. Não cabe à PM reprimir atos públicos com força desmedida e nem a alguns manifestantes agir de forma semelhante. Devemos compreender que a construção da paz não é tarefa exclusiva das autoridades públicas, mas uma via de mão dupla que deve comprometer a todos nós. O papel dos órgãos de segurança pública é de proteger e de garantir o direito de livre manifestação que acontece de modo pacífico. É notório verificar que, quando não houve uma postura belicosa em manifestações, não houve sequer um distúrbio — a exemplo do último sábado, dia 15/6. É a autoridade pública a primeira que deveria dar o exemplo e agir modo condizente com sua função de trazer bem estar social.

Lamentamos o fato de que desde o início o Poder Judiciário de Minas Gerais tenha determinado a proibição das manifestações, ferindo assim as garantias da Constituição Federal. Tal decisão é em si um ato de violência.

Não obstante, salientamos que, embora não se possa classificar a grande maioria das pessoas de “vândalos”, alguns passaram da medida ao agir de forma violenta. É fraudulenta a manipulação de alguns grupos da mídia local que tentam criminalizar a todos. Essa atitude impensada, que não reflete a postura da maioria, não pode ser aceita. Quem agride se coloca em igual condição de quem o agrediu. Não se pode aceitar as lógicas da violência, pois na medida em que a aceitamos, estamos validando-a. Ademais, ao agir assim, põe-se em risco a vida de quem se manifesta de modo pacífico, que é a esmagadora maioria. Conclamamos a todos que exerçam seus direitos de livre expressão e que, ao fazê-lo, usem o bom senso e cultivem o cuidado com a a integridade física de todos, assim como desejamos que o tratamento do Estado seja respeitoso e garanta o direito legítimo de protesto. Unimo-nos com outros coletivos e movimentos sociais no esforço na promoção da paz e da não violência.

Como seguidores de Jesus, proclamamos que o pacifismo é o único caminho viável para um mundo mais justo e no reconhecimento que somos irmãs e irmãos.

Nossa oração é que todos, responsáveis pela paz na cidade, procedamos com cordialidade e respeito pela sacralidade da dignidade humana e que a “justiça corra como rio”.

Em Cristo,

O Príncipe da Paz

bh7

A chama não tem pavio

Ruas do Rio de Janeiro tomadas pelos manifestantes na noite da segunda-feira (foto: Felipe Dana / AP)

Ruas do Rio de Janeiro tomadas pelos manifestantes na noite da segunda-feira (foto: Felipe Dana / AP)

Ed René Kivitz

Mais do que oferecer respostas às perguntas, Jesus respondia aos corações. Ele sabia que por trás de um cego de nascença estava a angústia a respeito das eventuais maldições divinas; nas entrelinhas da pergunta a respeito do divórcio, a sugestão de que tanto o legalismo quanto a licenciosidade são igualmente destrutivos; na possibilidade do apredrejamento da mulher flagrada em adultério, o ocultamento de uma injustiça que transcende as relações sociais.

Jesus não era ingênuo, não enxergava a realidade ao seu redor de maneira superficial, e não ficava preso aos fatos. Seu olhar e sua escuta alcançavam a alma humana que não se revela ao observador desatento. Sua ação, reação e proposição desciam aos meandros sombrios das articulações sociais, religiosas, políticas e econômicas de seu mundo, desmascaravam as artimanhas dos podres poderes, arrebentavam as correntes das diferentes escravidões, e instalavam bombas de tempo na estruturas de promoção e manutenção da morte. É urgente aprender com Jesus a ler as gentes e os tempos.

Quem observa de longe as manifestações dos últimos dias que encheram as ruas de nossas capitais com palavras de ordem e protestos, acredita que o povo reivindica apenas R$0,20 a menos na passagem do ônibus e melhorias no transporte urbano. Os mal intencionados se apressam em criticar os arruaceiros e baderneiros, e propositada ou inconscientemente, desviam a atenção para um debate absolutamente periférico – como é o caso de discutir a atuação da PM, em detrimento do aprofundamento do debate a respeito do que levou as multidões às ruas.

Não faltam manifestantes orgânicos, protestantes de fim tarde, que confundem engajamento e militância com programa legal com gente antenada numa esquina descolada, o que, de fato, dá motivos para quem quer desmerecer o movimento como coisa de gente alienada. Mas os que se deixam levar por esses tipos de comentários já foram julgados e condenados. A respeito deles já foi dito que “sua piscina está cheia de ratos e suas ideias não correspondem aos fatos”.

A verdade verdadeira é que a rua foi invadida não apenas por milhares de pessoas, mas por múltiplas ideias, que, somadas, ou melhor, multiplicadas, declaram em alto e bom som que o Brasil está amanhecendo para outro salto quântico em sua democracia e respectivas dimensões políticas, sociais e econômicas.

Ainda é cedo para dizer se o que está acontecendo é realmente algo de primeira grandeza, como a campanha pelas Diretas Já, em 1984, e o movimento dos Caras Pintadas, em 1992. Mas é fato que mais uma vez o povo está na rua. Quando isso acontece nas proporções em que estamos assistindo, mais do que a quantidade de manifestantes ou as reivindicações objetivas, o que importa mesmo é constatar o fato de que o espírito democrático se adensa e o povo dá um tapa na mesa.

A partir de então começam a aparecer novas e mais profundas propostas, são deflagrados processos de mudanças, projetos são tirados da gaveta (reformas tributária e política, quem sabe?), as leis são aperfeiçoadas, as instituições democráticas fortalecidas, a sociedade civil aprende a se organizar, os ocupantes do poder colocam as barbas de molho temendo os desdobramentos nas eleições seguintes, surgem novos atores sociais, nascem novos coletivos, são adensados e ganham fôlego os velhos movimentos, e com a chegada de novos engajados, são depurados e oxigenados os grupos que têm marchado com suas bandeiras desde sempre.

Participar de uma manifestação de rua faz nascer e crescer no peito uma paixão pelo protagonismo no estabelecimento dos rumos da sociedade, expõe os caminhantes às conversas, gritos de guerra, argumentos mais elaborados e informações mais precisas a respeito dos temas em pauta, e trazem a boa experiência de mobilização popular: repetir uma palavra de ordem para transmiti-la como uma onda que vai se espalhando até chegar às bordas da multidão; ocupar o espaço público sem violência e em busca da simpatia dos circunstantes; identificar os inimigos internos – infiltrados das forças antagônicas ao movimento ou meramente os espíritos de porco oportunistas; olhar nos olhos das forças de repressão, perder o medo dos cassetetes, e adquirir as habilidades dos que têm o velho e bom hábito de ficar “calmos em meio a tantos gases lacrimogêneos”.

Caso você esteja se aborrecendo com as interrupções do seu trajeto com barricadas, fogo e multidões, e com o barulho em volta da sua casa, vai se acostumando, “o rio de asfalto e gente” que “entorna pelas ladeiras e entope o meio fio” vai continuar fazendo curvas e canções, pois aqueles que nos fizeram homens, também se chamavam homens, e “porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos e os sonhos não envelhecem”.

fonte: Facebook

Papa quer cristãos ‘revolucionários’ que se arrisquem

Papa Francisco, durante discurso a fiéis no salão Salão Paulo VI, no Vaticano Foto: AP

Papa Francisco, durante discurso a fiéis no salão Salão Paulo VI, no Vaticano Foto: AP

Publicado originalmente por AFP [via Terra]

O papa Francisco pediu nesta segunda-feira à noite, em uma das homilias mais radicais já pronunciadas por ele, que os cristãos “revolucionários” propaguem o Evangelho por seu “testemunho”.

“Hoje, um cristão, se não for revolucionário, não é cristão!”, foi uma das frases lançadas pelo papa argentino aos milhares de participantes do Congresso Eclesiástico da diocese de Roma.

Durante um pronunciamento cheio de expressões de impacto, o Papa criticou as comunidades cristãs “fechadas”.

Na Sala Paulo VI, no Vaticano, o papa Francisco falou durante meia hora, em pé, às vezes em um tom grave, em outras, mais descontraído.

“Não entendo as comunidades cristãs que são fechadas”, disse o papa antes de dizer: “No Evangelho, há uma bela passagem que nos conta que o pastor retorna e percebe que falta uma de suas 99 ovelhas e começa a procurar… Irmãos e irmãs, mas temos uma só, e faltam 99 !”.

“Devemos pedir ao Senhor generosidade, coragem e paciência para sair e anunciar o Evangelho”, acrescentou o Papa, reconhecendo que é “difícil”.

“É mais fácil ficar em casa com nossa única ovelha, para tosquiá-la, mas nós, padres, e todos os cristãos, o Senhor quer que sejamos pastores, e não tosquiadores de ovelhas.”

“Houve muitos revolucionários na história, mas nenhum teve a força da revolução transmitida por Jesus, uma revolução (…) que muda profundamente o coração do homem”, afirmou o Papa em uma sala de audiências lotada. “Na história, as revoluções mudaram os sistemas políticos, econômicos, mas nenhuma modificou verdadeiramente o coração do homem”, revelou o Papa antes de afirmar que “a verdadeira revolução, a que transforma completamente a vida”, foi feita por Jesus.

Citando seu antecessor Bento XVI, o papa Francisco disse que essa revolução foi “a maior mudança da história da Humanidade”.

Durante esse longo improviso, o Papa também criticou os “cristãos desencorajados” que “fazem com que nos perguntemos se eles acreditam em Jesus Cristo ou na deusa das queixas”. Considerando que “o mundo não está pior do que há cinco séculos”, o pontífice brincou com “aqueles que se queixam da juventude de hoje dizendo: Ah os jovens!”