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Protestantismo e brasilidade: Dilema não resolvido

Robinson Cavalcanti

Em sua infância, no interior empobrecido da África, o teólogo evangélico Tite Tienou foi à escola primária, onde teria a sua primeira lição de História. Seu país era, então, uma colônia francesa, os livros adotados vinham todos da França, e eram os adotados pelos estudantes da metrópole.

Nada de referência à história da África ou do país, mas, a primeira lição começava assim: “Os nossos ancestrais, os gauleses”. Ou seja, a conexão cultural e ideológica do colonizado não era com as suas raízes, mas com o dominador: africanos descendentes de gauleses…

Os impérios não dominam principalmente pelo uso da força (“hard power”), mas pela hegemonia, pela capacidade de fazer o dominado pensar a partir da ótica do dominador, e achar que está pensando os seus pensamentos (“soft power”), ou seja, se domina pela cultura. Com o pecado original, não apenas pessoas, etnias e classes oprimem outras (“relações assimétricas”), mas nações e Estados controlam outras: Império.

No tempo de Jesus, os saduceus eram assimilados colaboracionistas do Império Romano; os fariseus seus opositores pela “via pacífica”; os zelotes pela “via armada”, enquanto os herodianos se locupletam de uma monarquia títere corrupta, e os essênios se alienavam misticamente em suas comunidades monásticas.

Uma coisa, como dado objetivo, é a presença de estrangeiros, com o Protestantismo de Imigração no Brasil, debatendo, em alemão, temas irrelevantes como “Luteranidade e Germanidade”, bem como a presença idealista e sacrificial dos pioneiros do Protestantismo de Missão, com a exportação para nós das suas culturas (“o evangelho em roupagem anglo-saxã”, segundo Samuel Escobar), não dolosa ou maldosa em sua motivação, mas fruto de condicionamentos de uma “missão civilizatória” bem intencionada.

Outra coisa é quase dois séculos depois, e após vários episódios de busca sincera e competente de elaboração de uma aculturação/inculturação/pensamento e via nacional, sofremos uma enxurrada de textos e palestrantes (a maioria jogando na terceira e quarta divisões no “campeonato teológico” dos seus países de origem) explorando um mercado consumidor promissor, fazendo a cabeça, e tornando uma realidade, também no campo religioso, o que ironicamente se denominou no campo secular da América Latina, de “complexo de vira-lata”.

Não somente se adota, de maneira acrítica, escolas de pensamentos e métodos infalíveis importados, mas se carece de um selo de qualidade, uma espécie de “ISO 2012” religioso para se legitimar ou se valorizar qualquer coisa por aqui. Até o recente e questionável título de “apóstolo” somente é reconhecido quando se porta um certificado de uma entidade credenciadora com sede nos Estados Unidos.

Gilberto Freyre, o sociólogo-antropólogo, ex-batista, costuma afirmar: “Os protestantes nos deram bons gramáticos, mas não produziram literatos”. Os protestantes brasileiros, agravados pelo fundamentalismo e pela escatologia pré-milenista, pré-tribulacionista, estão todos dedicados à economia (agricultura, indústria e serviço), ao aparelho burocrático civil e militar, ou à área da saúde e da tecnologia, mas quase completamente ausente dos espaços construtores da cultura nacional: folclore, artes, literatura, filosofia, pensamento social.

A latinidade ibero-católica é rejeitada como “idólatra” e os traços culturais afro-ameríndios são jogados todos na lata comum da “feitiçaria”. Uma excepcional e peculiar experiência é a representada pelas igrejas macumbo-protestantes (ditas “neopentecostais”) em seu sincretismo, enquanto traços negativos (“mundanos”) da cultura brasileira (que se deveria “salgar” pela participação) como o campo político clientelista, corporativista são adotados, com orações pelas propinas e dízimos das mesmas.

Em 14 anos como Bispo, lecionei apenas uma vez, em um dos nossos Seminários, a disciplina Teologia Latinoamericana, que, creio, nunca mais foi oferecida, como também tenho a forte impressão, é uma universal ausente nas “casas de profetas” das diversas denominações pátrias.

Em um congresso nacional de estudantes universitários evangélicos (ABU) quem dirigia a oficina sobre a literatura brasileira era um casal de missionários ingleses: ela especialista em Érico Veríssimo e Jorge Amado; e ele em Euclydes da Cunha. Na plateia, a quase totalidade dos nossos estudantes jamais havia lido um romance ou um livro de poesias de um autor nacional…

A essa altura do campeonato, fica a pergunta: somos uma religião de “estrangeiros”, ou somos uma religião “estrangeira”, sem participação, sem pontes e sem influência com a cultura nacional?

Os crentes – artistas, literatos ou pensadores – que teimam em remar contra a maré, não terão audiência, nem editoras, nem respeitabilidade/credibilidade. Se, dependendo, da denominação, não forem “queimados” ou “disciplinados”.

Como o meu velho amigo Tite Tienou, entre os arbustos da “África Francesa”, aprendendo que era descendente de gauleses, nossos seminaristas, pastores e líderes, talvez possam iniciar o primeiro capítulo dos nossos livros de História recitando: “Nossos ancestrais, os Pais Peregrinos, quando chegaram no Mayflower…”.

Enquanto isso, meio quixotescamente, tenho tentado promover um Anglicanismo com face humana e morena, quando seria mais fácil sermos legitimados se apenas copiássemos as matrizes forâneas conservadoras. Talvez começando por “desordenar” as mulheres e os divorciados, ou, quem sabe, eleger como meu sucessor um estrangeiro, como é tão usual na América do Sul?…

Deus é brincalhão

Camilo Irineu Quartarollo, em A Tribuna

Neste século globalizado não podemos escrever só para um tipo de leitor. Temos de ser meio bíblicos, ter umas quatro tradições interdependentes num texto, com quatro mãos herméticas – a bíblia tem um tom jocoso nas palavras e frases e antíteses bem feitas. Veio primeiro pela oralidade, contada de pai para filho, de uma forma “cantada” para que facilitasse a fixação do dito na memória do ouvinte e o papel ou papiro não era acessível como hoje.

Pelo tom sagrado que tem esse livro grosso, antigo e de muitas interpretações, ninguém parece notar que a bíblia tem humor nas suas linhas, inclusive nos próprios livros do Evangelho. Como se coloca Deus como figura central o tempo todo, pegam-se os textos como absolutas manifestações divinas e não se vê a perenidade do fluxo de consciência dentro deles. Não se percebe a ironia aos discípulos totalmente perdidos, que não entendem, quase sempre, o que diz o mestre (diz que só o entenderam depois da ressurreição). Essa sisudez religiosa talvez se deva ao passado do ocidente cristão, sisudez muito bem criticada no livro de Umberto Eco, O Nome da Rosa. Numa passagem do livro uma personagem chega a afirmar “que Deus não ri”. O físico Albert Einstein, um dos precursores da física moderna, diz que Deus é brincalhão. Não vejo uma imagem mais linda para Deus, afinal, quem gosta de um pai ou mãe sisudos? O humor, o riso, é a superação, a transcendência.

Numa passagem, Jesus depois de muito falar em tom profético sobre o reino de paz ouve dos discípulos que “já” têm uma espada, ao que grita Ele um chega (não entenderam bulhufas). No jardim das oliveiras, em meio aos soldados, Pedro lança mão de uma espada. Trazia consigo? Talvez fosse ele o que se manifestara que tinha a dita cuja e sempre falando como líder do grupo… e corta a orelha de um guarda.

Talvez em alguns meios religiosos, onde se cultiva a fantasia religiosa da concentração mental e evite-se no máximo a dispersão, certas observações são temerosas e tudo fica um tanto solene demais, mesmo na descontração de um lanche. Jogar com a ironia e o cômico é um jogo de mestre, de jogar com o descontínuo, com o entremeio, com o contraponto, com o bizarro, mas por que não rir? Em lugar nenhum da bíblia está escrito que Deus ri, mas também não está escrito que não ri, discutem o venerável Jorge e frei Willian (personagens de O nome da rosa). Eu, como Einstein, acho que ri.

A vida a Deus pertence. O humor é a transcendência, as regras são para o bem viver, não para escravizar, se não fosse assim, o livre arbítrio seria só para fazer o mal? Quem disse que o bom arbítrio são as regras?

Camilo Irineu Quartarollo é escrevente técnico judiciário, autor de As Ciladas do Androide. Site: www.camilocronicas.blogspot.com.

dica da Cristina Danuta

Cracolândia: É só por Jesus

Prédios abandonados que serviam de moradia aos usuários de crack após ação de limpeza da PM no local Leia mais
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Publicado na Folha.com

Policiais militares permanecem ocupando as ruas que formam a chamada cracolândia, no centro de São Paulo, em continuidade à Operação Sufoco.

Os PMs retiram dependentes químicos de casas abandonadas e fazem guarda nas entradas para evitar novas invasões.

Com as rondas feitas pelos cerca de cem policiais que participam da operação, os dependentes de drogas que costumavam se aglomerar na rua Helvétia migraram para outros pontos da região. A reportagem flagrou grupos pequenos, por exemplo, na praça Princesa Isabel.

Apesar da operação, não foi registrada nenhuma ocorrência no local durante a madrugada. Ontem, duas mulheres foram presas em flagrante com 100 pedras de crack. Outras seis pessoas foram levadas para a delegacia e, depois, liberadas.

Inicialmente, a ação está planejada para acontecer até o dia 31 de janeiro, mas poderá ser estendida. Além de reprimir o tráfico de drogas, a polícia pretende também buscar procurados da Justiça e diz querer criar um ambiente mais seguro que permita a ação de assistentes sociais e médicos no auxílio aos dependentes.

Segundo oficiais ouvidos pela Folha, a operação também foi motivada porque o número de usuários de crack estava tão grande nos últimos meses que trechos de ruas chegavam a ficar interditadas, impedindo o direito de ir e vir.

A Secretaria de Coordenação das Subprefeituras informou ontem que 7,5 toneladas de lixo das imediações –principalmente nas alamedas Cleveland e Dino Bueno e rua Helvétia- foram recolhidas por uma equipe de 75 funcionários da limpeza e nove veículos, entre eles tratores com pá carregadeira.

fotos: Alessandro Shinoda/Folhapress

em 1 lapso de memória que remete a Lula, Kassab disse “ñ ter sido avisado s/ a operação na Cracolândia“, como se esse tipo de “higienização” fosse algo comum.

um dos policiais que participam da operação resumiu bem o espírito da coisa: “Você prefere tratar um câncer localizado? Ou com ele espalhado por todo o corpo? É isso o que estamos fazendo: espalhando o câncer”. 

traduzindo: a despeito da grana que dona Dilma separou p/ provavelmente ir parar no bolso de políticos safados tratar da questão, o lance é só “espalhar” em vez de “curar”.

felizmente, há instituições como a missão Cena que já recuperou 130 usuários da droga, numa ilustração perfeita de que Jesus ainda se posiciona ao lado dos marginalizados e excluídos. há esperança.

Prédios abandonados que serviam de moradia aos usuários de crack após ação de limpeza da PM no local Leia mais

O sex shop de Jesus

Letícia Sorg, no Mulher 7×7

Sexo é um assunto tabu para a religião. Quase nunca aparece e, quando vem à tona, é mais para ser reprimido do que discutido. Não pode fazer antes de casar. Não pode fazer com camisinha. Não pode fazer isso ou aquilo…

Mas alguns empreendedores cristãos resolveram quebrar esse tabu. Eles abriram sex shops online para incentivar “a intimidade” entre os casais – dentro dos laços do casamento, que fique bem claro. O Intimacy of Eden é um deles, e resume assim a sua missão: “Somos pró-casamento, somos pró-sexo, e estamos aqui para ajudar os casais a desenvolver o componente sexual da saúde conjugal. Esta loja cristã do sexo existe para ajudar os casais casados a reacender o romance e a paixão de seus casamentos – uma intimidade conjugal como a que Adão e Eva gozaram no Jardim do Éden.”

A diferença é que, no Jardim do Éden contemporâneo, Adão e Eva têm não só uma maçã tentadora, mas vibradores, lingeries, lubrificantes… Os itens vendidos pelos sex shops cristãos são bem parecidos com os dos sex shops “ateus”. Mas os sex shops religiosos tomam alguns cuidados: retiram os produtos de embalagens que possam ser ofensivas (com cenas de nudez), exibem lingeries em manequins (não em modelos) e enviam os pedidos da maneira mais discreta (de resto, como seus concorrentes não-religiosos). Alguns não vendem itens que podem ferir regras religiosas, como camisinhas e brinquedos para sexo anal.

Mas talvez a maior diferença esteja nos clientes: mais pudicos e com menos informação sobre sexo. Preocupados com o que possa ofendê-los, os sites adotam uma linguagem menos explícita (em vez de “borboleta estimuladora de clitóris”, vendem “estimulador vibratório”, por exemplo) e mandam junto com os produtos instruções para o “uso saudável”.

Os comerciais de um outro sex shop cristão, o Hookin’ up Holy, são tão ingênuos que chegam a ser cômicos:

Todo esse cuidado parece estar valendo a pena. Alguns líderes religiosos já começaram a indicar os serviços dos “sex shops de Jesus” para salvar o casamento de alguns fiéis. Uma mulher cristã ouvida pela reportagem do Daily Beast disse que um vibrador reacendeu seu casamento – e deu a ela seu primeiro orgasmo. Um jovem judeu disse que os brinquedos ajudaram-no a lidar com a ejaculação precoce que atrapalhava sua relação com a mulher.

A ajuda dos livros sobre sexo e dos brinquedos sexuais é infinitamente mais eficiente do que alguns conselhos estapafúrdios que se espalham em algumas comunidades religiosas. A reportagem cita que um jovem casal escutou o seguinte: “Se uma mulher não gosta de sexo, ela deve tomar dois comprimidos de Tylenol e terminar o mais rápido possível”. Ótimo conselho para a felicidade conjugal, não?

Fiéis de outras religiões tiveram iniciativas semelhantes. Há um sex shop judeu, a Kosher Sex Toys, e uma loja virtual que segue as leis da sharia muçulmana, a El Asira. Não importa se seguidores de Jesus, Moisés ou Maomé, todos os sites têm algo em comum: defendem que o bom sexo é fundamental para um casamento bem-sucedido. Duvido que ateus e agnósticos discordem dessa ideia.

dica do Walter Mendes