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“Mercado procura obscurecer Jesus e impor Papai Noel no Natal”

Douglas Belchior na Carta Capital

Minha família não fugiu a regra da maior influência religiosa do país. Cresci em meio a pobreza e aos valores católicos que, contraditoriamente à vida, valorizavam essa pobreza. E no Natal, marco maior dessa crença, dividir o pão, comungar o momento, os alimentos e o desejo coletivo de felicidade e melhores dias, me marcaram profundamente.

Mais tarde, na práxis da vida real, a religião virou pó. Mas alguns de seus valores não.

Que o Natal sirva, ao menos, para lembrar o quanto melhor seria o mundo… se nosso bem fazer… se nosso bem querer se estendesse para além do umbigo…

Que o espírito de Jesus, homem com pés da cor de bronze queimado, com pele da cor de jaspe e sardônio e com cabelos feito lã de cordeiro, nos fortaleça em nossa luta diária pela tal justiça, tão desejada entre nós!

E que sejamos felizes, o quanto for possível.

Apesar dos pesares, tão bem colocados por Frei Betto na entrevista a seguir.

Asè!

Frei-bettoEntrevista por Guilherme Almeida para o Brasil de Fato SP

Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido como Frei Betto, vive no convento de ordem dominicana, em Perdizes. Autor de 53 livros, já ganhou o Prêmio Jabuti pelas obras “Batismo de Sangue” e “Típicos Tipos – perfis literários”.

Adepto da Teologia da Libertação, é um grande defensor dos direitos humanos no Brasil e uma das maiores vozes em favor dos movimentos populares. Foi assessor especial do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, entre 2003 e 2004, e coordenou o programa Fome Zero. Desde de que professou na Ordem Dominicana, em 1966, acompanha as mudanças na Igreja Católica.

Em entrevista concedida ao Brasil de Fato SP, Betto elogia o Papa Francisco, analisa as mudanças no Vaticano e a crise da Igreja Católica no Brasil. Ele demonstra preocupação com o processo de “confessionalização da política”.

Qual é sua avaliação sobre o Papa Francisco?

Foi uma grande novidade a eleição do [Jorge Mario] Bergoglio. É um latino-americano e tem muita sensibilidade pela questão social. Realmente, seus primeiros passo são positivos. Começou uma reforma da Igreja de cima pra baixo, o que corresponde à estrutura piramidal da Igreja Católica. Foi um fato praticamente inédito a renúncia do Bento XVI. E ele deixou o cargo deixando claro as razões. Disse que havia uma esquema de corrupção na Igreja, que precisava ser combatido mas que não tinha forças.

O que mudou com o novo Papa?

Ele abandonou uma série de símbolos que eram da nobreza, como a capa, o sapato vermelho e a cruz de ouro. Abandonou títulos derivados muito mais do Império Romano do que da tradição cristã como sumo pontífice. Também é interessante o fato dele preferir morar na Casa de Santa Marta, que é uma casa de hóspedes, com um refeitório usado pelo pessoal que trabalha no Vaticano, largando a residência pontifícia.

Houve alterações na estrutura da Igreja?

Agora, ele nomeou uma comissão de oito cardeais de cinco continentes para estudar a reforma da cúria, mas só saberemos o resultado no fim de janeiro. O novo Papa deu sinais também de querer reformar ou até erradicar o Banco do Vaticano, que oficialmente tem o nome de Instituto de Obras Religiosas. Os fundamentalistas de direita dentro da Igreja começam a ficar preocupados.

O que essas modificações apontam?

Deslocam o debate dentro da Igreja do pessoal para o social. Abre-se pistas para uma nova teologia, principalmente a respeito da moral sexual, que é um tema congelado dentro da Igreja desde o século 16. Acentua-se também a questão da opção pelos pobres e a denúncia da desigualdade social.

Qual é o principal desafio da Igreja agora?

O desafio principal está na questão dos ministérios, da ordenação de mulheres e na moral sexual. A questão financeira também é importante, porque há corrupção, mas não é prioritário. O mais urgente é a Igreja se abrir para a pós-modernidade. Portanto, rever questões como o celibato, ordenação de mulheres, patriarcalismo, volta ao ministérios sacerdotal dos padres casados. Quando o Papa fala que a Igreja precisa de uma Teologia da Mulher, está abrindo portas para uma reflexão. Estamos mais perto dessa abertura do que com os pontificados anteriores. Passamos praticamente 35 anos de pontificados conservadores. Agora existe muita esperança de melhora.

Você fala em diferentes teologias dentro da mesma religião. O que isso significa?

Tudo depende da Teologia que os agentes pastorais assumem, aqueles que animam a comunidade. Se é uma Teologia fundamentalista, reacionária, ou se é uma teologia da libertação, que coloca todos nós, cristãos, como discípulos de um prisioneiro político. Jesus não morreu de hepatite na cama nem em um desastre de camelo em uma esquina de Jerusalém.

A morte de Jesus tem um significado…

Ele foi preso e torturado, julgado com dois presos políticos e condenado a pena de morte dos romanos. Que fé os cristãos tem hoje que não questionam essa desordem estabelecida? A fé de Jesus o levou a ser considerado subversivo, portanto, uma ameaça para a desordem estabelecida. Aí ele foi eliminado. Não é nem questão de politizar a história, é retomar o passado como realmente foi.

O Natal é um exemplo história religiosa que mudou de sentido?

O que é o Natal? Um casal de Nazaré, Maria e José, vão para Belém. Lá são rejeitados e convocados pelo recenseamento do Império Romano. Tem várias hipóteses de por quê eles foram rejeitados. A minha é que foram rejeitados porque Maria chegou grávida e eles não estavam oficialmente casados. Então, eles literalmente ocuparam uma terra privada. Eu costumo brincar que, no dia seguinte, o “Diário de Belém” deve ter dado a manchete: Família de sem-terra ocupa propriedade rural. Jesus nasceu em um curral. Isso é muito simbólico. Na época de Jesus, quem lidava com animais, como o açougueiro, era socialmente rejeitado. Está lá na Bíblia visivelmente. Mas muita gente não tem olhos pra ver.

Mesmo com esse pano de fundo, por que o Natal se transformou em um feriado de troca de presentes? Continue lendo

O materialismo do Papai Noel e a espiritualidade do Menino Jesus

Natal vela.

 

Publicado por Leonardo Boff

Um dia, o Filho de Deus quis saber como andavam as crianças que outrora, quando andou entre nós,“as tocava e as abençoava” e que dissera:”deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o Reino de Deus”(Lucas 18, 15-16).

À semelhança dos mitos antigos, montou num raio celeste e chegou à Terra, umas semanas antes do Natal. Assumiu a forma de um gari que limpava as ruas. Assim podia ver melhor os passantes, as lojas todas iluminadas e cheias de objetos embrulhados para presentes e principalmente seus irmãos e irmãs menores que perambulavam por aí, mal vestidos e muitos com forme, pedindo esmolas. Entristeceu-se sobremaneira, porque verificou que quase ninguém seguira as palavras que deixou ditas:”quem receber qualquer uma destas crianças em meu nome é a mim que recebe”(Marcos 9,37).

E viu também que já ninguém falava do Menino Jesus que vinha, escondido, trazer na noite de Natal, presentes para todas as crianças. O seu lugar foi ocupado por um velhinho bonachão, vestido de vermelho com um saco às costas e com longas barbas que toda hora grita bobamente:”Oh, Oh, Oh…olhem o Papai Noel aqui”. Sim, pelas ruas e dentro das grandes lojas lá estava ele, abraçando crianças e tirando do saco presentes que os pais os haviam comprado e colocado lá dentro. Diz-se que  veio de longe, da Finlândia, montado num trenó puxado por renas. As pessoas haviam esquecido de outro velhinho, este verdadeiramente bom: São Nicolau. De família rica, dava pelo Natal presentes às crianças pobres dizendo que era o Menino Jesus que lhes estava enviando. Disso tudo ninguem falava. Só se falava do Papai Noel, inventado há mais de cem anos.

Tão triste como ver crianças abandonadas nas ruas, foi perceber como elas eram enganadas, seduzidas pelas luzes e pelo brilho dos presentes, dos brinquedos e de mil outros objetos que os pais e as mães costumam comprar como presentes para serem distribuídos por ocasião da ceia do Natal.

Propagandas se gritam em voz alta, muitas enganosas, suscitando o desejo nas crianças que depois correm para os pais, suplicando-lhes para que comprem o que viram. O Menino Jesus travestido de gari, deu-se conta de que aquilo que os anjos cantaram de noite pelos campos de Belém”eis que vos anuncio uma alegria para todo o povo porque nasceu-vos hoje um Salvador…glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa-vontade”(Lucas 2, 10-14) não significava mais nada. O amor tinham sido substituído pelos objetos e a jovialidade de Deus que se fez criança, tinha desaparecido em nome do prazer de consumir.

Triste, tomou outro raio celeste e antes de voltar ao céu deixou escrita uma cartinha para as crianças. Foi encontrada debaixo da porta das casas e especialmente dos casebres dos morros da cidade, chamadas de favelas. Ai o Menino Jesus escreveu:

Meus queridos irmãozinhos e irmãzinhas,

Se vocês olhando o presépio e virem lá o Menino Jesus e se encherem de fé de que ele é o Filho de Deus Pai  que se fez um menino, menino qual um de nós e que Ele é o Deus-irmão que está sempre conosco,

Se vocês conseguirem ver nos outros meninos e meninas, especialmente nos pobrezinhos, a presença escondida do Menino Jesus nascendo dentro deles.

Se vocês fizerem renascer a criança escondida no seus pais e nas pessoas adultas para que surja nelas o amor, a ternura, o carinho, o cuidado e a amizade  no lugar de muitos presentes.

Se vocês ao olharem para o presépio descobrirem Jesus pobremente vestido, quase nuzinho e lembrarem de tantas crianças igualmente pobres e mal vestidas e sofrerem no fundo do coração por esta situação desumana e se decidirem já agora, quando grandes, mudar estas coisas para que nunca mais haja crianças chorando de fome e de frio,

Se vocês repararem nos três reis magos com os presentes para o Menino Jesus e pensarem que até os reis, os grandes deste mundo e os sábios reconheceram a grandeza escondida desse pequeno Menino que choraminga em cima das palhinhas,

Se vocês, ao verem no presépio todos aqueles animais, como as ovelhas, o boi e a vaquinha pensarem que o universo inteiro é também iluminado pela Menino Jesus e que todos, galáxias, estrelas, sois, a Terra  e outros seres da natureza e nós mesmos formamos a grande Casa de Deus,

Se vocês olharem para o alto e virem a estrela com sua cauda e recordarem que sempre há uma Estrela como a de Belém sobre vocês,  iluminando-os e mostrando-lhes os melhores caminhos,

Se vocês  aguçarem bem os ouvidos e escutarem a partir dos sentidos interiores, uma música celestial como aquela dos anjos nos campos de Belém que anunciavam paz na terra,

Então saibam que sou eu, o Menino Jesus, que  está chegando de novo e renovando o Natal. Estarei sempre perto de vocês, caminhando com vocês, chorando com vocês e brincando com vocês até aquele dia em que chegaremos todos, humanidade e universo, à Casa do Pai e Mãe de infinita bondade para sermos juntos eternamente felizes como uma grande família reunida.

                                    Belém, 25 de dezembro do ano 1.

                                    Assinado: Menino Jesus

Bandido e rei de mãos dadas

Jesucristo_e_o_bom_ladrao1Ricardo Gondim

Já estava escuro quando o assassino no corredor da morte ouviu vozes. Era uma zombaria. Soldados falavam alto. Pancadas e socos surdos vinham seguidos de provocação. Faça um milagre. Prove que é o Messias. Não está escrito que os anjos estariam ao seu dispor? Vamos ver, então. Mostre que seus exércitos são mais poderosos do que uma centúria”. Pontapés se sucederam. O barulho aumentou. Ensurdecedor. Além da condenação, sua última noite foi em claro.

Mal o dia iluminou as colinas que rodeiam a cidade, o sentenciado bebeu dois dedos d’água. Não demorou e quatro soldados o arrastaram pelos corredores da masmorra. Submetido a sopapos violentos, chegou ao lugar onde seria torturado. Lá, dois outros o esperavam já esmagados pelo meticuloso processo de espancamento que precedia a morte. O bandido supôs que o menos musculoso era o castigado da véspera.

Depois de receber as trinta e nove chicotadas no poste, ele se uniria aos outros. Cumpriria a sina de morrer pendurado numa cruz. A agonia era conhecida. Os estertores da crucificação aterrorizavam o mundo antigo. Agonizaria por dias. Cachorros lamberiam seus pés ensanguentados. Corvos comeriam seus olhos. Incharia. Federia.

Primeiro, obrigavam os condenados a caminhar até o Monte da Caveira, o lugar das execuções. O rito macabro começava com os trôpegos sendo exibidos pelas vielas de Jerusalém – mais tarde conhecidas como Via Dolorosa. Cada um carregava a sua própria trave, o vergão onde seria pendurado. Duzentos metros antes de cruzarem o portão da cidade, um dos ladrões perguntou ao castigado da madrugada. - Quem é você? O outro arfou. Mal conseguiu dizer o nome: - Jesus. A fatiga era extrema. Dois segundos depois, Jesus tomou ar e emendou: - Sou Jesus, de Nazaré.

Fora da cidade, o caminho complicou. A estrada, pavimentada com pedregulhos afiados, cortava os pés. Jesus não suportou e caiu. Ele parecia sem condições de seguir adiante. Os soldados se revezaram nos açoites. Depois de varejarem as costas do Nazareno, a marcha prosseguiu lentamente. Os soldados pareciam nervosos. Queriam encurtar a liturgia sinistra. Uma festa dos judeus se avizinhava e eles, romanos, poderiam descansar no feriado. Crucificar dava trabalho. Ninguém queria estragar o fim de semana.

O outro ladrão, o mais raivoso e obstinado, notou os soldados constrangendo um peregrino de Cirene. Eles colocaram o viajante debaixo da trave de Jesus, obrigando-o a carregar o lenho por ele. O centurião achou necessário fazer aquilo já que ele se mostrava visivelmente abatido, perigando morrer ali mesmo, no meio da rua.

Com a ajuda do estrangeiro, a procissão chegou ao monturo de lixo. Oito verdugos esperavam sentados em grandes rochas. Era homens rudes e se mostravam bem nervosos. Repetiam entre eles que nunca tinham visto condenados demorarem tanto. Rápidos com as marteladas, fixaram os pulsos dos três. Ressoou o barulho das estacas quando despencaram nos buracos recém cavados. Com cordas, levantaram os homens pregados nas traves. Os corpos pesavam. As mãos se esgarçaram rapidamente. Os dois ladrões falavam. Um, revoltado, parecia dizer palavrões. Apenas Jesus permanecia calado. Não restava mais nenhuma esperança. O fim estava selado.

A cena ganhou peculiaridades grotescas. Inclemente. O cheiro podre do lixo se misturava ao cenário e algumas pessoas, que assistiam, vomitaram. Os três corpos tremiam com espasmos involuntários. Sangue vazou das incontáveis feridas abertas por chicotes, tapas e chutes. Cordas amarradas aos pulsos deixaram a ponta dos dedos roxos. Os olhos dos três se embaçaram – mal se moviam nas órbitas semi cerradas pelo inchaço.

Uma pequena multidão gritava sem parar. Mas ninguém entendia direito o que a turba dizia. Choro, raiva e consternação, típicos do frenesi irracional, aumentavam a sensação de que aquele dia se tornaria exemplo mais exuberante da bestialidade humana.

Soube-se depois que um dos apenados se chamava Dimas; preso em flagrante, um assassino confesso.

A algazarra entre o povo fazia com que a sentença parecesse um linchamento. Alguns chegaram a apostar em quem morreria primeiro. Outros aproveitavam para repetir: César é rei benevolente. Outros reclamavam: A glória de Israel está em mãos estrangeiras. Na confusão, Dimas conseguiu fazer um último pedido: - Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino.

Passados séculos, a pergunta não perde força, não perde significado: O que Dimas viu para acreditar que Jesus era rei? Como ele conseguiu enxergar em um bagaço humano, traços de um imperador? Quando entrares em teu reino? Os monarcas se estabelecem devido ao poder, e neles reside a autoridade de comandar. O Nazareno estava reduzido a um caco. Como assim, No teu reino? Caso fosse rei de verdade, por que se tornou refém de uma soldadesca ordinária? O homicida delirava? Por que considerou o moribundo líder de algum reino?

Dimas percebeu algo extraordinário. Jesus era rei, mas de outra espécie. Destituído da ostentação que os soberanos desfrutam, Jesus impressionou seu companheiro de adversidade. Ele tinha uma grandeza diferente. Durante toda a tortura que antecedeu a crucificação, Dimas notou que Jesus nunca apelou para intervenção sobrenatural; jamais implorou por salvamento, nem precisou vingar a mensagem que pregou com demonstração de poder. A elegância de não revidar, somada à grandeza de perdoar, junto com a consciência de ser pacificador apesar do ódio, faziam dele um rei digno de ser seguido. O ladrão, que ficaria conhecido como o bom-ladrão, estava convicto: o Nazareno lidera um reino único.

Pensou: quem age como Jesus agiu na tribulação será sempre rei. Vale mais o reinado desse pobre condenado do que a glória dos imperadores. Não importa se entre crianças, perto dos mansos, junto dos que choram ou na vida de proscritos, ele é Senhor. Com certeza, Jesus nunca me rejeitaria. Dimas ousou participar dos seus domínios: Onde este homem estiver paz e justiça se beijam. Seu exemplo inspira respeito pelas cãs do ancião, gera fome e sede de justiça e amor pela vida. Ele viu em meio a muito sofrimento: O reino que Jesus inaugurou não terá fim; mesmo que me sobrem meros dois minutos de vida, desejo participar dele. Antes de expirar, Dimas escutou: Hoje, estarás comigo no paraíso.

Minutos depois, bandido e rei partiram de mãos dadas.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Líder de culto prega que fiéis fiquem ‘chapados’ por Jesus

Fernando Moreira, no Page not Found

Brandon Barthrop (imagens abaixo) diz ser um ex-viciado em drogas. Com a ajuda preciosa da internet, o americano aderiu com destaque a um culto religioso bizarro, que prega que os fiéis simulem os efeitos da embriaguez para poderem “a comunhão com Jesus”. Brandou já arregimentou uma legião de seguidores.

Reprodução/YouTube(Red Letter Ministries, Inc.)

Reprodução/YouTube(Red Letter Ministries, Inc.)

O culto bizarro foi criado nos EUA pelo pregador evangélico John Crowder. Graças à web e ao trabalho “messiânico” de Brandon, a seita se espalhou pela América do Norte e chegou ao Reino Unido, contou o “Daily Mail”.

O líder do “movimento da glória embriagada” garante ter largado o álcool e todas as drogas que consumiu por vários anos. Ele agora só se interessa por incenso. Depois de sofrer abusos pelo pai, entregar-se às drogas e passar pela rehab, onde ele disse ter tido uma epifania, Brandon se mudou para uma casa abandonada em Minneapolis (Minnesota, EUA) que era usada por viciados, juntamente com a esposa e os primeiros seguidores.

Reprodução/YouTube(VICE)

Reprodução/YouTube(VICE)

“A maior parte das pessoas que vive na nossa casa é formada por ex-drogados, ex-alcoólatras e ex-prostitutas”, disse Brandon em um documentário exibido pela “Vice”.

Durante os seus sermões, o líder encoraja os fiéis a se entregarem à “bebida” e às “drogas”. Todas elas imaginárias. Os seguidores obedecem e simulam estar “chapados” no culto, que ocorre em casa e na web. Para disseminar sua mensagem, Brandon divulga vídeos toda semana no YouTube, por meio da Red Letter Ministries, Inc.

Seguidores fingem consumir álcool e drogas / Reprodução/YouTube(VICE)

Seguidores fingem consumir álcool e drogas / Reprodução/YouTube(VICE)

O que a história tem a dizer sobre Jesus

Pesquisas de historiadores ajudam a confirmar que, de fato, Jesus caminhou sobre a região da Galileia há 2.000 anos. As descobertas, no entanto, não devem satisfazer aqueles que levam a Bíblia ao pé da letra

Ao longo dos séculos, Jesus foi interpretado de maneiras diversas por religiosos, artistas e governantes. O trabalho dos historiadores é deixar toda essa carga teológica para trás e encontrar o homem e a mensagem que deu origem a tudo

Ao longo dos séculos, Jesus foi interpretado de maneiras diversas por religiosos, artistas e governantes. O trabalho dos historiadores é deixar toda essa carga teológica para trás e encontrar o homem e a mensagem que deu origem a tudo

Guilherme Rosa, na Veja on-line

O pesquisador americano Joseph Atwill é categórico: Jesus não passa de um mito. O personagem, suas palavras e ações fazem parte de uma elaborada narrativa inventada por aristocratas romanos, com o objetivo de pacificar os judeus — um povo envolvido em sucessivas rebeliões contra o império. Atwill apresentou suas ideias em outubro, numa conferência realizada em Londres, na Inglaterra. “Os romanos perceberam que o melhor caminho para acabar com a atividade missionária fervorosa entre os judeus era criar um sistema de crenças que competisse com o deles”, afirmou.

Joseph Atwill não é um acadêmico da área — sua formação é em ciências da computação. Ele não publicou suas pesquisas em periódicos científicos e suas ideias estão longe de ser apoiadas por seus pares. No entanto, sua teoria recebeu atenção mundial, e foi debatida entre pesquisadores, jornalistas e religiosos. Seu poder está no fato de ela ser o capítulo mais novo de uma antiga discussão — com quase 2.000 anos de idade — sobre qual é a verdade por trás de Jesus, seus feitos, milagres e mensagem.

Para Atwill, a ideia de que Jesus não passaria de uma montagem histórica deveria funcionar como um duro golpe aplicado pela ciência contra a ignorância propagada pela religião. “Embora o cristianismo possa ser um conforto para alguns, ele também pode ser muito prejudicial e repressivo, uma forma insidiosa de controle mental que levou à aceitação cega da servidão, pobreza e guerra ao longo da história”, diz. Seu erro é que a existência de Jesus não é mais uma questão de fé, mas de ciência.

Os acadêmicos da área — historiadores das mais prestigiadas universidades do mundo — afirmam restar poucas dúvidas sobre a questão. “Volta e meia aparecem essas hipóteses sobre Jesus ser um mito. Mas, do ponto de vista metodológico, parece bastante claro que ele realmente existiu”, diz André Chevitarese, professor do Instituto de História da UFRJ e autor dos livros Jesus Histórico – Uma Brevíssima Introdução e Cristianismos: Questões e Debates Metodológicos (Editora Kline), em entrevista ao site de VEJA.

Jesus histórico — Os historiadores deixam claro que o personagem estudado por eles não é o mesmo da religião. Eles estão em busca de informações sobre o homem chamado Jesus, que viveu na Galileia há 2.000 anos e em torno do qual foi criada a maior religião do mundo. “Os historiadores não buscam um ser divino, que é impossível de quantificar, medir e avaliar. O Jesus da história é estritamente humano“, afirma Chevitarese.

Nessa busca pelo Jesus histórico, a perspectiva dos pesquisadores lembra a de São Tomé, o apóstolo que duvidou de Cristo e exigiu provas de sua ressurreição. Do mesmo modo, os historiadores não podem acreditar cegamente no que dizem as religiões e seus líderes, mas devem embasar tudo que afirmam em evidências. Essas provas não precisam ser, necessariamente, físicas, como a descoberta de uma ossada ou um túmulo. “Se esse critério fosse adotado, 95% dos personagens históricos não seriam reconhecidos”, diz o pesquisador.

Hoje, o critério mais importante que os pesquisadores possuem para atestar a existência de Jesus é o da múltipla confirmação: autores diferentes, que nunca se conheceram, afirmam fatos semelhantes sobre o personagem.

Os textos mais antigos sobre Jesus datam do século I, em sua maioria escritos por seguidores do cristianismo. A exceção é Flávio Josefo, um historiador judeu que tentou escrever toda a história do povo judaico, desde o Gênesis até sua época. Ele cita Jesus, João Batista e Tiago (irmão de Jesus) como exemplos de homens que lideraram movimentos messiânicos na região da Galileia.

No século seguinte, surgem mais textos de historiadores que citam Jesus e, principalmente, o movimento iniciado por seus seguidores. “Esses dados servem para mostrar que não estamos no campo da mitologia. São autores judeus e romanos, que nunca se tornaram cristãos, e permitem afirmar de modo muito seguro que Jesus é um personagem histórico.”

O homem — A esses textos se somam descobertas recentes da arqueologia que fornecem informações precisas sobre o tempo e o espaço em que Jesus viveu. Os dados não são abundantes, mas permitem esboçar como se pareceria esse personagem histórico real. “Não podemos afirmar exatamente a cor de pele e cabelo de Jesus. A partir dos mosaicos e dos afrescos que retratam outros romanos, judeus e sírios que viviam no mesmo ambiente, a tendência maior é de vermos um Jesus de cabelos preto, com a pele queimada por causa de sol”, diz Chevitarese.

Segundo a maior parte dos historiadores, Jesus não nasceu em Belém, como afirmam algumas passagens bíblicas, mas em Nazaré — uma pequena aldeia montanhosa da Galileia, cuja população era camponesa e girava em torno de 500 indivíduos. “A aldeia não tinha nenhuma relevância política, não possuía construções públicas ou sinagogas. Os escritores dos Evangelhos mudaram o lugar por razões teológicas, para que o nascimento de Cristo confirmasse algumas profecias do Antigo Testamento.”

Jesus teria nascido na pequena vila em torno do ano 4 A.C., e teria passado a maior parte de sua vida na região, sem nunca pisar em uma cidade grande. A exceção acontece quando ele entra em Jerusalém — ato que teria como consequência sua crucificação pelas autoridades romanas. Sua morte deve ter acontecido por volta dos anos 35 e 36 D.C., pouco tempo depois de João Batista também ter sido morto pelos romanos, segundo a narrativa de Flávio Josefo.

A mensagem — Segundo os historiadores, tão importante quanto quem era Jesus é o que ele dizia — foi sua mensagem poderosa que repercutiu em todo o mundo e, séculos mais tarde, deu origem às diversas vertentes religiosas. “Ele era um camponês pobre que, diante das injustiças que o mundo apresentava, defendia a instauração do Reino de Deus — um reino de justiça e fartura, sem hierarquias sociais”, diz Chevitarese.

A mensagem espiritual — e messiânica— de Jesus era voltada especialmente aos judeus de seu tempo. Ela, no entanto, adquiria caráter político ao afrontar o Império Romano e setores da elite judaica. Foi justamente a força dessa mensagem, e os rebanhos que ela poderia angariar, que levaram à sua crucificação e morte. Como aconteceu muitas vezes na história, no entanto, o assassinato de Jesus não conseguiu matar suas ideias.

Jesus teológico — Jesus nunca chegou a colocar suas ideias no papel (nem poderia, os historiadores afirmam que ele era analfabeto). A maior parte do que chega aos dias de hoje sobre o personagem e suas ideias foi escrito por seguidores das primeiras comunidades cristãs, duas ou três gerações depois de sua morte. Os autores não estão preocupados em transmitir uma versão fiel dos fatos, como uma biografia, mas em defender os pressupostos de sua fé. Assim, os primeiros cristãos que escrevem sobre Jesus — os evangelistas — já não estão fazendo história, mas teologia.

Nessa época o cristianismo começava a se distanciar do judaísmo em que ele estava originalmente inserido, e a se aproximar do Império Romano — o que exigiu algumas mudanças em sua mensagem. “Ao serem escritas, suas ideias começam a ser diluídas, pois vários filtros são impostos. Primeiro, Jesus é um indivíduo de fala aramaica, mas quase tudo que conhecemos sobre ele está escrito em grego. Além disso, os textos são destinados a convencer um público urbano, muito diferente dos camponeses para quem Jesus pregava”, diz Chevitarese.

Com o passar dos séculos, isso abriu margem para que vários teólogos interpretassem as escrituras de maneiras variadas, criando as inúmeras vertentes do cristianismo que se encontram nos dias de hoje. Assim, a depender de quem faz a homilia, Jesus pode ser visto como um personagem sagrado ou humano, santo ou falho, foco de paz ou de guerra, de fundamentalismo ou de liberdade.

É por isso que o estudo do Jesus histórico é importante. “Ele pode ajudar a colocar um freio naqueles que querem transformar pressupostos teológicos em verdades históricas”, diz Chevitarese. Seu objetivo não é acabar com a teologia ou retirar da história de Jesus seu caráter espiritual. O que a ciência faz é descobrir o que, de fato, pode ser afirmado sobre o homem e sua época. As muitas lacunas que permanecerão abertas apresentam mistérios suficientes para que a religião possa se instalar.