Nas redes sociais, internautas praticamente só leem títulos de postagens

BuzzFeed-logoRonaldo Lemos, na Folha de S.Paulo

Quem trabalha com mídia tem a obrigação de ler o memorando que Jonah Peretti, diretor do site BuzzFeed, enviou aos funcionários. Jonah, 39, é graduado pelo MIT Media Lab, já passou pelo EyeBeam em Nova York (que pesquisa arte e tecnologia) e cofundou o “Huffington Post”.

Jonah publicou o memorando direto em sua página do LinkedIn. O texto mistura marketing com diagnóstico do estado atual da economia da atenção.

O BuzzFeed pode falar do tema: em agosto o site atingiu 85 milhões de visitantes únicos mensais. O segredo, indica ele, foi evoluir junto com os hábitos dos usuários. Jonah não diz literalmente isso, mas o BuzzFeed parte da constatação de que quem está nas redes sociais lê praticamente apenas o título do que é compartilhado. O percentual de posts clicados e lidos na íntegra é pequeno.

Com isso, ele dá força aos títulos para chamar atenção. Por exemplo, o site publica listas cujo conteúdo beira o infame (“10 dicas de estilo para homens que nunca sairão de moda” ou “31 lições do filme Edward Mãos de Tesoura”).

A quantidade de texto é sempre pequena, seja o que for. A prioridade são imagens e formas de consumo rápido. Publica-se muito: são centenas de posts diários competindo para se tornarem “virais”. A estratégia dá certo e é copiada. Por exemplo, o site francês Melty.com segue a mesma linha e está prestes a entrar no Brasil.

A questão é saber se o modelo do BuzzFeed é sustentável, ou se ele também é um “meme”, algo sujeito a desaparecer com a mesma velocidade com que conquistou atenção no passado.

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Um Brasil mais religioso

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Paulo Ghirardelli Jr, na Folha de S.Paulo

Caso 1. Há lugares (Rio de Janeiro à frente) que mantém aulas de religião na escola pública, inclusive exigindo que o professor seja antes um devoto que autenticamente um estudioso do assunto.

Caso 2. Após o início da novela “Salve Jorge”, a Rede Globo já teve de vir oficialmente explicar para grupos evangélicos que a novela não faz a apologia de nenhum santo católico ou afro-brasileiro.

Sinal dos tempos. Estamos vivendo no Brasil, em matéria de religião, uma situação que não deveríamos viver de modo algum. A ampliação de novos grupos religiosos e o recrudescimento de velhos grupos abre o nosso país para questões até pouco tempo estranhas. Duas delas: a questão da religião diante do Estado (caso 1) e a da religião diante da cultura (caso 2).

Quanto à primeira questão, notamos os grupos que não entendem que o Brasil é uma sociedade plurirreligiosa e que o Estado é laico. O Estado é neutro quanto à religião exatamente para garantir que indivíduos e grupos adotem e expressem as crenças que escolherem.

Por isso mesmo caberia ao Estado, talvez, incentivar na escola pública a história das religiões, mas não a aula de religião (ainda que plural) ministrada por um militante de igreja. Há vários editais, inclusive no Estado do Rio, em que se pede do professor que irá ministrar aulas de religião uma carta de uma “autoridade competente” em religião. Ou seja, o professor tem de vir indicado por um pastor, padre ou coisa do tipo. Isso é inadmissível.

Quanto à segunda questão, vemos os grupos religiosos se indispondo contra várias práticas das quais os seus fiéis não deveriam ser privados.

O Estado laico, garantindo neutralidade, e uma cultura plural criam manifestações artísticas de várias ordens e, assim, criam elementos que permitem que todos nós possamos usufruir dessas manifestações apenas como arte, não necessariamente como religião.

A Bíblia ou o Corão podem ser lidos sem que com isso o leitor seja um devoto ou queira se tornar devoto. Ter curiosidade por religião e ler seus documentos é antes de tudo saber usufruir da cultura.

Assim, de modo similar, se a TV viesse a apresentar uma telenovela religiosa -como já fez várias vezes-, isso não deveria ser motivo para que qualquer grupo de religião distinta emergisse pedindo de seus fieis o boicote ao canal em questão.

Ou seja, aquele líder religioso que pede boicote não está infringindo a lei, mas está desrespeitando, certamente, a inteligência de seus fiéis.

Voltando ao primeiro caso e articulando-o ao segundo. Permitir que uma escola pública tenha aula de religião ministrada por um devoto, e não por um historiador das religiões (ou alguém com formação equivalente), é exatamente retirar da escola a capacidade ser o elemento que iria, em uma situação normal, ensinar aos estudantes esta verdade: não há cabimento em alguém implicar com uma novela de TV por motivos religiosos.

Nossas autoridades legais e a maior parte dos intelectuais estão fazendo vista grossa sobre essas duas questões. Tudo está indo bem no Brasil, uma vez que estamos podendo consumir. Caminhamos para lugares escuros em leis e em cultura, e estamos quietos porque também temos podido ir aos shoppings.

PAULO GHIRALDELLI JR., 55, é filósofo, professor da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) e autor de “As Lições de Paulo Freire” (Manole)

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