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Rosana Hermann: Sabe o que eu acho que vai acontecer com as redes sociais?

Rosana Hermann, no blog Querido Leitor

Outro dia fui a um evento, participar como palestrante. De tudo se tira proveito, penso eu. O meu foi a recomendação de um livro, por uma professora do Mackenzie. Vi o livro na livraria e comprei-o, Vertigem Digital do @ajkeen.

Comprei o livro, cheguei em casa e encontrei meu marido vendo TV na sala. Na tela, um jornalista entrevistava um homem.

- Quem é esse idiota? , perguntou meu marido.

Olhei uns 20 segundos e entendi tudo o que estava acontecendo.

- Bom, se ele é um idiota, eu sou também, porque acabei de investir meu dinheiro comprando um livro desse cara, o @ajkeen .

O livro é incrível. Muito bom, porque é bem fundamentado. Sério, a cada pequeno numero voador indicando um ítem da bibliografia eu vou no final do livro, leito do que se trata. Vou reler o livro para estudá-lo, acompanhando todos os links, assim que terminar de lê-lo.

@ajkeen embasa tudo o que diz, cita mil fontes, abre portais. Ele dá sua visão sobre nosso mundo em rede, sobre a hipervisibilidade, sobre essa vida que um dia foi chamada de virtual e que, hoje, é a vida real que temos, a vida online social.

E, embora eu ainda esteja no começo do livro, juntei o que estou lendo com coisas que tenho pensado, ideias que recolho em palestras alheias e pensei:

- As redes sociais estão envelhecendo. Estão sendo populadas por pessoas cada vez mais velhas. Cada vez mais os pais entram nas redes dos filhos. Os professores, os avós. Ainda vamos ver uma crescimento absurdo de todas as redes sociais. Só que, como acontece desde que o mundo é mundo, quando um lugar, seja ele de que natureza for, passa a ser populado por pessoas mais velhas, as mais jovens migram.

Pessoas na faixa de vinte e poucos anos simplesmente não toleram a presença de pessoas mais velhas no mesmo ambiente, estraga tudo, perde a graça. É como ter polícia vigiando, mesmo sabendo que somos todos “wikileakers” de nossas próprias vidas, como li no libro do Keen.

E para onde essa massa de crianças, adolescentes e jovens adultos irá? Talvez para o mundo 3D. Talvez o mundo material volte a ter reuniões fechadas, como faziam os Pitagóreos. Talvez, formem grupos em algumas redes, talvez diminuam muito o numero de amigos, talvez comecem a restringir as relações, com filtros e barreiras.

Eu ainda acho que as redes sociais vão crescer muito. Sabe aquela curva exponencial, que parece crescer de forma quase linear numa parte e depois sobe loucamente ao ultrapassar aquele cotovelo? Estamos na subida louca do cotovelo.

E sabe o que eu acho também? Que estamos produzindo cada vez mais milionários ociosos, porque estamos todos trabalhando de graça para eles. Como nossa moeda é a atenção, porque somos todos narcisitas aparecidos exibicionistas, eles não dão espaço e visibilidade e nós geramos conteúdo de graça para que eles lucrem.

Exemplos? Pois não. O jovem blogueiro que já nem precisa procurar videos,textos, nada. Porque ele criou, merecidamente, um blog de visibilidade e hoje, todos os que querem aparecer naquele espaço mandam conteúdo pro blog. Trabalham de graça em troca de verem seus nomes publicados. Trabalham pela moeda ‘fama’ e atenção. E o blogueiro só recolhe os lucros. O mesmo acontece com muitos veículos de comunicação. No afã de aparecer na televisão, muita gente trabalha de graça. Tem gente que jamais recusa um convite pra aparecer, mesmo sem receber. Eu mesma faço isso. Sou tradutora voluntária em sites em troca do prestígio que eu acho que isso me dá. Todos temos interesses.

Agora eu vou voltar e ler o livro porque tenho muito que aprender, refletir. Só sei que estou me identificando demais. Keen escreve coisas que eu também penso, com palestras que já dei, cita livros que também li, como Umberto Eco falando de hiperrealidade. Ou seja, na viso egoísta e narcisista das redes sociais, onde apenas ampliamos os círculos para estender nossos egos gigantes, eu estou gostando dele por tudo de novo que ele me traz e, principalmente, pelo quanto de mim ele tem também.

Redes sociais são isso, o paraíso do ego, onde tornamos publico tudo o que de bom temos, editando nossas imperfeições e compartilhando só a versão turbinada, photoshopada, maquiada e bem vestida daquilo que queremos que os outros vejam do que realmente somos.

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Em louvor ao livro

Ricardo Gondim

Meu pai lia obsessivamente. Todas as vezes que surpreendi papai, ao abrir a porta do quarto sem bater, eu o flagrava com um livro na mão. Ele assinava pelo menos duas revistas de notícias semanais e vários pasquins. Comprava folhetos subversivos não sei onde. Trazia, perigosamente, para casa literatura proscrita pelos ditadores. Professor de história, tinha um  fascínio enorme pela II Guerra Mundial. Na biblioteca, sobravam tomos, fotografias e artigos sobre o conflito que marcou sua infância. Herdei o vício.

Só há um tipo de consumismo que não me oponho: comprar livros. Todas as vezes que entro em qualquer livraria, gasto mais do que posso – divido em prestações, pago juros altos, mas saio sempre de mãos cheias.  Não cogito fazer qualquer viagem de avião sem ler o tempo inteiro. Só há um momento em que odeio o sono, quando o romance me mantém ávido pelo enredo.

Antigamente eu me contentava com textos conceituais, de não-ficção. Mas um dia eu quis aprender a escrever. Logo me disseram que se desejasse melhorar a redação – faltei às aulas de português do Liceu – eu teria de devorar literatura. Hoje, abocanho com igual apetite, biografias, romances, poesias, ficção científica, contos. Os livros grossos já não me metem medo. Sou capaz de perseverar em mil páginas.

Tenho avidez de compensar os anos perdidos em que não abri uma página e faço vigília até alta madrugada. Terminar um livro é fascinante. Só não passo a noite em claro, porque, casado, obedeço ordens superiores que zelam por minha saúde.

O livro faz parte da grande conspiração divina. Quando Deus quis falar à humanidade não fez pirotecnia celestial. Inspirou, tão somente, homens e mulheres a escreverem. Sempre que Moisés subiu a montanha, Javé ordenou que trouxesse um bloco de anotações. Tem razão a frase latina: Scripta manent, verba volant – “O escrito fica, as palavras voam”.

Afirmo sem medo: todo livro é sagrado. O livro, relicário santo, registra memórias, fantasias, angústias, medos, bravuras, grandeza e pecados da humanidade.

Não existe livro impuro, apenas o mal escrito. Literatura é a mais completa de todas as artes. Se o personagem na pintura, escultura ou cinema aparecer contemplando um relvado, ninguém conhecerá com exatidão o que cogita. O bom escritor, contudo, discerne os seus pensamentos. Sabe até o que move a suas entranhas.

Louvado seja o livro. Sem ele não conheceríamos o amor trágico de Tristão e Isolda, de Romeu e Julieta e de Bentinho e Capitu. Jamais celebraríamos a coragem enlouquecida do Quixote. Nunca saberíamos sobre a força do ciúme em Otelo. E nunca partilharíamos da coragem do capitão Acabe.

Jorge Luis Borges afirmou que procurou mais reler do que ler. “Creio que reler é mais importante que ler, embora para reler seja preciso haver lido”.

Já sem enxergar, o brilhante argentino nos legou uma declaração de amor ao livro:

Continuo fingindo não ser cego; continuo comprando livros, continuo enchendo minha casa de livros. Há poucos dias fui presenteado com uma edição de 1966 (ele escreveu isso em 1978) da Enciclopédia Brockhaus. Senti a presença dessa obra em minha casa; eu a senti como uma espécie de felicidade. Aí estavam os vinte e tantos volumes, com uma letra gótica que não posso ler, com mapas e gravuras que não posso ver; e, no entanto, o livro estava aí. Eu sentia como que uma gravitação amistosa do livro. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade que temos, nós, os homens”.

Homens e mulheres não vivem só de pão. Nossa alma se alimenta de palavras. No livro não se acha sabedoria pura e simples, nele estão as fontes da beleza, tragédia, alegria, esperança e felicidade.

Deus é escritor e os que querem se achegar a Ele, devem aprender a gostar de ler.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

foto: Revista Livro