O pão

pao com bolor

Ed René Kivitz

Construíram altares para o pão.
Espalharam pelas paredes fotos de pão.
Debateram receitas de pão.
Escreveram poemas exaltando o pão.
Distribuíram amuletos com miniaturas de pão.
Fabricaram réplicas de pão em ouro, prata e bronze.
Editaram manuais para o consumo do pão.
Instituíram sociedades do pão.
Discutiram a importância do pão.
Elaboraram regras para o acesso ao pão.
Formaram padeiros e especialistas em pão.
Edificaram casas do pão.
Criaram rituais para degustação do pão.
Dançaram ao redor do pão.
Assaram o pão.
Publicaram livros a respeito do pão.
Ensinaram as crianças a gostar de pão.
Patentearam o pão.
Elegeram guardiões do pão.
Mataram em nome do pão.
Recusaram o pão a milhares.
Organizaram romarias para ver o pão.
Venderam o pão.
Entoaram canções em louvação ao pão.
Ficaram de joelhos diante do pão.
Mas jamais comeram o pão.

fonte: Facebook

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Polegar diz que não é mais do crime: ‘É um dinheiro que a gente não pode usar’

“Se você não souber ler, você pira. Li muito. A cada quatro dias, lia um livro de 500 páginas”

Polegar, na sede do Afroreggae (foto: Luiz Ackermann / Extra)
Polegar, na sede do Afroreggae (foto: Luiz Ackermann / Extra)

Carolina Heringer, no Extra

O traficante Alexander Mendes da Silva, o Polegar, de 40 anos, disse, em entrevista na sede da ONG Afroreggae, na Lapa, que “não tem mais facção e não pertence mais ao crime”. Polegar foi solto na manhã desta quinta-feira. Preso em 2011, no Paraguai, o ex-chefe do tráfico da Mangueira estava desde janeiro deste ano no Rio, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, depois de ficar quase três anos anos no presidio federal de segurança máxima de Porto Velho, em Rondônia. Há dois meses, ele estava em Bangu 1.

- Perdi minha juventude preso. Eu sabia que se não deixasse o crime, eu ia morrer ou acabar voltando para a cadeia, não tinha opção. O crime dá um dinheiro que a gente não pode usar. O que adianta eu ter dinheiro para comprar um carro, se não posso sair da favela? Prefiro a liberdade, que é o bem mais precioso que tenho – garantiu.

O traficante, que vai agora trabalhar com a ONG Afroreggae, contou que foi a leitura que o fez aguentar tantos anos na prisão, principalmente na unidade federal.

- Se você não souber ler, você pira. Li muito. A cada quatro dias, lia um livro de 500 páginas. Aquele lugar (presídio federal) é uma clausura. Se não fossem os livros, teria enlouquecido – disse Polegar, citando títulos de Dan Brown, Sidney Sheldon e Kim Collier, além dos livros “Ossos da Colina”, “A chave de Rebecca” e “A Hospedeira”.

Nascido e criado na Mangueira, Polegar disse que entrou no crime aos 17 anos, “porque foi o caminho natural”:

- É muita ostentação. Baile funk, mulher, dinheiro e a gente acaba não indo por outro caminho. Na realidade, é uma grande ilusão. Quem vive ali acha que é o único meio de sobreviver – disse ele, novo funcionário da ONG, que chegou a trocar cartas, da prisão, com José Junior, coordenador do Afroreggae.

Polegar ainda responde a um processo na 4ª Vara Criminal, por constrangimento. Ele é acusado de ter mantido reféns durante uma rebelião, em Bangu 3, em 2003. Outros réus da ação respondem por mortes que aconteceram naquela ocasião dentro da unidade.

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Putin assina lei que proíbe palavrões na Rússia

Conjunto de especialistas vai definir expressões que não são permitidas

O presidente russo Vladimir Putin em uma reunião em Moscou (foto: MIKHAIL KLIMENTYEV / AFP-6-5-2014)
O presidente russo Vladimir Putin em uma reunião em Moscou (foto: MIKHAIL KLIMENTYEV / AFP-6-5-2014)

Publicado em O Globo

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, promulgou na segunda-feira uma lei que proíbe o uso de obscenidades e grosserias em espaços públicos como meios de comunicação, teatro, filmes, peças, livros, concertos e obras de arte.

Quem usar palavrões ou gestos grosseiros a partir da entrada em vigor da lei no próximo dia 1º de junho poderá ser multado em até R$ 156. Funcionários públicos e pessoas jurídicas também podem ser punidos com cifras ainda maiores, de R$ 280 e R$ 3116, respectivamente. A informação é do jornal espanhol “ABC”.

De acordo com o diário, especialistas determinarão o que é ou não um palavrão ou gesto obsceno.

O “ABC” informa que filmes com palavrões não receberão certificados para serem exibidos nos cinemas russos.

Críticos consideram a lei uma artimanha para fazer pressão sobre a classe artística e intelectual do país.

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Silêncio, a mais covarde das covardias

silencio4Ricardo Gondim

Venho das fronteiras. Filho de um preso politico e de uma feminista militante, senti na pele o preço que eles pagaram pelo degredo. Canhoto, acostumei-me a não encontrar carteira adequada na sala de aula. Excomungado da igreja presbiteriana, antes de completar 20 anos de idade, perdi o medo de cenho franzido. Pentecostal entre teólogos com bom currículo, experimentei o peso da suspeita. Migrante nordestino em São Paulo, percebi a sutileza do preconceito.

Na adolescência, enquanto esperava papai descascar laranja para os filhos, ouvia seu conselho: Nunca negociem suas convicções. Nos anos de chumbo da ditadura, ele viu seus colegas de farda calados. Amigos, para fugir da inclemência do regime, desciam a calçada para não cumprimentá-lo. Papai se sentia só. - Silêncio, dizia meu velho, pode ser a mais covarde das covardias. Só nas horas difíceis a gente sabe quem é quem. Aprendi com ele: chacais e colibris não bebem do mesmo chafariz; ratos e gatos não se escondem na mesma toca.

Ele também me ensinou que o bem só prevalece enquanto existir gente disposta a encarná-lo. Mesmo em meio a uma indiferença histórica, quando a lua se recusa a amenizar a noite e vampiros vagam, o bom fermento não pode cessar de levedar a massa. Meu pai, agnóstico, repetiu sem se dar conta, a verdade do primeiro Salmo: Os ímpios não subsistirão na congregação dos justos; uma breve aragem se transformará em vendaval e os ímpios se espalharão como a moinha no deserto.

Devido à sua prisão, moramos de favor na casa da vovó. Ficamos expostos – talvez demasiadamente – uns aos outros, sem privacidade. Entretanto, aqueles anos serviram para me ensinar a detectar dissimulações mal ensaiadas. Carrego desde então, um certo asco para o sorriso manso de quem procura disfarçar mazela – lobos vestidos de ovelhas acreditam que ninguém os percebe patéticos no esforço de parecerem corretos; eles, na verdade, só lutam para esconder falhas e conveniências.

Anos se passaram e eu continuo habitando fronteiras – agora da teologia. Fiscais da ortodoxia se acham, permanentemente, de plantão. Eles me espreitam, querendo achar um til mal colocado que engatilhe suas censuras inquisitoriais. O bombardeio do fundamentalismo é renitente.

Espicaçado e achincalhado, não me vitimizo. Se noto que me estrangeiro, lembro: os guetos são pequenos. Não me impressiono se me avisam que me tornei emissário do diabo, inimigo de Deus ou apóstata. Dependendo de onde saem tais comentários, eu os tomo por elogio. Religiosos chamaram Jesus de Nazaré de príncipe dos demônios, apóstata e pedra de tropeço.

Meu caminho continua inexorável. Sigo resoluto. Rechaço o conselho dos apóstolos da cautela. Não respondo quem usa de pretenso zelo por minha alma para sugerir: volte atrás antes de queimar no inferno. Esse tipo de manipulação pode parecer piedosa, mas não deixa de ser apenas manipulação.

Também não me sinto constrangido com doçuras piegas. Condescendência não tem força de me fragilizar. Sequer o distanciamento de ex-amigos. Só acho estranho que eles, só agora, se sintam constrangidos em caminhar perto de mim. Não tem problema. Ser fiel às minhas convicções será sempre um dever para comigo mesmo.

Paulo avisa na Bíblia que a obra de cada um será testada no fogo. Me submeto ao tribunal de Deus. Os milhões de quilômetros que viajei para ajudar igrejas de outras denominações, os seminários, as conferências e os congressos onde falei atestam minha biografia. Estou certo de que nunca fiz mal a ninguém. Jamais defraudei quem colocou o seu auditório à mercê de meus pensamentos. Não tenho remorso de como me comportei desde a tesouraria, aos aconselhamentos pastorais, às noites de vigília que passei ao lado de famílias enlutadas. Que meus livros e sermões testemunhem a meu respeito.

Na renitente cruzada contra mim,  replico Davi: Caia eu nas mãos de Deus e não dos homens. Acrescento apenas uma nota: é pecado julgar precipitadamente. Alguns, cegos ao mercadejamento da verdade, à banalização do sagrado e ao aviltamento da ética, tentam me caçar em nome de uma ortodoxia que eles mal sabem explicar.

Saí do circo que se tornou o movimento evangélico. Do exílio, minha única surpresa talvez seja: constatar milhões indignados com o livre pensar; mudos e, portanto, condescendentes com o avanço dos neocambistas – especialistas em convocar Marcha Por Coisa Nenhuma.

Surdo aos ataques, lembro: a tarefa de separar joio e trigo pertence aos anjos. E o Supremo pastor apartará as ovelhas do bodes. Logo será alardeado de cima do telhado o que aconteceu na surdina.

Se o Batista se assumiu porta voz do que clama no deserto, não posso hesitar. Sigo a falar no meu ritmo. Se minha cadência não coincide com a dos pusilânimes, paciência. Continuarei a clamar basta antes que as pedras façam por mim. Se me acantono, abro alas para os aproveitadores da credulidade popular.  Silêncio não é opção.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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