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Hit da internet, Porta dos Fundos fará um ano com faturamento de ao menos R$ 3 milhões

A partir da esquerda, Ian SBF, Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Antonio Pedro Tabet e João Vicente de Castro, do Porta dos Fundo

A partir da esquerda, Ian SBF, Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Antonio Pedro Tabet e João Vicente de Castro, do Porta dos Fundo

Nelson de Sá, na Folha de S.Paulo

O Porta dos Fundos completa um ano no dia 6 de agosto apresentado como prova, pelo YouTube, de que vídeo tem viabilidade financeira para além das plataformas de TV aberta e paga.

As estimativas de faturamento que circulam no mercado, de R$ 3 milhões em dez meses (da criação até o mês passado), com vídeos corporativos e publicidade, são descritas como “conservadoras” pelo próprio Porta.

João Vicente de Castro, um dos cinco sócios, responsável pela área comercial, diz que o grupo “tem uma política de manter isso em sigilo, porque as pessoas nunca pensam que a empresa tem gasto”, por exemplo, com funcionários.

Antonio Pedro Tabet, também sócio-fundador, diz que o objetivo desde o início era “fazer, na internet, algo que gostaríamos de fazer na TV, mas não tínhamos espaço”.

O risco financeiro foi até pequeno. “O investimento foi mais conceitual. De dinheiro também, mas como quem investe num hobby.”

Ele diz que desde o início já previa “algum retorno, mesmo que pequeno, porque tinha o [blog de humor] Kibe Loco [criado por ele há 11 anos] como plataforma de lançamento e porque confiávamos no nosso trabalho”.

Além de Castro e Tabet, o programa tem como sócios os atores Fábio Porchat e Gregório Duvivier e o diretor Ian SBF.

Para Tabet, o Porta comprova que, “sim, é possível obter lucro sem ser na TV”.

E o apresentador da Globo Luciano Huck não tem nada a ver com isso, garantem ambos. “Acho que esse boato [de que Huck investe no Porta] saiu porque dois integrantes trabalharam com ele, eu e o Kibe [Tabet]“, diz Castro.

NOVA INDÚSTRIA

Da parte do Google, dono do YouTube, o Porta dos Fundos é apresentado como “o grande exemplo do surgimento de uma nova indústria” em que vídeos profissionais não se restringem mais à TV aberta e paga ou à Netflix.

É o que diz Álvaro Paes de Barros, que comanda a área de conteúdo no país há um ano e meio. Foi perto de dois anos atrás que o Google começou a montar a área de parcerias de conteúdo, globalmente, “com o propósito de tornar o YouTube um destino de entretenimento, e não só um depositário de vídeos”.

Barros diz que “o Porta é sem dúvida o mais famoso, mas há vários outros canais brasileiros de sucesso: o Makeup by Camila, que dá dicas de maquiagem, o Rolê Gourmet, o Manual do Mundo”.

A relação entre YouTube e Porta está próxima agora, com elogios da plataforma às iniciativas comerciais do programa, inclusive vídeos corporativos criados diretamente para anunciantes como Fiat e LG –sem passar pelo Google.

Mas até poucos meses atrás o Porta ainda tinha como projeto adotar uma plataforma própria, como o americano Funny or Die.

O motivo é que no YouTube a publicidade em “banners” e no chamado “True View”, anúncio que antecede os vídeos, é vendida pelo próprio Google, que fica com 45% do faturamento.

“Antes a gente não era parceiro do YouTube”, diz Castro. “Hoje a relação é bem estreita. E a gente, por enquanto, está feliz lá. [A plataforma própria] não é um projeto para agora.”

A primeira pirâmide

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Rob Gordon, no Papo de Homem

— Senhor?

— Pois não?

— Adão na linha sete.

— Pode passar.

— Só um minuto.

— Alô?

— Oi, Adão. Tudo bem?— Tudo, e o Senhor?

— Tudo. Liguei para fazer uma proposta.

— Diga.

— O que o Senhor acha da ideia de ganhar dinheiro sem sair de casa?

— O que eu acho do quê?

— Ficar rico, muito rico. E sem sequer sair de casa. Basta me perguntar “como”.

— Adão…

— Estou esperando. Basta me perguntar “como”.

— Certo. Como?

— É o seguinte. Eu vou contar o segredo para o Senhor, mas só porque o Senhor está insistindo muito.

— Eu não estou insistindo.

— Bem, é o seguinte. Está rolando um negócio aqui com vendas de suplementos de vitamina. E o lucro é garantido.

— Ah, é?

— Sim. Eu mesmo nem conhecia isso, até que outro dia encontrei o castor. E ele me contou que estava pensando em aumentar a represa dele… aquela represa que ele faz ali no lago, sabe?

— Sim.

— Ele está pensando em aumentar a represa, usando somente o dinheiro que ganhou com esse negócio. Disse que está pensando até mesmo em contratar outros castores para fazer o seu trabalho. O castor está rico!

— Entendi.

— Conversa vai, conversa vem, eu me interessei. E ele disse que ficou rico vendendo suplementos de vitamina, num negócio que os macacos criaram.

— Que negócio?

— Você se inscreve no programa de vendas e recebe os suplementos na sua própria caverna. E pode começar a vender.

— Sei.

— Por isso estou chamando o Senhor para participar, porque sei que o negócio é bom. Basta investir cinquenta cocos no negócio e pronto. Já recebe os suplementos vitamínicos para poder vender.

— Espere… Eu preciso investir cinquenta cocos?

— Isso. Com essa quantia, você recebe os suplementos e todo o material de divulgação para começar a vender e, além disso, se o Senhor chamar outros vendedores para também investir no negócio, recupera todos esses cocos em alguns dias, pois eles também receberão os suplementos e trabalharão para você. Os macacos chamam isso de “construção de equipe”. Em um mês, no máximo, o Senhor terá mais cocos que viu na Sua vida inteira.

— Sei.

— Todos os animais estão mexendo com isso. Os macacos contrataram as hienas e os elefantes. A hiena chamou os guepardos e as girafas. Os elefantes convenceram os crocodilos e os peixes a participarem. Os guepardos chamaram os leões e as formigas. As girafas…

— Já entendi. E cada animal pagou cinquenta cocos?

— Sim. Quer dizer, não. Não é um pagamento. É um investimento. Você recupera os cocos em alguns dias. Basta contratar novos vendedores e montar sua equipe. Imagine só, o Senhor sentado aí em cima, somente administrando a equipe… E os cocos ali, caindo na Sua conta o tempo todo.

— Desculpe, Adão, não estou interessado.

— Olhe, é uma oportunidade de ouro.

— Obrigado. Mas não.

— Bem, eu vou ser sincero com o Senhor…

— Certo.

— Eu comprei isso, mas não consigo contratar um vendedor. Todos os animais aqui embaixo foram contratados e estão procurando vendedores. Falei com dezenas de animais, e todos estão como eu, procurando por vendedores. Ou seja, como eu preciso montar minha própria equipe e não encontro ninguém… pensei no Senhor.

— Entendi.

— Se o Senhor entrar no negócio comigo, dá para falar com os anjos e abrir todo um novo mercado aí. São cocos fáceis!

— Não. Não estou interessado.

— Será que então eu não posso falar com algum anjo que esteja aí perto? Se o Senhor me transferir para algum deles…

— Não, Adão. Sinto muito.

— Bem, entendo. Nem todos nasceram com tino comercial. Vamos deixar para lá.

— Certo. Obrigado.

— Posso aproveitar e perguntar outra coisa?

— Claro.

— O Senhor não quer comprar um pote de suplementos de vitamina? Hoje em dia, aparência é algo importante…

— Não. Obrigado.

— Tem certeza? Não quer dar uma força para mim? Porque eu recebi dez potes disso em casa, mas não consigo vender para ninguém. Como todos os animais se inscreveram no programa, todos têm dez potes disso em casa.

— Sinto muito, Adão.

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Alckmin sanciona lei que fecha empresa que usar trabalho escravo em São Paulo

Igor Ojeda, no Repórter Brasil

O deputado estadual Carlos Bezerra, autor da proposta (Foto: Divulgação/Assessoria de Imprensa)

O deputado estadual Carlos Bezerra, autor da proposta (Foto: Divulgação/Assessoria de Imprensa)

O governador do estado de São Paulo Geraldo Alckmin sancionou na tarde desta segunda-feira (28) o projeto de lei 1034/2011, que prevê o fechamento de empresas que utilizem trabalho em condições análogas à escravidão.

A nova lei, baseada em proposta do deputado estadual Carlos Bezerra Jr., líder do PSDB na Assembleia Legislativa-SP e vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos, cassa a inscrição no cadastro de contribuintes do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) dos estabelecimentos comerciais envolvidos na prática desse crime – seja diretamente ou no processo de produção, como nos casos de terceirização ilegal, por exemplo. Além disso, os autuados ficarão impedidos por dez anos de exercer o mesmo ramo de atividade econômica ou abrir nova firma no setor.

“São Paulo não abriga cativeiros. São Paulo abriga fábricas. Que não existem para gerar milhões de reais, mas para gerar empregos. O trabalho serve para engrandecer o homem, não para aviltá-lo”, afirmou Alckmin após a sanção da proposta em evento no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual paulista. Segundo ele, a nova lei será “rigorosamente cumprida”. “Resultará numa concorrência mais leal, e será uma garantia ao mundo de que os produtos fabricados em São Paulo são livres de trabalho escravo.”

Aprovado por unanimidade no Legislativo paulista em dezembro do ano passado, o projeto de lei sancionado pelo governador determina também que as empresas flagradas tenham nome, endereço e número do Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) divulgados no Diário Oficial do Estado de São Paulo, assim como o nome dos seus proprietários.

“Neste estado, o lucro a qualquer custo jamais valerá mais que a vida humana”, disse o deputado estadual Carlos Bezerra, para quem a sanção de Alckmin coloca São Paulo na “vanguarda” da luta pela erradicação do trabalho escravo no Brasil. “A lei é considerada por muitos especialistas como a medida mais dura contra a escravidão desde a Lei Áurea”, apontou.

De acordo com o parlamentar, a medida trará também benefícios econômicos, como um maior impulso ao enfrentamento à concorrência desleal e o aumento da competitividade dos produtos brasileiros no exterior. “É um ganho também para o consumidor.”

À Repórter Brasil, o procurador Luiz Fabre, do Ministério Público do Trabalho (MPT), revelou que um estudo realizado pelo órgão chegou à conclusão de que uma empresa que se utiliza de trabalho escravo economiza R$ R$ 2.348,17 para cada empregado que ganhe um salário mínimo. “Espero que a lei traga para as fileiras do combate ao trabalho escravo o empresariado responsável, que cumpre a legislação. Que a abrace e estimule o controle”, afirmou.

A lei sancionada por Alckmin ainda precisa ser regulamentada. O auditor fiscal Renato Bignami, assessor da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), acredita que o maior desafio não será a regulamentação da medida, mas informar o setor produtivo sobre sua existência. “Isso é mais complexo. É preciso garantir que tenham conhecimento sobre a lei, para não dizerem que foram pegos de surpresa.”

Presente ao evento no Palácio dos Bandeirantes como representante do Movimento Humanos Direitos, a atriz Letícia Sabatella saudou a iniciativa como um marco que deve ser seguido pelos outros estados brasileiros. “Que o Brasil inteiro saiba sobre o que aconteceu aqui em São Paulo. Nos dá mais paz de espírito para construirmos essa confiança de que existe uma vontade política de transformação social”, discursou.

À Repórter Brasil, ela disse esperar que a lei seja regulamentada e aplicada. Destacou ainda que a iniciativa é uma conquista parcial inserida na luta maior pela erradicação do trabalho escravo no Brasil. “É consequência da mobilização pela aprovação da PEC 438 [que prevê a expropriação de terras em que se encontre trabalho escravo]. Ao mesmo tempo, pode impulsionar essa luta maior. É muito significativo que essa conquista tenha se dado em São Paulo, onde de concentra o poder econômico no Brasil.”

A data para a sanção do governador não foi escolhida por acaso. Nesta segunda-feira celebra-se o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, que homenageia os três auditores fiscais e o motorista do MTE assassinados em 28 de janeiro de 2004 em Unaí, Minas Gerais.

Gospel pode ser funk

Culto dos Funkeiros foi apenas um da série de eventos que misturam música, religião e histórias de vida

Culto dos Funkeiros foi apenas um da série de eventos que misturam música, religião e histórias de vida

Alice Melo, na Revista de História

Na reportagem No ritmo de Jesus, a Revista de História mostrou que as religiões evangélicas vêm ocupando cada vez mais espaço na cultura brasileira, principalmente quando o assunto é música.

Mensagens de amor e fé presentes em letras dos mais variados ritmos estão cada vez mais sendo utilizadas pelo discurso de uma nova geração de evangélicos que vem se adaptando às necessidades pontuais de determinado contexto social e contribuindo para que dogmas, antes rigorosos, sejam flexibilizados.

Bailes funk, rodas de samba e pagodes de Jesus começam a pipocar e a atrair multidões no Sudeste; festas de forró animam arrasta-pés de Cristo no Nordeste; e canções sertanejas em ode ao Senhor, tocadas no Centro-Oeste, se tornam cada vez mais comuns, principalmente em zonas pobres das cidades. Sucesso que dá lucro: o mercado gospel movimenta cerca de R$ 12 bilhões por ano, sendo 10% apenas com a indústria musical.

Qual é a diferença entre o gospel e o funk? Para muitas pessoas, nenhuma. Em algumas igrejas neopentecostais, o pancadão é utilizado como meio de se propagar a fé. Um estilo de vida comportado, religioso e cheio de ritmo. Não faltam personagens para contar histórias que mudaram de vida após juntar o amor pela música e a devoção à Jesus. Os casos demonstram que há uma rica vida cultural que se afasta do culto tradicional. No Rio de Janeiro, por exemplo, o Projeto Vida Nova de Irajá conquista espaço na periferia ao promover bailes, shows, encontros com música. Eles têm seu próprio bloco de carnaval, que sai pipocando pelas ruas do Centro há mais de 20 anos. Em novembro de 2012, a igreja “com cara de leão” inovou e promoveu o primeiro Culto dos Funkeiros, na sede, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O evento reuniu quase 3 mil pessoas em um culto neopentecostal dirigido por cantores de gospel funk, como LC Satrianny. Além da música e a pregação do evangelho, o que estava em pauta era o compartilhamento de experiências de vida.

LC significa Levita de Cristo, segundo o rapaz que já tocou no grupo de funk profano Furacão 2000. Antes de mudar de vida, era MC – Mestre de Cerimônias, nome dado à voz que acompanha o pancadão. Satrianny frequenta a Assembleia de Deus Vida Plena, em Bonsucesso, outro bairro da região metropolitana do Rio de Janeiro, mas se apresenta em diversos pontos nos quais a conversão e a disseminação da palavra de Deus estão na ordem do dia. “O Espírito Santo trata com cada um de uma maneira. Comigo, foi assim: eu aceitei Jesus após passar por problemas seríssimos de ordem financeira, emocional. Tudo o que eu tinha acabou. Eu só queria ter um trabalho, formar uma família. Mas Ele tinha outros planos para mim, depois de um ano na igreja, veio a oportunidade de voltar a cantar funk”, lembra o músico.

Ele conta que Levitas no antigo testamento significa uma tribo voltada para o louvor dos cânticos, das músicas. Imerso na igreja, ouviu um chamado e trocou MC por LC. Hoje, outros LCs estão surgindo e ele finalmente faz o que gosta, aliando trabalho, música e fé. Satrianny destaca que o trabalho das igrejas evangélicas é muito importante nas regiões mais pobres das grandes cidades, porque leva a bíblia para jovens que, assim como ele, estão “perdidos na vida”. Muitas vezes envolvidos com álcool e drogas. Ao mesmo tempo, estas pequenas igrejas permitem uma maior liberdade no que diz respeito a hábitos e costumes. “Muitas vezes os jovens acham que para se converter, têm que ficar de terno. Se for para ficar de terno, vai ficar, mas pode usar um boné, tênis da moda, usa cordãozinho, tudo normal. Porque isso aí é mais para a sociedade ver. Quando Deus olha para nós, não está preocupado com isso. Eu costumo dizer que você pode se modernizar sem se mundanizar”.

Marconi Oliveira, líder da Juventude do Projeto Vida Nova de Irajá é um dos organizadores dos cultos de gospel funk na igreja. Ele conta que a intenção dos bailes – não só de funk – é de fazer com que pessoas, principalmente jovens, que se interessem por música, se aproximem do evangelho. “Nossa missão é resgatar vidas que não conhecem Jesus e trazê-las para esse caminho. Porque falamos isso de experiências próprias. Muitos de nós vivíamos nessa condição, de uma falsa felicidade. Curtimos funk, pagode, mas quando a gente chegava em casa, o vazio voltava. E temos a oportunidade de conhecer esse Jesus maravilhoso. Que nos consola, nos dá esperança e a vida acaba melhorando”, afirma.

Culto dos Funkeiros aconteceu no Rio, em novembro passadoCulto dos Funkeiros aconteceu no Rio, em novembro passado

Paquera e fé

Este tipo de experiência da vida e fé, conforme mostrou a reportagem, não é comum apenas no Sudeste. Vem se alastrando pelo Brasil nas últimas décadas, como também apontou a pesquisadora Karina Bellotti, em entrevista publicada no site da Revista de História. Os depoimentos individuais confirmam as teorias dos pesquisadores, nesse sentido. Daniel Cardoso, por exemplo, era estudante universitário quando teve uma overdose que quase o matou. Ele marca a tragédia como um divisor de águas em sua trajetória na Terra.

Filho de pai militar, o rapaz era DJ em festas de música eletrônica, em Belém do Pará, sua cidade natal. Ele era de família de classe média, “nunca precisou de nada”. O tempo foi passando e, quando se deu conta, tinha parado de pagar a faculdade com o dinheiro que o pai deixava. Comprava drogas. Acolhido pela Assembleia de Deus da capital, que tem um programa gratuito para dependentes químicos, ele se recuperou e hoje atua como organizador de eventos da igreja. Dia desses, auxiliou na vinda do grupo de arrastapé, Mensageiros do Forró, e também a cantora Mylla Karvalho, que canta calipso gospel, sucesso na região Norte.

“Aqui, faço festas temáticas”, conta ele, sempre agradecendo à bíblia por ter conseguido superar os problemas. Sem cerimônias, ele não esconde os códigos de comportamento das festas de sua igreja. O que acontece quando o assunto é a paquera? “Sabemos que não é uma festa secular, não tem tanta malícia e roupa muito curta… Ninguém põe uma regra, mas as pessoas se comportam de maneira mais discreta, não tem bebida, por exemplo. Se rolar um clima, o pessoal prefere não ‘ficar’ lá. Acontece, mas a gente tenta não fazer. Tem troca de olhares e, a partir dali, pode começar uma conversa.”

dica do Bruno Barak

Gospel de rapina

Publicado originalmente por Walter McAlister

Soube hoje que as Igrejas Cristãs Nova Vida, da qual sou o Bispo Primaz, foram notificadas de que teriam de pagar direitos autorais pela execução de músicas de “louvor” nos seus cultos. Cada uma de nossas igrejas ficaria, assim, responsável por declarar o número de membros e a frequência aos seus cultos, para que fosse avaliado o imposto a ser pago ao Christian Copyright Licensing International (CCLI), sociedade que realiza a arrecadação e a distribuição de direitos autorais decorrentes da execução pública de músicas nacionais e estrangeiras. Por sua vez, o CCLI repassaria o valor devido aos compositores cujas músicas estão cadastradas.

São poucas as vezes em que me vejo sequestrado por um assunto do momento aqui no blog. Tenho como norma pessoal não me deixar levar pelas “últimas”.  Já há bastante alvoroço em torno de assuntos efêmeros e não precisam da minha voz para somar à confusão instaurada por “notícias” e controvérsias. Não obstante essa regra que tento seguir, não posso me calar ante esse fato. Já deixei passar algumas horas até que a minha revolta se acalmasse, para que, no seu lugar, pudesse me expressar com clareza e me reportar às Escrituras como regra. Pois, em meio ao transtorno, ninguém se contém e acaba por pecar pelo excesso. Isso não quer dizer que me sinta menos convicto sobre o que tenho a dizer, mas quero realmente trazer uma perspectiva lúcida.

Comecemos pelo que constitui o direito autoral e o porquê da sua existência. Seria justo que alguém lucrasse pelo trabalho, a inspiração e a arte de outro sem que o autor da obra participasse dos lucros? Certamente que não. Cada emissora de rádio, show ou outro tipo de empreendimento com fins lucrativos deve prestar a devida parcela do seu lucro a quem ajudou a produzir essa arte.

Por outro lado, a Igreja é um empreendimento com fins lucrativos? Não – segundo a definição do próprio Estado brasileiro. Ela goza de certos privilégios, na compreensão de que a sua atividade é religiosa, devota e piedosa e, sendo assim, sem fins lucrativos. Que muitos “lucram” em nome da Igreja ninguém duvida. Mas, em termos estritamente definidos pela legislação, não é um empreendimento que tenha como finalidade o lucro.

Louvar a Deus é uma atividade que gera rentabilidade? Também não. Quando cantamos ao Senhor, estamos nos expressando a Deus em sacrifício santo e agradável a Ele (se bem que não caem nesta categoria muitas das músicas que doravante serão objeto de taxação, por decreto-lei). Mas, para manter o fio da meada desta reflexão, suponhamos que as músicas adocicadas, sem fundamento em qualquer real princípio cristão, emotivas e, em alguns casos, passionais (para não dizer sensuais) sejam realmente louvor (algo que tenho tentado ensinar a nossa denominação que não são).  Cantar essas músicas traz lucro para a igreja? A resposta é não. A igreja não lucra. Não há um centavo a mais caindo nas salvas porque cantamos uma música de uma dessas cantoras gospel da moda em vez de Castelo Forte. É possível fazer um culto fundamentado apenas nas músicas riquíssimas do Cantor Cristão e da Harpa Cristã (para não falar nos Vencedores por Cristo, cuja maioria das canções não recai sobre este novo decreto-lei).

Esses cantores e essas cantoras têm o apoio de empresários da fé. Homens que também lucram absurdamente às custas da boa-fé de pessoas a quem prometem uma vida de lucro pelo seu envolvimento. Não me surpreende ver a lista de “notáveis” que apoiam essa iniciativa.

Agora, esses cantores que se venderam para emissoras de televisão, que ganham fortunas nas suas turnês “gospel” e pela venda de incontáveis CDs e DVDs, não estão satisfeitos. Querem mais. Querem “enterrar os ossos”. Tornaram-se mercadores da fé, e com essa última cartada, suas máscaras caem por terra. Que máscaras? As que fazem com que acreditemos que eles realmente creem que o culto é para Deus somente. Para eles, a igreja não passa de fonte de lucro. A igreja não passa de um negócio. Sim, porque, por essa ação, afirmam não acreditar que a igreja seja uma assembleia de sacrifício. Para eles, a igreja é uma máquina de dinheiro. Sua eclesiologia é clara. Suas lágrimas de comoção são teatro. Seus gestos de mãos erguidas não passam de encenação.

A despeito do meu repúdio por esse grupo de músicos “cristãos”, fico grato a eles por uma razão. Tenho tentado ensinar a denominação que lidero a ser mais criteriosa na escolha das músicas cantadas nos cultos. Por força da popularidade desses “superastros do louvor” a pressão da juventude e dos músicos da igreja tem sido quase insuportável. Então cantam as músicas sem devocionalidade real deles e delas para o enlevo de pessoas que nem precisavam confessar Jesus para cantá-las com comoção. Graças ao mercantilismo dos tais, vou emitir uma circular para as nossas igrejas em que instruirei todas a pagar os direitos autorais devidos caso queiram insistir em usar as referidas músicas da moda em seus cultos.

Os que não querem fazer parte desse mercado de rapina receberão uma lista compreensiva de músicas que continuam sendo de domínio público, inclusive as que compus e pelas quais nunca recebi nem quero receber um centavo. Graças a Deus, são os bons e velhos hinos que têm conteúdo e substância, confissão e verdadeiro testemunho do Evangelho. Há centenas de hinos antigos que vamos tirar das prateleiras e redescobrir. Podemos aprendê-los e retrabalhá-los para torná-los atuais aos nossos dias, com arranjos interessantes. Músicas escritas por santos e não por crianças. Músicas escritas para a glória de Deus e não para lucro sórdido. Sim, falei sórdido. Pois os atuais já lucraram com o que é legítimo. Agora vão atrás do resto. É um gospel de rapina. Sinto-me na necessidade de tomar um banho, pois essa história me forçou a passear pelo lamaçal onde esses chafurdam para encher a própria barriga – que é o seu deus, afinal.

Que bom que já me acalmei, pois realmente tinha vontade de dizer muito mais.

Na paz,

+W